sábado, 25 de junho de 2011

A sordidez humana, por Lya Luft

"Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça
alheia? Quem é esse em nós, que ri quando
o outro cai na calçada?" 

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.
Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?
O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: "Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha". Ou: "Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele". Mais ainda: "O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...". Outras pérolas: "Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...".
Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.
Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer "Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...", e aí se lança o malcheiroso petardo.
Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças... e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.
A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Aprenda a jogar Filosofighters... da Revista Super Interessante, por Otávio Cohen


A SUPER convocou 9 filósofos de diferentes épocas e regiões para uma épica batalha de ideias nos ringues do Filosofighters. O seu objetivo é usar argumentos lógicos e golpes na luta contra o seu adversário. Mas antes de sair por aí espalhando suas teorias pela academia, é preciso treinar bastante. Que tal praticar bastante no modo Aprendiz do Filosofighters? Depois que derrotar todos os inimigos, passe para o modo Mestre e, por fim, enfrente os desafios do modo PhD.
A gente te dá uma forcinha nesse treinamento e te ensina algumas manhas do Filosofighters. Está pronto? Então, vamos lá. Para começar, aprenda os comandos básicos:

Também dá para atacar com os golpes especiais. Olha só este exemplo do Nietzsche:

















Tente as mesmas sequências de comandos para os outros filósofos. Aproveite e aprenda um pouco mais sobre alguns dos principais pensamentos dos nove filosofighters. Você pode se surpreender com as teorias aplicadas nas lutas.  Agora, é hora de colocar em prática. Jogue em http://super.abril.com.br/multimidia/filosofighters-631063.shtml.

Fonte: http://super.abril.com.br/blogs/superblog/aprenda-a-jogar-filosofighters/

domingo, 12 de junho de 2011

A arte de fazer escolhas, por Eugenio Mussak


Parece que cada vez mais temos que optar por isto ou aquilo. Mas como nos prepararmos para tantas decisões?



Tomar um sorvete figura entre meus programas favoritos quando vou a Manaus. Trata-se de uma experiência diferente de qualquer outro lugar do mundo, não porque os manauaras dominem técnicas secretas da arte dos gelados que nem os italianos conhecem, mas porque eles dispõem de matériaprima invejável: as frutas amazônicas, com seus sabores incríveis. As mais conhecidas, como o açaí, o cupuaçu, a graviola e o buriti, estão entre elas, mas não são as únicas, apesar de que apenas elas já colocam o freguês em uma situação de difícil decisão. “Não posso pedir uma bola de cada?”, perguntei ao atendente da sorveteria, para ouvir a resposta óbvia: “Claro que o senhor pode, mas vai ter que levar uma caixa, não apenas uma casquinha”. Como eu só queria um sorvete para sair lambendo enquanto caminhava pelo quente entardecer tropical, não me restou alternativa a não ser escolher dois sabores, abrindo mão de todos os demais. Pelo menos por enquanto.

O que poderia ter sido apenas um acontecimento corriqueiro me colocou em contato com uma questão filosófica: a necessidade de fazer escolhas na vida. Enquanto saboreava meu manjar amazônico, não pude deixar de aprofundar meu pensamento da questão das escolhas e, claro, lembrei-me de algumas das mais difíceis que tive que fazer ao longo de minha trajetória. E de repente me dei conta de que escolher é uma das coisas a que mais o homem se dedica. Não há um dia sequer que não tenhamos que escolher algo e abrir mão de algo também.

É claro que, na maioria das vezes, fazemos escolhas simples, como o sabor do sorvete, a cor da gravata ou o filme a assistir. Mas quem não sofreu calado quando teve que decidir que vestibular fazer? Ou quando recebeu uma proposta para mudar de emprego? E, suprema decisão, que atire a primeira pedra quem nunca esteve dividido entre dois amores.

Sim, parece que passamos a vida decidindo, e, ainda que a maioria das pessoas não tenha essa consciência, os momentos de decisão são, também, momentos de ansiedade. Só que uma ansiedade que deriva de uma coisa boa: a existência de mais de uma opção. A rigor, a ansiedade de escolher é a de ser livre. Escolher é exercer a liberdade, com suas prerrogativas e responsabilidades. E a liberdade só pode ser bem exercida por quem está preparado para ela, ou seja, quem tem maturidade intelectual e emocional para tanto. A liberdade é um valor adulto.

Poder escolher é uma conquista. Então por que às vezes sofremos com isso? A escolha é um privilégio, o problema é a renúncia. Ao escolher dois sabores de sorvete, você abre mão de todos os demais. Até aí, tudo bem – sempre dá para voltar amanhã. O que nos martiriza são as renúncias definitivas ou aquelas que nos causam insegurança. Para os mortais comuns, a escolha da carreira, por exemplo, significa renunciar a uma grande quantidade de opções, talvez melhores.

Ainda que uma carreira não seja uma condenação, pois sempre é possível mudar, tal escolha carrega o peso de que, depois de investir anos em estudos e sonhos, não é exatamente fácil dar a guinada. Em nosso sistema educacional ainda há o agravante de que a escolha tem que ser feita por garotos recém-saídos da adolescência. A inscrição no vestibular é, por esse motivo, um momento de tensão. Como fui professor de cursinho pré-vestibular, acompanhei muitos desses dramas.

Vi de tudo. De jovens cheios de certeza àqueles que procuravam orientação vocacional em clínicas especializadas, passando pelos menos previdentes que, na hora H, apelavam até para um jogo de par ou ímpar. “Se der par faço biológicas. Se der ímpar faço humanas”. Dá para imaginar a ansiedade? É evidente que não é assim que devemos escolher. Uma escolha é uma decisão e, como tal, obedece a uma lógica. A técnica de tomada de decisões tem um mandamento: quanto maior o número de variáveis consideradas na tomada de decisão, maior a probabilidade de acerto. Em outras palavras, escolher significa pesar todos os prós e contras, inclusive projetando-os no tempo – a variável mais abstrata.

E dá para fazer isso o tempo todo? Cada vez que eu quiser almoçar fora, para escolher o restaurante vou ter que montar uma planilha no Excel, com colunas de vantagens e desvantagens, considerando o desejo, a saúde, o preço, o ambiente etc.? Por incrível que pareça, sim, é isso mesmo que fazemos, sem usar um computador e um software, mas lançando mão de algoritmos mentais que consultam todas essas variáveis rapidamente, emitindo, inclusive, notas ponderadas.

Você pode, por exemplo, decidir por um restaurante caro (nota alta na coluna do “não”) porque ele vai ajudá-lo a impressionar a namorada (nota altíssima na coluna do “sim”). E você faz isso mentalmente, consultando a lógica (tenho o dinheiro), a emoção (estou apaixonado) e o fator tempo (é agora ou nunca).

Então estamos condenados a conviver com a dúvida de termos feito a escolha certa? Se tomar uma decisão provoca ansiedade, muito pior é não ter a oportunidade de decidir. Pense nas pessoas que você conhece, especialmente das gerações com mais vivência, que se queixam de estarem fazendo algumas coisas por não terem tido a oportunidade de fazer outras. “Eu não tive a chance de estudar”; “Na minha época a gente casava com o primeiro pretendente”; “Eu tive que continuar o negócio da família” – esses são apenas alguns dos lamentos mais comuns de pessoas que, aparentemente, não puderam escolher.

Se pudessem – ou se percebessem que podiam –, muitas delas teriam dado rumos diferentes às suas vidas. Poder escolher é bom, muito bom, ainda que dê alguma dor de cabeça. Escolher angustia, não poder escolher mortifica.

Em inglês, escolher é to choice, mas os americanos, sempre práticos, utilizam uma expressão curiosa para falar sobre escolhas, especialmente no mundo dos negócios, em que os executivos vivem tendo que tomar decisões – trade off. Mais do que uma escolha, a expressão trade off quer significar uma troca.

E a troca significa uma espécie de condenação determinista a que todos estamos sujeitos. Afinal, não se pode ter tudo. Quer isto? Então não vai ter aquilo! E lamba os beiços, porque tem gente que não vai ter isto nem aquilo – parece dizer o destino, com seu olhar de reprovação diante de nosso desespero.

Às vezes temos, sim, que fazer escolhas difíceis, e sofremos muito por causa disso. Até a literatura já se debruçou sobre o tema. O escritor americano William Styron levou o drama da escolha a um nível épico em seu livro A Escolha de Sofia, que virou filme e rendeu um Oscar de melhor atriz para Meryl Streep.

O enredo trata da situação vivida por uma mãe judia, que é forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha, ambos crianças. Só um poderia ser salvo, o outro seria executado. Se ela não escolhesse um, ambos seriam mortos.

No limite da decisão ela opta por poupar o garoto, pois, por ser mais forte, teria mais chance de sobreviver (imagine o sofrimento e a velocidade com que ela montou a tal planilha mental). Como agravante, nem dele teve mais notícias.

A história é ambientada no pósguerra, com a protagonista já vivendo nos Estados Unidos, tentando reconstruir a vida, mas sempre atormentada por aquele momento dramático em que teve que fazer a escolha mortal. A força do drama relatado pelo autor transformou o título em sinônimo de decisão quase impossível de ser tomada. Daquelas que nunca teremos certeza de termos acertado.

A maioria de nós jamais terá que tomar uma decisão tão dramática, mas com certeza todos viveremos momentos difíceis, em que o fantasma da dúvida de termos decidido certo assombrará nossa memória, talvez por muito tempo.

É bem verdade que a tomada da decisão diminui a ansiedade, apesar da dúvida. “É este, pronto!”– e vamos em frente. Ainda assim, sofremos um pouquinho. Sociedades modernas, livres, democráticas, têm essa qualidade – o cidadão tem de fazer escolhas diariamente. Trata-se de um direito e até de uma obrigação. Nos regimes totalitários, o Estado considera os cidadãos incapazes de escolher seus próprios caminhos, por isso ele os tutela, trata-os como menores irresponsáveis, que devem apenas concordar e obedecer. São títeres nas mãos dos poderosos. E pensar que há famílias que também são assim.

No mundo livre acontece o oposto. Quem se recusa a escolher os rumos de sua vida vira uma espécie de pária, um estorvo para os demais. Sempre lembrando que qualquer escolha pressupõe responsabilidade sobre ela. Apesar disso, ter a oportunidade de escolher o que fazer com sua vida, no macro ou no microcosmo da existência, ainda é a melhor situação, disparado.

E, já que você escolheu ler este texto até o fim, espero que tenha gostado e que ele tenha agregado pitadas de lógica a seu autoconhecimento. Afinal, conhecer-se e saber pensar são dois elementos fundamentais na hora das decisões. Grandes ou pequenas.

domingo, 29 de maio de 2011

A tigresa e o Sputnik, por Tiago Lethbridge

Ameaçar, chantagear, chamar crianças de "lixo" - a obsessão das mães pela educação dos filhos explica o desempenho espetacular dos alunos chineses?

Foto: Dreamstime
A rígida disciplina é o método defendido pela mãe chinesa Amy Chua para a educação de seus filhos

No início de dezembro, os Estados Unidos viveram aquilo que o presidente Barack Obama apelidou de um novo "momento Sputnik". Como se sabe, o lançamento do primeiro satélite soviético, em 1957, mostrou aos Estados Unidos que sua hegemonia tecnológica na Guerra Fria estava seriamente ameaçada - e, por consequência, a segurança nacional também. Meio século depois, o motivo de preocupação do presidente americano é a ascensão de outra potência, a China. Mas o que o incomoda não são seus foguetes, o tamanho de seu Exército ou a ameaça à soberania dos vizinhos. O "momento Sputnik" do século 21 foi um teste feito com estudantes do mundo inteiro. A avaliação mostrou que os alunos chineses dão um banho em seus colegas americanos - não só neles, aliás, mas em todos os outros. Eles ficaram em primeiro lugar em matemática, ciência e leitura, os três temas avaliados. O comentário de Obama mostra em que medida o desempenho escolar dos chineses gera ansiedade na maior potência do mundo - a sensação de que a América decadente está fadada ao atropelamento pelos geninhos do Império do Meio. O que impressiona, sobretudo, é a velocidade com que isso aconteceu: meros 30 anos atrás, a China saía dos escombros da Revolução Cultural maoísta analfabeta de pai e mãe.

Como isso foi possível? Um livro recém-lançado nos Estados Unidos vem lançando luz - e spray de pimenta - nessa discussão. É Battle Hymn of the Tiger Mother (algo como "Hino de batalha da mãe-tigre", numa tradução livre), da professora de direito americana Amy Chua. Filha de imigrantes chineses, Amy conta no livro como educou as duas filhas, Sophia e Louisa. Ela resume seu método na primeira página do livro, em dez mandamentos. Suas filhas nunca puderam: 1) dormir na casa dos amigos; 2) sair com os amigos; 3) participar de uma peça da escola; 4) reclamar por não participar de uma peça da escola; 5) assistir à TV ou jogar videogame; 6) escolher suas próprias atividades extracurriculares; 7) tirar qualquer nota que não fosse 10; 8) não ser a primeira aluna da turma em qualquer tema, exceto educação física e teatro; 9) tocar qualquer instrumento que não piano ou violino; 10) não tocar piano ou violino. Eis, no resumo de Amy Chua, a base do modelo educacional à chinesa.

Seu projeto parte do pressuposto de que encontrará nas filhas uma obediência irrestrita. "No Ocidente, obediência é um termo associado a cachorros", escreve ela. Na China, claro, é diferente. Amy comanda o show, e a opinião das crianças vale quase nada. "Para ser bom em alguma coisa, é preciso trabalhar. E crianças nunca vão trabalhar por vontade própria. Por isso, é crucial passar por cima das opiniões delas." Tirar apenas a nota máxima na escola, ficar dois anos à frente dos colegas de classe em matemática, tudo isso era o básico. Com 3 anos, escreve, sua filha mais velha já escrevia mais de 100 caracteres chineses e lia existencialistas franceses. Ela decidiu, então, que as filhas deveriam ter um "hobby" - a música. Entra em cena a obsessão da mãe por criar dois gênios da música. As sessões diárias de estudo passavam de 90 minutos, e suas filhas nunca perderam um dia de aula (aniversários, doenças e operações dentárias não eram desculpa). Em viagens com a família, Amy ligava com antecedência para os hotéis em que se hospedariam para checar se havia um piano disponível para que Sophia, a primogênita, praticasse e voltasse das férias à frente das outras alunas. Relaxar nas férias? Coisa de ocidental.

Amy lista as diferenças principais entre o que chama de estilo chinês de maternidade e estilo americano ou ocidental. Enquanto os ocidentais se preocupam com a autoestima das crianças, temem os efeitos do excesso de cobrança e as elogiam se tiram, por exemplo, B em matemática, os chineses não estão nem aí - eles partem do princípio de que a criança é forte, não fraca, e de que sua obrigação é exigir o melhor. "Pais chineses pedem notas perfeitas porque acreditam que seus filhos podem obtê-las." Além disso, eles consideram que os filhos devem tudo aos pais: as crianças devem passar a vida inteira obcecadas em orgulhar os pais com vitórias. Em casas ocidentais, escreve, tem-se a impressão de que são os pais que devem tudo aos filhos. A consequência é a criação em massa de mimados medíocres, habituados a se dar bem na vida sem esforço.

Há, como se poderia esperar, certa ausência de afeto nessa história toda. Na verdade, a relação de Amy com as filhas faz lembrar em alguns momentos a batalha de Stalingrado. Quando Louisa, sua caçula, se recusou a tocar piano com os dedos em vez de esmurrar as teclas com as mãos, foi carregada para fora de casa para sentir o frio congelante do inverno como punição. Ela tinha 3 anos. Para forçar as filhas a se dedicar aos instrumentos, as táticas eram as mais variadas. Entre elas, coerção, chantagem e ameaça de tabefes. As filhas só podiam interromper as sessões de piano ou violino após executar perfeitamente a tarefa do dia - parar para ir ao banheiro ou beber água, por exemplo, era item fora de cogitação. As amigas de faculdade se espantaram ao descobrir que uma das táticas de incentivo usadas por Amy era chamar as filhas de "lixo" (nunca elogiá-las em público é uma peça-chave da estratégia de Amy, indignada quando vê crianças ocidentais sendo aclamadas pela família por executar tarefas banais). O sucesso, escreve Amy, transforma problemas dessa natureza em detalhes irrelevantes. Ele faz com que a criança receba elogios e seja objeto de admiração. Com isso, o que era um estorvo se torna divertido. E, assim, os pais podem forçar ainda mais a barra na transformação de filhos em geninhos. Em sua busca pela perfeição, Amy devolveu um cartão de aniversário dado pelas filhas por considerá-lo simplório. Mandou que fizessem outro mais caprichado. "Meu objetivo é te preparar para o futuro, não ser amada por você", dizia às filhas.

O estilo de educação de Amy deu certo? Claro, ainda é cedo para dizer - e só quem pode falar com autoridade sobre o assunto são Sophia e Louisa, ambas adolescentes. Sophia se apresentou no Carnegie Hall há quatro anos. Louisa, além de uma talentosa violinista, é a primeira aluna da sala. Ambas ajudaram a mãe a escrever o livro. A própria autora se considera fruto desse sistema. Quando tirou segundo lugar num concurso de história na escola, ouviu do pai: "Nunca, nunca me envergonhe desse jeito outra vez". Ela mesma reconhece que esse modelo corre o risco de dar errado. E, quando dá errado, é desastroso. É sabido que o índice de suicídio entre jovens na comunidade asiática americana é o maior do país. O tema é, por definição, polêmico. A publicação de um capítulo do livro no Wall Street Journal desencadeou uma onda de protestos direcionados à autora. O título dado pelo jornal, "Por que as mães chinesas são melhores", fez com que o livro acabasse pisando no calo de que falou Obama ao descrever o "novo Sputnik". Mesmo com seus notórios exageros (a própria caçula a chama de louca num trecho do livro), a dedicação obsessiva de Amy Chua à formação de suas filhas faz pensar: o sistema educacional de um país, afinal de contas, não começa em casa? Os alunos brasileiros ficaram em 53º lugar no mesmo teste que a China liderou. Maus professores, estrutura precária, falta de cobrança, governos incompetentes, tudo isso entra na maçaroca geral na hora de atribuir culpados por nosso desempenho sofrível. Amy Chua faria questão de incluir os pais brasileiros nessa lista.

sábado, 14 de maio de 2011

A deseducação no Brasil, por Wolmer Ricardo Tavares

     Escola não é o primeiro lugar a se educar o indivíduo, mas na maioria das vezes é o primeiro lugar a deseducá-lo. Será nesse ambiente que o aluno irá dar continuidade a sua socialização, passo fundamental para aprender novos valores. Mas a questão é: Que valores serão esses? O que a sociedade espera do indivíduo? Até que ponto a escola é obrigada a “formar” e não a educar os alunos?
     Ao analisarmos a palavra “formar”, leva-nos a alusões como colocar em forma, o mesmo que padronizar, estandardizar, isto é, fazer com que os educandos tenham o mesmo comportamento, atitude e maneira de pensar. Podemos também trabalhar a palavra “formar” no sentido de construir, dar forma, que é uma outra divergência do que é esperado, pois, com a globalização e o dinamismo das informações, percebe-se que nem os profissionais encontram-se formados, ou seja, eles estão em constante formação, por isso então a escola não forma, apenas faz o aluno galgar os primeiros degraus de sua construção como cidadão e protagonista.

     Seria uma quimera imaginar uma escola a qual o conhecimento não seja tão institucionalizado? É a tão conhecida pedagogia da autonomia, conceito esse aplicado em regiões na qual a educação é vista como fator de suma importância para o crescimento e desenvolvimento, por isso, ela é investimento. No Brasil, a educação é vista como gasto, e por isso se aplica a pedagogia do empurrão ou pedagogia do emburrecimento, ou seja, reprovação zero, reprovação essa que, apesar de não existir mais nas escolas, existirá na vida.
     A escola está preparando esse aluno para o quê? Quando o educando sair desse sistema, a sociedade irá se lembrar que não existe reprovação e, consequentemente, não irá reprová-lo também? Será que estamos preparando nossos educandos para se tornarem homens de bem? Sêneca (por volta de 4 a. C. – 65) insistia na educação para a vida e a individualidade: “non scholae, sed vitae est docendum”, isto é, “não se deve ensinar para a escola mas para a vida” e para que vida estamos ensinando nossos alunos? Uma vida de mediocridades e de miséria que fará do educando um mero escravo do destino?
     Este trabalho tem o intuito de levantar dúvidas e fomentar uma criticidade no educador fazendo com que o mesmo analise até que ponto se sente manipulado por um discurso que se faz imperar uma demagogia e o leva a ser mais um multiplicador de números que mascaram uma realidade que violenta a dignidade de um povo. Precisamos fugir da esperança, pois ela apenas prolongará o nosso tormento, deixando-nos passivos e inertes. Necessitamos apenas de atitudes. Será que estamos tão cansados a ponto de nadarmos contra uma maré de descasos com a verdadeira educação?
     Precisamos repensar a função da escola e o ato de educar e sair de nossa passividade intensa, de nosso estado cataléptico para um protagonismo que implicará em mudanças.
     Terezinha Azerêdo Rios nos mostra uma visão pessimista sobre a escola enquanto a sociedade apresentar suas limitações e, em contrapartida, nos dá também uma visão otimista falando que uma boa escola ajuda a uma boa sociedade. A questão é: quem é o maior influenciador nesse processo? A sociedade ou a escola? Seja qual for a sua resposta, não estamos levando nossos alunos a uma reflexão. Estamos alienando-os cada vez mais e tornando-os manipuláveis por um poder corruptor.
     Cabe à escola oferecer ao aluno um agir interativo com o seu contexto, com uma identidade responsável, e dar forma ao conhecimento que será aplicado as suas necessidades sentidas e vivenciadas com o seu entorno.

     Texto de Wolmer Ricardo Tavares, mestre em Educação e Sociedade e docente da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC) – campus Lafaiete. E-mail: wolmertavares@gmail.com 

Fonte: Profissão Mestre - Jornal Virtual  - Ano 9 - Nº 214-13/05/2011

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