sábado, 31 de janeiro de 2009

O que é a Filosofia?

Essa é uma das perguntas mais irritantes e complicadas de se responder. Talvez a forma menos penosa seja mudar a pergunta. Como assim? Ora, ao invés de privilegiarmos o "o que", daremos atenção ao "como". Continua sem entender? É simples, vou mostrar-lhe.

A melhor maneira de se compreender o que é Filosofia, sem sombra de dúvida, é perguntarmos pelo seu modo peculiar de proceder, sem nos preocuparmos tanto com o que ela estuda ou o que ela é, mas como faz a sua investigação. Desse modo, tão logo estivermos de posse de um texto filosófico, perceberemos que ele possui algumas características compartilhadas por várias outras obras escritas por diferentes filósofos:

Primeiramente, constitui uma análise racional, precisa e rigorosa do(s) tema(s) em questão, num esforço interminável de fundamentar as suas ideias. A forma mais frequente e equivocada de julgar o exercício filosófico é aproximá-lo de uma mera emissão de opiniões e pontos de vista. A filosofia, pelo contrário, a todo momento, tenta afastar as ideias superficiais e preconceituosas - próprias do senso comum – caminhando em direcção às ideias fortes e bem articuladas. Por conseguinte, é indispensável que o trabalho do filósofo prime, antes de mais nada, pela precisão e rigor dos conceitos utilizados e pela preocupação com a lógica e clareza na exposição de seus argumentos. Isso não quer dizer, necessariamente que as obras filosóficas tenham que ser chatas difíceis, mas que apresentam características próprias, específicas da Filosofia.

A análise filosófica preocupa-se com a totalidade e não com partes dos problemas – os problemas parcelares são específicos das ciências. A sociologia, por exemplo, tem por objecto a sociedade, a psicologia, a psique (a alma), a física, os corpos em movimento (as suas leis, estruturas etc.) e assim sucessivamente. Todas essas ciências constituem áreas específicas do saber, que mesmo quando ultrapassam os seus limites com o intuito de solucionar problemas, continuam limitadas às suas perspectivas singulares. Isso não acontece com a Filosofia. O primeiro passo da reflexão filosófica é a (tentativa de) suspensão de tudo o que venha a limitar o carácter abrangente, característico da Filosofia. Assim, o filósofo é aquele que tem por obrigação uma "visão alargada" e razoável do mundo e dos saberes, sendo, desse modo, o questionador mais competente dentre os demais, pois é capaz de unir as diversas perspectivas - quando julga necessário - ou perceber os seus pontos fracos. Não pretendo defender aqui que o filósofo seria um super-homem ser mas uma pessoa com a mente aberta e com a constante preocupação de buscar novas formas de visar os problemas.

É eminentemente crítica. Se o filósofo pretende reflectir sobre os problemas e temas relevantes, para que possa construir uma argumentação coerente e com as características anteriormente abordadas, inevitavelmente, transformará o seu pensamento em crítica: às formas anteriores de abordagem da questão, aos sistemas filosóficos que o antecederam, à tradição e etc. Essa é a forma mais característica do filósofo proceder. No entanto, não se trata de uma crítica ofensiva, mas um pôr-em-questão, de modo a perceber os limites das teorias vigentes e apontar para novas formas de abordagem.

Por fim, o rigor característico de toda actividade racional está frequentemente aliado, no exercício filosófico, à ideia de sistematização. É indispensável na exposição de argumentos, além da clareza e precisão abordados acima que o filósofo reflicta e demonstre de modo sistemático o seu raciocínio. Um conjunto confuso e superficial, com ausência de encadeamento lógico, desqualifica um trabalho que pretende ser filosófico.

Vimos que a filosofia pode ser mais precisamente definida, a despeito de seus inúmeros sistemas e métodos, como uma actividade racional que utiliza procedimentos sistemáticos, rigorosos e precisos de análise e exposição de ideias, sempre a partir de uma postura crítica e coerente.”

Emanuel Fraga


Fonte: http://www.espanto.info/av/pcfil.htm#in%C3%ADcio


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A dúvida e o reconhecimento da ignorância


" A filosofia supõe, com efeito, presente na própria questão, uma certa intenção, da qual se pode dizer que constitui o pressuposto do questionamento filosófico. E uma questão não poderia ser em si mesma filosófica sem esta intenção. Isto aplica-se à própria questão "O que é a filosofia?". Digamo-lo nitidamente: a questão como filosófica, supõe uma colocação em dúvida da resposta enquanto saber. Não que a resposta ela mesma "possa eventualmente" ser posta em dúvida, como quando por exemplo percebemos que aquele que responde se baralha e que à resposta falta clareza. A colocação em dúvida aqui é um pressuposto do questionamento filosófico.

A filosofia é, antes de mais, colocação em dúvida da mestria. Esta ausência de saber não quer dizer que alguns possam saber ou que se possa vir a saber; ela é radical. No momento em que se coloca a questão filosófica, o saber é posto em dúvida radicalmente. E enquanto o questionamento se mantém, esta colocação em dúvida repete-se. Podemos mesmo dizer que a filosofia se caracteriza pelo facto da questão valer por ela mesma; não pelo saber ao qual ela poderia conduzir, mas pela provação de um não saber que ela supõe. A questão filosófica não é uma questão que se põe de qualquer maneira, mas uma questão que o filósofo se coloca a si mesmo, e, mais profundamente, que se "coloca".

O questionamento filosófico caracteriza-se, portanto, pela exigência contraditória de um desejo de saber, "dramático" em certa medida, e de uma antecipada colocação em dúvida do saber que se possa vir a obter. É como se houvesse um saber que deveríamos saber que não temos. É conhecida a célebre frase de Sócrates: "Só sei que nada sei".

Alain Juranville


Fonte: http://www.espanto.info/av/pcfil.htm#in%C3%ADcio



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Valor da Filosofia

“O valor da filosofia, em grande parte, deve ser buscado na sua mesma incerteza. Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão ponderada. O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente caímos na conta de que até os objectos mais familiares conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta . A filosofia sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante e vivifica o sentimento de admiração. ”


Bertrand Russell


Fonte: http://www.espanto.info


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Radicalidade da Filosofia

A filosofia é um saber radical porque vai à raiz dos problemas. Para o filósofo não existem respostas conclusivas: cada resposta é um momento do questionamento filosófico, é um patamar na busca da verdade, que serve de apoio para a colocação de novas questões, mais profundas e abrangentes.

Em filosofia não há outra saída: nada pode deixar de ser questionado, nem mesmo o que parece inquestionável. Quanto mais óbvia uma ideia nos parecer, mais necessário é interrogarmo-nos acerca da sua verdade ou consistência. Com isto não devemos ficar com a ideia de que em filosofia as respostas não são importantes. Não devemos pensar que os filósofos se limitam a questionar por questionar, que tudo é incerto.

Muito pelo contrário: o que caracteriza o questionamento filosófico é o facto de ser um caminho para a verdade, orientado por um espírito de rigor e de coerência racional. O questionamento filosófico é uma busca do sentido de tudo: da vida humana, do universo, do tempo, da morte...

Enquanto busca do sentido, o filosofar dá sentido, em primeiro lugar, à ignorância que é o seu ponto de partida, em segundo lugar, ao mundo enquanto objecto de interrogação. Ao tentar compreender o porquê de todas as coisas, o filósofo está perante o mundo como um construtor de puzzles: começa por separar as peças, por baralhá-las para as poder ver uma a uma sem estar preso a relações ilusórias; depois começa a encaixar as peças formando pequenas ilhas de sentido que, por vezes permitem ter uma ideia, ainda que muito vaga, do todo.

Mas para que esta imagem do construtor de puzzles se pudesse adequar ao filósofo teríamos que imaginar um puzzle com um numero quase infinito de peças, em constante mudança e do qual o próprio construtor faz parte.


Fonte: http://www.espanto.info/av/pcfil.htm#in%C3%ADcio


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Novo Telecurso - Filosofia - Aula 1

É o Espanto!!!



Para assistr aulas de Filosofia ( e de outras disciplinas) acesse:

Blog Novo Telecurso

http://novotelecurso.blogspot.com/search?q=filosofia ou

http://www.youtube.com/watch?v=R9o26y2


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=R9o26y2


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Observar e Pensar de Stephen Kanitz


O primeiro passo para aprender a pensar, curiosamente, é aprender a observar. Só que isso, infelizmente, não é ensinado. Hoje nossos alunos são proibidos de observar o mundo, trancafiados que
ficam numa sala de aula, estrategicamente colocada bem longe do dia-a-dia e da realidade. Nossas escolas nos obrigam a estudar mais os livros de antigamente
do que a realidade que nos cerca. Observar, para muitos professores, significa ler o que os grandes intelectuais do passado observaram – gente como Rousseau, Platão ou Keynes. Só que esses grandes pensadores seriam os primeiros a dizer "esqueçam
tudo o que escrevi", se estivessem vivos. Na época
não existia internet nem computadores, o mundo era totalmente diferente. Eles ficariam chocados se soubessem que nossos alunos são impedidos de observar o mundo que os cerca e obrigados a ler teoria escrita 200 ou 2.000 anos atrás – o que leva os jovens de hoje a se sentir alienados, confusos e sem respostas coerentes para explicar a realidade.

Não que eu seja contra livros, muito pelo contrário. Sou a favor de observar primeiro, ler depois. Os livros, se forem bons, confirmarão o que você já suspeitava. Ou porão tudo em ordem, de forma esclarecedora. Existem livros antigos maravilhosos, com fatos que não podem ser esquecidos, mas precisam ser dosados com o aprendizado da observação.

Ensinar a observar deveria ser a tarefa número 1 da educação. Quase metade das grandes descobertas científicas surgiu não da lógica, do raciocínio ou do uso de teoria, mas da simples observação, auxiliada talvez por novos instrumentos, como o telescópio, o microscópio, o tomógrafo, ou pelo uso de novos algoritmos matemáticos. Se você tem dificuldade de raciocínio, talvez seja porque não aprendeu a observar direito, e seu problema nada tem a ver com sua cabeça.

Ensinar a observar não é fácil. Primeiro você precisa eliminar os preconceitos, ou pré-conceitos, que são a carga de atitudes e visões incorretas que alguns nos ensinam e nos impedem de enxergar o verdadeiro mundo. Há tanta coisa que é escrita hoje simplesmente para defender os interesses do autor ou grupo que dissemina essa idéia, o que é assustador. Se você quer ter uma visão independente, aprenda correndo a observar você mesmo.

Sou formado em contabilidade e administração. A contabilidade me ensinou a observar primeiro e opinar (muito) depois. Ensinou-me o rigor da observação, da necessidade de dados corretamente contabilizados, e também a medir resultados, a recusar achismos e opiniões pessoais. Aprendi ainda estatística e probabilidade, o método científico de chegar a conclusões, e finalmente que nunca teremos certeza de nada. Mas aprendi muito tarde, tudo isso me deveria ter sido ensinado bem antes da faculdade.

Se eu fosse ministro da Educação, criaria um curso obrigatório de técnicas de observação, quanto mais cedo na escala educacional, melhor. Incentivaria os alunos a estudar menos e a observar mais, e de forma correta. Um curso que apresentasse várias técnicas e treinasse os alunos a observar o mundo de diversas formas. O curso teria diariamente exercícios de observação, como:

1. Pegue uma cadeira de rodas, vá à escola com ela por uma semana e sinta como é a vida de um deficiente físico no Brasil.

2. Coloque uma venda nos olhos e vivencie o mundo como os cegos o vivenciam.

3. Escolha um vereador qualquer e observe o que ele faz ao longo de uma semana de trabalho. Observe quanto ele ganha por tudo o que faz ou não faz.

Quantas vezes não participamos de uma reunião e alguém diz "vamos parar de discutir", no sentido de pensar e tentar "ver" o problema de outro ângulo? Quantas vezes a gente simplesmente não "enxerga" a questão? Se você realmente quiser ter idéias novas, ser criativo, ser inovador e ter uma opinião independente, aprimore primeiro os seus sentidos. Você estará no caminho certo para começar a pensar.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)

Fonte: Revista Veja, Editora Abril, edição 1865, ano 37, nº 31, 04/08/2004, página 18.


domingo, 25 de janeiro de 2009

Viver é Viver Aqui e Agora !!!




Mas agora convém deixar um pouco mais avançada a definição da "nossa vida". Ela é um encontrar‑se ocupando‑se nisto ou naquilo, um fazer. Mas todo o fazer é ocupar‑se de alguma coisa para alguma coisa. A ocupação que somos agora radica‑se em e surge por um propósito em virtude de um para, do que vulgarmente se chama uma finalidade. Esse para em vista do qual faço agora isto e neste fazer vivo e sou, o decidi eu: isto é, a minha vida antes de simplesmente fazer é decidir um fazer ‑é decidir a minha vida.

A nossa vida não nos é dada feita como a trajetória da bala. Mas consiste em decidir‑se porque viver é encontrar‑se num mundo não hermético, mas que oferece sempre possibilidades. O mundo vital compõe‑se em cada instante para mim de um poder fazer isto ou aquilo, não de um ter que fazer por força isto e apenas isto.

Por outro lado, essas possibilidades não são ilimitadas nesse caso não seriam possibilidades concretas e, num mundo em que tudo é igualmente possível, não é possível decidir‑se por nada. Para que haja decisão tem que haver ao mesmo tempo limitação e largueza, determinação relativa. Exprimo isto com a palavra "circunstâncias".

A vida encontra‑se sempre em certas circunstâncias, numa disposição em torno – circum - das coisas e demais pessoas. Não se vive num mundo vago, já que o mundo vital é constitutivamente circunstância, é este mundo, aqui, agora. E circunstância é alguma coisa determinada, fechada, mas ao mesmo tempo aberta e com largueza interior: a circunstância é um curso que a vida se vai fazendo dentro de um leito inexorável. Viver é viver aqui, agora o aqui e o agora são rígidos, impermutáveis, mas amplos. Toda a vida se decide a si mesma constantemente entre vários possíveis. A vida é, ao mesmo tempo, fatalidade e liberdade, é ser livre dentro de uma fatalidade dada. Esta fatalidade oferece‑nos um repertório de possibilidades determinado, inexorável, isto é, oferece‑nos diferentes destinos.”


Ortega y Gasset



sábado, 24 de janeiro de 2009

A Compreensão da Filosofia - Julián Marias


A filosofia, como tipo de raciocínio, não apresenta uma complicação especial. Ante a considerável simplicidade do pensamento filosófico - que, em princípio, é acessível a qualquer pessoa normal, contanto que não o mascarem com uma terminologia abstrusa e absolutamente desnecessária -, outras disciplinas, como por exemplo a matemática, têm maiores dificuldades.

Contudo, tem-se por evidente - e de certo modo é verdade -, que as pessoas muito jovens não entendem a filosofia. Uma justificativa para esse fato é que a filosofia consiste em fazer as perguntas "radicais", aquelas que dizem respeito à própria realidade e que constituem a condição para toda a verdadeira compreensão. Pessoas muito jovens podem entender o raciocínio filosófico - que é mais simples do que o que usam em álgebra ou em geometria -, mas não o sentido das perguntas, isto é, aquilo "do que se trata". A primeira coisa a entender é por que são necessárias certas perguntas.

Por isso, a única maneira para, em idade jovem, compreender a filosofia, é contemplá-la na sua história: por que alguns homens, em determinadas circunstâncias, para poderem viver, para saberem a que aderir, para serem o que pretendiam ser, tiveram que se propor certas perguntas. E, assim, vê-se com total clareza que aquela tarefa tinha sentido, que aquelas perguntas eram necessárias, e que as respostas "tinham razão".

Se continua a se pensar - e tendo em conta que as circunstâncias do mundo vão mudando -, descobre-se que aquela razão não era "suficiente", que não era inteiramente satisfatória, que era necessário algo mais: e deparamos com uma nova formulação das perguntas e com a necessidade de encontrar outras respostas, que parecem mais justas e verdadeiras, mais compreensíveis.

E assim sucessivamente. As perguntas vão sendo refinadas, vão-se fazendo mais justificadas, imperiosas e profundas. As respostas, aquilo a que chamamos "as diversas filosofias", vão respondendo a essas perguntas e descobrimos a sua necessidade e a sua razão de ser. Em suma, compreendemos, não só cada doutrina filosófica, mas também a sua motivação, a sua inevitabilidade, o seu sentido. Vemos que não se trata de um catálogo de opiniões ou de meras "idéias", mas de um "argumento" inteligível da história do homem, pelo menos do homem ocidental. E se pertencemos a esse mundo, a essa variedade do humano, entenderemos onde estamos, quem somos e –pois pode-se perfeitamente entender– porque é que coisas tão diferentes foram pensadas.

Não só se entende cada uma delas, mas também a sua pluralidade, a sua continuidade, a sua coerência, a justificação no seu conjunto, e com isso o sentido de uma história de mais de dois milênios, que é parte de nós, que trazemos dentro de nós, sem a qual não sabemos bem quem somos nem quem podemos ser.

Como se trata das perguntas radicais, descobrimos que sem elas toda a iluminação é deficiente; seguindo a seqüência das questões com que o homem se vem defrontando, desde a Grécia até a Europa toda e sua conseqüência: o mundo ocidental.

A teologia, as ciências da natureza, as da sociedade, as da política e da economia, as que fazem possível a convivência e a regulam, surgiram em torno da filosofia e, em boa medida, por ela condicionadas.

O esquecimento da filosofia, tão generalizado hoje, significa black-out geral, o obscurecimento das questões com as que nos defrontamos, a certeza de que estão propostas de um modo insuficiente, parcial e, em última instância, falso.

O problema é que a maneira usual de estudar filosofia torna a sua compreensão quase impossível para as pessoas muito jovens e muito difícil para os adultos. A atomização das questões torna-as ininteligíveis. Quando se estuda a obra de alguns pensadores isolados, não se entende nada. Porque é que tal filósofo disse o que disse? Parece puro capricho, arbitrariedade. Estuda-se a obra de outro, três séculos posterior, e é igualmente incompreensível. Sem a continuidade variável, o que chamei de "sistema de alteridades", não se pode compreender.

Tudo o que é humano requer um "por quê" e um "para quê", uma motivação e uma finalidade. Sem elas, nada é compreensível e tudo o que nos resta é uma coleção de fatos "brutos", que não permitem a intelecção. Daí o perigo de que o homem contemporâneo se torne um primitivo cheio de notícias.

Falei do risco de que a filosofia fique mascarada por uma terminologia abstrusa. Esse perigo é tão amplo que afeta todas as disciplinas. Os chamados "especialistas" usam quase sempre um jargão pedante e ridículo, que começa a causar escândalos e acabará por provocar indignação.

Em filosofia isto é absolutamente desnecessário, mais ainda, contraproducente. A filosofia pode e deve ser formulada com palavras da língua, quanto mais viva melhor, e ainda mais se trata-se de uma língua ilustre, polida por um milênio de uso literário ininterrupto e enriquecida ao longo de tantas gerações. A língua é já, por si, uma primeira interpretação intelectual da realidade; o seu vocabulário é a primeira articulação do real: um sistema de distinções, conexões e separações. A sua sintaxe corresponde a um estilo mental, a uma maneira de viver. Significa, além disso, a acumulação de experiências seculares, que resumem a história do povo em questão.

E, quando se trata de europeus – e, em geral, de ocidentais – , todos eles trazem consigo a tradição grega e latina; ao longo da Idade Média e da Idade Moderna as grandes línguas europeias conviveram, influíram-se mutuamente, enriqueceram-se, de maneira que a omissão ou o esquecimento das outras é uma espécie de separatismo linguístico, uma violência contra a realidade.

A filosofia, para voltar ao núcleo da questão, foi feita em grego, em latim e em algumas outras línguas distintas, mas não estranhas, irrenunciáveis. Foram-se sucedendo na primazia, imperaram, não pelo poder militar, político ou económico, mas pela capacidade de criação, pelo rigor intelectual, pela fecundidade do pensamento. A língua alemã nunca foi tão interessante e fecunda como na época em que a Alemanha estava dividida e desmembrada, invadida por Napoleão, entre Kant e Hegel.

E as línguas são "comunicáveis". A partir de uma delas (de qualquer uma delas) deve-se considerar e, na medida do possível, possuir as outras. Unamuno conta que um velho professor seu dizia: "Este argumento, como conclui, é em latim". Agora, muitos acham que as suas doutrinas só são válidas em inglês; outros, ainda recentemente, pensavam que a filosofia era possível unicamente em alemão. São diversas formas de provincianismo.

Estamos num momento inquietante, de indecisão. Há um titubear, como quando se atinge uma encruzilhada. Podemos empreender um caminho fecundo, que tenha em conta as exigências da realidade; podemos desprezá-la e esquecê-la, preferindo o capricho, a ficção ou o fanatismo. O que não podemos fazer é renunciar a exercer a liberdade, a escolher nosso destino.


Trad. de Ho Yeh Chia e L. Jean Lauand (Revista pela redacção do espanto)


Fonte: Site: http://www.hottopos.com/


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Nossa Postura diante dos desafios!!!!.

"Todo dia é um novo desafio a vencer. Desafios que aos olhos de muitos podem parecer tão simples e para outros tão complexos e insuperáveis, ...

Viver já é um grande desafio!!!




Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=_tQGYU-_HWU

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O melhor vídeo do mundo!!!

Esse vídeo diz tudo:

Nossos filhos são o nosso reflexo.

O futuro está nas nossas mãos.




http://www.youtube.com/watch?v=7z-mq_DW-qU




quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Chimarrão uma Filosofia Gaúcha









A ORIGEM DO CHIMARRÃO

O chimarrão é um legado do índio Guarani.

Sempre presente no dia-a-dia, o chimarrão constituiu-se na bebida típica do Rio Grande do Sul, ou seja, na tradição representativa do nosso pago. Também conhecido como mate amargo, como bebida preferida pelo gaúcho, constitui-se no símbolo da hospitalidade e da amizade do gaúcho. É o mate cevado sem açúcar, preparado em uma cuia e sorvido através de uma bomba. É a bebida proveniente da infusão da erva-mate, planta nativa das matas sul-americanas, inclusive no Rio Grande do Sul.

O homem branco, ao chegar no pago gaúcho, encontrou o índio guarani tomando o CAA, em porongo, sorvendo o CAÁ-Y, através do TACUAPI.

Podemos dizer, que o chimarrão é a inspiração do aconchego, é o espírito democrático, é o costume que, de mão – em - mão, mantém acesa a chama da tradição e do afeto, que habita os ranchos, os galpões dos mais longínquos rincões do pago do sul, chegando a ser o maior veículo de comunicação.

O mate é a voz quíchua, que designa a cuia, isto é, o recipiente para a infusão do mate. Atualmente, por extensão, passou a designar o conjunto da cuia, erva-mate e bomba, isto é, o mate pronto.

O homem do campo passou o hábito para a cidade, até consagrá-lo regional. O Chimarrão é um hábito, uma tradição, uma espécie de resistência cultural espontânea.

Os avios ou os apetrechos do mate constituem o conjunto de utensílios usados para fazer o mate. Os avios do mate são fundamentalmente a cuia e a bomba.

MANDAMENTOS DO CHIMARRÃO

Apesar de simples e informal, a roda de chimarrão tem suas regras. Verdadeiros mandamentos, que devem ser respeitados por todos. Se você é iniciante ou está redescobrindo o costume, observe esses pontos relacionados com boa dose de humor:

01- NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE
O gaúcho aprende desde piazito o porquê o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas se tu és de outros pagos, mesmo sabendo, poderá achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar nesse pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se por água, ervas exóticas, cana, frutas, feldspato, dollar, etc… mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais, não hesites, pede uma coca-cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

02- NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO
Tu podes achar que é anti-higiênico por a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando de chimarrão. Repito: pede uma coca-cola de canudinho. O canudo é puro como a água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não nele).

03- NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS
Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume tuas frescuras (caso desejes te curar, recomendamos uma visita ao analista de Bagé). Se, porém, te julgas perfeitamente igual aos demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vai adorar o chimarrão de lá.
04- NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE
Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Como o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante, já o chimarrão não. Tu deves tomar toda a água servida até ouvir o ronco da cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento abaixo.

05- NÃO TE ENVERGONHES DO "RONCO" NO FIM DO MATE
Se, ao acabar o mate, sem querer fizer a bomba "roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado. Esse negócio de chupar sem fazer barulho vale para a coca-cola com canudinho que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

06- NÃO MEXAS NA BOMBA
A bomba de chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas por favor, não mexas na bomba. Fale com quem te passou o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

07- NÃO ALTERE A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO
Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve, mas depois de entrar, espera sempre a tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do estado.
08- NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O PRIMEIRO MATE
Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro mate, saibas que o grosso és tu. O pior mate é o primeiro, e quem toma está te prestando um favor.

09- NÃO DURMAS COM A CUIA NA MÃO
Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando… E às vezes te surpreendes até imaginando que a cuia não é cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio… Agora, tomar chimarrão numa roda é muito diferente. Aí o fundamental não é meditar, mas sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ris, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que essa tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer a cuia que está na tua mão. Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar o teu mate que a moçada tá esperando.

10- NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA
Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pega na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que o chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esqueces o câncer. Se não der para esquecer, faz o seguinte: pede uma coca-cola com canudinho que ela… etc… etc…


PÉRCIO DE MORAES


Fonte: http://www.apcefrs.org.br/rs/chimarrao.php


Limites...


Somos as primeiras gerações de pais decididos a não repetir com os filhos
os erros de nossos progenitores.

E com o esforço de abolir os abusos do passado,

somos os pais mais dedicados e compreensivos mas, por outro lado,

os mais bobos e inseguros que já houve na história.

O grave é que estamos lidando com crianças mais "espertas", ousadas,

agressivas e poderosas do que nunca.
Parece que, em nossa tentativa de sermos os pais que queríamos

ser, passamos de um extremo ao outro.
Assim, somos a última geração de filhos que obedeceram a seus pais e a
primeira geração de pais que obedecem a seus filhos..
Os últimos que tivemos medo dos pais e os primeiros que tememos os filhos.
Os últimos que cresceram sob o mando dos pais

e os primeiros que vivem sob o jugo dos filhos.
E, o que é pior, os últimos que respeitamos nossos pais e os primeiros que
aceitamos (às vezes sem escolha...) que nossos filhos nos faltem com o respeito.
À medida em que o permissível substituiu o autoritarismo, os termos das
relações familiares mudou de forma radical, para o bem e para o mal.
Com efeito, antes se consideravam bons pais aqueles cujos filhos se
comportavam bem, obedeciam suas ordens e os tratavam com o devido respeito.
E bons filhos, as crianças que eram formais e veneravam seus pais. Mas, à
medida em que as fronteiras hierárquicas entre nós e nossos filhos foram-se
desvanecendo, hoje, os bons pais são aqueles que conseguemque seus filhos os amem,

ainda que pouco os respeitem.
E são os filhos quem, agora, esperam respeito de seus pais,

pretendendo de tal maneira que respeitem as suas idéias,

seus gostos, suas preferências e sua forma de agir e viver.
E, além disso, que os patrocinem no que necessitarem para tal fim.
Quer dizer; os papéis se inverteram, e agora são os pais quem têm que
agradar a seus filhos para ganhá-los e não o inverso, como no passado.
Isto explica o esforço que fazem hoje tantos pais e mães para ser os
melhores amigos e "dar tudo" a seus filhos.
Dizem que os extremos se atraem. Se o autoritarismo do passado encheu os
filhos de medo de seus pais, a debilidade do presente os preenche de medo e
menosprezo ao nos ver tão débeis e perdidos como eles.
Os filhos precisam perceber que, durante a infância, estamos à frente de
suas vidas, como líderes capazes de sujeitá-los quando não os podemos
conter, e de guiá-los enquanto não sabem para onde vão.
Se o autoritarismo suplanta, o permissível sufoca.
Apenas uma atitude firme, respeitosa, lhes permitirá confiar em nossa
idoneidade para governar suas vidas enquanto forem menores,

porque vamos à frente liderando-os e não atrás,

os carregando e rendidos à sua vontade.
É assim que evitaremos que as novas gerações se afoguem no descontrole e
tédio no qual está afundando uma sociedade que parece ir à deriva, sem
parâmetros nem destino.

Os limites abrigam o indivíduo.


Autor: Desconhecido



terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Tabacaria de Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

    Para filosofar...


    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928

Esperando Barack Obama de Moacyr Sclier

Na peça Esperando Godot, Samuel Beckett mostra-nos dois personagens, Vladimir e Estragon, à espera de alguém chamado Godot, que nunca aparece, o que cria um clima surrealista e motivou muitas interpretações. Segundo uma delas, o nome Godot seria formado do inglês God, Deus, mais o diminutivo francês (idioma no qual a peça foi originalmente escrita; irlandês, Beckett vivia, contudo, na França), uma interpretação que o autor não endossava. De qualquer modo, Godot tornou-se o símbolo de uma figura messiânica, de uma espécie de salvador.

Uma imagem que é impossível não lembrar no dia em que Barack Obama toma posse como presidente dos Estados Unidos. A expectativa é enorme, e não apenas por parte dos americanos que votaram nele. O mundo todo está de respiração suspensa. Obama, espera-se, vai recuperar a economia dos Estados Unidos e a economia mundial, vai trazer a paz, vai acabar com Guantánamo e com o bloqueio a Cuba, vai erradicar de vez os preconceitos. Em suma, será não apenas um presidente, mas um verdadeiro deus, ou, no mínimo, um Papai Noel.

Muitos dirão que o Natal já passou, que 20 de janeiro não é 25 de dezembro. Certo. Mas viver é ter esperança, algo que não podemos, e não devemos, perder. Não por acaso, Dante colocou na entrada do Inferno o verso famoso: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”. O Inferno é isso, é a perda de toda aspiração em relação ao futuro. Há, contudo, dois tipos de esperança, a esperança fundada e a esperança infundada, a esperança certa e a esperança errada. Disto o Brasil pode dar muitos exemplos, o mais recente sendo o de Collor, o caçador de marajás, o mandatário que ia acabar com a inflação, com a corrupção e com todos os males no Brasil. Não acabou com nada disso, e o povo é que teve de acabar com ele, na campanha pelo impeachment. Estes erros são inevitáveis e, em certa medida são úteis, pois graças a eles a democracia se aperfeiçoa.

O que caracteriza a esperança certa? Em primeiro lugar, ela é realista, não espera por milagres (“milagre brasileiro” foi uma expressão muito ouvida em certo momento da ditadura). No caso da situação da economia, por exemplo, as coisas não vão mudar da noite para o dia. Mas se o governo de Obama der os primeiros passos na direção adequada, já será um grande avanço.

Em segundo lugar, a esperança certa é aquela que manifesta uma disposição, não apenas uma crença mágica. Não é a esperança que diz para um líder: “Leva-nos a tal lugar”. Não, é a esperança que diz: “Nós vamos juntos para tal lugar”. É a esperança de quem sabe onde quer ir, sabe qual o caminho a tomar, de quem está disposto a fazer força para conseguir os objetivos.

Até agora, Barack Obama mostrou-se um líder sóbrio, seguro de si próprio. Não é um demagogo, não é um visionário. Aparentemente dá-se conta do tamanho do problema que tem pela frente, um problemão para dizer a verdade. Não se ilude; sabe que não será fácil, mas também não desanima. A cena de TV que mostrou-o, ontem, ajudando a pintar uma escola, é simbólica.

Presidentes não raro só revelam o que são depois que assumem o poder. E aí de repente aparece o demagogo, o fanático, o louco, até; mas também aparece o pragmático, o realista. Lula, por exemplo, surpreendeu; Sarkozy surpreendeu também. Surpresas que podem ter sido desagradáveis para alguns, ou com aspectos desagradáveis para alguns, mas que no conjunto revelaram-se positivas. Se Obama tiver de nos surpreender, que seja para o bem, para que o mundo não se sinta como Vladimir e Estragon. Talvez o erro deles tenha sido não votar em Barack Obama, bem-vindo seja.

Fonte: Jornal “ Zero Hora”, nº.15854, 20/01/2009.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

GABRIEL GARCIA MARQUES


Texto de despedida

"Se, por um instante, Deus se
esquecesse de que sou uma marionete
de trapo e me presenteasse com um
pedaço de vida, possivelmente não diria
tudo o que penso, mas, certamente pensaria
tudo o que digo.
Daria valor às coisas,não pelo o que valem,
mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que
a cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais parassem,
acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem
e gozaria um bom sorvete de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço
de vida vestiria simplesmente, me
jogaria de bruços no solo, deixando
a descoberto não apenas meu corpo,
como minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração,
escreveria meu ódio sobre o gelo e
esperaria que o sol saisse.
Pintaria com um sonho de Van Gogh
sobre estrelas um poema de Mário
Benedetti e uma canção de Serrat
seria a serenata que ofereceria à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas
para sentir a dor dos espinhos e o
encarnado beijo de suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço
de vida!...
Não deixaria passar um só dia sem
dizer às gentes- te amo, te amo.
Convenceria cada mulher e cada homem
que são os meus favoritos e viveria
enamorado do amor.
Aos homens, lhes provaria como estão
enganados ao pensar que deixam de se
apaixonar quando envelhecem, sem saber
que envelhecem quando deixam de se
apaixonar.
A uma criança,lhe daria asas,mas
deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não
chega com a velhice, mas com o
esquecimento.
Tantas coisas aprendí com vocês,
os homens...
Aprendí que todo mundo quer viver no
cimo da montanha,sem saber que a
verdadeira felicidade está na forma
de subir a escarpa.
Aprendí que quando um recém-nascido
aperta com sua pequena mão pela
primeira vez o dedo do pai,
o tem prisioneiro para sempre.
Aprendí que um homem só tem o direito
de olhar um outro de cima para baixo
para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender
com vocês,mas,finalmente não poderão
servir muito porque quando me olharem
dentro dessa maleta, infelizmente
estarei morrendo "

GABRIEL GARCIA MARQUEZ

*** Texto da despedida de Gabriel Garcia
Marquez,lúcido e consciente, nos seus
últimos dias de vida, vítima de um
câncer linfático. Todos se emocionam
com a despedida de Marquez, um
instante inesquecível de sensibilidade
humana.

NÃO SEI

Não sei... se a vida é curta...

Não sei...
Não sei...

se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.


Versos da poetisa goiana Cora Coralina

(pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)


LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin