sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

APRENDENDO E REAPRENDENDO A SER PROFESSOR

vonfirme@gmail.com

Márcia Von Frühauf Firme

Linha de Trabalho: Formação docente

Resumo

Este trabalho tem por objetivo relatar as mudanças que ocorreram durante minha atuação como professora de educação básica no ensino de Ciências e de Química. Essas foram facilitadas pela participação de encontros de formação continuada, de congressos e da presença de estagiários nas salas de aula onde atuo, estes contribuíram para manter contato com a Universidade e os professores do curso de licenciatura que me formei. Nesse contexto, ressalto a importância da formação contínua do professor como meio de refletir e melhorar sua prática em sala de aula.

Contexto do relato

Todos sabem que para ser professor não basta apenas a formação em um curso de licenciatura, é necessário ter um gosto pelo que se faz. É uma busca diária de como se faz educação.

Após doze anos trabalhando no ensino de Química e de Ciências na educação básica e EJA da rede pública de ensino, faço uma reflexão sobre este período, em que as aulas foram praticamente teóricas, passadas no quadro de giz, exercícios e provas com a finalidade de “vencer os conteúdos”. Acreditava que era a única forma de manter o “controle da turma” e de ser como os outros professores, a falta de experiência e de vivências como professor proporciona esta atitude. De vez em quando, fazia algumas aulas experimentais demonstrativas com materiais alternativos, pois sempre havia em média trinta alunos por turma, esses bem participativos e atentos. O que me desestimulou de trabalhar desta forma é o tempo para preparo e a reposição do material, pois as aulas são em seqüência, o professor sai de uma turma e vai para outra, ficava difícil até mesmo para limpar esse material. Durante o curso não nos preparamos para assumir a verdadeira realidade da escola.

Atualmente, refletindo sobre minha prática, percebo o quanto modifiquei em relação aos alunos e em relação ao currículo escolhido para trabalhar. Hoje, procuro ouvir mais o que o aluno pensa, perceber como ele é por ele mesmo e pela observação mais detalhada das atividades realizadas em sala de aula. Devo essa transformação a participação de congressos, de encontros de formação continuada e da presença contínua de estagiários em minhas aulas.

Detalhamento das atividades

Participei de dois Pró-Ciências, curso de formação continuada oferecido aos professores de Química desta cidade pelos professores da Universidade do Rio Grande (FURG), o primeiro no ano 1997 e o segundo em 1999 ambos com bolsa para os participantes. Estes cursos oportunizaram ao grupo de professores participantes uma discussão sobre currículo, metodologias para trabalhar certos conteúdos conceituais onde eram discutidas algumas atividades experimentais, e se essas eram válidas ou não e para quem “serviam”? Também foi um momento de aprendermos a interagir com a internet, ano de 1999, período em que estavam sendo colocados computadores em algumas escolas públicas.

A maioria dos participantes esperava receber “receitas prontas” de como trabalhar alguns conteúdos, mas foram propostas leituras, trabalhos em grupo para confecção de um painel para ser apresentado no Encontro de Debates Sobre o Ensino de Química (EDEQ). Além disso, nos questionavam a respeito de alguns conteúdos para nos deixar em dúvidas sobre o quanto realmente conhecíamos sobre determinado assunto, por exemplo, como a experiência de combustão da vela. Sobre uma vela acesa é emborcado um copo vazio, após um tempo curto a vela se apaga. As dúvidas levantadas foram: Por quê? Será que acabou todo o oxigênio? Também foi questionada a possibilidade de um rato sobreviver dentro dessas condições, havia um artigo sobre esse assunto em uma revista que uma das professoras da universidade trouxe. A discussão foi intensa, até que finalmente, nos foi dado o resultado de que o rato sobreviveria naquelas condições por certo tempo.

Os congressos também contribuíram em minhas mudanças, pois ouvimos novas idéias, há trocas de experiências com outros professores, e acredito que a maioria das pessoas que participam desses eventos têm vontade de fazer algo para melhorar a aprendizagem. Esses congressos funcionam como uma injeção de ânimo para continuar o trabalho de forma que fique mais prazeroso.

Atualmente, participo do MIRAR1, grupo de professores de formação inicial e continuada, formado em 1997 que se reúnem em encontros periódicos semanais, onde são refletidas leituras propostas pela professora organizadora, também são construídas Unidades de Aprendizagem (UA), exercitando a leitura e escrita.ressaltando a importvestigar, Refletir, Aprender, Renovarssora dessas condiç A Unidade de Aprendizagem (UA) é um processo contínuo de construção e planejamento do trabalho em sala de aula e elaborada a partir de alguns questionamentos que o professor se faz: Este conteúdo é importante para quem? De quem é este conteúdo? O que elas ensinam? Para quem ensinam? A quem ensinam? O que os estudantes aprendem a partir deste trabalho? A quem servem estes conteúdos? Estou sendo cidadão ao fazer esta sala de aula? O conhecimento do aluno é considerado neste planejamento? Isso para que as perguntas como: Que conteúdos serão desenvolvidos? Que atividades serão feitas? Possa ser orientado sendo uma proposta educativa emancipatória da sala de aula.

As UA são trabalhadas em grupos e cada grupo lê e participa com idéias, opiniões e críticas da UA de outro grupo. Com essa forma de trabalho, percebo o quanto um pequeno grupo se torna muito produtivo e a troca nos faz crescer em aprendizado e melhorar as relações ao aceitar os outros e também suas contribuições. Está sendo uma experiência muito estimuladora, pois muitos dos participantes são alunos de curso de Pós-graduação e estão cheio de vontade de dividir suas aprendizagens, e os outros professores estão ali porque acreditam em seu trabalho, e isso nos contagia a querer mais. È trocando idéias, assumindo posições, aguçando as dúvidas e criticando é que se obtém uma melhor relação entre o conteúdo e a aprendizagem. Para Von Henting “é imprescindível à ligação entre o conhecimento e a comunicação” (1971, apud PETERS, 2001, p871).

Atuo em sala de aula como professora e tutora dos estagiários do curso de Licenciatura em Química da FURG. Este curso oferece cinco módulos de estágios. No primeiro estágio recebo os alunos (tutorandos) do segundo ano do curso onde iniciam suas observações na escola e na sala de aula. No segundo módulo, os mesmos continuam as observações e elaboram e aplicam uma aula experimental, já no terceiro estágio os tutorandos aumentam sua relação com o tutor e com os alunos. O módulo quatro, o estagiário assiste aulas semanalmente e intensifica sua atuação como professor e na relação com os alunos, pois planeja e ministra algumas aulas. Finalmente, no último módulo o estagiário assume a turma por um semestre. Aliás, esses estágios em vários módulos aproximam mais o estagiário do professor e contribui para a aceitação deste pelos alunos, tornando as aulas mais agradáveis.

Análise e discussão do relato

Como tutora percebo o quanto ser observada em minha prática docente me deixa instável sobre a mesma. Então, quando há interesse em mudar essa situação, preparo aulas com mais empenho, compartilho idéias com os estagiários e com os participantes do grupo MIRAR e de repente sinto que estou sendo mais aceita nas turmas em que trabalho. Pois para os alunos, parece ser muito importante e empolgante sentir o professor interessado em estudar, procurar e estar estimulado por algo que também diz respeito a seus interesses.

Ao ouvir os estagiários, comecei a questionar mais os meus alunos, ouvi-los mais e percebê-los tanto nos seus interesses como em suas dificuldades, então as aulas foram se tornando mais agradáveis, com a sensação de passar depressa demais e com vontade de querer mais. Além disso, quando os estagiários assumem uma turma o tempo fica disponível para leituras que o professor possa fazer, discussões com outros colegas, que normalmente só se encontram na hora do intervalo, e o preparo da aula.

Sou professora da EJA, Ensino Médio e trabalho com a disciplina de Química. A maior parte de meus alunos voltaram a estudar depois de vinte anos afastados de sala de aula, com algumas dificuldades que a falta de hábito nos deixa, mas com muitas vivências, com saberes empíricos, que aos poucos eram relacionados aos científicos. “Aprender é ampliar os mundos já conhecidos, acrescentar novas palavras às descrições e interpretações que se consegue fazer do mundo. Aprender é ampliar o mundo e a realidade em que se vive” (MORAES, 2007, p 31).

Considerações finais

Devido a essas trocas, agora tenho mais vontade de planejar a aula, considero fundamental a relação professor-aluno que se inicia desde o primeiro dia de aula, para os alunos da EJA principalmente, é o momento em que ocorre uma aceitação ou não do professor, pois é necessário envolver esses alunos no processo de aprendizagem, valorizar seus conhecimentos e enfrentar algumas diversidades que surgem no decorrer do ano letivo.

Quero ressaltar a importância da formação continuada para o professor como forma de estímulo a si próprio, a seus alunos e aos estagiários na preparação das aulas. Acredito que um professor com vontade entusiasma também os estagiários que sempre vêem os professores como exemplo. Então isso passa a ser um ciclo, onde um vai empolgando e apoiando o outro.

Desta forma, concordo com Veiga quando a mesma afirma que:

[...] Um dos principais desafios que os docentes vêm enfrentando no decorrer da aula é o desenvolvimento de um trabalho colaborativo, com ações mais coesas. A partilha de experiências em equipes estimula o próprio desenvolvimento profissional dos docentes. Os diálogos entre os pares e alunos sobre a experiência de trabalho conjunto constituem formas importantes para ressignificar o processo didático que ocorre durante a aula. A organização do processo de trabalho da instituição educativa deve propiciar situações de encontro e intercâmbio entre os professores para quebrar o isolamento profissional e o individualismo que caracterizam o trabalho docente.” (VEIGA, 2008; p 270)

O professor que tem condições de estar lendo, estudando, tem mais empenho em preparar e aplicar suas aulas e está apto a modificar o que foi preparado quando isso se tornar necessário, como no caso de acontecimentos marcantes na vida dos alunos. Para que isso seja possível, é necessário ter mais tempo disponível para a tarefa de ser professor, é necessário haver mudanças nas escolas e no sistema educacional, oportunizando a formação de grupos de formação continuada, responsáveis, organizados e compromissados com a educação.

Acredito que a minha experiência de formação continuada demonstra a relevância da mesma para a prática docente de qualquer professor. Desta forma, percebe-se o quanto é necessário apostar na formação em rede, onde a troca com o outro possibilita a reflexão da prática e a mudança da mesma.

1 A sigla MIRAR significa Mediar, Investigar, Refletir, Aprender, Renovar.


REFERÊNCIAS


HENTING. In: PETERS, Otto. Didática de Ensino a Distância - São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001.

MORAES, R. Aprender Ciências: Reconstruindo e Ampliando Saberes. In: GALIAZZI,M.C.;AUTH, M.;MORAES R.;MANCUSO, R.(Orgs) Construção Curricular em Rede na Educação em Ciências. Ijuí: Ed. Unijuí, 2007. p 31

VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Org.). Aula: Gênese, Dimensões, Princípios e Práticas - Campinas, SP: Papirus, 2008. p 270.



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