sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A dúvida e o reconhecimento da ignorância


" A filosofia supõe, com efeito, presente na própria questão, uma certa intenção, da qual se pode dizer que constitui o pressuposto do questionamento filosófico. E uma questão não poderia ser em si mesma filosófica sem esta intenção. Isto aplica-se à própria questão "O que é a filosofia?". Digamo-lo nitidamente: a questão como filosófica, supõe uma colocação em dúvida da resposta enquanto saber. Não que a resposta ela mesma "possa eventualmente" ser posta em dúvida, como quando por exemplo percebemos que aquele que responde se baralha e que à resposta falta clareza. A colocação em dúvida aqui é um pressuposto do questionamento filosófico.

A filosofia é, antes de mais, colocação em dúvida da mestria. Esta ausência de saber não quer dizer que alguns possam saber ou que se possa vir a saber; ela é radical. No momento em que se coloca a questão filosófica, o saber é posto em dúvida radicalmente. E enquanto o questionamento se mantém, esta colocação em dúvida repete-se. Podemos mesmo dizer que a filosofia se caracteriza pelo facto da questão valer por ela mesma; não pelo saber ao qual ela poderia conduzir, mas pela provação de um não saber que ela supõe. A questão filosófica não é uma questão que se põe de qualquer maneira, mas uma questão que o filósofo se coloca a si mesmo, e, mais profundamente, que se "coloca".

O questionamento filosófico caracteriza-se, portanto, pela exigência contraditória de um desejo de saber, "dramático" em certa medida, e de uma antecipada colocação em dúvida do saber que se possa vir a obter. É como se houvesse um saber que deveríamos saber que não temos. É conhecida a célebre frase de Sócrates: "Só sei que nada sei".

Alain Juranville


Fonte: http://www.espanto.info/av/pcfil.htm#in%C3%ADcio



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