quinta-feira, 26 de março de 2009

Convivência e Disciplina na Escola

A qualidade de uma instituição escolar depende em grande parte do modo pelo qual ela enfoca o processo de condução das atividades que se desenvolvem nas classes, pois, ali não é somente o lugar onde se realiza o processo de ensino-aprendizagem, como também, o lugar que traz sempre o momento oportuno para se desenvolver e promover os valores humanos nos alunos. Essa qualidade depende sobretudo também da capacidade dos professores estimularem o esforço dos alunos.
Podemos formular várias perguntas:

- Como conseguir um ambiente harmônico de trabalho? Como conseguir a integração dos alunos na classe? Como promover a disciplina? Como agir diante de condutas que podem ser consideradas irregulares, que perturbam o direito dos outros alunos?
Para responder a tais questionamentos, é necessário em primeiro lugar que a instituição escolar tenha bem claro o que é disciplina para ela. Dependendo da maneira com que a escola conceitua disciplina, as respostas às formulações acima irão variar muito, o que nos indica claramente porque um aluno é considerado indisciplinado em uma escola e quando freqüenta outra, isso pode não acontecer, confundindo os pais muitas vezes a respeito do conhecimento que acham que possuem sobre seus filhos.
Consideramos que uma escola preocupada com a formação dos seus alunos e não somente em "ensiná-los" é aquela que considera a disciplina como: o domínio de si mesmo para ajustar a conduta às exigências do trabalho e de convivências próprias da vida escolar, não como um sistema de castigos ou sanções que são aplicadas a alunos que alteram o desenvolvimento normal das atividades escolares com uma conduta negativa.
A disciplina é um hábito interno que facilita a cada pessoa o cumprimento de suas obrigações, é um autodomínio, é a capacidade de utilizar a liberdade pessoal, isto é, a possibilidade de atuar livremente superando superando os condicionamentos internos ou externos que se apresentam na vida cotidiana.


Necessidade de normas básicas de convivência

Pelo que vim expondo até agora, quem está lendo poderia pensar que um bom clima na classe ou a ação positiva e continuada dos professores tornassem desnecessárias quaisquer regras de disciplina. Não é isso o que estou defendendo. O que torna possível essa ação positiva continuada dos professores e um bom clima na classe são alguns pontos de apoio, podemos chamá-los assim. Com efeito, o respeito às pessoas e à propriedade, a ajuda desinteressada aos companheiros, a ordem e as boas maneiras, exigem exigem que todos que convivam na escola aceitem algumas normas básicas de convivência e se esforcem por vivê-las dia após dia. O bom clima de uma escola não se improvisa, é uma questão de coerência, de tempo e constância.
São imprescindíveis, portanto, algumas normas que sirvam de ponto de referência e ajudem a conseguir um ambiente sereno de trabalho, ordem e colaboração; um referencial geralmente aceito, que determina o limite que a liberdade dos outros impõe à nossa própria liberdade. Para que estas normas sejam eficazes é necessário que :

1. sejam poucas e coerentes com o processo educativo;

2. que estejam formuladas e justificadas com clareza e sensatez;

3. que sejam conhecidas e aceitas por todos: pais, professores e alunos;

4. que seu cumprimento seja exigido.

É lógico que as normas por si mesmas não são suficientes. Não se consegue a disciplina escolar mediante a aplicação exaustiva das sanções estabelecidas. A convivência harmônica entre toda a comunidade escolar é conseqüência de um processo de formação pessoal que torna possível a descoberta da necessidade e valor destas normas elementares de convivência; que ajudam a fazê-las próprias porque se converteram em hábitos de autodomínio que se manifestam em todos os ambientes onde se desenvolve a vida pessoal.


A disciplina como instrumento educativo

Em uma escola não existem problemas de disciplina: há alguns alunos com problemas, a cuja formação é preciso atender de uma maneira particular. Para um real processo educativo a solução não é excluir os que atrapalham e sim atender a cada um segundo suas necessidades pessoais.
Como se trata de pessoas em formação, é preciso estabelecer um sistema de estímulos que favoreçam o desenvolvimento da responsabilidades dos alunos, muito mais que punir, o que vem a exigir uma atuação continuada dos professores: os alunos não mudam de um dia para o outro. Em educação é absolutamente necessário contar com o tempo, pois o importante é a formação.
A primeira e mais fundamental norma para o professor é tratar seus alunos com estima e respeito. Para estar em condições de educar, o professor precisa estabelecer relações cordiais e afetuosas com seus alunos; criar um ambiente estimulante de compreensão e colaboração, usando de atitudes amistosas e pacientes com todos os alunos sem distinção.
Neste ambiente de cordialidade que deve envolver as relações professor- aluno, não há espaço para palavras ou mesmos gestos que signifiquem menosprezo; nem que se ridicularize um aluno perante seus companheiros, ou a impaciência com seu erro; nem para ameaças ou concessão de privilégios; ou para a ação que não aceita que os alunos tenham direitos à justificativas, ou ainda, a utilização de sanções para estimular aprendizagens.
Um dos fatores que mais estimula a indisciplina, ou a falta de consideração dos alunos a um professor é a falta de coerência entre o que o professor diz e o que ele faz, entre os valores que ele tenta transmitir aos alunos e os que ele mesmo vive.
Os valores e atitudes cultivados numa escola precisam ser incorporados por toda a equipe de profissionais; a incoerência entre a vivência desses valores pelos professores, pode transmitir aos alunos uma visão distorcida dos valores que a instituição cultiva.

Sabemos também que existem comportamentos que pela gravidade e transtornos que provocam nos demais podem prejudicar o andamento normal da classe e o bom ambiente entre os alunos. Nessas ocasiões em que se põe a prova a qualidade humana e profissional, ofício do professor, importa e muito agir com acerto.
O mau comportamento é com freqüência, conseqüência de condições desfavoráveis do mesmo ambiente escolar que está atuando sobre os alunos: locais e mobiliários inadequados, falta de unidade e critério dos professores e equipe da escola etc., e sobre eles devem centrar-se inicialmente a atenção antes de tomar medidas mais drásticas e também atuar com a família e com o próprio aluno.
Já, nos casos em que a indisciplina é coletiva, em que a maioria dos alunos de uma classe se comporta com irresponsabilidade, as raízes podem estar em diversas condições ambientais que estão atuando sobre a realidade escolar. Estas condições devem ser analisadas com objetividade e identificadas para que se possa tratá-las de modo adequado: as instalações são funcionais?; o número de alunos na classe é muito grande?; as atividades escolares são monótonas?; os profissionais atuam de modos muito diferentes demonstrando falta de integração entre si e entre as normas da escola?; acontece em todas as aulas ou apenas com um ou outro professor?
Soluções para os chamados problemas de "indisciplina" deverão estar baseados numa análise exaustiva da situação, na reflexão, no diálogo e em técnicas que capacitem os alunos para o autocontrole e a responsabilidade por sua conduta.
O assunto não se esgota aqui. Retornaremos posteriormente a ele.
Queremos deixar claro também que não estamos centrando exclusivamente nos professores a responsabilidade pelo comportamento dos alunos na aula, mas, não podemos deixar de acentuar que quando os professores atuam com competência profissional, unidade e coerência, sentindo-se responsáveis pelo que ocorre ao seu redor, os comportamentos inadequados ficam restritos a poucos alunos, com problemas muitas vezes de origem extra-escolar.


Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.

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