quinta-feira, 19 de março de 2009

Filosofar filosofando...



André Comte-Sponville


Filosofia: doutrina e exercício da sabedoria (e não simples ciência) - KANT

Filosofar é pensar por conta própria; mas só se consegue fazer isso de um modo válido apoiando-se primeiro no pensamento dos outros, em especial dos grandes filósofos do passado. A filosofia não é apenas uma aventura; também é um trabalho, que requer esforços, leituras, ferramentas. Os primeiros passos costumam ser rebarbativos, e já desanimaram mais de um.

...

O que é a filosofia? Já me expliquei muitas vezes a esse respeito, e faço-o mais uma vez. A filosofia não é uma ciência, nem mesmo um conhecimento; não é um saber a mais: é uma reflexão sobre os saberes disponíveis. É por isso que não se pode aprender filosofia, dizia Kant: só se pode aprender a filosofar. Como? Filosofando por conta própria: interrogando-se sobre seu próprio pensamento, sobre o pensamento dos outros, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre o que a experiência nos ensina, sobre o que ela nos deixa ignorar... Encontrar no caminho as obras deste ou daquele filósofo profissional, é o que se deve desejar. Com isso pensaremos melhor, mais intensamente, mais profundamente. Iremos mais longe e mais depressa. Mas esse autor, acrescentava Kant “não deve ser considerado o modelo do juízo, mas simplesmente uma ocasião de se fazer um juízo sobre ele, até mesmo contra ele”.

Ninguém pode filosofar em nosso lugar. É evidente que a filosofia tem seus especialistas, seus profissionais, seus professores. Mas ela não é uma especialidade, nem uma profissão, nem uma disciplina universitária: ela é uma dimensão constitutiva da existência humana. Uma vez que somos dotados de vida e de razão, coloca-se para todos nós, inevitavelmente, a questão de articular uma à outra essas duas faculdades. É claro que podemos raciocinar sem filosofar (por exemplo, nas ciências), viver sem filosofar (por exemplo, na tolice ou na paixão). Mas não podemos, sem filosofar, pensar nossa vida e viver nosso pensamento: já que isso é a própria filosofia.

A biologia nunca dirá a um biólogo como se deve viver nem se se deve, nem mesmo se se deve fazer biologia. As ciências humanas nunca dirão o que a humanidade vale, nem o que elas mesmas valem. Por isso é necessário filosofar: porque é necessário refletir sobre o que sabemos, sobre o que vivemos, sobre o que queremos, e porque nenhum saber basta para empreender essa reflexão nem nos dispensa dela. A arte? A religião? A política? São grandes coisas, mas também devem ser interrogadas. Ora, a partir do momento em que as interrogamos, ou nos interrogamos sobre elas um pouco profundamente, saímos delas, pelo menos em parte: já damos um passo para dentro da filosofia. Nenhum filósofo contestará que esta, por sua vez, tenha de ser interrogada. Mas interrogar a filosofia não é sair dela, é entrar nela.

Por que caminho? Segui aqui o único que conheço de fato, o da filosofia ocidental. O que não quer dizer que não haja outros. Filosofar é viver com a razão, que é universal. Como a filosofia poderia ser reservada a alguém? Ninguém ignora que há, especialmente no Oriente, outras tradições especulativas e espirituais. Mas não dá para falar de tudo e seria ridículo, de minha parte, pretender apresentar pensamentos orientais que só conheço, na maioria, de segunda mão. Não creio que a filosofia seja exclusivamente grega e ocidental. Mas, evidentemente, como todo o mundo, estou convencido de que há no Ocidente, desde os gregos, uma imensa tradição filosófica, que é a nossa, e é para ela, é nela, que gostaria de guiar o leitor.

Viver com a razão, dizia eu. Isso indica uma direção, que é a da filosofia, mas não poderia esgotar seu conteúdo. A filosofia é questionamento radical, busca da verdade global ou última (e não, como nas ciências, desta ou daquela verdade particular), criação e utilização de conceitos (mesmo que isso também se faça em outras disciplinas), reflexividade (volta do espírito ou da razão para si mesmo: pensamento do pensamento), meditação sobre sua própria história e sobre a história da humanidade, busca da maior coerência possível, da maior racionalidade possível (é a arte da razão, por assim dizer, mas que desembocaria numa arte de viver), construção, às vezes, de sistemas, elaboração, sempre, de teses, de argumentos, de teorias... Mas também é, e talvez antes de mais nada, crítica das ilusões, dos preconceitos, das ideologias. Toda filosofia é um combate. Sua arma? A razão. Seus inimigos? A tolice, o fanatismo, o obscurantismo. Seus aliados? As ciências. Seu objeto? O todo, com o homem dentro. Ou o homem, mas no todo. Sua finalidade? A sabedoria: a felicidade, mas na verdade. Tem pano para muita manga, como se diz; ainda bem, porque os filósofos gostam de arregaçá-las!

Na prática, os objetos da filosofia são incontáveis: nada do que é humano ou verdadeiro lhe é estranho. Isso não significa que todos tenham a mesma importância. Kant, numa passagem célebre da sua Lógica, resumia o domínio da filosofia em quatro questões: Que posso saber? Que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o homem? “As três primeiras questões remetem à última”, observava Kant. Mas as quatro desembocam, eu acrescentaria, numa quinta, que é sem dúvida, filosófica e humanamente, a questão principal:

Como viver? A partir do momento em que tentamos responder a essa pergunta de modo inteligente, fazemos filosofia. E, como não se pode evitar de formulá-la, é forçoso concluir que só se escapa da filosofia por tolice ou obscurantismo.

Deve-se fazer filosofia? Uma vez que fazemos essa pergunta, em todo caso, uma vez que tentamos responder a ela seriamente, já estamos fazendo filosofia. Isso não quer dizer que a filosofia se reduza à sua própria interrogação, menos ainda à sua autojustificação. Porque também fazemos filosofia, pouco ou muito, bem ou mal, quando nos interrogamos (de maneira ao mesmo tempo racional e radical) sobre o mundo, sobre a humanidade, sobre a felicidade, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a morte, sobre Deus, sobre o conhecimento... E quem poderia renunciar a fazê-lo? O ser humano é um animal filosofante: só pode renunciar à filosofia renunciando a uma parte da sua humanidade.

É preciso filosofar, portanto: pensar tão longe quanto pudermos, e mais longe do que sabemos. Com que finalidade? Uma vida mais humana, mais lúcida, mais serena mais razoável, mais feliz, mais livre... É o que se chama tradicionalmente de sabedoria, que seria uma felicidade sem ilusões nem mentiras. Podemos alcançá-la? Nunca totalmente, sem dúvida. Mas isso não nos impede de tender a ela, nem de nos aproximar dela. “A filosofia”, escreve Kant, “é para o homem esforço em direção à sabedoria, esforço sempre não consumado.” Mais uma razão para empreender esse esforço sem mais tardar. Trata-se de pensar melhor para viver melhor. A filosofia é esse trabalho; a sabedoria, esse repouso.

O que é a filosofia? As respostas são tão numerosas, ou quase, quantos os filósofos. O que não impede, todavia, que elas se cruzem ou convirjam para o essencial. No que me diz respeito, tenho um fraco, desde os meus anos de estudo, pela resposta de Epicuro: “A filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona a vida feliz.” É definir a filosofia por seu maior êxito (a sabedoria, a beatitude), o que, mesmo que o êxito nunca seja total, é melhor do que encerrá-la em seus fracassos. A felicidade é a meta; a filosofia, o caminho. Boa viagem a todos!


In: Comte-Sponville, André. Apresentação da filosofia. São Paulo. Martins Fontes,2002. pg.11-16

Um comentário:

Wolf Edler disse...

Aprecio muito Sponville, de quem li o “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, “A Filosofia” e “Apresentação da Filosofia”, além de vários verbetes do seu “Dicionário Filosófico”, que, como o de Voltaire, não se trata de um dicionário acadêmico mas de uma série de ensaios sobre suas opiniões acerca dos verbetes. Sponville pode ser considerado um otimista em relação à possibilidade de se alcançar a felicidade e de se levar a toda a humanidade uma visão realisticamente ateísta da realidade, sem um ceticismo desapiedado e frio. Ele confia no poder da bondade. Também penso como ele.

No meu entendimento, Filosofia é a atitude de debruçar-se sobre a realidade em todas as suas faces, refletindo sobre ela, inquirindo sua consistência, suas relações, suas razões profundas e suas últimas consequências, buscando as respostas que levem à verdade, tendo sempre a mente aberta para novas possibilidades, com a intenção de obter a sabedoria, que é a virtude de bem conduzir a vida, em harmonia com o resto da natureza, em especial com toda a humanidade. Tal conduta, levada de modo desinteressado, é condição para atingir a felicidade, advinda da certeza de que a própria vida adquiriu um significado pessoal que nenhuma adversidade poderá subtrair.

Considero que intelectual não é apenas uma pessoa que domine vastos conhecimentos. Um médico, um engenheiro, um empresário podem dominar vastos conhecimentos sem serem intelectuais. O intelectual é aquele que tem conhecimentos mais teóricos e consegue correlacionar o saber de sua área específica com as demais áreas do conhecimento humano. O passo seguinte é ser um erudito, isto é, que domina seu campo de saber em profundidade e abrangência superlativas. Já o filósofo se caracteriza principalmente por ser uma pessoa que reflete e questiona. Normalmente ele deve ter conhecimento de filosofia e história da filosofia, e, portanto, ser um intelectual, mas não necessariamente. Alquem pode ser um filósofo sem que seja intelectual e nem todo intelectual será um filósofo. Uma característica do filósofo é seu amor e sua busca pelo saber e, mais que o saber, pela sabedoria. Erudição e sabedoria são, certamente, conceitos bem distintos.

Deleuze está certo… em parte. Filosofar não é só construir conceitos. Certamente que isto é um dos mais importantes aspectos da Filosofia, mas… não é o mais importante. Os conceitos são arbitrários. Um conceito é uma atribuição de significado a um significante, circundando-o de forma a se saber a que se aplica e a que não se aplica. Isto é necessário para se fazer uma imagem representativa da realidade, em todos os seus aspectos, para que se possa discorrer sobre ela com o uso da linguagem, que é a única maneira racional de se poder fazer compreender o modo como se apreende esta mesma realidade. Mas o fundamental é investigar as relações que aquilo que esses conceitos significam guardam entre si no mundo real. O cerne da Filosofia é justamente refletir e especular sobre essas relações e propor modelos mentais que as representem em termos dos conceitos formulados. Mas é preciso se proceder a uma verificação fatual ou a uma comprovação lógica (que, em última instância se baseia em evidências fatuais), que valide as hipóteses formuladas na realidade objetiva do mundo. Não me refiro apenas ao mundo natural, mas também ao mundo da cultura, das abstrações, das normas, dos valores. Por exemplo, quando Kant postula a existência de “juízos sintéticos a priori”, é preciso entender o que ele quer dizer com “juizo”, “sintético” e “a priori” para compreender o significado disto. Mas não só. É preciso investigar se, de fato, existe um tal tipo de coisa. Isto é construir a Filosofia. Por isto é que bato sempre na tecla de que a Filosofia precisa adotar critérios científicos de validação de suas proposições. Assim ela se libertará da existência de “escolas de pensamento” e se tornará uma disciplina que descreve as razões primeiras e necessárias de tudo o que existe, qualquer que seja a ordem considerada. Nisto se inclui lógica, ética, estética, epistemologia e, inclusive a metafísica, que, para mim, não tem nada de famigerada, até mesmo em seu capítulo principal, a ontologia.

Não considero que a busca da verdade e do conhecimento sejam coisas para religiosos. O conhecimento consiste numa compreensão modelada da realidade, expressa pela liguagem, verbal ou matemática e a verdade é a adequação entre a própria realidade e o que se diz a respeito dela (isto é, o pretendido conhecimento). Ora, é justamente isto o que busca a ciência, que o conhecimento seja o mais próximo possível da verdade. A religião, pelo contrário, não busca a verdade, de modo algum. Ela pede que se aceite uma proposta (dita revelação) de verdade como verdade, sem nenhum cirtério de verificação de sua validade, por uma ato voluntário de “fé”, coisa que não tem cabimento algum. A Filosofia, por sua vez é a “ciência da ciência”, isto é, ela também busca estabelecer um conhecimento sobre o conhecimento, sobre o agir, o fazer, procurando estabelecer conceitos e categorizando as coisas, além de investigar as relações entre os conceitos, que não sejam do domínio das ciências particulares, mas de amplitude generalizada. Neste sentido a Filosofia pode e deve valer-se da metodologia das ciências, especialmente para validar o conhecimento e evitar a ocorrência de “escolas de pensamento” que afirmam coisas inteiramente conflitantes sobre uma mesma realidade e que, portanto, não podem ser simultaneamente verdadeiras. Que critério decidirá? Se não houver esse critério, as escolar filosóficas ficam como se fossem religiões, às quais se adere por “fé”, o que, certamente, é justamente o que não se deseja para a Filosofia.

Um Curso de Filosofia forma uma pessoa entendida em Filosofia, tanto em extensão quanto em profundidade, e na História da Filosofia, mas não um filósofo. Do mesmo modo que um Curso de Letras, de Belas-artes ou de Música forma uma pessoa entendida em Literatura, Línguas, Pintura, Escultura e Música, mas não um poeta, um escritor, um pintor, um escultor ou um compositor. É claro que o domínio da técnica de escrever, pintar, esculpir, compor e filosofar é extremamente vantajoso para se ser tudo isso, mas não basta. Há algo que precisa vir de dentro. Um talento inato para as Letras, as Belas-artes, a Música ou a Filosofia. Tanto é que podem haver pessoas geniais em todas essas áreas que não tenham a formação acadêmica correspondente. No caso da Filosofia isto é mais verdadeiro ainda. Não que eu deprecie a formação acadêmica específica, pelo contrário. Mas não julgo que seja condição determinante e incontornável para que se seja um filósofo. Meu filósofo predileto, Bertrand Russell, era matemático.

Filosofar, para mim, mais do que citar os filósofos (cujo estudo considero de alta relevância), é assimilar tudo o que disseram para formular suas próprias considerações e formar sua visão de mundo, que, a todo momento, vai sendo reconstruída. Filosofar é debruçar-se sobre a realidade, em todos os seus aspectos (o Universo, o mundo, a vida, o psiquismo, a sociedade, as idéias, os conceitos, as abstrações, a linguagem, enfim, tudo o que é passível de apreensão pelo intelecto), refletir sobre ela, experimentar, coletar dados, analizar, sintetizar e informar-se o máximo possível sobre o que já fizeram os filósofos, os cientistas, os literatos, a humanidade enfim, e daí tirar suas próprias conclusões. Procurar as palavras mais adequadas, analizar sua semântica, suas limitações de aplicabilidade e expressar as conclusões em um linguajar acessível não apenas ao especialista mas à pessoa comum, com um certo grau de cultura. Para isto é mister compreender tudo com a máxima clareza e este blog é um ótimo lugar para este esclarecimento. Antes de qualquer afirmação, porém, é preciso dizer em que sentido cada palavra está sendo empregada, pois grande parte das discussões filosóficas é puramente semântica.

A condição primária para o progresso no estudo de qualquer coisa, especialmente na Filosofia, é a prática da reflexão, do pensamento, do raciocínio, da dedução. Mas isto não é algo que se adquire por informação e sim por treinamento. É como nas olimpíadas. Para competir não basta conhecer as regras e os movimentos. É preciso aplicar-se na prática. Assim, para ser um filósofo não basta conhecer Filosofia. É preciso filosofar. E isto é uma habilidade que se adquire com treino. Mas, para treinar há que se ter um método. Para mim a melhor maneira de aprender é ensinando. Então, sobre qualquer assunto, primeiro leia-se tudo o que se achar a respeito. Depois passe-se a escrever, como se estivesse escrevendo uma apostila, para que outros aprendam nela. Nesse momento, vai-se fazendo uma análise crítica do que se leu, para escrever a síntese que se achou por si mesmo e, se for o caso, externar as suas próprias opiniões. Mas há que achar fundamentos para elas e, se são discordantes do consenso estabelecido, há que se apontar as razões da discórdia. Assim é que se adquire capacidade de argumentação.

Sei que nossa existência não tem razão e nem propósito algum, de origem externa. Cada um é que tem que achar o seu motivo para viver e se realizar nele, alcançando, assim, sua paz e felicidade. O meu já está traçado. Minha vida é dedicada a levar ao máximo possível de pessoas a luz da ciência, da filosofia e do conhecimento, para espancar as trevas da ignorância e das superstições, libertando as pessoas das crenças sem fundamento e esclarecendo-as pela luz da razão. Eis aí.

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