segunda-feira, 30 de março de 2009

A gota d’água - Violência na escola leva professores a repensarem a profissão


Por Kelly Roncato

Tiros, facadas, socos, pontapés, cadeiradas, ameaças, roubos, furtos, agressão moral. Essas são apenas algumas das formas encontradas por alunos para intimidar professores.

Quem sentiu essa realidade na pele foi Paula*, vice-diretora de uma escola em Curitiba. “No dia 22 de agosto foram disparados seis tiros, dos quais quatro acertaram meu carro do lado em que eu dirigia. Só não fui atingida porque Deus não quis. Tudo porque alguém decidiu que não posso mais ser a vice-diretora da escola em que fui eleita democraticamente.”

Paula está afastada temporariamente do trabalho. Ela conta que recebia ameaças desde março. Por isso, sai pouco de casa, está sempre com medo e reluta em mostrar o rosto. O que a deixa mais indignada é o fato de ficar presa em casa enquanto criminosos continuam a planejar suas maldades livres e impunes.

Para ela, é mais fácil afastar a vítima do que prender ou exonerar os culpados. “O que me preocupa é que essas pessoas podem se organizar e prejudicar outros da escola porque provavelmente são pessoas que pertencem ao nosso meio”, pondera.

Tráfico
O professor Hélio*, que lecionava numa escola estadual da periferia de Belo Horizonte, foi morto na frente do local onde trabalhava porque desobedeceu o toque de recolher de traficantes da região. De acordo com a Secretaria de Educação do Estado, ações assim aumentaram muito nos últimos anos. Em Minas Gerais, inclusive, alguns traficantes pressionam professores e diretores para aprovarem alunos que façam parte do tráfico, mesmo que eles não tenham alcançado a média necessária para isso.

No Rio de Janeiro, outro professor foi assassinado dentro da escola porque vinha impedindo alunos de venderem maconha nos intervalos das aulas. Para se ter uma idéia da autoconfiança dos traficantes, Miriam Abramovay, secretária executiva do Observatório Ibero-americano de Violência nas Escolas, conta que um diretor precisou abandonar o cargo e mudar de cidade devido a ameaças de morte que ele e a família vinham sofrendo. Tudo porque descobriu, entre seus alunos um traficante que agia dentro da instituição e passou a impedi-lo de fazer suas vendas. O rapaz, irritado com a situação, passou a ameaçar o diretor e a família dele de morte.

A história faz parte do livro Violências nas escolas, maior estudo sobre o tema com foco em educação já realizado na América Latina. A pesquisa foi desenvolvida nas capitais do Pará, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo e Brasília.

Agressão física
No entanto, esse é apenas um dos lados da “violência contra o professor”. De acordo com Miriam, na maioria das vezes os problemas encontrados nas escolas referem-se a roubos de dinheiro, celular e riscos no carro do docente. “Essa é a parte de danos materiais. A parte de agressões morais ocorre por meio de coação, discussões e ameaças veladas em tom de avisos”, explica.

Ela conta a história de um aluno que disse, próximo a um grupo de educadores, que tinha uma professora ali que queria ter os dentes quebrados. E foi algo parecido que aconteceu com a docente Isabela*, do Espírito Santo. Ela estava no 3° ano do curso do Magistério e precisou substituir uma professora que tinha passado mal. A turma era de adolescentes, do turno da noite. A professora entrou na sala, cumprimentou a classe e começou a fazer a chamada. “Ao falar o nome de um aluno, ele gritou, e eu disse que na sala não havia ninguém surdo. Ele saiu imediatamente e bateu a porta. Eu disse para os que ficaram que precisávamos entender que a escola não é como a nossa casa; lá a gente grita, bate a porta. Tem gente que grita até com a mãe. Mas na escola isso não poderia acontecer”, lembra.

Isabela terminou a chamada e continuou a aula. Na hora do intervalo, foi para a frente da instituição conversar com alguns amigos. “Ao atravessar a rua, alguém tocou em meu ombro e perguntou se eu me chamada Isabela. Respondi que sim. Imediatamente me vi no chão. O rapaz deu-me um soco na face. Perdi dois dentes, machuquei o joelho direito e desmaiei. Fui levada ao hospital.”

Segundo a professora, outros alunos tentaram linchar o agressor e o caso foi parar no Fórum. “Frente a frente, quis entender o motivo da agressão. Ele relatou que um dos seus amigos disse-lhe que quando saiu da sala eu falei da mãe dele. Meu aluno acreditou e, por ser extremamente nervoso, filho de pais separados... sobrou para mim! Em frente à promotora, o perdoei. Hoje ele é um pai de família e há pouco tempo me pediu perdão outra vez”, relata.

Mocinho ou bandido?
Mas não são só os professores as vítimas da violência. Muitos alunos também são violentados verbalmente pelos mestres em sala de aula. Prova disso é uma história que aconteceu numa escola particular. Um aluno, que estava atrapalhando a aula, foi convidado a se retirar. Ele disse que não iria sair, a professora voltou a fazer o pedido e ouviu do estudante: “Venha me tirar daqui então”. Ao que ela respondeu: “Eu não vou sujar as minhas mãos com você!” O garoto foi levado à sala da coordenação pelo inspetor da escola.

Posturas assim ilustram a opinião de Miriam Abramovay, que explica a violência na sala de aula como conseqüência da falta de preparo das instituições para receber um perfil de aluno diferente daquele com o qual se lidava antes da democratização do ensino. “Na escola que se vê hoje há pouco espaço para os alunos colocarem o que pensam. As regras, quando o estudante chega, já estão todas prontas, elas vêm de cima para baixo e cabe ao aluno simplesmente cumprir, sem que lhe seja dado o direito de compreender o que acontece; os motivos daquelas regras. Muitas vezes, a conseqüência é vista por meio de atitudes violentas”, acredita.

Para a pesquisadora, os professores que chegam nas escolas para trabalhar hoje não estão preparados para lidar com o público-alvo deles. Por isso, não dão conta. E isso se reflete no contato com o aluno, na forma de tratá-lo. “Quando encontram a indisciplina, os professores tentam botar os indisciplinados para fora da sala, tiram ponto, dão nota baixa. Isso só piora o relacionamento. Os professores até percebem isso, mas não sabem de que outra forma podem agir”, alega.

Caso queira fazer uma ponte entre a indisciplina e a realidade de fora das escolas, basta pensar se é possível acabar com a fome matando os famintos ou dar fim à pobreza eliminando os pobres do mundo. Da mesma forma como a resposta a essas duas perguntas é “não”, a indisciplina e a violência não poderão terminar com mais violência ou repressão.

Do mandar ao convencer
Por tudo isso, não se pode dizer que a violência do aluno contra o professor é a única que existe. “Aliás, esse é um conceito que precisa ser discutido”, reitera Miriam. “O professor, muitas vezes, também agride o aluno. Dizer que o estudante não vai passar de ano se não obedecer. Essa é uma forma de coação que já funcionou, mas, hoje, com a progressão continuada, os alunos perderam o medo de reprovar, e os professores reclamam disso.”

No entanto, a pesquisadora alerta que esses professores reclamam, não pela dificuldade que o aluno vai enfrentar nos anos seguintes e, sim porque perdem uma das armas que se mostrava mais eficiente antigamente. Com essa nova questão, o aluno deixa de ser passivo e começa a reagir. Dessa maneira, também se dá a violência.

Prova disso é uma situação na qual um professor pediu para um aluno sentar no lugar e ouvir a aula, e escutou do garoto: “Aqui você até pode mandar, mas lá fora mando eu, e é bom você se cuidar.” Por essas e outras é que Miriam alerta para a necessidade de haver mais respeito nas relações dentro das instituições de ensino. “A primeira dica é o diálogo. Mas é preciso tomar cuidado com a maneira segundo a qual esse diálogo acontece. Dialogar não é colocar regra em cima de regra. Pelo contrário, é discutir, é democratizar. A escola se democratizou porque todos tiveram acesso a ela, mas ainda não é democrática.”

Chá de coragem
De acordo com as pesquisas realizadas para a edição do livro Violências nas escolas, é grande a quantidade de professores que deixaram de ir à escola por medo da violência. O que se percebe é que os educadores desanimaram. “Três anos atrás, fiz uma pesquisa e perguntei aos professores se queriam deixar a profissão. Na época, a grande maioria disse que não, hoje eles dizem que sim. Tudo isso porque as relações entre professores e alunos pioraram nos últimos anos”, diz Miriam.

Além de piorarem, a impunidade dos agressores existe porque se mantém a chamada “lei do silêncio” dentro das escolas. Os motivos que colaboram para isso são vários: manutenção do nome da instituição longe de escândalos, medo de represálias, descrença na proteção policial, necessidade de manter alunos tranqüilos e pais acreditando na segurança das instituições, entre outras. São sérias também as formas de coação contra os professores.

Olhos fechados
Um dado preocupante é que, quando o assunto é violência contra o professor, o Brasil é praticamente cego. A Fenep – Federação Nacional das Escolas Particulares – não tem dados tabulados a respeito do assunto. O mesmo acontece com os Sindicatos das Escolas Particulares de Ensino e o Sinpro (Sindicato dos professores, órgão estadual). Esse último possui algumas histórias, mas nada tabulado. As delegacias não separam o número de agressões contra professores do número total de agressões no Brasil.

Salvo as pesquisas realizadas pelo Observatório de Violência nas Escolas, em parceria com a Unesco – que não tem dados numéricos referentes apenas aos professores, mas trabalham com o panorama geral da violência nas escolas –, contando a sala de aula, os centros de convivência e o entorno, o País não possui documentos oficiais que analisem a questão. Esse quadro muda quando o foco da pesquisa é o aluno.

Além disso, as pesquisas realizadas pelo observatório só se baseiam na realidade da escola pública. Isso porque as instituições particulares existem no Brasil em menor número.

Outro fator apontado por Miriam Abramovay para a falta desses dados é que o universo das escolas particulares é diferente entre si. “Se formos verificar essas instituições, perceberemos algumas que custam R$200,00, teremos as de R$700,00 e as de R$1.400,00. São públicos muito distintos; é uma parcela muito pequena da população. A amostragem das pesquisas de educação vem da escola pública porque é onde está concentrada a grande massa”, finaliza.

*Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar a fonte.

Fonte:
JORNAL VIRTUAL PROFISSĂO MESTRE
Profissăo Mestre – Ano 7 Nº110 – 27/03/2009


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