segunda-feira, 9 de março de 2009

A obediência é um valor?


Geralmente ao nos referirmos a valores nos dispomos ao resgate deles. Se queremos o resgate é por que supomos que eles já tenham sido plenamente vividos pelo ser humano. Vasculhando a trajetória humana, verificamos que os valores fundamentais, mesmo conhecidos, mesmo incansavelmente estudados ficaram longe da sua implementação. O que nos inquieta é o fato de que nossas crianças e adolescentes estão apresentando um comportamento que nos desorienta, aliado ao nosso próprio comportamento pós moderno que é massificado, hedonista, individualista. Isto se deve ao fato de que traímos os mais belos ideais que nós mesmos construímos. Nunca fomos livres, iguais, solidários, fraternos.
Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Locke, Diderot e D’Alembert, os idealizadores da era das Luzes dos séculos XVIII e XIX pensaram uma civilização livre das amarras da ignorância, do obscurantismo e do despotismo que marcaram a Idade Média. Pensaram que a razão e a ciência dessem ao ser humano as ferramentas para a liberdade. Os pensadores deste movimento foram transgressores da ordem social e iniciaram uma revolução política sem precedentes.
No raiar do século XXI verificamos que a revolução iluminista não se concretizou. Michel Foucault, filósofo francês cuja vida transcorreu no século XX denuncia em sua produção filosófica que as subjetividades foram subjugadas pela ciência, pela razão. Denuncia que os saberes adquiridos sobre o homem deram origem a poderes subterrâneos para produzir um ser humano disciplinado, dócil e conseqüentemente submisso. Os saberes deram origem a poderes normalizadores, isto é, capazes de dizer o que é normal, o que é adequado, não permitindo ao homem tornar-se sujeito. Ele acusa o uso da racionalidade para criar ambientes propícios à vigilância, referindo-se às prisões, aos hospitais, à caserna, às escolas e ao ambiente familiar. Segundo ele, é aí que criamos a submissão ao que as instituições dizem ser o “normal”, estigmatizando as diferenças e, pior, afastando do convívio humano o que não se enquadra nos padrões estabelecidos.
Com respeito à pergunta título, cabe-me justificá-la. A obediência pode ser quase sinônimo de adestramento se quisermos escolas freqüentadas por crianças dóceis, estudiosas, disciplinadas, onde consigam ficar quietinhas por horas, sem conversas paralelas e que brinquem educadamente com os colegas sem discutir nem brigar, dispostas em fileiras para aprenderem o que os professores têm para ensinar. A obediência é um valor em famílias que pretendem filhos nos quais a hierarquia esteja presente, onde “manda quem pode e obedece quem precisa”. A obediência é um valor em instituições que não permitem a criatividade, onde vale o que sempre foi feito e “em time que está ganhando não se mexe”. A obediência é um valor quando reproduzimos preconceitos e não reconhecemos o ímpeto para o novo, para o inusitado.
Cabe-nos refletir sobre o fato de que há meninos e meninas que conseguem se conduzir com altivez, com liberdade. São filhos e alunos que podem outorgar autoridade a quem tem direito a ela, que conseguem enxergar que o certo, o bom, o adequado estão contidos na figura de autoridade dos pais, dos professores. Eles não devem obediência à autoridade, eles reconhecem e honram a autoridade.
Os pais investidos de autoridade - que vem diretamente do prestígio que têm junto aos filhos - não precisam lançar mão de longos discursos sobre ética. Os pais que pretendem filhos justos e gentis não precisam ensinar-lhes as artes da justiça e da gentileza, basta tratar as pessoas de acordo com estes valores. Os filhos estão sempre observando. Os pais cujos valores são nobres têm comportamentos compatíveis com eles, podem, portanto, esperar que seus filhos se conduzam livremente dentro do que Aristóteles chamou de virtude. A isto podemos chamar excelência em educação.
A autoridade, que é outorgada e não imposta, não esmaga, não massifica, não despersonaliza. Ela reconhece e resguarda a diversidade. Ela respeita as insurgências, as discussões, as transgressões.
Os avanços da humanidade foram protagonizados pelos transgressores, pelos que se insurgiram ao dogma, à ordem estabelecida. O movimento abolicionista não partiu dos escravos esmagados sob o autoritarismo extremo. Ele surgiu por parte dos petulantes, dos corajosos, dos sensíveis aos direitos humanos.
Norberto Bobbio, filósofo e jurista italiano, falecido há poucos anos, nos fala da necessidade de se discutir como implementar valores, não quais eles sejam, pois os valores fundamentais já estão positivados na forma de leis. O que ele parece nos dizer é que conhecemos os valores, mas nunca os exercemos em sua plenitude.
Creio em uma nova era das Luzes. Creio sermos capazes de aprender com os erros do passado.
Necessário se faz resgatar, e aí sim cabe a palavra resgatar, a dialética de Sócrates, que fazia da pergunta o instrumento pedagógico. Através do diálogo Sócrates conduzia seu interlocutor ao auto-conhecimento, conseqüentemente à sabedoria e à pratica do bem. Sócrates considerava mais importante debater sobre as coisas humanas, sobre os valores imutáveis, pois as coisas científicas são mutáveis. Considerava o saber mais importante do que as informações, porque o saber conduz à virtude. Valorizava as virtudes individuais, como a coragem e a temperança, assim como as sociais, como a cooperação e a amizade.
Diálogo não pode ser lugar comum, não pode ser letra morta. Diálogo é construção de conhecimento e requer uma disposição enorme para ouvir, trocar, para que o conhecimento gerado seja internalizado e tenha sentido.
Valores tornam-se realidade se partirem de dentro, se fizerem sentido. Não é possível ensinar o que é ética, por exemplo. É necessário viver eticamente para que ela seja um valor. Isso se aplica a tudo. O que precisamos é iluminar nossa inteligência através da nossa capacidade de conviver, reconhecendo que somos interdependentes, não só entre nós humanos, mas com todos os elementos que fazem nosso entorno. Segundo o professor de filosofia Paulo César Carbonari devemos ser contestadores, insurgentes, transgressores, chatos até, mas responsáveis.


Sueli Gehlen Frosi – bacharelanda em Filosofia e associada à Escola de Pais de Passo Fundo RS


Fonte:http://www.escoladepais.org.br/artigos/76-obediencia.e.um.valor.html

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