sexta-feira, 17 de abril de 2009

Educação para o Pensar: a experiência da SME de Marau/RS



Loridene Teresinha Bonamigo1

Juliana Bonamigo2

Marilene Iones Berghetti3


“Todos somos filósofos”
Gramsci


Gramsci, ao considerar que “todos somos filósofos”, não infere que o filósofo em cada um de nós não precise ser promovido e cultivado, ainda mais perante um mundo que valoriza o ser humano segundo uma medida em cifras, com a cumplicidade da ciência e da tecnologia, as quais deveriam cumprir seu papel servindo humanamente a humanidade, ao invés de levá-la a uma posição excludente.

O cultivo da filosofia e dos filósofos precisa de uma educação que vá além do repasse mecânico de conteúdos estáticos, como a ciência positiva vem se apresentando no meio educacional. Muitos profissionais da educação não fazem a mais remota idéia de como começar uma prática pedagógica diferente e, por vezes, escondem-se atrás do poder de uma escola calcada em princípios tradicionais por medo de se aventurar às mudanças que, inevitavelmente, a evolução proporcionou. Mas há um consenso mesmo que ainda silencioso, condenando à morte profissional aquele que ficar à margem do processo. Hoje se fala em síndrome de “bornout” para talvez constatar de forma eufemista o desânimo do profissional da educação que se fechou para a aventura da vida.

Depois de uma longa caminhada, precisamos de um eixo condutor para entender esse todo, resgatar e fortalecer o nosso profissional e, com maturidade, encarar seu papel nessa travessia. Escolhemos a “Educação para o Pensar” e o Núcleo de Educação para o Pensar (Nuep) para nos assessorar e ajudar a promover a filosofia e cultivar a capacidade filosófica em cada educando. O programa “Educação para o Pensar” tem sua origem nas pesquisas realizadas pelo professor Mathew Lipmam, cuja preocupação era defender uma proposta educacional voltada intencionalmente para o desenvolvimento de uma maneira de pensar diferente nas crianças e jovens buscando um ensino voltado para o raciocínio que contribua para os múltiplos usos da linguagem, a discussão dessa linguagem, observações e inferências, para um pensar criterioso com bons argumentos. Para Lipman, a preocupação com a qualidade do pensamento deveria ser a principal atividade das escolas, não uma decorrência de outras atividades com preocupações distintas.

Hoje, como profissionais da educação, reconhecemos o que os antigos gregos já haviam contatado: que o ato de pensar, levado a sua essência, culmina na filosofia. Por isso nos propomos a transformar a nossa escola numa “comunidade de investigação”. E para viabilizar essa proposta em 2001 implantamos o programa “Educação para o Pensar”, que se inicia na rede municipal de ensino de Marau por intermédio do Nuep assim, a filosofia passa a integrar o currículo das escolas da educação infantil até o ensino fundamental de jovens e adultos.

Ao tornar a sala de aula uma comunidade de investigação, o educador passa a ser o mediador criterioso do acesso ao saber, o que permite ao educando ser questionador e promotor do conhecimento não apenas nas aulas de filosofia, mas em qualquer disciplina. Segundo Lipmam, o diálogo em sala de aula tem por finalidade encorajar os estudantes a empregar as ferramentas e métodos de investigação para que possam, competentemente,avaliar evidências,detectar incoerências, tirar conclusões válidas, construir hipóteses e empregar critérios.
A filosofia implica aprender a pensar sobre uma disciplina e, ao mesmo tempo, aprender a pensar autocorretivamente sobre o nosso próprio pensar. Nesse sentido, a filosofia, inserida na política educacional da SME de Marau, está contribuindo para uma educação reflexiva, dialógica e crítica, proporcionando uma educação de qualidade social.

Para tanto, o Nuep vem nos acompanhando desde o início de nossos trabalhos, primeiramente proporcionando formação aos educadores para que possam melhorar a metodologia de trabalho com os conteúdos de filosofia e, consequentemente, das outras disciplinas. Durante os anos de 2001 a 2003 todos os professores da rede de ensino participaram dos cursos de formação, num trabalho intensivo, que exigiu uma estrutura organizada da Secretaria de Educação. Concomitantemente aos cursos de formação aconteciam, e acontecem até hoje, as assessorias aos trabalhos realizados. O Nuep acompanha o desenvolvimento das atividades e promove espaços para avaliar e qualificar o trabalho, momento em que os educadores-mediadores podem relatar suas experiências, permitindo uma análise constante do processo de ensino e de aprendizagem.

Além disso, nossas escolas participam de eventos promovidos pelo Nuep, como o “Congresso de Alunos de Filosofia”, o qual conduz os alunos a um debate intensivo sobre um determinado tema durante o ano letivo e culmina num encontro entre as escolas que adotam o programa. Os educadores também estudam e participam do “Encontro de Professores de Filosofia”, o qual se destina a qualificar e socializar o trabalho desenvolvido nas escolas pelos educadores.

Percebemos, assim, que o ensino da rede municipal de Marau se desenvolveu significativamente com a prática filosófica presente em nossas ações educativas. Educadores e educandos despertaram o gosto pelo filósofo que estava guardado em cada um.


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Notas de fim

1, 2 e 3 Professoras da Rede Pública de Ensino. Prefeitura Municipal de Marau-RS.


Fonte: http://www.nuep.org.br/revista/n2/Educacao-para-o-Pensar-a-experiencia.php

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