terça-feira, 28 de abril de 2009

Ligações entre currículo oculto e violência escolar

Marisa Crivelaro da Silva

Cada escola tem registrado em seu projeto político-pedagógico o sistema de normas, critérios e valores que norteiam as relações interpessoais entre todos os sujeitos que interagem no espaço escolar; normas, essas, que existem para regular a convivência, tornando-a, também, objeto de aprendizagem.

O problema se instaura quando há dissonâncias entre o que prevê a teoria (PPP) e a operacionalização, no exercício da prática. Está escrito no documento qual a concepção de educação que cada escola assumiu como compromisso público para defender e praticar; definiu, também, o perfil de professor para atuar naquela instituição, bem como as formas como devem acontecer as relações afetivas entre professor/aluno. Entretanto, o currículo oculto de cada instituição evidencia formas diferenciadas de se fazer essa transposição teoria/prática. Cada professor, devido a seus traços de personalidade, sua capacidade de resiliência, sua forma particular de ser, reage diferentemente diante de atitudes de indisciplina de alguns alunos e é exatamente a partir dessas circunstâncias que poderão se desencadear os grandes e graves conflitos, resultando, possivelmente, em agressões verbais e até físicas.

Esse fato é facilmente observável no cotidiano escolar. Há professores que não apresentam problemas na organização do seu espaço pedagógico e são admirados e respeitados pelos mesmos alunos que se comportam de forma indisciplinada e arrogante com outros professores. Qual a diferença? O aluno é menos provocativo com um determinado professor e mais com outro? Com certeza, não, mas a forma como cada professor reage à provocação e como administra o conflito que se cria é que faz toda a diferença.

Essa habilidade ou inabilidade na forma de se relacionar, de resolver conflitos e encaminhar soluções de problemas disciplinares junto a instâncias superiores é que determina o quanto um professor é respeitado ou temido e odiado e, por conseguinte, vítima de agressões verbais e/ou físicas, porque alimentou os sentimentos de agressividade pela forma de gerenciar a situação posta. Esse jeito de lidar com os conflitos é um dos elementos que compõem o chamado “currículo oculto” e evidencia a concepção de educação e de liderança que cada professor tem. Ensinamos com nosso jeito de ser, de agir e de reagir. Somos referenciais para a juventude.

Diante dos desafios comportamentais dessa nova geração de jovens que frequentam as instituições escolares impõe-se, aos gestores, uma necessidade emergente: um tipo de capacitação especial ao seu corpo docente sobre estratégias para gerenciar conflitos de forma construtiva e modo de se reagir diante de uma situação de provocação. É um aprendizado que está se fazendo necessário diante das circunstâncias atuais e que não se aprendeu nos cursos de formação de professores.

Um outro aspecto do currículo oculto é a cultura organizacional que se cria a partir das ações dos gestores escolares. Há que se ter normas claras que regulem uma convivência sadia e construtiva e devem ser dadas a conhecer a toda a comunidade escolar, com plena conscientização de todos de que, se infringidas, os que descumprirem serão devidamente responsabilizados pelos seus atos.

Disseminou-se no meio educacional a ideia de que o limite da escola, no que tange a punições por desvios de conduta, esgota-se no simples aconselhamento e diálogo com o aluno e seus pais. A escola nada mais poderia fazer além disso. A origem dessa ideia que se propagou no imaginário popular apareceu há alguns anos, quando o órgão responsável pela aprovação dos regimentos escolares passou a questionar e reprovar textos de Regimentos que continham a suspensão como medida educativa para alunos que apresentassem problemas de indisciplina. Os documentos eram devolvidos às direções das escolas para que fossem reformulados, com a orientação de que não poderia constar o termo “suspensão” por não encontrar respaldo na legislação de proteção à criança e ao adolescente. Em caso de o aluno ser retirado da sala de aula, a escola deveria providenciar recursos humanos para atender esse aluno no recinto da escola. E até hoje, nos regimentos de muitas instituições, perdura essa normatização.

Nesse contexto, outro papel que fica questionado é o das famílias. O que cabe aos pais, então, se tudo é na escola que deve ser resolvido? Muitos pais apóiam as atitudes dos filhos e desmerecem os educadores e gestores. Quando chamados à escola, já chegam de espírito prevenido para questionar, duvidar e, muitas vezes, desmoralizar o professor, a proposta da escola e dar razão aos filhos. Esquecem a lição básica da Psicologia que explica que o adolescente, quando em grupo, por vezes olvida os valores com que foi educado na família para concordar e fazer o que o grupo incentiva – tudo em busca de aprovação. Em situações como essa, em que os pais sempre dão razão aos filhos, os mesmos sentem-se cada vez mais fortalecidos para continuar com a mesma conduta afrontosa e indisciplinada.

Não poderia resultar em algo diferente do que ora estamos presenciando e que a mídia vem divulgando com uma preocupante frequência. E quantos casos ainda ficam no anonimato?

Perguntas que não querem calar entre os professores:
  • Quem protege e defende os estudantes que vêm à escola para aprender e lutar por um futuro melhor? Com esses não há preocupação?
  • A legislação de proteção à criança e ao adolescente só é invocada para defender quem ultrapassa todos os limites da civilidade e se acha sempre vítima do sistema quando é punido?
  • Como formar uma geração de profissionais competentes, que sonhem alto e empreendam os melhores esforços para se destacarem nas áreas que optarem para exercer sua profissão, quando se tem que parar o desenvolvimento dos conteúdos para se ocupar daqueles que perturbam e comprometem o bom ambiente para os estudos?
Urge resgatar o poder de autoridade da escola, dos professores – responsáveis pela educação do ser humano – sob pena de se formar uma geração de pessoas sem limites, capazes de qualquer ato para satisfazerem seus interesses e vontades. Isso é nocivo para qualquer sociedade. É preciso criar uma nova cultura organizacional nas escolas que garanta, aos educadores, um espaço de respeito à sua dignidade enquanto pessoa e profissional.

Por fim, o currículo oculto de uma instituição revela se ali é um espaço onde se cultivam e difundem os valores:
  • Do respeito – entendido como caminho de mão dupla, em que é necessário respeitar para ser respeitado.
  • Da responsabilidade – traduzida pela competência e pelo comprometimento, importando-se em fazer bem feito o que precisa ser feito.
  • Na vivência da espiritualidade – forma de desenvolver a força interior, as potencialidades do ser, as emoções positivas.

Marisa Crivelaro da Silva é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e Docência do Ensino Superior, mestre em Educação, MBA em Gestão Educacional. Diretora do Colégio Marista Sant’Ana/Uruguaiana-RS, docente e coordenadora do curso Pedagogia da PUCRS/Campus Uruguaiana, Coordenadora da comissão de estágio supervisionado do referido curso.
Contato: criversil@gmail.com


Fonte:
JORNAL VIRTUAL GESTÃO EDUCACIONAL Ano 2 nº 109 - 28/04/09

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