sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mídia e a sedução sem encantamento

Desde os tempos mais remotos, a intenção de seduzir partia de um pacto. Seduz quem tem poder; é seduzido quem a ele se submete. Para o pacto vingar, algo de especial era prometido. A mediação se dava pelo "objeto de encantamento". Cleópatra bem soube conduzir a trama de seus desígnios para atrair Júlio César e Marco Antonio.

Durante séculos, o princípio esteve preservado e reforçado pela tradição literária em várias versões: o mito de Dom Juan, na matriz espanhola; a figura de Valmont, na vertente francesa, bem como a de Casanova, no modelo italiano. Até então, a sedução implicava a dominação sob o "império de Eros". A história da sedução se confundia com a dinastia dos libertinos que não dispensavam o requinte de conhecimento e de astúcia, ou seja, o jogo da sedução pressupunha um embate de inteligências. Todavia, uma trava brusca, no curso da modernidade, cortou o fluxo.

O novo perfil de sedução

À segunda fase da Revolução Industrial coube a tarefa de fascinar o Ocidente com o "mito do consumo". Para tanto, faz-se indispensável recuperar-se a etimologia da palavra "sedução", a fim de melhor se caracterizar o que se pretende aqui problematizar.

A palavra provém do latim seducere (se[d] + ducere). Sed, além de conjunção equivalente a "mas", atuava nos textos antigos como prevérbio, significando "separação", "afastamento", "privação"; e ducere queria dizer "levar", "guiar", "atrair". Em síntese, portanto, "seduzir" era o processo pelo qual se atraía para privar o outro da autonomia de si, sob a promessa de possibilitar-lhe a experiência do prazer pleno.

A sociedade de consumo montou a armadilha na qual a mídia assume o papel do sedutor, transformando-se na imensa vitrina onde ficam expostos os "objetos" do suposto desejo. Nela se mesclam o sublime e o grotesco, fazendo do real o palco para o pastiche e o fetiche. Um aspecto, entretanto, aflora como um dado novo, merecedor de destaque, porque totalmente ausente e impensado na história da sedução: o encantamento vazio.

No passado, como já foi salientado, a sedução calcava sua eficácia no fato de que permitia ao seduzido vivenciar a plenitude do prazer. Antes de ser descartado, o seduzido era atraído para o êxtase. Atualmente, dá-se o oposto. A sedução será tão mais eficiente quanto menos estiver atada ao êxtase. Neste caso, o que fascina é a segurança diante do já-sabido e, por isso, dominado, ou seja, é exatamente o contrário do que a antropóloga da USP, Esther Hamburger, afirmou no artigo "Formatos da intimidade", publicado no suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo (24/2/02).

A propósito do modelito midiático (reality show), a autora afirma: "Essa sensação de tocar o distante e desconhecido, torná-lo familiar, domesticá-lo e, principalmente, atuar sobre ele, faz o fascínio do reality show". Creio que uma análise dessas faria o antropólogo Lévi-Strauss encontrar no suicídio a única forma digna para uma vida à qual emprestou tanto esforço teórico.

Sinceramente, o que há de "distante" e "desconhecido", ante pessoas comuns, banais e reprodutoras do que, a todo instante, a maioria da população está exposta nas cenas reais de suas vidas? O que há de incomum nas bobagens até então exibidas? Afinal, a que programa a ilustre antropóloga assiste? Bem, mas no afã de teorizar profundamente sobre o "nada", ela ainda lapida o diamante derradeiro: "O desafio para a dramaturgia contemporânea talvez se situe aqui, na fronteira avançada pelo reality show".

A democracia abriga tudo, inclusive o direito de dizer aquilo que jamais deveria ter sido pensado. Quanto a isso, estamos de acordo, a fim de não ameaçarmos a democracia. O restante, porém, fica por conta da ingenuidade crítica de que parece padecer o "conhecimento" proposto nos últimos tempos por alguns segmentos da chamada "antropologia urbana".

Morte da imaginação

Deixando de lado a discussão com o conteúdo do artigo citado, o que efetivamente interessa ao tema deste escrito é demonstrar a fixação de um "formato midiático", cujo encargo maior consiste em difundir a sedução destituída de qualquer encanto. Nisto reside o jogo perverso, esquadrinhado na moldura da mídia, cultuando o "non sense" com o qual a maioria se identifica e sente alívio, em razão de uma vida também desprovida de maiores expectativas. A sedução sem encantamento propõe, sem disfarces, a esfinge sem enigma para decifrar. A esfinge, no caso, é o que está dado a "ver". Não encanta, porque nada envolve mistério. A polêmica outrora gerada pelo "Mr. M", na verdade, trazia essa questão: a morte da imaginação. Retira-se do receptor o espasmo último de fantasia. Como desfecho residual, fica ao receptor a realidade crua e desnudada daquilo que é exibido para não suscitar nenhum foco de reflexão ou de engendramento lúdico. É nessa sucessão ininterrupta que se vai consolidando a "cultura do sem-sentido". Basta ver e ver o já-visto.

O parágrafo anterior pretende deixar claro que nada deve profanar a enganosa tranqüilidade que firma um "sem-destino" liberto de transgressões e rebeldias. A recompensa é a de sempre: o sonho do sucesso, mesmo sendo anônimo e isento de mínima virtude. Essa é a esperança com a qual milhares de famílias empurram suas "crias" para a vitrina perversa. Dessa mesma matriz, surgem "lolitos" e "lolitas", prontos para ilustrar as passarelas do mundo. Em seguida, realimentam a "indústria do sexo", ao desnudarem-se em nome da arte, realizando "ensaios fotográficos". Depois de sugados até a última gota, e recheados de dinheiro, descobrem que o cérebro ficou para trás. Dinheiro sem imaginação é como transa compulsiva sem gozo. Assim funciona a máquina produtora da sedução sem encantamento. Ela é fria, calculista, dotada de astúcia. No novo formato, só há lugar para uma inteligência. Sedução, portanto, virou fraude. Todos que dele tomam parte blefam com o sentido da vida. O consolo, se algum sobrevive, é o de não se sentir peça do esquema, não por fundamentos moralistas (também esses são perigosos e suspeitos), e sim por mera dedução de quem faz da vida uma experiência própria e proveitosa, sem ter de amargar o "dia seguinte"...

Por Ivo Lucchesi*


*Ivo Lucchesi - Professor de Teoria da Comunicação, ensaísta, mestre em Literatura Comparada pela UFRJ e doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, participante do programa Letras & Mídias, exibido mensalmente pela UTV.


Fonte: Observatório da Imprensa nº 162

http://br.geocities.com/mcrost11/oi005.htm


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