domingo, 26 de abril de 2009

Os cursinhos correm para mudar

A nova prova do MEC, que substituirá o vestibular em
centenas de universidades já neste ano, obriga os
cursinhos a reformular rapidamente seus negócios


Camila Pereira e Renata Betti

Oscar Cabral

Os maiores na frente
Cursinho pH, no Rio: a impressão mensal de apostilas facilita mudanças nos grandes grupos



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Os cursinhos que, há seis décadas, preparam os estudantes para o velho vestibular estão diante de um duro desafio: reformular rapidamente seus negócios para adaptar-se ao novo Enem, prova feita pelo Ministério da Educação (MEC) que, já neste ano, substituirá o vestibular em mais de 500 universidades brasileiras. Para a maioria, as mudanças vão implicar uma verdadeira transformação em duas frentes essenciais do negócio: a produção de material didático e o treinamento dos professores. Juntas, elas representam até 40% dos custos fixos de um cursinho. As adaptações, não há dúvida, vão encarecer ainda mais essa conta. Um grupo como o Objetivo, dono de uma das cinco maiores redes de cursinhos do país, calcula que terá de desembolsar neste ano 10% além do previsto por causa do novo Enem, uma prova mais voltada para o raciocínio lógico, com questões que entrelaçam diferentes áreas do conhecimento, e menos para a memorização de uma vasta quantidade de conteúdos e fórmulas, como ainda ocorre no vestibular. Outros cursinhos se viram forçados a recrutar dezenas de pessoas para reescrever as apostilas e treinar os professores de modo que consigam preparar os alunos para resolver a nova prova – caso do COC, um dos cinco maiores do setor. "Estamos reformulando nosso sistema de ensino", resume o diretor Tadeu Terra. "Quem não fizer isso será engolido."

Um grande complicador é o tempo exíguo para executar tamanha mudança. Normalmente, um processo como esse – que requer uma reestruturação do plano pedagógico – consome mais de um ano. Como só restam cinco meses até a aplicação da prova e os alunos ainda precisam ser treinados para ela, será necessário fazer o mesmo até julho, em apenas três meses. O prazo curto vai exigir um aumento na carga horária das aulas, para que todo o conteúdo seja passado a tempo. Nessa corrida, levam vantagem aqueles cursinhos que já haviam começado a se reformular antes de o MEC anunciar o novo sistema. "Estamos nessa direção há cinco anos", diz Carlos Eduardo Bindi, diretor da rede Etapa. Ele e outros, como o próprio COC, miravam, na realidade, o velho Enem, que já é adotado na admissão a cerca de 500 faculdades do país. Também se adaptavam a vestibulares como o da Unicamp, menos afeito à decoreba. Como ambos os exames mantêm semelhanças com o novo Enem (ao menos conceitualmente, uma vez que falta ao MEC divulgar muitos detalhes sobre a prova), quem já ajustava sua linha pedagógica ficou em situação mais confortável. Diz o consultor Mateus Prado: "Esses são os cursinhos mais bem posicionados para ganhar terreno". Eles estão em melhores condições para brigar por alunos num mercado que é extremamente sensível à novidade. "Para um cursinho prosperar, deve dispor de capacidade para empreender mudanças radicais rapidamente", sintetiza Prado.

Marcio Lima

Medo da extinção
Jorge Curvelo, dono de um cursinho em Salvador: "Os pequenos temem perder ainda mais mercado"

No atual cenário, as grandes redes, por uma questão logística, estão mais bem posicionadas para se ajustar à nova realidade. As cinco maiores, com cursinhos esparramados pelo país inteiro, possuem gráfica própria, nas quais o cronograma de impressão já é mensal. Somando-se todo o material produzido numa dessas gráficas por mês, chega-se a meio milhão de apostilas. Os cursinhos menores, que não contam com tal estrutura, recebem o material apenas uma vez por ano. Sem escala para a impressão, não seria economicamente viável fazê-lo mensalmente. "Só vai dar para adaptar nosso material em 2010", admite Jorge Curvelo, diretor do Quanta, cursinho de 250 alunos em Salvador.

Outro fator que pesa em favor dos grandes é o fato de não dependerem de um negócio só. Além de escolas e faculdades, tais grupos ganham muito dinheiro com a venda do que é conhecido no mercado como "pacote pedagógico". Entenda-se por isso material didático, treinamento de professores e consultorias prestadas a cursinhos menores, negócio que já supera a receita proveniente das próprias matrículas. Na prática, significa que, ainda que o lucro com os cursinhos encolha por ora, uma vez que precisarão desembolsar mais dinheiro para dar conta das mudanças, os grandes grupos apresentam condições bastante favoráveis para superar esse momento. Mais capitalizados, podem, por exemplo, bancar a decisão de não repassar o prejuízo para as mensalidades – o que periga acontecer com os concorrentes. Diz Jorge Curvelo, do Quanta, que faz coro com donos de cursinhos médios e pequenos: "A verdade é que estamos com medo de ser extintos".

Fotos Roberto Setton

Mudança antecipada
Carlos Bindi, diretor do Etapa: esse e outros cursinhos já haviam feito ajustes para atender às exigências do velho Enem

Nos últimos anos, o mercado brasileiro de cursinhos, que faturou 1,2 bilhão de reais em 2008, vem se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos grupos. Sete grandes redes detêm hoje mais de 60% das 400.000 matrículas. Esse processo de concentração começou na década de 90, momento em que explodia o número de vagas em universidades particulares. Com o ingresso no ensino superior mais acessível, a procura pelos cursinhos despencou 40% em quatro anos – e não voltou a subir. Trata-se, portanto, de um mercado estagnado para a maioria das empresas e muito competitivo, em que apenas as grandes redes estão conseguindo realmente crescer. Na competição, uma de suas vantagens tem sido o investimento em marketing. No período de provas, essas redes fincam estandes na porta das maiores universidades, com o objetivo de atrair os alunos que fracassam na primeira tentativa. Só isso consome algo como 15 milhões de reais de cada rede. Outra estratégia foca nos melhores estudantes. Tais grupos chegam a promover simulados nacionais para rastreá-los. Depois, distribuem bolsas de estudos para contar com eles em seu corpo discente. "Nenhuma propaganda é tão eficaz nesse mercado como emplacar os primeiros lugares num vestibular", diz Márvio Lima, diretor da rede pH. O fato de possuírem escolas de ensino médio às centenas também é favorável às redes. Cerca de 80% dos alunos que se formam no ensino médio seguem na mesma rede de ensino caso ela disponha de cursinho e haja a decisão de frequentá-lo.

Os cursinhos pré-vestibulares são um fenômeno brasileiro da década de 50, quando a concorrência por vagas nas universidades se acirrou. Desde que surgiram, eles sempre se concentraram em ensinar macetes das provas e em treinar os alunos para se sair bem nesse tipo específico de concurso. Frases para fixar a tabela periódica, por exemplo, ajudaram gerações a passar no concurso. Como muitos dos vestibulares ainda demandam alta dose de decoreba, técnicas de memorização, à base de músicas e rimas, são até hoje comuns. Embora muito da essência dos antigos cursinhos permaneça, do ponto de vista dos negócios eles se profissionalizaram. Foi ainda na década de 70 que alguns empresários do setor vislumbraram a chance de se expandir para o ensino básico, depois para o ramo de venda de apostilas e serviços e, finalmente, na década de 90, para o prolífero mercado de ensino superior. Os cursinhos, no entanto, nunca ficaram de lado. Com classes lotadas de alunos e uma infraestrutura simples, oferecem margens de lucro de 20%, em média, segundo um estudo da consultoria Hoper. É o dobro das margens obtidas com escolas de ensino médio. Motivo mais do que suficiente para que os cursinhos, agora, corram para se adaptar ao novo Enem.

Com reportagem de Marana Borge



Fonte: Revista Veja - Edição 2110 - 29 de Abril de 2009.

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