terça-feira, 19 de maio de 2009

O futuro é duvidoso

Ao longo dos tempos muitos sonharam o amanhã como o ideal de uma vida perfeita


por Marcia Tiburi


Antigamente se usava a frase “nunca se sabe o dia de amanhã”. É curioso como essa expressão sumiu de nossas conversas e, desse modo, do imaginário coletivo sempre expresso nos temas cotidianos. O “dia de amanhã” era o jeito de falar sobre algo concreto, mas sobre o qual nada se sabia. O “dia de amanhã” era mais do que o dia que vem depois do “dia de hoje”. Era o cuidado com o tempo vindouro.


O "dia de amanhã” representava um conceito de futuro de que não dispomos mais desde que acreditamos no progresso tecnológico e do capital. Com ele definia-se a esfera da vida do que chamamos “porvir”: o que ocorrerá. No passado as pessoas acreditavam que era preciso uma preparação para esse tempo com comportamentos e ações que levassem a bons resultados. O futuro dependia da sorte, mas também do projeto. A relação com o futuro definia a construção de algo que seria importante “um dia”. Tal pensamento era possível porque havia uma perspectiva no sentido técnico: um olhar que partia de um ponto e queria alcançar outro. Hoje, podemos questionar se não perdemos justamente o ponto ao qual queremos chegar. Perguntar “aonde queremos chegar” com a vida que levamos hoje faz parte do desejo de uma vida justa.


O futuro era algo para o qual era preciso preparação: para o casamento, o trabalho, a vida social. A educação, antes de ser disciplina do corpo e do espírito, era preparação para tudo isso. Hoje, ninguém pensa em se preparar. Antes da preparação, privilegia-se hoje a competição geral para alcançar um lugar, se possível o primeiro. O motivo da corrida ­ de onde vem nossa “correria” cotidiana ­ é, porém, incerto para cada corredor.


O progresso decadente


O futuro, espécie de idéia concreta, nos escapa quando surge a idéia abstrata do progresso. O ideal do progresso não apenas substituiu a percepção do futuro, mas reprimiu sua potencialidade. Sem pensar no futuro, aderimos cegamente à decadência do progresso sem perceber sua contradição: que dele também surja miséria e violência. A idéia de progresso nos dá um lucro psicológico maior, por isso abandonamos o pensamento sobre o futuro. Desistimos dele acreditando que, com o progresso, superamos todo o mal que pode nos ocorrer no futuro.


O futuro virou uma projeção fantasmagórica, como vemos nos filmes de ficção científica que brincam com nosso imaginário sobre o tempo que virá. É um jeito ingênuo de dominar o medo do futuro. A tecnologia que nos faz superar a decadência física e a doença mostra que podemos ser superiores ao que no futuro é um dado certo: a morte. A crença de que seremos superiores a ela é vendida com o mito do progresso. Promessa comprada e, necessariamente, jamais cumprida.


Utopia


Ao longo dos tempos muitos sonharam com o futuro como ideal de uma vida perfeita. Na qual toda miséria desapareceria sob a ordem construída como plenitude material e espiritual. Chamaram u-topia ao que “não tem lugar”, o mundo de sonho que não poderia ser encontrado em lugar e tempo conhecidos. Na cultura judaico-cristã, o mito de uma utopia passada, o paraíso perdido onde Adão e Eva viveriam em paz com a natureza e consigo mesmos, definia o desejo de uma vida sem conflito. Platão, na República, desenhara o mesmo desejo de uma sociedade baseada na vida justa. Thomas More, que cunhou o termo, escreveu sua Utopia pensando na ausência de violência. E, no século 19, enquanto Charles Fourier imaginava uma utopia de prazeres físicos, Karl Marx defendia que a evolução da história levaria a uma inversão do poder para favorecer os dominados. Ernst Bloch, pensador judeu-alemão que morreu em 1977, pensava a utopia como uma espécie de sonho diurno que modela a vida social, o sentido do que nos aguarda. Enquanto aqueles definiam suas utopias como mapas no qual se sabe o local certo do tesouro, Bloch pensava o futuro como abertura para o novo, como quando se ama um filho que nasce para a felicidade independentemente de seus dotes intelectuais ou estéticos.


Profecia


Antonio Vieira, no século 17, escreveu uma curiosa História do Futuro. Nela o futuro é matéria de profecia. E toda profecia é mais que promessa, é julgamento sobre o que virá. Importa menos a realização de sua profecia sobre as glórias de Portugal que o conceito de futuro como tempo que está além da esperança. Futuro é o que ocorrerá em função do que se constrói no presente. A profecia diz respeito a uma aposta que se faz sobre o incerto, sustentando que há algo de certo no incerto. O futuro é lampejo do que projetamos.


Depois da Segunda Guerra, um filósofo japonês chamado Nishitani falou de uma “vontade voltada para o futuro” que deveria orientar nossa relação com o presente partindo do passado. Hoje é necessário perguntar o que sabemos do futuro. Diante da crise com a natureza, diante da miséria e da violência crescentes, será que não seria justo voltarmos a pensar no dia de amanhã que todos iremos partilhar? Basta olhar para o passado e o presente para imaginar o certo no incerto.


Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT.


Fonte: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/056/filosofia/conteudo_256699.shtml?pagina=1

5 comentários:

Marco disse...

Não sei por que ao ler este post da Marcia Tiburi me lembrei de Alain de Botton, principalmente do livro "As consolações da Filosofia", mas enfim ...

abraços literários
Marco

Marco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Valdeir Almeida disse...

Marise,

Muito obrigado pela compreensão. Mas, sempre que possível estarei aqui.

Abraços e sucesso!

Marise von disse...

Marco,

Fico feliz em receber a sua visita, senti a sua falta. É uma honra receber a sua visita.

Abraços filosóficos,
Marise.

Marise von disse...

Valdeir,

Agradeço a visita e desejo muito sucesso
no seu novo caminho.

Abraços filosóficos,
Marise.

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