segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma Mona áspera

Claudio de Moura Castro claudio&moura&castro@cmcastro.com.br


"Na educação, apesar dos resmungos de
alguns, muito pode ser feito sem que sejam
necessários recursos extravagantes".


A Mona Lisa resplandece no Museu do Louvre. Sua xará, Mona Mourshed, assina pesquisas na famosa empresa de consultoria McKinsey. Com seu sorriso enigmático, a primeira Mona é suave, é lisa. Já a segunda é áspera, pelo impacto dos seus estudos. Seu ensaio sobre educação ("Como os sistemas escolares de melhor desempenho chegaram lá") é um admirável sumário dos resultados de centenas de trabalhos que se acumulam nos últimos anos. Embora seja voltado para países desenvolvidos, suas apresentações no Brasil tiveram grande repercussão.

Ilustração Atômica Studio


Vejam que situação curiosa. Lendo o ensaio, não discordo de nada. Mas temo que tenha causado mais mal do que bem nas terras tupiniquins. Como assim? Um remédio potente precisa ser receitado com muito cuidado e para o paciente certo. A poção de Mona não serve para o Brasil. Isso porque o tema do primeiro capítulo polariza toda a mensagem: "A qualidade de um sistema de educação não pode exceder a qualidade de seus professores". Nas discussões das quais tive notícia, o debate não foi além desse capítulo. Considerando que a educação da maioria dos estados americanos não está à altura da sua extraordinária riqueza, Mona lembra que seus futuros professores provêm do terço mais fraco dos graduados de suas high schools. Em contraste, Coreia e Finlândia recrutam os melhores graduados e têm ótimos resultados. Para quem já tentou quase tudo, falta atrair excelentes professores.


Quando esse resultado aterrissa no Brasil, registramos que a grande maioria dos nossos professores é também recrutada entre os mais fracos do ensino médio – além de receber péssima formação. Porém, não há dinheiro para pagar salários muito mais elevados. Mesmo que o fizéssemos, seriam trinta anos para renovar o quadro, já que eles são estáveis. Tal diagnóstico é uma bomba atômica de pessimismo. Estamos condenados, pois o ensaio começa com o epitáfio: bom ensino só com excelentes professores. Mas vejam o segundo capítulo: "A única maneira de melhorar os resultados é melhorar a instrução". Contradiz o primeiro! Ou seja, com os mesmos professores é possível obter muito mais. De fato, traz conselhos para tornar mais produtivos os professores existentes. O problema é que essa mensagem ficou obliterada pelo impacto derrotista do início.


Lemos no segundo capítulo: "O papel da escola é assegurar que quando o professor entra na sala de aula tenha todos os materiais disponíveis, junto com o conhecimento e a vontade de melhorar o ensino". É preciso ajudar o professor a empregar as práticas apropriadas, motivá-lo e fazer com que conheça suas deficiências. Igualmente proveitoso é selecionar para a direção da escola os professores mais entusiasmados, criativos e com capacidade de liderar. É necessário ter programas explícitos e livros excelentes. A formação dos novatos se completa dentro da sala de aula, sob a supervisão de mestres experientes que sabem manejar a classe e usar os materiais de ensino.


De fato, é possível fazer bastante em pouco tempo. Em alguns municípios de Minas Gerais, entre 2007 e 2008, os testes de alfabetização (na 2ª série) mostraram uma queda substancial na proporção de alunos com desempenho baixo ou intermediário (ou seja, que não aprenderam a ler). Há casos espetaculares. Em Ouro Branco, por exemplo, uma escola baixou de 42% para 10%. Em Maravilhas, de 43% para 1%, e em Itabirito, de 23% para 0%. Isso aconteceu em municípios participantes do sistema de gestão da Fundação Pitágoras – sem trocar professores! Colocando todos a remar na mesma direção, definindo e dando foco às prioridades, todos colaboram para identificar os problemas, resolvê-los e valorizar os sucessos. Gestão é isso.


Essa é a leitura correta do ensaio de Mona. Não adianta sonhar com professores finlandeses e ser engolfado pelo pessimismo. Na educação, apesar dos resmungos de alguns, muito pode ser feito sem que sejam necessários recursos extravagantes. De fato, como mostra o artigo, gastar muito não assegura boa educação. Se houver a "Grande Reforma da Educação Brasileira", será o somatório dos ínfimos gestos que corrigem erros do passado e introduzem práticas eficazes. Será fruto da insistência obsessiva em melhorar o "feijão com arroz" da sala de aula, ano após ano. Na tradução zen, "todo dia melhorar um pouco, todo dia fazer um pouquinho melhor".



Claudio de Moura Castro é economista


Fonte: Revista Veja - Edição 2112 - 13 de maio de 2009.

Um comentário:

Wolf Edler disse...

Realmente muito se pode fazer até que alguma mudança conjuntural possa tornar atrativa às mentes mais privilegiadas a carreira do magistério, especialmente o estabelecimento de salários não apenas dignos, mas realmente atraentes. Então os cursos de licenciatura e os concursos para o magistério (única maneira decente de preenchimento dos cargos) seriam buscados e vencidos pelo terço superior em desempenho acadêmico dos alunos do ensimo médio, como era no meu tempo, na década de 60 do século XX. Até lá, as Secretarias de Educação (pois estou falando do ensino público, mas o particular também tem mazelas) poderiam estabelecer convênios com as Universidades para reciclagem permanente dos professores. Algo como o Paulo Renato e o Serpa vão fazer em São Paulo. O importante é uma ação continuada por décadas a fio, dando murro em ponta de faca sem esmorecer, calcada em pequenas atitudes, procedimentos e comportamentos, principalmente um espírito e uma disposição de melhorar, um entusiasmo pelo magistério, um deslumbramento pelo conhecimento, um idealismo em lutar pela melhoria do povo que só a educação é capaz de promover. Tudo o mais: saúde, prosperidade, habitação, bem-estar e, no final das contas, felicidade, decorre do nível de educação do povo, que é capaz de ações no sentido de obter maior igualdade social. Não se pode desanimar. Tem-se que insistir, insistir, insistir... Contra tudo e contra todos, sem descanso, a vida toda. Assim é que se chegará lá.

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin