segunda-feira, 29 de junho de 2009

Adolescência: etapa ou estado?*





Neste texto, Rolando Martiñá reflete sobre a adolescência, distinguindo-a como etapa e como estado. Faz referência à sociedade “adolescentizada”, na qual muitos adultos comportam-se como eternos aprendizes da vida, e reclama a necessidade de reverter essa situação para que os jovens possam contar com a orientação de adultos consistentes, que lhes dêem outros exemplos, outros limites e outras regras diferentes das de seus pares.

Por Rolando Martiñá**

Tradução: Adriana Vieira


Se é certo que não se tem 15 anos mais que uma vez na vida, também é certo que as questões que se colocam nessa idade podem reaparecer em outras. Por exemplo, situações de crise que nos fazem regredir a esquemas prévios de comportamento ou o fato de que nem sempre fazer aniversário é o mesmo que amadurecer.
Queremos dizer que é possível distinguir entre a adolescência como etapa evolutiva e a adolescência como estado. Ou seja, como estado de ânimo. Como forma de nos relacionarmos com os demais, de perceber a realidade, de tomar decisões sobre ela.

Desta perspectiva, poderíamos dizer que as sociedades modernas atuais se “adolescentizaram” em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque é bastante notório que muita gente, de qualquer idade, pretende parecer adolescente e age como tal, não só ao imitar modas e costumes, mas também ao pretender se comportar como um eterno aprendiz da vida, quando já se está na idade, pelo menos, de dar algumas lições.

Oscilações extremas de estado de ânimo, desinteresse pelas consequências de seus atos, falta de perspectiva a longo prazo, emoção à flor da pele, busca de sensações imediatas são alguns dos traços comuns do aprendiz, que costumam causar, em quem já não deveria mais tê-los, um ar desconcertante e algo patético. Sobretudo, aos olhos dos autênticos aprendizes.

Em segundo lugar, porque o período da adolescência se expandiu muito se comparado com o século passado, sem ir muito longe. Isso se deve a diversas causas, nem todas negativas. Em grande parte, a permanência nessa etapa se deve ao fato de que, ao contrário do que acontecia em outras épocas, já não é tão certo que os filhos se constituam rapidamente em força de trabalho. E, simultaneamente, as possibilidades educativas também se expandiram como nunca na história – obviamente, falando de um modo geral.

O paradoxo, contudo, é que os adolescentes necessitam dos adultos para crescer bem, ainda que entrem em confronto com eles, os depreciem ou os ignorem. Necessitam de adultos consistentes, que não se deixem derrotar facilmente por eles, nem por qualquer imposição massiva da cultura global. Necessitam de outras palavras além das de seus pares, apesar de estas também serem muito necessárias a eles. Outros exemplos, outros limites, outras regras. E muitas vezes não as encontram.

Embora seja bastante difícil determinar quando e como, parece que a busca por melhorar essa situação está se convertendo em um dos desafios socioculturais de nosso tempo, pelo menos para quem, como nós, se ocupa da saúde, da educação e das interações humanas em geral. Alguns já estão nesta busca e esperamos que muitos outros se juntem a ela.




* Texto adaptado de "Adolescencia y salud", ed. Tinta Fresca, 2006, co-autoria de Rolando Martiñá soy co-autor.

* Rolando Martiñá é professor, licenciado em Psicologia Clínica e Educacional. Pós-graduado em Orientação Familiar, convênio Fundação Aigle-Instituto Ackerman de Nova York. Membro do Programa Nacional de Convivência Escolar, do Ministério de Educação da Argentina. Conselheiro familiar e de instituições educativas.



Fonte: EducaRede
Veja a imagem em: www.apeejosefalcao.net/files/index.php

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