segunda-feira, 22 de junho de 2009

O professor morde a realidade (paulo Ghiraldelli Jr. )

(Fonte da imagem: www.morcego.blogger.com.br )



O professor é um maníaco ou não é nada. O professor é um alienador ou não serve. Essas duas normas precisam ser observadas, caso contrário, não temos educação.
O professor é um maníaco, pois entra ministro da educação e sai ministro, entra secretário e sai secretário, entra governo e sai governo e nada melhora a condição de trabalho e salário do professor, mas ele continua lá, firme, com mania de ensinar.
O professor é um alienador, pois ele precisa alienar as crianças e jovens de uma situação de “monólogo” para vinculá-los a uma situação de diálogo; deve fazer os estudantes atravessar a ponte do saber que possuem para entrar no ambiente dos saberes que a cultura universal
abriga. E isso, a despeito das “pedagogias descabeladas” que algum novo burocrata da educação quer lhe enfiar goela abaixo.
Essa postura de maníaco e de alienador é que garante ao bom professor que ele resista à campanha de difamação que criam contra ele, exatamente quando divulgam pesquisas dizendo que ele é mal formado, sem divulgar junto disso sua história: quanto é seu salário, em que condições ele se formou e como que ele consegue trabalhar na escola pública abandonada pelo Estado. Aliás, o Estado só aparece para jogar trabalho burocrático sobre ele, e fingir que lhe dá bônus, quando apenas cria mecanismos de falsa premiação que, na verdade, são mecanismos de punição por faltas não cometidas.
Politicamente o professor enfrenta um governo federal que transformou o piso salarial em teto, em algumas regiões, e em outras apenas colocou um piso para municípios sem recursos. Cultural e ideologicamente o professor enfrenta a Revista Veja, que visa destruir seus heróis, como tem tentado fazer – felizmente sem êxito – com Paulo Freire, ou simplesmente colocar uma campanha para abaixar seu salário, dizendo que salário não melhora a condição intelectual do professor.
Na parte técnica, tem de enfrentar tipos como Gilberto Dimenstein, que parecem bem intencionados, mas que “não sabem das coisas”. Por esses dias o jornalista divulgou uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (encomendada pelo Grupo Positivo?) dizendo que os professores não sabem ensinar matemática, e que isso era devido à falta de “metodologia” nos cursos de pedagogia. Ora, nós todos sabemos que o problema do ensino de matemática e ciências não é este, mas é, sim, um velho drama: a cultura brasileira não valoriza entre as crianças esse tipo de saber, e joga para o magistério – por uma série de fatores – os que menos gostam dessas disciplinas, ou melhor, os que menos gostam da cultura em geral.
Novamente, a questão salarial é o peso central, que faz com que o magistério tenha gente menos apta. Melhorando salários, melhoramos o nosso exército de professores. É assim em todo e qualquer país. Pedagogia é algo que só vinga se os professores ganham bem e são bem formados. Fora disso, a pedagogia tem muito pouco a fazer. Aliás, quanto a isso, nem mesmo a “pedagogia de Paulo Freire” pode lutar. Quando Freire pensou em uma pedagogia eficaz mesmo em condições de pobreza, ele a imaginou motivada por uma situação política de renovação ou revolução, mas não no contexto do marasmo político.
Nessa luta cotidiana, o professor que está na sala de aula enfrenta a violência. Há dados que mostram que 80% dos professores do Estado de São Paulo já foram agredidos ao menos uma vez em sala de aula – agredidos fisicamente! Por alunos!
Mas, a despeito disso tudo, o professor continua seu trabalho, pois é maníaco. Ele aliena, pois quer fazer a educação se efetivar segundo a etimologia da palavra, que tem a ver com “puxar pelos cabelos”, arrancando o aluno de uma situação para elevá-lo para outra, em uma acepção, e também tem a ver com “promover o que há no interior do aluno”, em outra acepção – pois a palavra educação vem de educare e educere.
Neste dia do professor, em 2008, eu aponto para cada herói da sala de aula no Brasil e digo: vocês devem continuar, pois o ministro e a mídia passam, e vocês sempre ficarão. Vocês mordem a realidade, os outros, seus detratores, mordem a si mesmos.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofoCEFA, Centro de Estudos em Filosofia Americanahttp://www.filosofia.pro.br/

Fonte: http://fundamentosfilosoficosdaeducacao.blogspot.com/

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