terça-feira, 16 de junho de 2009

Um olhar reflexivo, por Cleia Rení Fortes Jagmin*

O fracasso escolar, as dificuldades de aprendizagem, os diferentes tipos de agressão dentro da escola e a insatisfação dos docentes, que permeiam o cotidiano das escolas, estão denunciando a falência do sistema educacional.

Surgem propostas, novos olhares se lançam sobre a “vítima”, o aluno que não aprende, que no caso é o sintoma mais gritante do problema social que está envolvendo a todos nós.

Cabe, aí, uma reflexão, aprender envolve uma dualidade (professor/aluno) muito interdependente. Se o aluno não aprende, ele está demonstrando que posturas devem ser revistas. Quem tem melhores condições de analisar o fracasso é o professor, pois ele tem toda uma turma como parâmetro, ou outras turmas, no caso das séries finais.

Fala-se do salário, da falta de profissionais, de sala com muitos alunos, da pouca ou nenhuma qualidade dos prédios como culpados. Está na hora de olhar não só o professor, que está tão infeliz quanto o aluno. É preciso analisar onde nós, professores, estamos falhando no nosso fazer pedagógico.

Não estou buscando culpados, estou propondo um olhar reflexivo para as duas maiores vítimas: aluno e professor. Acredito que tal olhar deva começar nas escolas.

Sei que é extremamente difícil aceitar que não somos infalíveis, mas será muito saudável buscar, dentro de nós mesmos, o quanto os nossos dissabores profissionais estão nos tornando amargos a ponto de não conseguir-se um olhar humanizado para alguns de nossos alunos – justamente os que mais precisam de visibilidade – os que fracassam.

O aluno traz para a escola todas as dificuldades herdadas de seu meio familiar e social: o desemprego dos pais, pai/mãe que não o enxergam (por negligência, por excesso de problemas, por exaustão, por situação de drogadição, por falta de comida para colocar à mesa, por cuidarem de netos, de pais e outros parentes idosos ou não, porque os espaços de habitação são ínfimos e por tantas coisas mais que tornam a todos sobreviventes, sem prazer e sem perspectiva). Traz, muitas vezes, significativa distorção idade/série por todos os motivos citados, como uma marca pessoal, difícil de lidar. Sabemos que poucos têm como motivo da reprovação causas orgânicas.

E o que eles encontram na escola? Como a escola os percebe (recebe)?

Será que seus professores estão conseguindo ver além da aparência refletida numa agressão, num não saber a tabuada, no não conseguir se alfabetizar e tantas outras coisas. O aluno é o reflexo de seu meio familiar, seu vocabulário e suas ações exteriorizam o que ele vive em casa ou em seu meio mais próximo.

É preciso parar, refletir. Será que eu, professor, não estou contribuindo para tornar ainda mais duro o dia a dia de meus alunos? Estou conseguindo um espaço para ouvi-los, consigo me imaginar vivendo o seu cotidiano? Qual seria a minha reação se vivesse onde e como eles vivem?

Acredito que abrir espaço para pensar, dialogar, “deixar falar a voz do coração” é muito mais fácil e efetivo do que registrar ocorrências ou chamar os pais para dizer que o filho está impossível. Eles já sabem, mas, como todos os pais, não querem que falem mal de sua criação. É necessário abrir as escolas, primeiro para que os professores falem de suas angústias, de coração desarmado, valorizando seus acertos, compartilhando seus medos e trocando ideias, para valorizar o que está certo, reformular posturas, ver que os colegas podem ajudar, segundo, trazer os pais, suas mazelas, seus medos, suas dúvidas, ouvi-los, como parceiros, buscar saídas para todos, resgatando o papel da escola e do educador.

Se tal não acontecer, acredito que, se está ruim, ainda pode piorar muito!

*Pedagoga da rede estadual de ensino


Fonte: Jornal Zero Hora - nº16002 - 16 de junho de 2009.

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