terça-feira, 7 de julho de 2009

Muito além da piada

Professora de Uberlândia transforma caricaturas e charges em material didático para analisar fatos históricos em aulas de 8ª série

Paulo Araújo

Luciana projeta para a turma a montagem em que Bush usa bigode de Hitler e a charge animada: humor e imperialismo. Foto: Valter de Paula

Luciana projeta para a turma a montagem em que Bush usa bigode de Hitler e a charge animada: humor e imperialismo. Foto: Valter de Paula

Em setembro do ano passado, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten estampou em suas páginas 12 charges que mostravam o profeta Maomé em situações pouco ortodoxas. Numa delas, o fundador do islamismo pedia desculpas a um mártir na porta do paraíso porque as virgens estavam em falta no local. A publicação do material indignou o mundo árabe de tal modo que, entre outros incidentes, uma multidão ensandecida incendiou a embaixada da Dinamarca em Beirute. "Meu sonho é que alguém queira me matar por causa de uma charge", brincou o cartunista carioca Jaguar que nos anos 1970 desenhou Jesus Cristo na cruz dizendo a uma lasciva Maria Madalena: "Hoje não, estou pregado".

A charge, como se vê, é uma forma de manifestação artística extremamente sarcástica e ao mesmo tempo carregada de ideologia. Na imprensa nacional, é tradição comentar temas diversos por meio do humor gráfico. Durante a Segunda Guerra, por exemplo, o paulista Belmonte, pseudônimo de Benedito Bastos Barreto (1896-1947), teve seus desenhos atacados por Joseph Goebbels, o então poderoso ministro da propaganda de Adolf Hitler. Furioso, Goebbels afirmou que o brasileiro, colaborador da extinta Folha da Noite, era pago por ingleses e americanos para espicaçar o nazismo.

"Quando ainda não havia fotos, as revistas recorriam exclusivamente à ilustração bem-humorada", conta Eduardo Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. "É um tipo de texto que quase todo mundo consegue ler, independentemente do idioma." A charge (do verbo francês charger, que significa carregar, exagerar) é uma crítica imediata a um acontecimento específico, em geral de natureza política. Por causa desse caráter temporal, sua compreensão muitas vezes exige do leitor conhecimento prévio do contexto a que ela se refere. Já a caricatura, comumente confundida com a charge, é a representação humana obtida com traços cômicos e grotescos.

Com freqüência crescente, o humor gráfico vem se transformando em material didático precioso, pois facilita a análise de fatos históricos, além de despertar na garotada o interesse pela relação entre arte e ironia. "A internet é a grande responsável por essa revolução", observa Maurício Ricardo Quirino, criador do Charges.com, um dos mais populares sites de piadas animadas do país. "Como em muitas cidades não circulam jornais, quase todo dia eu recebo pedidos de autorização para o uso do meu trabalho em sala de aula", informa.

No Colégio Federal, em Uberlândia (MG), a professora de História Luciana Christina de Oliveira volta e meia explora essas intervenções eletrônicas. "Percebi que era mais fácil chamar a atenção da turma para determinados temas se pudesse relacioná-los a um desenho bem-feito", explica. No fim do bimestre passado, ela precisava ensinar às classes de 8ª série as várias fases do imperialismo, desde as revoluções industriais ocorridas na Europa nos séculos 18 e 19 até o atual expansionismo mercantil americano.

Numa pesquisa rápida na internet, Luciana encontrou uma montagem fotográfica em que o presidente George W. Bush ganha um bigodinho à Hitler. Na legenda, a frase "Abaixo o imperialismo". A imagem foi usada por ela numa apresentação que incluiu ainda uma charge animada de Maurício Ricardo sobre a evolução humana. Dados e mapas históricos adensaram o tema. Luciana explicou que, ao longo da história, alguns fatos são quase cíclicos. No caso do imperialismo, a garotada foi levada a refletir sobre como a Alemanha se valeu da truculência para invadir diversos países europeus nos anos 1930 e 1940. Já os Estados Unidos vêm exercendo sua dominação, nas últimas décadas, predominantemente nos campos econômico e cultural. "Após as risadas iniciais dos alunos, surgiram comentários espontâneos sobre a relação entre Segunda Guerra, nazismo, poderio bélico americano e o conflito atual no Iraque", afirma a professora. "O conteúdo fluiu melhor do que se eu tivesse recorrido só ao livro didático."

Arte
Humor com status de arte

Um jeito eficaz de apresentar charges e caricaturas aos alunos é visitar com eles um salão de humor. No Recife, as professoras Maria das Dores Souza e Ana Claúdia Lima, da EM João Batista Lippo Neto, adotaram a estratégia em junho para as turmas de 2a e 3a séries. Depois de participar de uma oficina de histórias em quadrinhos, elas decidiram trabalhar com os pequenos os conceitos aprendidos. "Com a chegada da Copa do Mundo e da campanha eleitoral, as crianças começaram a caricaturar jogadores e políticos nas aulas de Artes", explica Maria das Dores. No mesmo período, estava rolando na cidade o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco. De olho na programação, que incluiu palestras e cursos, as educadoras levaram os pupilos à mostra. "Além de rir muito, eles aprenderam que as obras ali exibidas têm status de arte e podem ser feitas com vários materiais", diz Cláudia Lima. Numa parede reservada para a garotada, ficou registrado o passeio (na forma de charges).

O Salão de Humor de Piracicaba é um dos mais importantes do mundo. Realizado há 33 anos no interior paulista (em 2006, a vice-presidente da Fundação Victor Civita, Claudia Costin, será a presidente do júri), vem abrindo espaço para a produção infantil por meio do Salãozinho: trabalhos feitos por crianças com a ajuda de cartunistas. Em todo o país há exposições abertas à visitação pública. Além do Festival de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, encerrado em julho, os mais tradicionais são o Salão de Humor do Piauí (outubro) e o Salão Carioca de Humor, no Rio, cuja próxima edição será realizada em março.

Conhecer charge e caricatura...

Desenvolve o senso crítico.

Incentiva a veia artística.

Contextualiza temas históricos de forma lúdica.

Quer saber mais?

CONTATOS
Colégio Federal, R. Vigário Dantas, 291, 38400-202, Uberlândia, MG, tel. (34) 3210-9613

EM João Batista Lippo Neto, R. Afonso Ferreira Maia, s/nº, 50960-550, Recife, PE, tel. (81) 3232-4801

BIBLIOGRAFIA
Raízes do Riso, Elias Thomé Saliba, 366 págs., Ed. Cia. das Letras, tel. (11) 3846-0801, 54 reais

INTERNET
Os destaques do Salão de Humor de Piracicaba estão em www.salaodehumordepiracicaba.com.br


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/fundamentos/muito-alem-piada-423200.shtml

Um comentário:

Mari Amorim disse...

Olá querida,
muito legal teu texto,realmente,a piada e uma arte,charge e tudo mais é arte,desde que se saiba dar aulas de arte,realmente! como prof de arte,achei genial o texto
Boas energias

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin