sábado, 15 de agosto de 2009

Entrevista - Ideias são coisas divertidas

Com 8 milhões de exemplares vendidos, o escritor nova-iorquino diz que a vida intelectual pode ser uma festa e que o leitor comum gosta de pensar




André Petry, de Nova York

Ernani d’Almeida
William R. Voss



"Há diferença entre o leitor especializado e o leitor comum.
O leitor comum não quer ser convencido. Ele quer ser cativado"


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Malcolm Gladwell, 45 anos, filho de mãe jamaicana e pai inglês, é ensaísta da revista The New Yorker e está na galeria dos escritores mais festejados de Nova York. Fez sua estreia em 2000, com O Ponto da Virada, em que analisa como se espalham ideias e modismos. Está até hoje na lista dos mais vendidos do New York Times. São 252 semanas. Depois veio Blink, que pode virar filme com Al Pacino no papel principal, e agora saiu Fora de Série, outro campeão de vendas. Na lista estendida dos mais vendidos de VEJA.com, Gladwell emplaca um, O Ponto da Virada, e já emplacou outro, Fora de Série, ambos lançados pela Sextante. Somados, os três títulos já venderam 8 milhões de exemplares. "Sou um tradutor", diz Gladwell. "Traduzo ideias acadêmicas para uma audiência de massa." Na boca dos admiradores, seu nome é sinônimo de brilhantismo. Na dos críticos, Gladwell é apenas outra palavra para designar algo fútil, banal. Em menos de dez anos, ele ficou rico, embolsa 1 milhão de dólares por ano e cobra 40 000 dólares por palestra. Diz que escrever livros é divertido, não dá bola para dinheiro e mora num apartamento quase modesto em Nova York, onde conversou com VEJA, sentado à mesa da cozinha e bebendo água da torneira. Com gelo.


O senhor já foi chamado de inovador, escritor de autoajuda e expert em marketing. Em 2005, a revista Time colocou-o entre as 100 pessoas mais influentes do mundo na categoria "cientistas e pensadores". Como o senhor se define? Sou um tradutor. Traduzo ideias acadêmicas para uma audiência de massa. Escrevo histórias de aventuras intelectuais. Há escritores que escrevem sobre lugares incomuns. Eu escrevo sobre ideias incomuns.


As pessoas gostam de ideias incomuns? Adoram. O leitor gosta de despertar a curiosidade, soltar a imaginação. Ele quer se divertir, entreter-se. Quer ser provocado a pensar sobre algo que normalmente não pensaria.

Nos seus livros, o senhor parte de uma ideia e, em torno dela, vai apresentando pesquisas acadêmicas e histórias reais. De onde saiu essa fórmula? Acredito que dos meus pais. Minha mãe, antes de ser psicoterapeuta, era escritora e foi jornalista por um período. Ela escrevia muito bem, de modo claro e elegante. Meu pai é matemático. Ele também trabalha com a elegância, com a clareza. A matemática busca o meio mais simples de expressar uma ideia complexa. Somando o exemplo deles, cheguei ao meu modelo. Com meus livros, tento simplificar ideias complexas.


"Escrevi que o cultivo do arroz, que requer trabalho sistemático e duro, explica por que os asiáticos são melhores em matemática, ciência que também exige trabalho sistemático e duro. Foi o que bastou para eu ganhar uma cachoeira de críticas"

O senhor tem três livros e três campeões de venda. Qual é o segredo? Além de sorte, é preciso entender a diferença entre o leitor especializado e o leitor comum. Se estou escrevendo sobre psicologia para psicólogos, não basta eu contar uma história atraente e apresentar uma série de ideias acadêmicas interessantes. Preciso convencê-los. Preciso apresentar minha hipótese e fazer uma exposição exaustiva e rigorosa dos meus argumentos. É o trabalho deles. Eles só podem ser convencidos com base em argumentos irrefutáveis. O leitor comum, o comprador típico de livros, não é assim. Ler não é o trabalho dele. Ele quer se divertir com as ideias. Quando está lendo no avião, no fim de semana, à noite em casa, o leitor comum não quer ser convencido. Quer ser cativado. É isso: acredito que livros bem--sucedidos são os que tentam cativar, e não convencer.


Não é outra maneira de dizer que o leitor comum gosta de platitudes? Claro que não. O leitor comum instintivamente sabe que uma ideia é uma ideia. Ele naturalmente toma aquilo como possibilidade, não como certeza. Em Fora de Série, escrevi que o cultivo do arroz, que requer trabalho sistemático e duro, explica por que os asiáticos são melhores em matemática, ciência que também exige trabalho sistemático e duro. Foi o que bastou para eu ganhar uma cachoeira de críticas de especialistas.


Mas eles não estão certos? Bangladesh é um país asiático, planta arroz e é ruim em matemática. Pergunto: por que os asiáticos se dão bem em testes de matemática? Nem eu, nem você, nem ninguém sabe a resposta certa. Apresentei uma alternativa. Que tal pensarmos sobre isso? Não é uma explicação definitiva. Estou me divertindo. Estou convidando a pensarmos sobre a ideia segundo a qual práticas culturais e econômicas solidamente arraigadas nos afetam de modos insuspeitos. No caso, o cultivo de arroz pode ter implicações no raciocínio matemático. Acho interessante refletir sobre isso, e não estou fingindo que é a resposta final. Ao contrário do leitor especializado, o leitor comum naturalmente lê como especulação intelectual, como hipótese.


Seu sucesso de crítica é inversamente proporcional ao sucesso de público. Os críticos estão errados? Fico perplexo com isso. Saio nas ruas e todos os dias alguém me diz: "Adorei seu livro". Não entendo a reação da crítica. Os críticos parecem se comportar como o leitor especializado. Eles não leem meus livros com generosidade. Estão à caça de razões para não gostar do que escrevo. Quando leio o trabalho alheio, tento ser generoso, encontrar o que há de bom, útil, original. Não fico atrás do erro. Os críticos perderam de vista a razão que leva as pessoas a ler livros. Repito: o leitor quer ser cativado, não persuadido.


Os críticos reclamam dos buracos, das teses que não fecham. Não concordo que meus livros tenham buracos. Tenho um compromisso entre o acesso e o rigor. Há quem sacrifique o rigor. Eu não sacrifico. Todos os cientistas que menciono dirão que apresentei seus argumentos de modo fiel e correto. Sei porque falo com eles, mostro o que escrevi. Isso é rigor. Mas meu livro não tem 800 páginas, 10 000 notas de rodapé. Quero dizer algo de modo acessível, simples. É o outro aspecto do meu compromisso. Entre os dois polos, tento ficar no meio.


Como jornalista que escreve sobre ciência, o senhor é bem tratado no meio acadêmico ou é visto como intruso roubando um pedaço do mercado? No meu escritório, tenho todo tipo de placas de homenagem. A cada ano ganho um novo prêmio. Neste, ganhei o da Associação Americana de Psicologia e fui convidado para dar palestra no encontro anual dos psicólogos. Quando telefono para os acadêmicos, eles me retornam em seguida. Estão felizes com meu trabalho porque entendem que estou chamando atenção para o mundo deles. Estou dizendo que ideias acadêmicas são empolgantes, que o trabalho dos acadêmicos é instigante, que a vida intelectual pode ser uma festa.


Mesmo escrevendo sem, digamos, rigor científico? Os acadêmicos sabem que meus livros não são dirigidos para eles. Não estou competindo com eles num jornal acadêmico ou clube científico. Meu sonho é que alguém leia meus livros e se empolgue a ponto de querer se aprofundar na literatura científica, mergulhando em leituras mais densas. Meus livros oferecem às pessoas uma forma de organizar informações. Proponho um modo de pensar sobre um determinado problema. Apenas isso. Estou tentando organizar o pensamento. Minha proposta não é encerrar a conversa, dar a palavra final. Ofereço a estrutura da casa. O leitor coloca nela o que quiser, janelas, telhado, portas.


As pessoas precisam de ajuda para organizar as informações? Pense em Wall Street e na comunidade financeira. Estavam todos afogados em informações, mas perderam o domínio, o controle sobre os fundamentos do que estavam fazendo. Tinham aquilo de que precisavam. Sem dúvida, era a geração de financistas mais bem informada da história. Mas eles não souberam organizar, dominar, controlar, entender o que isso tudo significava. É um problema da modernidade. Temos muita informação e pouco tempo para digeri-la. Temos muitos dados e pouco conhecimento para interpretá-los.


Dá para explicar a crise financeira global pelo excesso de informação mal digerida? Não. Eles não digeriram as informações, mas a causa primária é outra. Não foi incompetência, nem falha de regulação. Foi excesso de confiança. Os banqueiros estavam confiantes demais. É um risco de todo especialista. É difícil controlar a confiança excessiva. Veja o caso dos militares americanos. São reincidentes. O erro do Vietnã, cometido há trinta anos, foi repetido no Iraque. No Vietnã, as tropas chegaram com notável excesso de confiança. Na derrota, puderam aprender uma lição extraordinária sobre os males do excesso de confiança. Mas, trinta anos depois, o que aconteceu? O mesmo erro da confiança suprema. Como somos maiores e mais poderosos, pensamos que era possível chegar ao Iraque, vencer em um ano e voltar para casa. Não aprendemos a lição, ou esquecemos o que aprendemos no Vietnã. Os banqueiros de Wall Street não são melhores que generais ou políticos. Todo especialista está sujeito ao excesso de confiança. É um dilema humano. Precisamos criar uma cultura institucional capaz de reinar sobre nossa confiança demasiada e nos forçar à humildade.


"Os banqueiros de Wall Street estavam confiantes demais. É um risco de todo especialista. É difícil controlar a confiança excessiva. Veja o caso dos militares. O erro do Vietnã, cometido há trinta anos, foi repetido no Iraque"

O senhor já deu palestras para todo tipo de plateia. Como definiria uma plateia de empresários? Há uma variedade muito grande. São diferentes de país para país.


Os empresários brasileiros? Ao contrário dos de outros países, eles sabem relaxar, se descontrair. Sabem se divertir.


Os do Vale do Silício, na Califórnia? Têm uma confiança extraordinária na própria capacidade de causar impacto no mundo.


Os de Wall Street? Têm uma visão de mundo de uma estreiteza notável. Como se olhassem no lado errado do telescópio.


Jornalistas? Curiosos.


Escritores? A maior parte dos escritores que conheço são também jornalistas.

Universitários? Não sabem quanto não sabem.


Cientistas? Perseverantes. E disciplinados. E pacientes.


Publicitários? Fazem uma arte nobre.


Arte nobre? Sou fã dos publicitários. É fascinante a capacidade que eles têm de contar uma história de modo conciso, sintético, enxuto. São artistas do econômico. Está passando na TV um comercial de uma marca de cerveja que é uma das coisas mais geniais que já vi. Narra uma história que se levaria meia hora para contar, e eles contam em trinta segundos. É sensacional.


Quais são seus autores de cabeceira? Gosto de Michael Lewis (nascido em Nova Orleans, em 1960), que, como eu, é um escritor de não ficção. Janet Malcolm (Praga, em 1934) é extraordinária, senhora já idosa, jornalista da New Yorker também. O livro dela sobre psicanálise é excelente. Não é um tema que me interesse em particular, mas é um livraço, lindamente escrito, inteligente. Com Janet Malcolm, aprendi que um livro profundamente reflexivo pode ser popular, desde que seja escrito com clareza e o tema seja abordado do jeito certo. Também gosto de Iain Pears (Coventry, em 1955), ficcionista inglês, excelente contador de histórias. Seu último trabalho tem 600 páginas. É quase milagroso alguém comprometer tanto tempo para ler um livro que, ao final, não o deixará mais inteligente nem mais rico, e lhe terá dado apenas prazer. É excepcional convencer outra pessoa a envolver-se assim com um livro.


Escrever é fácil? Passei dez anos num jornal (Washington Post) e, no início, era difícil. Mas aprendi a escrever com facilidade. Gosto de escrever livros. É divertido.



Fonte: Revista Veja - Edição 2126 - 19 de agosto de 2009.

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