sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Raio-x do problema da falta de disciplina nas escolas brasileiras


Descontrole de alguns alunos tem efeitos negativos para professores e estudantes



Juliana Bublitz | juliana.bublitz@zerohora.com.br

De coadjuvante nas salas de aula, onde durante anos foi mantida sob controle à base da palmatória, a indisciplina virou centro das atenções nas escolas brasileiras. De um lado, em função das agressões contra professores. De outro, pelos reflexos no desempenho dos alunos. Confira aqui o raio-x dos problemas trazidos pela falta de disciplina.


O problema


A cada ano, os professores brasileiros perdem, em média, 35 dias inteiros de aula tentando controlar alunos bagunceiros. A estimativa, divulgada no mês passado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é um retrato do avanço da indisciplina nas escolas das redes públicas e privadas do país.

Para a docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Roséli Maria Olabarriaga Cabistani, que palestrou no 10º Congresso da Escola Particular Gaúcha, em julho, a origem do descontrole está nas escolhas de uma sociedade baseada no consumismo.

– Antes, o professor estava em uma posição de autoridade, porque a sociedade lhe conferia isso. Mas os valores mudaram. Hoje a autoridade está nas mãos de quem tem maior poder aquisitivo – resume.

Segundo o professor de Psicologia da Educação da UFRGS Fernando Becker, as coisas começaram a sair do controle nas salas de aula brasileiras quando a educação tradicional, centrada na figura do professor, deu espaço a uma proposta mais progressista. Nesse novo cenário, muitos educadores simplesmente não conseguiram mais encontrar seu espaço, o que contribuiu para o descontrole.

Ao mesmo tempo, especialistas concordam que fatores externos à escola também influenciaram nesse processo, entre eles a a mídia, o avanço da violência e a omissão das famílias. Entre os 23 países investigados na pesquisa da OCDE, o Brasil aparece no topo da indisciplina, um problema que também vem sendo evidenciado a partir de outros estudos.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma pesquisa do Sindicato dos Professores das Escolas Particulares (Sinpro) revelou que, de 440 entrevistados, 83,2% já tiveram a autoridade questionada por alunos e 12,8% relataram ter sido vítimas de agressões físicas.


A consequência

O avanço da indisciplina e do desrespeito em sala de aula não resulta apenas em dores de cabeça, traumas e contusões em professores e alunos. Também se reflete no desempenho escolar sofrível dos estudantes brasileiros.

Segundo especialistas, o mau comportamento é um agravante do cenário caótico da educação no país, que nas últimas três provas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicados a cada três anos pela OCDE, amargou as últimas posições.

– O problema é que a maioria dos professores leva as más atitudes dos alunos para o lado pessoal e acaba confrontando e brigando com eles na aula. Isso gera um clima de estresse muito grande e, sem dúvida, contribui para piorar o desempenho de todos – afirma a professora de Psicologia da Educação da UFRGS Tania Beatriz Iwaszko Marques.

Além de resultar em notas ruins, a indisciplina causa traumas às vezes definitivos nos educadores, muitos dos quais vítimas de agressões graves, físicas e verbais – como aconteceu com a professora Glaucia Teresinha Souza da Silva, 25 anos, que sofreu um traumatismo craniano depois de ser empurrada por uma aluna, em Porto Alegre, em março deste ano.

A situação no Rio Grande do Sul se tornou tão problemática que o Sindicato dos Professores das Escolas Particulares (Sinpro) chegou a criar o Núcleo de Apoio ao Professor contra a Violência (Nap).

– Notamos que, com o passar do tempo, tem aumentado muito o nível de agressão dentro de sala de aula. O problema se agrava quando se aproxima o final do ano, por causa da pressão por notas e pelo cansaço. Os professores se sentem muito sozinhos para lidar com essa situação. Eles adoecem por causa da estafa a que são submetidos – diz a diretora do Sinpro e coordenadora do Nap, Cecília Farias.


As soluções


Apesar do rastro de consequências negativas, o avanço da desobediência diante do quadro negro tem solução. Especialistas apostam em uma mudança de comportamento tanto na família quanto na escola.

O primeiro passo para recuperar o respeito da gurizada em sala de aula e garantir o bom comportamento, segundo a professora da Faculdade de Educação da UFRGS Roséli Maria Olabarriaga Cabistani, é a reaproximação dos pais. Nos últimos anos, a pesquisadora lembra que eles relegaram à escola a tarefa de transmitir a civilidade – imprescindível quando o assunto é disciplina. Essa passividade, porém, precisa ficar para trás.

– É difícil culpar os pais, porque eles também estão numa posição complicada, já que precisam trabalhar para dar o melhor aos filhos. Mas é muito importante que estejam presentes pelo menos nos momentos mais importantes. Às vezes, uma palavra já faz a diferença – acredita Roséli.

Por outro lado, conforme a professora Tania Beatriz Iwaszko Marques, também é necessária uma nova postura por parte dos educadores para reverter o problema da indisciplina. A especialista afirma que de nada adianta o professor dominar o conteúdo de sua matéria, se não sabe transmiti-lo. Na mesma linha, o pesquisador Fernando Becker ressalta ainda que a formação docente precisa melhorar.

– Um professor sem preparo adequado quase que inevitavelmente vira alvo do aluno mal-intencionado. Além de saber tudo do assunto que ensina, ele deve entender que não pode entrar no jogo e bater boca com os jovens – afirma Becker.

É consenso entre os estudiosos que as aulas têm de ser mais atraentes e conectadas à realidade da garotada. O grande desafio da escola, nesse sentido, é ser desafiadora. E, mais do que isso: surpreender.


ZERO HORA

Saiba mais:

Desordem e desperdício
- Entre educadores consultados em 23 países para o relatório TALIS (Teaching and Learning International Survey), o professor brasileiro é o que gasta mais tempo para pôr ordem na classe.
- Em média, ele desperdiça 17,8% do tempo das aulas na tarefa (o que equivale a 35 dias do ano letivo), contra 13% em média.
- Entre os países avaliados, o mais disciplinado foi a Bulgária, onde a perda de tempo não passa de 5%.
As feridas do desrespeito
- Um estudo da Associação dos Supervisores de Educação do Estado aponta o desrespeito por parte dos alunos como a segunda principal razão para não se seguir a carreira de professor
- Pesquisa do Sinpro revelou que 83,2% dos professores haviam sofrido desrespeito da autoridade e 12,8%, agressões físicas
- Segundo o Cpers/Sindicato, 40% das licenças de saúde são por problemas psicológicos
O que os pais podem fazer
- Não tenha receio de dizer não quando necessário
- Ensine a criança ou o adolescente a se colocar no lugar do outro
- Procure frequentar a escola de seu filho
O que os professores podem fazer
- Procure estabelecer uma relação de respeito mútuo
- Esteja atento aos sinais que os alunos estão dando. Conversas paralelas podem ser um indício de que as suas aulas são ruins


Fonte: O X da Educação - Zero Hora

Imagem: Blog Urbanidades da Madeira

2 comentários:

disse...

Marise, quantos problemas os professores enfrentam nas escolas nos últimos anos...mesmo assim, se eles se entregam, o que será da arte de educar? O que será de um país entregue aos meios de comunicação que só ensinam o que bem entendem, sem questionamentos, muitas vezes? Vejo a diferença entre canais abertos e canais fechados (em que os pais podem escolher programas educativos, mais direcionados), entretanto, a população, na sua maioria, não tem acesso aos melhores programas, concorda? Isso é só uma parte. A Internet, quando se tem acesso, também é mal aproveitada, os pais (e até educadores!) não sabem como otimizar seu uso. Há tanto que se mudar e (re)aprender! A mesmice não cativa e inovar nem sempre é o único e melhor remédio. O equilíbrio das coisas ficou ameaçado ao longo dos anos e a "sensação de todos terem acesso às informações e saberem tudo", chegando ao ponto de desprestigiarem os professores na sua árdua tarefa acabou minando a autoestima dos mesmos. É preciso ter muito amor pelo que se faz, realmente, e, escolher essa profissão deve ser carinhosamente avaliada diante das grandes mudanças deste século. Bjins e até mais!

Marise von disse...

Jô,

Penso que o grande problema da educação seja a falta de autoridade do professor e agora com ... assédio moral no trabalho, o professor não pode fazer nada. Quem faz é castigado.
E o nosso aluno tem muita informação, (há se eu tivesse tanta informação no meu tempo de colegial) mas ele não sabe discernir, fazer escolhas.
Jô obrigado pela visita, comentários e o carinho.
Um grande abraço e uma boa semana.
Marise.

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