quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Voltando, por Carlos Alberto Barcellos*

O recomeço das aulas vem carregado de desafios. Todos fomos surpreendidos com a prorrogação das férias. A primeira missão, como sempre, é aquela que nos permite acolher a cada educando nesse recomeço. Que tudo aquilo que foi planejado até então sirva de combustível para a continuidade desse atípico segundo semestre. Os projetos construídos com muitas mãos apenas sofrerão uma nova data. A busca incessante pela excelência da aprendizagem estará no centro do nosso ato pedagógico.

Este, porém, não é mais um simples recomeço das aulas. Vem ele carregado de interrogações e expectativas de como a escola irá lidar com a gripe e suas sequelas. A saúde pública estará no centro dessa discussão. Movidos pela curiosidade normal, crianças e adolescentes desejarão pensar com seus educadores as lições desse momento de dor. Ensinar a pensar, trazendo para nosso trabalho as leituras, pesquisas, dúvidas, conhecimentos construídos nesses dias. Momento propício para seminários de aprofundamento do que lemos e vivenciamos. A escola que se preparou para atender demandas de saúde pública também será a mesma que terá a competência para ir além do senso comum. Existe um caráter científico relevante do ponto de vista social da chamada gripe A. Um estudo feito com lucidez permitirá que nossos educandos busquem na pesquisa outros momentos de flagelos sociais como o que estamos vivendo. Aqui e fora do Brasil . É hora de aprendizagem, saindo de qualquer análise de cunho que leve a gripe a um espetáculo circense. Ciência é ciência, visão mágica das coisas é algo diferente. Seria danoso para a formação de crianças e adolescentes o acento de estudo num plano moralista ou um retorno como se nada tivesse acontecido.

A importância com cuidados higiênicos não deve permitir que percamos nossa habitual ternura. A ternura do gesto que cativa, dizendo que todos são bem-vindos nessa casa. As prováveis neuras de todos os lados não podem se sobrepor ao encanto do retorno e de nossa capacidade sempre renovada de acolher a todos. Será um momento rico para aprendermos com tudo isso.

O outro aspecto que não pode passar despercebido de nosso projeto pedagógico é a crise das instituições políticas que passa nosso país e Estado. Palavras como improbidade pública precisam ser inseridas no contexto da sala de aula. Lições concretas sobre ética e cidadania, verdadeiras aulas de uma história que se vivencia na atualidade. Momento raro para o desenvolvimento de juízo crítico na criança e no jovem. Essa contribuição valiosa que temos para dar na dimensão do que seja moral, civismo e comunitário. Essa vida escolar que se encontra com a escola da vida se passa agora. Nossa serenidade e maturidade impedirão o cansado e esvaziado discurso panfletário. A leitura de que o público virou bem privado é conteúdo transversal para as nossas reuniões como professores e ação dialógica em salas de aula.

Saberemos achar, como educadores, espaços nobres em nossa pauta de revisão do segundo semestre para a inclusão de temas tão candentes para esse tempo de retorno.

Se nada acontece por acaso, façamos de nossa volta um momento de fortalecimento no grupo de educadores, na formação de nossos alunos e no crescimento cívico de nossas comunidades.

*Professor

Fonte: Jornal Zero Hora - nº16061 - 13 de Agosto de 2009.



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