domingo, 6 de setembro de 2009

A leitura como prazer




Gonçalo Armijos Palácios
O prazer da leitura deixa sob suspeita aquilo de que a mente não pode sentir a intensidade dos deleites do corpo

Se o leitor se perguntasse “quais foram meus primeiros prazeres?” ou “o que me dava mais prazer na infância?”, que responderia? Brincar, claro, foi um dos nossos grandes prazeres. Mas, sem dúvida, havia outros. Na ordem em que os meus prazeres foram aparecendo, diria que gostava de brincar, dos primeiros encontros furtivos com minhas amiguinhas, jogar bola, cantar e ler. Nessa ordem. Lembro a idade que tinha quando meu pai trouxe o meu primeiro livro para eu ler (oito anos, foi antes de a minha mãe morrer). Não era um desses livros escolares cheios de desenhos, com histórias tolas, letras enormes e pouquíssimas páginas. Era um livro de Julio Verne. Acostumado a ler histórias em quadrinhos, abri o livro para ver os desenhos, inexistentes, e disse ao meu pai que o livro só tinha letras. Ele me disse que as imagens iriam aparecendo na minha mente aos poucos e que ficariam melhores do que os desenhos das histórias que costumava ler.

Acho que só comecei a ler o livro para agradá-lo ou porque, talvez, nessa manhã de férias (julho, agosto ou setembro) não tinha com quem brincar. Morava numa casa de dois andares. Meu quarto tinha duas portas, uma que se comunicava com o interior da casa e outra que dava a um pátio. Fui para o pátio e sentei-me num lugar qualquer. Era de manhã, talvez por volta das dez. Meus irmãos não estavam. Parece que houve um complô das circunstâncias, ou do destino, para que eu não tivesse outra coisa a fazer a não ser pegar o livro e ler. As primeiras páginas do livro não me deram muito prazer. Quem leu Julio Verne sabe como ele é prolixo quando quer situar geograficamente o lugar em que se passa a história. Mas depois das primeiras páginas — para mim pelo menos, maçantes — fui simplesmente seqüestrado para dentro da trama. Li em poucos dias aquele livro e meu pai teve que começar a trazer — por exigência minha e para deleite dele — outros clássicos de Julio Verne e outros autores como ele. Aqueles momentos em que costumava ficar sentado naquele pátio ficaram marcados na minha memória de menino. Naqueles meses, como aqui, não chove. O céu costuma estar sempre limpo e o único que se ouvia era o canto dos pássaros e os barulhos típicos de uma casa e das casas vizinhas — alguém esfregando roupa na pedra de lavar, o raspar da vassoura de alguém varrendo um pátio vizinho, panelas sendo esfregadas, alguma carne fritando, vozes chamando, pedindo, ordenando, “faz isso”, “faz aquilo”, “traz isso”, “traz aquilo”, uma que outra risada, murmúrio de alguma fofoca, algum cão latindo, um galo cantando, e mais nada. O complô estava armado, todos os dias, na mesma hora, e eu lia, lia, lia. E era um prazer como poucos.

Depois, na escola, descobri a literatura equatoriana e latino-americana. Novos prazeres. Obviamente, prazeres muito mais intensos, mais “meus”. Ler as lendas dos tempos coloniais e ficar sabendo o que se passava no Quito antigo, nas ruas e casarões de mais de 400 anos, ruas pelas quais eu mesmo tinha andado e às que ia freqüentemente. Era muito melhor do que imaginar os lugares remotos dos livros de Verne que até hoje não conheço. Além do prazer da leitura, era o gosto de conhecer e ter passeado pelos lugares onde os acontecimentos narrados tinham se passado. Os livros cobravam vida, também, quando meu pai e meus tios contavam as aventuras de suas próprias infâncias, vividas no bairro mais antigo da cidade, ruas de pedra, estreitas, pelas quais só podia passar uma carroça puxada por cavalos. Saber como era o interior daquelas casas, casas que eu mesmo tivera visitado em várias oportunidades, todas construídas em volta de uma fonte de pedra central, como as casas espanholas. Casas altíssimas pintadas de branco com os marcos das janelas em azul, assim como os portões, enormes. Até hoje, 468 anos depois, é possível ver aquelas casas como eram quando foram construídas, assim como suas íngremes e estreitas ruas e seus faróis coloniais. E todas elas eram os cenários dos episódios fantásticos que lia naqueles livros de lendas antigas.

Ler, claro, é muito mais do que ler para entender. É também reviver o vivido e o não vivido. Ler é como ter uma outra vida para viver. O prazer de ler talvez só seja comparável ao prazer de escrever. Como o prazer que estou sentindo nestes instantes em que recrio para mim mesmo as imagens daquela experiência e revivo as sensações que tinha quando, com meu coração batendo acelerado, ia abrir o livro para ver o desfecho que não tivera como ler no dia anterior. O mesmo batimento que ocorre quando, finalmente, vai ocorrer aquele primeiro encontro há tanto tempo desejado. Um livro que se abre é como uma pessoa que se entrega. Ler é essa vivência única que se fecha na intimidade de um universo que se abre. É tão alegre como um repentino encontro e tão triste como uma súbita partida.

GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da UFG, é articulista do Jornal Opção.

2 comentários:

Sérgio M. disse...

Tem um selo para si no meu blog!
Bjs

Marise von disse...

Olá Sérgio,
Senti a sua falta.
Obrigado pela visita e pelo selo.
Abraços,
Marise.

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