domingo, 4 de outubro de 2009

Autoridade em crise = caos na educação, por Nora Thormann*

O artigo da psiquiatra e psicoterapeuta Nora Thormann, diz tudo que eu penso e gostaria de dizer.
É preciso impor limites, os filhos precisam saber quem é quem na hierarquia na família. E como não sabem mais respeitar a hierarquia familiar, não há respeito nas escolas e em lugar algum.


Autoridade em crise = caos na educação

A visão romântica e edulcorada de que a vida em família seja de constante bom humor, paz e serenidade é absolutamente incorreta! Viver é administrar conflitos, desejos discordantes, ruídos de comunicação, errar, acertar, errar de novo.

Os receios mais comuns são o medo de que o filho deixe de gostar dos pais. Medo de punir, de ser agressivo ou de sufocar a personalidade, a criatividade dos filhos é usado frequentemente como justificativa por pais inseguros e desorientados em relação à função paterna. Educar é ensinar a obedecer a regras às quais nós, adultos, também estamos sujeitos; limites adequados e proporcionais dão segurança e sensação de alívio para crianças e adolescentes. Quem cresce sem repressão vive angustiado, pois não encontra uma barreira que o proteja de si mesmo e do mundo exterior.

A criança pequena é guiada pelo princípio do prazer e pelo sentimento de onipotência, sendo que a transformação desse comportamento absolutamente centrado em si mesma em uma visão de interação com o outro e o meio ambiente em que se vive chama-se educação. Todo esse processo é revivido na adolescência, mas de uma forma um pouco diferenciada.

A violência não deveria ser um rito de passagem para os adolescentes, mas ainda o é, talvez de forma mais perversa do que nos povos primitivos. As “panelinhas”, gangues, as fofocas, o prestígio, a popularidade e a premente necessidade de autoafirmação são os alicerces desta etapa do ciclo evolutivo. É quando as hierarquias sociais são poderosas e mais dominadoras do que em outras etapas da vida. A falta de limites generalizada por parte de pais, professores e das escolas só fez isso aumentar de modo vertiginoso, como o bullying e o cyberbullying, por exemplo.

A falta de limites aumenta a sensação de onipotência que gera violência, angústia e sensação de insatisfação, manifesta na busca incessante de prazer imediato, que talvez nos ajude a entender um pouco a pandemia da droga.

Mas quero retornar ao tema escola, pois a violência expressa nas salas de aula, através do desrespeito e agressão aos colegas e professores considerados “chatos”, que não se adaptam aos padrões desejados, é bastante frequente. Ocorre uma situação invertida, em que há um descarado autoritarismo dos alunos em relação aos professores e à escola, que deve aceitar tudo.

Creio que desadaptação na adolescência sempre houve, mas agora está pior, porque esse período se inicia mais cedo e termina bem mais tarde, ocorrendo fenômenos de intensidade e agressividade muito maiores. A família está com valores e critérios em crise. Onde antes quase tudo era proibido, agora não se sabe mais as regras para a educação e o papel de pais, escola e sociedade como educadores. Muitas vezes, ao invés de impor restrições, cortar privilégios e punir, opta-se pelo “conversar” frustrante e repetitivo, que não ajuda a crescer. Aquilo que não se aprende em casa com amor, aprende-se na vida com dor, como bem mostram os noticiários. Ser pai é estar presente, posicionado, ser amigo, mas não igual ao filho, porque há uma hierarquia a ser seguida e respeitada. Autoridade se conquista com o respeito e a admiração do filho pelo pai, e isso deve se estender ao convívio social no mais amplo sentido.

*Nora Thormann - Psiquiatra e psicoterapeuta

Fonte: Jornal Zero Hora - nº 16113 - 03 de outubro de 2009.
Imagem:
http://editoraglobo.globo.com/

2 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Marise,

Meus oito anos de experiência como professor já foram o suficiente para perceber que o adolescente, ao contrário do que pensam as famílias permissivas, gostam de ser chamados a atenção. Isso porque eles se sentem queridos,protegidos, sabem que alguém se preocupa com eles.

Abraços e uma excelente semana pra você.

Miguel Loureiro disse...

Marise
Se percorrermos os blogues da Educação, por todo o mundo, deparamos com os mesmos problemas, no caso concreto a indisciplina e a falta de respeito (mútuo). Isso só pode significar que o problema é global e fruto da globalização, que é uma emergência das nossas sociedades e que enquanto as coisas se mantiverem como estão, financeira, económica e politicamente, não vai ser fácil mudar o que quer que seja.
Há uma quota parte da responsabilidade que os pais desta geração têm que assumir (nos quais me incluo, pela idade que tenho) que vindos da década de 70 e 80, depois do Maio de 68, deram aos filhos a "liberdade" que nunca tiveram, como presente e que deu nisto.
Estamos todos num terreno movediço, é preciso arranjar jangadas, mas só para não nos afundarmos.
Até lá, como se diz aqui: "meia bola e força e fé em Deus" e os pontapés temos que ser nós a dá-los.
Abraço e prazer da equipa do ProfAvaliação:
http://www.profblog.org/

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