quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blogagem Coletiva - "Professores do Brasil"


Como sou filha de professora e fui aluna de minha mãe Nelvi Güntzel von Frühauf, não poderia deixar de dizer que ela , na qualidade de professora, me marcou profundamente . Digo isto pois nunca diferenciou "alunos que eram filhos" dos " filhos que eram alunos" . Vivíamos na zona rural do Rio Grande do Sul na década de 1960 e , com recursos escassos, sem luz elétrica, com limitações imensas conseguiu transmitir muitíssimo a seus alunos (filhos ou não).
A educação para ela sempre foi um modo do ser humano crescer. Para minha mãe (que também foi a professora que me alfabetizou) o importante era (e é ) "ser mais" do que "ter mais" .
Minha mãe começou a dar aulas na escola em 17 de outubro de 1954, quando tinha apenas 14 anos e 9 meses, e no ano seguinte em maio de 1955, passou no concurso do município, e se tornou professora municipal da Escola David Canabarro de Cotovelo do Jacuí – Distrito de Cochinho, pertencendo na época ao município de Não me Toque – RS.
Depois do meu nascimento, no ano letivo de 1963 minha mãe colocou um berço na escola, havia dois berços, uma parte do tempo passava na escola e outra em casa, já que meu pai era agricultor e na época os homens não cuidavam dos filhos (pensamento machista da referida época e que ainda predomina na cabeça de muitos homens).Lembro como se fosse hoje, riscando todos os livros da minha mãe, segundo minha mãe, eu só riscava os livros dela, respeitando os livros da escola que eram da “prefeitura”. Verifico nesta colocação que respeitar o bem público era uma honra, nesta época. Na época a escola contava de 50 a 60 alunos do 1º ano primário até o 5º ano, e dava-se aula na mesmo ambiente para as cinco classes, havia dois quadros negros, existia castigo para os alunos desobedientes.
Mudamos para casa em frente à escola no ano de 1964, e no ano seguinte caiu neve, tipo neve que só vemos na Europa ou na América do Norte, e eu só perguntava porque o tio Osvaldo está cortando os galhos de todas as árvores? A neve era tão pesada que estava quebrando os galhos das árvores do potreiro , imagens inesquecíveis que ficaram para sempre na minha memória. Para dizer a verdade são início da minha tomada de consciência da existência como pessoa.Minha mãe sempre foi muito dedicada à escola, a comunidade, e aos alunos, muitas vezes, eu e meus irmãos sentíamos muito ciúmes desta dedicação, deste carinho tão especial, depois de tantos anos, nós reconhecemos esta dedicação, que falta hoje nas nossas escolas.
Todos os filhos da minha mãe, meus irmãos são professores , mas o primeiro foi meu irmão Mirton Paulo von Frühauf, que ontem completaria 46 anos, era professor do Departamento de Química da Universidade de Passo Fundo ( com 21 anos de idade). Veio a morrer de acidente de carro (25-01-1986 com 22 anos), no município de Tapera, numa visita aos nossos pais. Esta morte marcou profundamente a nossa vida e principalmente da minha mãe, pois o meu irmão Mirton foi o primeiro a concluir um curso universitário, e estava muito feliz no dia da sua morte, confessou “que não tinha pensado chegar aonde chegou”, estava lecionando na faculdade desde a sua formatura em 1984. Após o sepultamento “comissão da secretária de educação da prefeitura” veio aposentar minha mãe, que era professora há mais de 31 anos. Ela estava desesperada pelo fato de ter perdido o filho. Para piorar surgiu esta aposentadoria forçada. Não tenho como descrever o momento. Foi como se ela tivesse perdido mais um filho , o desespero tomou conta.
Para minha mãe a coisa mais importante é a educação, o conhecimento, a formação. Pois formação e conhecimento ninguém tira, e o sonho dela era que todos os filhos fizessem uma faculdade, sonho realizado com louvor.
Nunca é tarde para começar, e todos que trabalham com meus pais, ela incentiva a estudar, e acaba perdendo os seus empregados, pois os mesmos seguem os seus conselhos.
Sendo que todas pessoas em Victor Graeff, conhecem a minha mãe como “a professora Nelvi”.
Para minha mãe não existe tesouro maior que o conhecimento e a formação.

E minha homenagem é para minha mãe:
Nelvi Güntel von Frühauf (professora em Victor Graeff – RS)


E também para meus queridos irmãos professores:

Marcos – Professor Biologia em Santa Cruz do Sul – RS
Moacir – Foi professor numa Universidade de Feira de Santana – Veterinário e Administrador - Feira de Santana - BA.
Márcia – professora de Química em Rio Grande e mestranda na FURGS – Rio Grande - RS.

E aos meus dois irmãos já falecidos, que também eram professores:
Mirton - professor da UPF – Passo Fundo –RS.
Marilei - professora do Ensino Fundamental I em Não-Me-Toque – RS. 



Escola David Canabarro em 20 de Agosto de 1965 - Victor Graeff - RS.


Parabéns a todos "Os Professores do Brasil".

Marise - Mogi das Cruzes - SP.



Essa postagem faz parte da blogagem coletiva promovida pelo blog Ponderantes, do grande amigo Valdeir Almeida .

19 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Marise,

Creio que a dor de sua mãe é um pouquinho amenizada por ver que seu irmão cumpriu a missão de ser professor e de ser o primeiro da família a entrar numa faculdade.

Sua mãe foi tão excelente professora que os filhos seguiram a carreira dela. Bonita história.

Obrigado por participar desta coletiva.

Abraços.

disse...

Emocionante sua história. Sou muito chorona e me comovi ao ver que grande batalhadora foi sua mamãe.
Parabéns pela brilhante participação e texto perfeito.
Que Deus te abençoe!
Parabéns!
Também estou participando.

Miguel Loureiro disse...

Marise
Ser professor não é uma missão, é antes uma missiva, que se escreve todos os dias, nas nossas vidas e na de cada aluno nosso, à espera de um final feliz para ambas as partes.
Embora fora da data da ONU (os dias comemorativos no Brasil, quase nunca coincidem com os mundiais) um Bom dia para todos os nossos colegas brasileiros, mas sobretudo o direito ao respeito, à dignidade e à recompensa, para ti especialmente.

Neto disse...

Eis aqui uma bela história.

Parabéns pela bonita biografia. Sua e de sua mãe.

Abraços

Sandra disse...

Ola!
Também estou participando, com o blog uma interação de amigos.

Este é um momento que temos para compartilharmos este momento tão especial.
Falar dessa missão e falar de amor, conhecimento, alegria, bem como das das tristezas, as vezes sentidas.
Fico muito feliz com esta coletiva. assim, ós dá o direito de compartilhar momentos especiais, pelo qual lutamos sempre juntos.
Feliz dia do Professor para vc. Acredito que oProfessorValdeir teve uma brilhante ideia. Embora será uma loucura, para conferir tantos blogs. Mas está valendo apena.
Com carinho

Meu endereço é http://sandrarandrade7.blogspot.com/
Te espero
Sandra

belas historia amiga. Já houvi falar em nâo me Toque.
Morei um tempo em Lages.

Profe Suely disse...

Oi, Marise!!!

Em primeiro lugar: parabéns professora!!

Que história linda, emocionante nos contaste hoje!!!

Um encanto de família de educadores...

Obrigada por aprtilhar conosco essa emoção!

Ficam aqui minhas felicitações para a professora Nelvi! Uma guerreira!!!

Vale a pena ser professora, né?!

Beijos!!!

Roseli disse...

Oi Marise, Também participo dessa blogagem e me emocionei muito com sua história e de sua família. Sua mãe é um exemplo de dedicação e respeito pela profissão. Parabéns a você e a todos os professores desse nosso enorme Brasil! Estou participando com dois blogs. O outro é o Sonhos e Melodias. Te aguardo por lá.
Abraço,

Elzenir disse...

Oi, Marise, também participei da blogagem coletiva. Estou encontrando textos maravilhosos. A profissão não é fácil e percebo isto em vários cantos do país.Parabéns pelo seu, o nosso dia. Abraços. Força sempre.

Valdeir Almeida disse...

Marise,

Obrigado pelo elogio.

É que eu estou fazendo o possível para que esta blogagem alcance o êxito de chamar atenção.

Se não fosse você e os outros amigos sempre presentes, não teria como dar certo. Os amigos presentes a que me refiro são aqueles com os quais troco ideias há mais de um ano (como você), os outros estão aparecendo agora (para somar), através da coletiva.

Abraços.

digitaqueeuteleio disse...

Marise, é de exemplos assim que precisamos dar mais crédito, pois as pessoas, num geral, rotularam esta profissão como uma profissão vergonhosa, dando mais ênfase ao desvalor do salário do que a essência do trabalho, como deveria.

Sempre teremos exemplos bons a descrever. Foi assim que pensei ao fazer a minha postagem.

Muito bonita esta história. Eu sou a primeira geração de filhos (ou de primos) com formação universitária. Mais algumas primas (e minha irmã) tornaram-se professoras também. Hoje estamos fazendo a nossa história na família também... Daqui uns anos, teremos muito o que contar. Como fez com a sua mãe...

Parabéns pela postagem, divina!
Beijo.
Marcelo.

Sonia Regly disse...

"(...) Esse é o verdadeiro mestre: o que não castiga mas impele, o que não doutrina mas desperta a curiosidade e a acompanha, o que não impõe mas seduz, o que não quer ser modelo nem exemplo mas companheiro de jornada

(...)" (Lembro-me dele - Lia Luft)

Também estou participando dessa Blogagem Coletiva e vim te convidar para conhecer o Compartilhando as Letras:


www.compartilhandoasletras.com

Luma Rosa disse...

Homenagem linda que fez à sua mãe e seus irmãos!!

Uma professora deixou comentário no "Luz" dizendo que, o que a minha professora fez comigo era inviável nos dias de hoje, e eu penso: Poxa, as dificuldades sempre existiram dentro da profissão e mesmo assim, o professor se esforçava, se doava para aprovar o aluno. Hoje vejo uma certa facilidade em aprovações e um 'corpo mole' de professores e isto repercute nos alunos.

Minha mãe foi professora na mesma época que sua mãe e também levava a minha irmã para a sala de aula. No entanto, quando crescemos, não quis ser nossa professora, justo para que outros, não pensasse que ela estava 'protegendo'.

Minha mãe esteve muito doente, uma certa época e mesmo assim, não esquecia dos alunos. Ia para dar aulas e lá desmaiava, levava bronca do médico que havia lhe dado licença. Isto é dedicação, coisa que infelizmente, a maioria dos professores de hoje não possuem.

Bom fim de semana! Beijus

Alexandre disse...

Marise,

Cada pessoa é um mundo em si mesma, e como somos influenciados por pessoas que são capazes de superar os maiores desafios, levados por uma motivação que outros não vêem. Mas, como se diz, não devemos achar que quem está dançando é louco, se não estamos ouvindo a mesma música.

Que possamos, todos os que lêem seu blog, ouvir a sua música e dançar também.

disse...

Marise, linda homenagem ao dia dos professores (e à sua mãe, uma motivação viva!). A dor da perda: só quem passa por ela sabe mensurar, porém, só quem é forte o bastante consegue persistir nos verdadeiros valores em que acredita e ela, da mesma forma sentiu a perda profissional e conseguiu ver refletido esse amor ao magistério nos próprios filhos. Mestra, com louvor! Bjins e até!

Andreia disse...

Marise linda homenagem a tua mãe e irmãos!
Tenho certeza que apesar de toda dor pela perda do filho ela hoje se sente realizada por ter feito de sua vida o que mais queria, lecionar. Acredito que não exista nada que faça um professor mais feliz do que ver que seus alunos se tornaram homens e mulheres de bem e que se tornaram seres humanos maravilhosos, pois levaram consigo todo amor e carinho passado entre uma lição e outra.
Parabéns para sua mãe e irmãos e para ti por esta homenagem tão linda!
Terno beijo para ti...

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Professores tem a magia de ver as histórias, sentí-las como nossas, e agradecer a vida por conhecê-las.
Muito bonito este registro.
As emoções que estão entre as palavras dão a ele um significado especial.
Uma semana doce para ti.

victor simoes disse...

Obrigado Marise por nos dar a conhecer um pouco da sua história de vida. Bonita homenagem a sua mãe.

jad disse...

Boa tarde, Marise
Estive sem computador e quase sem ligação à internet. Por isso, só agora li o post. O que mais me impressiona é esta disparidade entre a dedicada acção dos professores que nos encheram de primeiras palavras quando a TV apenas se fazia anunciar e a obstinada preocupação dos governos com os resultados estatisticamente positivos. Somos professores, alimentamo-nos da dimensão ética que nos faz querer contribuir para o crescimento global e equilibrado das crianças e dos jovens que são nossos alunos.
O exemplo de sua mãe, de todas as mães educadoras e professoras tem que servir para escapar ao afundamento do ensinar e do aprender.
Parabéns.

angel disse...

Que linda homenagem aos seus professores e á sua mãe-professora. Eu também tive a difícil tarefa de ser professora de meus filhos e como sua mãe tinha alunos-filhos e filhos-alunos. Todos iguais para mim. Tenho recebido a felicidade de vê-los, filhos e alunos trilhando caminhos de sucesso na vida. Minha maior recompensa é quando algum vem até minha casa só para relembrar o tempo em que éramos aprendizes juntos.
Abraço e sucesso
Angel

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