quinta-feira, 19 de novembro de 2009

19 de novembro, dia mundial da Filosofia - Uma reflexão necessária: a formação acadêmica





By Paulo Ghiraldelli

Há uma falsa contraposição nas discussões sobre como fazer filosofia.
Particularmente no Brasil, a polêmica em torno dessa contraposição tem
durado mais tempo que em outros lugares. Segundo tal contraposição, uns
acham que estamos nos afastando da história da filosofia, e que isso é ruim.
Outros acham que ainda estamos só fazendo história da filosofia, e isto
seria uma triste tendência uspiana; deveríamos trabalhar com “temas e
problemas” ou com a “tarefa do pensamento”.

Mas, na verdade, não é isso que ocorre e nem poderia ocorrer. Filosofia com
“temas e problemas” (ou qualquer outra coisa) e história da filosofia não se
separam. Não se separam não porque não queremos, mas porque não podem. Seria
a própria destruição da filosofia.

Não há como investigar “temas e problemas” em filosofia ou mesmo em
filosofia aplicada sem estar integrado no âmbito da história da filosofia.
Não há como estar integrado no âmbito da história da filosofia sem se estar
em alguma polêmica do interior desta e, portanto, sempre que se está aí
integrado se está envolvido com algum problema.

Quem separa história da filosofia e discussão de temas e problemas não
entendeu como é que a filosofia se faz e caminha. Há dois modos de não
entender isso. Um primeiro é acreditando que a história da filosofia é algo
como que um filme que passa na nossa frente, e nos conta algo que ocorreu.

Isso nunca acontece com a filosofia. A história da filosofia chama os
filósofos para seu interior, de modo a convidá-los para o debate com
filósofo do passado ou de presente. Chama também o iniciante em filosofia ou
mesmo aquele que não é filósofo nem quer sê-lo, mas que é inteligente e
consegue ler e ouvir de forma participativa. Caso o convidado não aceite o
convite, ele nunca conseguirá compreender história da filosofia. A história
da filosofia é diferente de todo outro tipo de história cultural. Ou se está
no seu interior contribuindo com sua própria construção ou não se é alguém
capaz de compreendê-la.

É claro que cada participação tem um grau de profundidade. Nossa capacidade
de participar da história da filosofia vai da participação que serve só para
nós mesmos até a participação que é altamente criativa e que acaba por
servir a muitos outros. Os protagonistas deste segundo caso podem, então,
integrar a historiografia da filosofia além de pertencer à história da
filosofia.

Outro modo de não entender as coisas é acreditar que alguém pode filosofar,
ou seja, pode dar conta de problemas filosóficos ou problemas cotidianos que
podem ser abordados filosoficamente, sem que se tenha feito isso já no
interior de uma discussão com filósofos do passado e do presente, ou seja,
já no âmbito da história da filosofia. Não há como fazer tal coisa.

Um tema e um problema, por mais inédito que seja, tem um pé em algo que vai
ser sua tradição. Os filósofos mais alheios ao chamado conteúdo “histórico”
sempre foram grandes historiadores da filosofia. Às vezes nos enganamos e
achamos que um bom filósofo que escreve ensaios não históricos não é
historiador da filosofia, mas, em geral, ele é um historiador da filosofia.

O estilo do ensaio que coloca para o público omite isso explicitamente, mas
ele, na hora de escrever, sabia o que estava falando do ponto de vista
histórico e sabia muito bem como que o debate o levou a escrever do modo que
escreveu. Ele estava de fato integrado na história da filosofia.

Portanto, cada vez mais o filósofo atual é acadêmico, e isso no sentido de
que ele precisa passar por um período de formação que envolve treinamento
dado em universidades. É claro que esse treinamento, no Brasil, tem deixado
a desejar.

A graduação em filosofia e nossos mestrados e doutorados padecem dos males
gerais do nosso ensino, adicionados aos males específicos de uma falta de
tradição filosófica mais substancial. Mas, ruim com a universidade, pior sem
ela. Quem se recusa a dar crédito para a universidade, em geral faz algo bem
pior do que o que se faz na universidade.

Poderíamos melhorar nosso treinamento para formar filósofos e professores de
filosofia. Minha sugestão é que as escolas ficassem atentas para esses
elementos abaixo.

1) A graduação não deveria privilegiar especializações precoces; a amor a
todo tipo de filósofo e a todo tipo de área filosófica e cultural deveria
ser uma regra. Na graduação não há razão para se gostar mais de Descartes
que de Heidegger ou Sade. Muito menos há razão para se desprezar filosofia
medieval diante de filosofia moderna. Cada professor de curso de filosofia,
uma vez que em geral é um scholar de um filósofo, um estudioso (dado seu
mestrado e doutorado), deveria ficar atento para saber que o que ele tem de
mostrar na graduação é a filosofia em geral, e não o “seu” filósofo.
Deveria, inclusive, se perguntar se essa idéia de “seu” filósofo já não é
uma formação equivocada dele mesmo, que o faz incapaz de criar e de poder
dar melhor consistência para seus estudantes.

2) A formação na graduação deveria insistir no filósofo escritor, ou seja,
em alguém que deve ter capacidade de escrever corretamente, de modo elegante
e, em alguns casos, de modo jornalístico. Para tal é necessário que o
próprio professor escreva corretamente e corrija os alunos. Qual a razão de
não mais se corrigir aluno? Nenhuma! Ainda mais na filosofia, onde a
produção do texto é algo primordial.

3) A formação na graduação não pode descuidar de uma língua estrangeira. Ou
se sabe uma língua estrangeira já na graduação em filosofia ou se estará
condenado a ser um profissional de terceira categoria. Nesse caso, não há
razão para insistir na prioridade do alemão e do francês. O inglês deveria
ser algo tão básico quanto o português nos nossos dias.

4) Todas as principais abordagens filosóficas deveriam ser incentivadas –
neste caso, deveríamos pensar a filosofia a partir das grandes correntes.
Não se trata da “filosofia a partir dos ismos”, e sim da filosofia a partir
das grandes concepções sobre como filosofar e o que é o objeto da filosofia.
O exemplo abaixo, no qual tomo a filosofia moderna e contemporânea, deve
servir para que o leitor compreenda o que quero dizer.

Quando Bacon abre a modernidade propondo uma teoria do erro, a crítica dos
“ídolos”, ele traça um panorama geral que diz que nos equivocamos a partir
de defeitos de fabricação que todos nós possuímos. São problemas da nossa
natureza humana (ídolos da tribo) ou de nossa situação individual (ídolos da
caverna); são também as dificuldades dadas a partir de nossa associação que
é feita através da linguagem, sendo esta, por sua própria origem vulgar,
imprecisa (ídolos do foro); e, por fim, também erramos pela filosofia e
ciência (ídolos do teatro).

Podemos levar a sério esse panorama prospectivo de Bacon e ver que a
filosofia, depois dele, veio como que um detetive tentando encontrar o
responsável pelo equívoco ou erro na razão (século XVII e XVIII), na
história e sociedade (século XIX), na linguagem (século XIX e XX) e, enfim,
na ciência e filosofia (XX e XXI). Ao brincarmos de ler esse grande conto de
detetive vamos eleger esses suspeitos do crime – do erro – como objetos da
filosofia e, então, teremos de nos envolver com cada um deles. Sem nos
envolver com cada um desses objetos não acompanharemos a investigação do
detetive – a filosofia.

Agora, devemos pensar também que para cada objeto aparecem detetives
auxiliares e competidores que fazem uma investigação particular e de modo
diferente. Assim, para cada século apontado acima, temos vários tipos de
investigação – elas criam os “ismos”. Mas eles são secundários em relação ao
objeto. É a partir do objeto que nos envolvemos com os filósofos e os
acompanhamos no processo de ver se o apontado culpado é mesmo o culpado.

Esse exemplo serve apenas se aceitamos, de ponto de partida, a visão de
Bacon sobre a modernidade. Mas, o leitor deve considerar, trata-se apenas de
um exemplo, para que se entenda onde quero chegar, que o mostrar que uma
visão global da filosofia passa pelos objetos eleitos e vice-versa, e que um
curso de graduação deveria dar conta disso.

Essa é uma forma gostosa de lidar com a filosofia. Depende de erudição e
competência do professor de graduação, que não pode ser mero professor, tem
de ser filósofo. Mas, se não sonharmos grande e se não acreditarmos que
podemos fazer isso, nada conseguiremos.

Bem, volto aos quatro itens citados. Nenhum deles é mais ou menos
importante. Eles devem ser levados em consideração no conjunto. Há um modo
de fazer isso? Claro que há. Bastaria começar a pensar em uma faculdade
particular gratuita e com alojamento para alunos que pudesse, com essa
estrutura e essa autonomia de base, criar esse tipo de ensino. E não é
impossível de fazermos isso no Brasil. Talvez um modelo assim pudesse
arrastar outros, em outras faculdades.

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“Filosofia e história da filosofia não se separam. Não se separam não porque não queremos, mas porque não podem. Seria a própria destruição da filosofia”


Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo e diretor do Centro de Estudos em Filosofia
Americana (http://www.filosofia.pro.br ).
Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=60045
JC e-mail 3645, de 19 de novembro de 2008.


2 comentários:

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Não existem conteúdos áridos.
Existem formas de ensinar que são áridas.
O ensino de filosofia, assim como o de outras disciplinas, necessita de professores que busquem formas atraentes de levar o aluno ao encantamento em relação ao que é ensinado.
Essa busca deve ser incessante, e acredito ser a força que move um professor.
Um lindo final de semana para ti.

Ezequiel Martins Paz disse...

Prezada Marise von, parabens pelo nome de origem nobre "von" e pelo seu blog. Kannt já em sua época, apontava que a sociedade ainda não havia deixado seu estado de menoridade. Se ele conhecesse a sociedade atual, em 2009, o que diria então? Filosofar é preciso! Abraços. Visite meu blog e de sua opinião! http://filosofiatraduzida.blogspot.com/

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