sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O desafio da diferença




  • AS irmãs Marlene e Lelei Teixeira têm um centímetro de diferença. Marlene mede 1m11cm de altura. Lelei, 1m10cm. De uma família de quatro filhos, são as irmãs do meio. As únicas anãs. Moram juntas entre indas e vindas desde os anos 1980. Dividem um apartamento de três quartos no Bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

    – Muita gente acha que a gente mora em uma casa de boneca, com tudo pequenininho – provoca Lelei.

    Pura imaginação. O apartamento foi adaptado, mas a maioria dos móveis segue dimensões convencionais. A decoração pode ser definida como contemporânea-afetuosa: peças de design sem excessos, complementadas por fotografias e recordações de viagens. A cozinha é espaçosa. O mesão ao centro revela uma característica das irmãs. São esmeradas anfitriãs. Nesse ambiente, aparece a primeira pista da diferença: há uma banqueta em frente à pia. É assim, com banquinhos espalhados em locais estratégicos do apartamento, que elas compensam as alturas dos móveis. As únicas peças especialmente projetadas para elas são o banheiro e o quarto.

    Marlene e Lelei abriram essa casa e, com ela, um rico repertório de histórias emocionantes, muitas delas duras e outras tantas cheias de humor, para contar sobre as diferenças de viver em um mundo formatado para pessoas mais altas.

    As irmãs Teixeira moram no segundo andar. Não que morar em andares mais baixos seja mais recomendável, mas é algo que facilita. São incomuns os elevadores com o painel de comando baixo, ao alcance da mão.

    – Usamos a escada – diz Lelei. – É mais fácil.

    Nascidas em Jaquirana, criadas no campo, a 80 quilômetros de São Francisco de Paula, Marlene e Lelei (que de batismo é Marlei) foram desde muito cedo estimuladas a não enxergar limites na altura. Ressaltam, mais de uma vez, ao longo de mais de duas horas de conversa, que elas são resultado da atitude dos pais. Um casal simples (ele criador de gado, ela dona de casa) que encarou com coragem e sabedoria o nanismo, mesmo com poucas informações num Interior de rara assistência.

    – Nossa mãe nunca deixou pergunta sem resposta – elogia Marlene. – Nossas tias também nos estimularam muito a estudar.

    Seu Nestor (já falecido) e Dona Coralia tinham razão. Não há limites, apesar das dificuldades. Marlene é doutora em Linguística e professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unisinos. Lelei é jornalista e, há 18 anos, com a sócia, Vera Carneiro, pilota uma das mais bem-sucedidas empresas de assessoria de imprensa do Estado, a Pauta Assessoria.

    As lembranças mais antigas das irmãs remontam a uma infância singular, em que foram alvo de brincadeiras e olhares curiosos que não sabiam definir.

    – Sempre tinha a esperança de que um dia chegaria um remédio, vindo dos Estados Unidos, que iria me curar – conta Marlene.

    A verdade chegou pela voz da mãe, que nunca escondeu das filhas as informações que obtinha. Um dia, de bate pronto, revelou que o tal remédio não existia.

    – A primeira experiência dura foi no primeiro dia de aula. Pediram para a turma se perfilar. E não faltou quem gritasse: “Olha uma anã!”. Eu saí da fila e não tive dúvida, deixei a escola chorando – conta Lelei.

    Na vida de Interior, as experiências de estranhamento doeram. Mas foi no mesmo Interior, em Cambará do Sul, que Marlene deu uma guinada.

    – Meu sonho era ser secretária bilíngue, mas não consegui. Na época, a pessoa que me entrevistou disse que eu não tinha os atributos. O que aconteceu é que fui me tornando professora.

    Em princípio, não era uma profissão que atraísse Marlene. Professora fica exposta a muitos olhares, o tempo todo é o objeto de observação dos alunos. E mais olhares era o que ela não precisava.

    – Na primeira turma que peguei, tinha um banquinho para eu dar aula. Quando subi, foi como entrar no palco. Pensei: “Este aqui é o meu lugar, é aqui que eu quero ficar”.

    Desde a turma de Cambará, ela não tem queixas dos alunos. Um caso, relata como curioso:

    – Tinha uma aluna que me achava tão especial que passava o tempo todo me olhando. Sentava na primeira fila, mas acabou indo muito mal nas notas, e eu tive de dizer: “Para de olhar pra mim como se eu fosse de brinquedo”. Ela acabou ficando muito minha amiga. Ela não conseguia me ouvir porque ficava olhando minhas roupas, meu pezinho. Eu ouvia os comentários. Mas isso é raro.

    Interessante foi quando os papéis se inverteram. De observada, ela passou a observadora:

    – Também me atrapalho com as diferenças dos outros. Já tive alunos deficientes visuais e fiquei muito atrapalhada. Queria tratar bem, mas não sabia o que fazer. Queria ser tão legal que, no fim, não sei se eu era tão legal assim. A gente também tem limites em relação à diferença dos outros.

    Marlene é professora da Unisinos e se muniu de adaptações singelas para o ambiente de trabalho: tem um estrado onde dá aula, evita o quadro-negro, apresenta o conteúdo em power point e ganhou uma cadeira especial para digitar com conforto. Não se imagina longe dos alunos.

    Lelei não enfrentou palcos como a sala de aula. Jornalista formada, passou por redações dos principais veículos do Estado, inclusive por Zero Hora. Trabalhou em programas femininos, quase sempre na área de produção, teve experiências em jornal, televisão e rádio. No seu caso, o desafio a vencer era um acanhamento social:

    – Eu era muito tímida, e o meio jornalístico é muito agitado. Tive que resolver isso. Aprendi, principalmente com a Tânia Carvalho, que a vida pode ser muito diferente.

    O aprendizado não foi instantâneo:

    – Durante muito tempo, eu não falava, não pronunciava a palavra “anã”. Vivia, mas não encarava o assunto. Nem entre a gente falava-se muito. O fato de sermos duas ajuda, ecoa o que a gente diz. Brinco muito com a Marlene em coquetel, porque a gente conversa o tempo todo.

    Aliás, coquetel é uma programação difícil. Os convidados, geralmente em pé, conversam entre si. Para participar do assunto, Lelei e Marlene ficam em posição desconfortável, cansativa. Cobrar que os convidados se abaixem para conversar também não é a melhor solução.

    – Se eu já sofri? Já sofri bastante por ser anã, tive uma adolescência terrível. Porque eu não estava olhando, queria ignorar. Mas quando tu olhas e te dá conta de que é isso, então vamos lá. É preciso te olhar e te aceitar, é assim que eu sou, nem um milímetro a mais e nem um a menos – conta Lelei.

    ...


  • O relato mais impressionante das irmãs diz respeito a umas férias, anos atrás, em Natal, no Rio Grande do Norte. Elas entraram em uma rua secundária, de pouco movimento, e foram apedrejadas por crianças. Ainda mais chocante foi o fato de que os adultos presentes no local não inibiram o gesto. Ficaram assistindo.

    Em geral, adultos se mostram mais desconcertados na hora de lidar com diferenças.

    – A pessoa de tamanho dito normal acha que pode fazer qualquer coisa com a gente – conta Lelei. – Estou na rua e chega alguém, passa a mão na minha cabeça e diz: “Oh, baixinha”. Isso me aconteceu na semana passada. Como pode? Eles não fazem isso com qualquer pessoa que passa na rua, né?

    Diante de crianças, relata a jornalista, a regra é explicar:

    – A gente tenta diluir o impacto.

    Boa história tem Marlene, lembrando o encontro com o filho de uma amiga. Conviviam bem e eram quase da mesma altura. Anos depois, a criança mais crescida, falou a ela, surpresa:

    – Nossa, tia, como tu empequenou!

    Entre um café e um tour pela casa, as irmãs Teixeira comentam o gosto pelas viagens. Apontam na parede do corredor a foto de uma estátua da altura delas.

    – Acredita que em Salzburgo descobrimos um jardim de anões? – diverte-se Lelei.

    No bairro em que moram, ir ao supermercado não chega a ser problema. Elas fazem o rancho sozinhas, eventualmente pedem alguma ajuda. O transporte pode ser mais difícil. Taxistas menos sensíveis, às vezes, não facilitam o embarque. No ônibus, Lelei já ficou presa na porta por duas vezes. Aprendeu a lição graças à cobrança de um motorista que a orientou a entrar pela porta da frente. O rapaz disse que ela não poderia agir normalmente, já que ele não a enxergava pelo retrovisor. Montar o vestuário também é um desafio. Peças feitas para crianças, ao contrário do que se poderia imaginar, não são as ideais. As proporções são diferentes. Com sapatos, a mesma coisa: os infantis servem, mas não combinam na altura e largura. O guarda-roupa tem de ser feito sob medida, o que acaba custando mais caro. No mais, é tentar se adaptar.

    – O que a gente tem dentro a gente projeta nos outros. À medida em que não é problema para ti, começa a ficar bem mais fácil. Tu começas a pensar: “Vire-se, se tu tens preconceito. Por mim, estou indo” – ensina a professora. – Se tu estás com problema comigo, trate de se acostumar. Esse mundo é muito esquisito.

    Lelei faz coro:

    – Quando tu te dás conta de que o aprendizado é teu e que tu vais ser o referencial para as pessoas se comportarem, que tu quem vai dar a linha, a vida melhora 100%.

    Na primeira turma que peguei, tinha um banquinho para eu dar aula. Quando subi, foi como entrar no palco. Pensei: ‘Este aqui é o meu lugar’.


    Fonte: Jornal Zero Hora

2 comentários:

Em@ disse...

Interessante!

:))

O mar me encanta completamente... disse...

Boa noite ,
Conheci seu Blog no Blog do Valter Poeta.
Amei o seu cantinho...
Fico feliz demais ao ver sua obra literária...
A Blogsfera só tem a ganhar com sua presença
e escritos dignos do grande escritor que vc é, de fato.
Aproveitei e me alimentei de uma farta porção de sua inspiração...
Hoje vim te ler, e compartilhar com você um presente:
Sou a poetisa da semana no Blog do VALTER POETA e
é claro, gostaria que lesse, e caso queira, opine.
É sempre pra mim um prazer e uma honra saber sua concepção,
sua opinião, seu parecer.

Te espero...

http://valterpoeta.blogspot.com


Beijinhos...

Glória

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