terça-feira, 3 de novembro de 2009

Quando a aula se torna atraente



São quatro ou mais horas por dia, 200 dias por ano, durante vários anos: a escola está na vida da maioria dos brasileiros. A família cobra educação aos filhos, a sociedade exige preparo. Além do mais, nos tempos modernos não há como fugir de mudanças. Todos sabem o que não se quer da escola, mas há uma grande insegurança quando temos que concretizar a educação formal.
É neste confronto que vive o(a) educador(a), muitas vezes sem reconhecimento e sem valorização. Em busca de caminhos ou pistas para que, além da realização profissional, a educação, que envolve a interação entre educador(a) e educando(a), seja mais gratificante e frutífera, conversamos com o arte-educador, ator profissional e pedagogo Francisco Aparecido, Professor Chiquinho.

José Francisco Aparecido (Professor Chiquinho),
arte-educador, ator profissional e pedagogo.
Endereço Eletrônico: arteducador@uol.com.br


Mundo Jovem: Você propõe criatividade em sala de aula. O que significa isto?

Prof. Chiquinho: Hoje nós estamos vivendo uma época de muitas mudanças por causa da globalização, do avanço tecnológico. E a gente tem observado que os professores, muitas vezes, ficam perdidos com tantas informações que os alunos trazem para a escola. Antigamente era o contrário, o professor se preparava, trazia materiais, trazia a novidade para a sala de aula. Os alunos ficavam surpresos. Hoje, o professor tem que ser muito criativo para levar algo novo para a sala de aula.

A nossa proposta é desenvolver a criatividade, não somente no fato de você ter condições, estrutura material, em que a escola compra objetos pedagógicos, paradidáticos, mas também de o professor ser um agente criativo, ou seja, o professor que procura, ao invés de ter, ser criativo.

E nós partimos do princípio da simplicidade: trabalhamos com a realidade do professor em sua casa, como ele é, como é sua criatividade. Usamos muito o exemplo da mulher, que hoje domina a educação, porque a mulher é criativa. Ela chega em casa, tem que cuidar da criança, lavar roupa, fazer faxina, fazer almoço e correr para dar aula...

Ela é muito criativa e, muitas vezes, não se dá conta disto. Muitas vezes basta despertar para usar esta criatividade também na sala de aula. E nós sabemos que a criatividade também está relacionada à necessidade. Então, muitas vezes, a pessoa só descobre que usou a criatividade porque foi num momento de pressão, de necessidade.


Mundo Jovem: E na escola, como funciona isto?

Prof. Chiquinho: O professor tem que saber que ele pode usar pequenas coisas e transformá-las em algo atrativo, diferenciado. Por exemplo, hoje nós temos uma polêmica muito grande com relação a contar histórias. Nós temos escolas que têm aparelho de CD, vídeo, DVD. Alguns professores, no momento da história, vão lá, pegam um vídeo, passam e as crianças ficam sentadinhas lá, olhando desenhos e acabou...

Neste caso a criança deixa que a tecnologia domine a parte que seria dela. O professor tem que estar junto com a tecnologia e usá-la, mas não se omitir. A criança gosta de algo tecnológico, mas ela prefere ainda a simplicidade. Nós temos por exemplo, na TV Cultura de São Paulo, a Bia, excelente contadora de histórias, que usa sucatas, material de cozinha... e a criança vivencia aquilo de uma maneira fantástica.

Creio que é este o grande segredo, quando o professor começa a verificar o seu espaço, e cria situações. Se não tem material, pode usar o próprio corpo, através da expressão corporal, da mudança de voz, usar desenho criativo no quadro, com uma surpresa dinâmica... Eu acredito fielmente na importância do desenvolvimento lúdico, especialmente no início da educação. Isto é fundamental.


Mundo Jovem: A necessidade de passar todos os conteúdos não atrapalha um pouco a diversificação nas aulas?

Prof. Chiquinho: De fato. Na educação infantil as pessoas ressaltam mais o uso do lúdico, das brincadeiras, dos jogos e dinâmicas. E isto, infelizmente, se perde mais adiante. Na quinta série vêm professores diferentes, então se começa a trabalhar a maturidade da criança e a brincadeira se perde. Quando chega o Ensino Médio, até mesmo o contato de professor e aluno fica totalmente diferente.

Hoje, de modo acentuado, falta o contato presencial, do professor presente, que senta com o adolescente, com o jovem, conversa com ele, observa os desejos, as idéias deles. Há todo um currículo a seguir, todo um programa para cumprir, e isto é uma preocupação.

Porém o professor tem que ter esta flexibilidade de poder passar o conteúdo, mas de uma maneira criativa. Pode usar o teatro, que hoje em dia tem sido tão acentuado na mídia. Mas não o teatro formal, de um ator ou uma atriz, mas proporcionar ao aluno um contato com a arte da dramatização, com os laboratórios, com as pesquisas, com os personagens, enfim.

Se o aluno quiser futuramente trabalhar nesta área, ótimo, mas não é função do professor formar artistas ou encaminhar o educando para o teatro profissional.


Mundo Jovem: O Ensino Médio, a partir desta realidade, não lhe parece “sisudo” demais?

Prof. Chiquinho: O Ensino Médio, hoje, está envolvido em diferentes aspectos. Há as escolas que estão preocupadas em preparar alunos capacitados para enfrentar o vestibular. Então, o currículo tem mudado, principalmente na escola particular. Você pega o material de segundo e terceiro ano e verifica que tudo é dirigido no estilo simulado.

Há uma pressão muito grande, por parte da escola e por parte da família, querendo que o aluno entre para a universidade. Porém esquecem de trabalhar com outros conceitos que são extremamente importantes também. Eu vejo que agora essa questão da interdisciplinaridade deveria funcionar realmente, ou seja, o professor de Geografia ter um projeto de trabalho ligando Inglês, Literatura, Matemática.

Parece algo muito difícil, mas não é. E aqui entra a criatividade. Querendo ou não, por exemplo, ao trabalhar Literatura, num projeto com leitura de Shakespeare, é necessário o professor de Inglês para a tradução; é necessário o professor de Português para falar da questão da evolução da linguagem portuguesa, o Português coloquial; é necessário o professor de Artes, de Geografia... Todos vão ser beneficiados.


Mundo Jovem: E esta forma de trabalhar tem alguma coisa a ver com a superação da indisciplina na sala de aula?

Prof. Chiquinho: Com certeza. Trabalhando com professores, posso constatar isto. Se eu tenho um grupo de professores que se inscrevem em determinada oficina, terão uma expectativa.

Porém se esta oficina é desenvolvida de forma banal, sem algo criativo, se não tiver nada de novo, haverá um desinteresse. Aí vamos ter professores, que lecionam, que estão numa oficina conversando, saem para dar uma volta, ficam impacientes.

E é também isto que acontece na escola: se a aula não for dinâmica, com algum trabalho diferenciado, vai ser uma aula monótona. Na realidade, os alunos passam 200 dias por ano na escola.
Não que estes dias tenham que ser aulas show, mas tem que haver o momento surpresa, um momento de pensar, refletir, de brincar. Tem que haver isto não somente no pré, mas em todo o caminho do educando na escola.


Mundo Jovem: Mas considerando a realidade do aluno?

Prof. Chiquinho: A realidade do aluno sempre deve ser levado em consideração. Mas temos que ter também o cuidado de não subestimar ninguém. Às vezes, porque a pessoa mora na periferia, pensa-se que é carente, que não sabe como usar um computador.

Mas muitas vezes nos “dão um banho”. Especialmente nas questões de informática a criança aprende muito rápido. Então, existe uma informação muito rápida e a criança tem na escola, no professor, aquele que conhece. Mas o professor coloca aquela máscara de que ele sabe e não desce ao nível do aluno.

Os professores de sucesso são aqueles que chegam no nível do aluno e conseguem caminhar junto com ele. Esse é o sucesso também da superação da indisciplina: buscar a área certa, perguntar-se por que os alunos não participam da aula? Por que querem brincar, ir ao banheiro toda hora, conversando tanto? Isto tem que ser objeto de análise.

O professor tem que se perguntar se o problema está na forma de dar aula, no conteúdo, ou qualquer outro motivo.


Mundo Jovem: E quando é preciso ser exigente?

Prof. Chiquinho: Um exemplo: você tem um filho e constata que ele está com anemia. Para curá-lo é preciso uma alimentação correta. O médico vai indicar beterraba, fígado etc.

A criança acha isto gostoso? Não. Mas você sabe que ela tem que comer isto, tomar remédio para que possa ter saúde. Os pais criativos fazem algo criativo com os alimentos e aí a criança come aquilo por causa do lúdico, da brincadeira.

Ela até nem percebe o gosto. A mesma coisa acontece com a educação, na escola. Se o projeto educacional prevê aquele conteúdo que é considerado chato, e se o professor já tem essa idéia de que é chato e que ele vai ter que passar isso, naturalmente o aluno vai sentir isto e vai perguntar: para que isso?

E se o professor também se perguntar pelo porquê deste conteúdo, pronto! Tudo vai ficar difícil. Aí entra a criatividade do professor de usar a sabedoria, a sensibilidade de dizer ao aluno: esse é um trabalho; nós vamos fazer algo meio complicado, importante, e é assim que nós vamos trabalhar. Por exemplo, tive uma professora que, quando trabalhava frações, ela levava pizza, chocolate. Os alunos vibravam. E a gente sabe que a criança aprende na brincadeira.




Professor(a) profissional


Tenho a convicção de que é indispensável a gente se avaliar profissionalmente. Todas as profissões devem ser avaliadas. Mas especialmente nós da Educação porque nossa realidade mudou muito. Nós tínhamos uma vivência, um contexto histórico, e em razão disto muitos estão na profissão ou porque o pai queria, ou por pressão, ou porque não tinham uma profissão.

Mas nós precisamos ser felizes. E eu fico triste em ver profissionais infelizes, não só na área da educação. E quando você é infeliz, não tem como mudar, não tem motivação. É impossível dar ao próximo o que você não tem.

Por isso sempre falo o seguinte: vamos avaliar por que você está trabalhando na Educação?
Porque hoje é uma profissão feminina? Porque você consegue conciliar a profissão com os serviços de casa?
Porque você passou num concurso e tem um emprego garantido? Ou você está na Educação porque gosta daquilo. Quando você gosta da profissão porque tem prazer nisto é a situação ideal. Eu vejo professores que estão há 40 anos no magistério e não perderam o prazer, o amor pela Educação. Eles olham para uma criança ou para um jovem e pensam: este cidadão vai crescer, vai ter uma família, uma profissão, e isto os motiva.

Então a motivação vem do fato de a pessoa reconhecer que está numa profissão, que requer não só conhecimento teórico, formação, mas sentimento, amor ao próximo: trabalhar com a cidadania, com a sociabilidade. E aí, sim, vai conseguir ser criativo nas aulas, gostar da carreira, especialmente a partir do sentimento, do amor, do afeto.

Fonte: Jornal Mundo Jovem

Entrevista publicada na edição 351, outubro de 2004.

Veja a imagem em: stoccontando.wordpress.com/2009/05/

2 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Marise,

O professor já exercia esse papel de ator. Ator não no sentido de mentir uma realidade, mas de recriá-la em sala de aula.

Agora, com os alunos em contato constantemente com as novas tecnologias, o professor-ator tem que ser um conhecedor das novas mídias para interagir com seus alunos.

Abraços, Marise.

Maria disse...

Marise!!
Sou professora, em Portugal. Gostei do seu post.
Devo dizer-lhe que aqui cheguei através de um amigo comum- Ricardo do blog "spinoza e amigos" e também que seguimos, ambas, outros blogs como o "Profavaliação"que certamente tem sido um grande suporte para a nossa luta de uma profissão mais digna e sobretudo que tem tentado fazer cair a máscara a medidas governamentais anti-professores.
Gostei particularmente do comentário do Valdeir usando o "professor ator"...ficou registado e vou usar...rs
Abraço
Cristina

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