sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Assim vai a escola pública... de Portugal

Um excelente post, publicado pelo amigo Miguel no Blog ProfAvaliação


Assim vai a escola pública…




















N
a generalidade das sociedades democráticas, o sistema educativo tradicional
, organizado e pensado para a selecção e a exclusão, para a imposição da norma única, para a conversão de todos à mesma cultura, isto é, para a partilha desigual e acrítica da cultura dominante, está posto em causa. Os decisores políticos começam a perceber que a educação pública não deve ser tratada como um negócio temporário que procura produzir resultados rápidos e lucros incessantes; que a ênfase excessiva nos aspectos básicos do ensino inflige danos colaterais às aprendizagens mais criativas, mais críticas e fisicamente mais saudáveis existentes no meio circundante; que a prescrição unilateral de competências básicas e os níveis de sucesso orientados para as metas pré-definidas retiram alma e criatividade às experiências dos alunos.

No entanto, em Portugal, persiste um sistema tremendamente rápido com uma excessiva ênfase no ensino e uma reflexão deficitária sobre a aprendizagem. Os programas são extensíssimos, autêntica panóplia de conteúdos, factos e conhecimentos. Predomina a lógica disciplinar e a ausência de unidade e coerência curriculares impossibilita a construção de verdadeiros projectos curriculares de turma. Os lobbies disciplinares e editoriais, os ciclos políticos eleitorais, os rankings das escolas, as conclusões apressadas, com base em relatórios pretensamente idóneos e independentes ― é o caso do estudo sobre a reorganização do ensino no 1.º ciclo ― sobrepõem-se ao paradigma subjacente a uma nova maneira de pensar a aquisição do saber, a uma nova forma de ensinar, de aprender, de formar, de educar.

Os responsáveis do Ministério da Educação, preocupados com estatísticas e inquéritos de opinião, têm vivido obcecados pelos resultados e pelas melhorias a todo o custo. Fazem-se provas intermédias, pré-testes, aferições. Actividade frenética, modelo de escolaridade fabril ao serviço de um currículo karaoke ― um currículo apressado que não oferece qualquer espaço nem para a profundidade nem para a amplitude de um verdadeiro ensino/aprendizagem.

É a filosofia das escolas rápidas num contexto de mudança repetitiva: sobrecarga de iniciativas e excesso de trabalho burocrático, que desvia os professores da sua função primordial, muitos dos quais já experienciam níveis elevados de stress devido à papelada desnecessária e às tarefas de gestão inerentes ao seu trabalho. A título de exemplo refira-se que, de acordo com o artigo 27.º do Estatuto do Aluno dos Ensinos Básico e Secundário, a aplicação de uma medida disciplinar sancionatória que vá para além de uma repreensão registada obriga ao preenchimento de nove (!) modelos de registo.

Continuamos com uma escola mecanicista cujo tempo curricular obedece à lógica da clepsidra: de 45 em 45 minutos (ou de 90 em 90) sucedem-se as disciplinas e áreas curriculares não disciplinares, espécie de injecções de saberes artificialmente divididos numa lógica obsoleta de aprendizagem.

Nesta escola tudo é fácil, tudo é lúdico, tudo é projecto. Os testes são lacunares e só se questiona o óbvio; a pedagogia da exigência cede a uma ilusória pedagogia da diferenciação; não se estimula nos alunos a paixão pela dificuldade, pelo obstáculo, pelo problema. O ensino baseia-se em métodos de raiz indutivista, os programas confundem-se com os manuais escolares, a transmissão não dá lugar à experimentação. A escola, por ignorância ou mimetismo, actua em sintonia com os pais e primeiros educadores, mostrando-se incapaz de impor limites, diferenças e disciplina. Em vez de acompanhar as mudanças que se vão operando, parece que a nossa escola cristalizou no seu “modelo original”.

No último estudo dedicado às Ciências, relatório PISA (Programme for International Student Assessment) de 2006, apenas 3 em cada 100 portugueses de 15 anos souberam identificar, explicar e aplicar conhecimentos em situações conhecidas e desconhecidas. Numa escala de 1 a 6, apenas 3% dos nossos jovens obtiveram um nível igual ou superior a cinco.

Naturalmente que os relatórios PISA são propícios a leituras rápidas e enviesadas e têm sido transformados em rankings feitos quase à medida para avaliar o melhor sistema educativo tal como os exames nacionais constituiriam um ranking perfeito para avaliar a melhor escola do país. No entanto, independentemente de se saber o que é que o programa afinal avalia ― “as performances dos sistemas educativos, as características culturais dos países, a eficácia da educação das famílias?” ― a verdade é que constitui um importante indicador que, no contexto das aprendizagens amplas e profundas, nos deve merecer a devida atenção.

Mas todas as aprendizagens começam na família. Infelizmente, temos agora uma escola “a tempo inteiro” e uma família em “part-time”. Em vez de políticas de capacitação das famílias, em vez de famílias qualitativamente envolvidas numa política de educação e formação, em vez de famílias aprendentes e liderantes, criámos um conceito de escola que se assemelha a um “pavilhão multi-usos” onde as crianças permanecem durante largas horas, experienciando vivências que nem sempre são as mais desejáveis.

De facto, a implementação precipitada das actividades de enriquecimento curricular (AECs), para além de ter vindo prejudicar o normal desenvolvimento do currículo, não proporcionou uma discussão séria sobre a forma como a sociedade deve organizar a relação entre o modo de viver e a aprendizagem.

Vivemos num país em que a escolaridade obrigatória de nove anos está mal consolidada, com profundas assimetrias regionais e elevados níveis de insucesso, resultado precisamente da grande fragilidade social e económica de muitas famílias e das suas carências culturais. Neste contexto, o anúncio recente do alargamento da escolaridade obrigatória para doze anos suscita imensas reservas e torna ainda mais urgente o desenvolvimento de políticas eficazes de capacitação das famílias portuguesas.

São vários os autores que distinguem renovação de reforma. Esta última tem origem longe das escolas, fora do tempo e do espaço e não se ajusta à natureza e circunstâncias das instituições educativas. Os esforços tradicionais das chamadas grandes reformas partem do pressuposto de que algo está errado e que é necessário reestruturar todo o sistema. A renovação, pelo contrário, assenta, de forma ecológica, na vida das escolas e das pessoas que nelas trabalham. É conveniente, no entanto, que a nova ministra da Educação tenha presente que a renovação só será possível com docentes devidamente capacitados, auto-confiantes e reconhecidos pela sociedade como fontes de saber e de aprendizagem. Os alunos são a razão de ser da escola, mas os professores serão sempre a substância e a alma de qualquer ecossistema educativo.

Fernando Alberto Cardoso – Professor

Fonte: Retirado do Blog ProfAvaliação, agradeço aos amigos de Portugal: Miguel e Ramiro.

5 comentários:

Em@ disse...

Esta é a nossa realidade Marise. Remamos contra a maré vejamos se não perdemos as forças antes do tempo.
Estamos há demasiado tempo a perder o pé. A precariedade ganha terreno todos os dias e eu estou, cada dia que passa, + céptica.

E por aí?
Beijinho

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Muito do que foi falado, reflete a nossa realidade.
O ruim não é perceber isto.
O ruim é perceber a acomodação que temos diante de tudo isto.
Ver grandes mestres abandonarem a profissão devido a falta de motivação.
Ver alunos indisciplinados, tentando fugir de um currículo de conteúdos que sufoca oa paixão pelo aprender.
Mas somos sonhadores, e seguimos pelo mundo jogando estas sementes de indignação e esperança.
Talvez não vejamos as mudanças que sonhamos, mas não podemos nunca abrir mão delas.
Fica feliz.

Miguel Loureiro disse...

Aluisio Cavalcante Jr.
Com o que disse,podia ser um "lutador" pelos direitos do professor e da Escola Pública...em Portugal.

Se fosse só no Brasil e em Portugal, que a escola pública está ameaçada e consequentemente os cidadãos, era bom, mas a "bomba" é mundial, ou global. Não foi à toa que o fotógrafo brasileiro dizia: "não há globalizadores, sem haver globalizados!"

Miguel Loureiro disse...

O fotógrafo é o Sebastião Salgado.

Sandra disse...

Marise deixei um comentário, acho que no outro blog sobre o selo da Bandeira do Professor. Está em meu Mimos. Passe lá tm o link neste endereço, onde publiquei, para quem vc. tira o chapéu.
http://sandrarandrade7.blogspot.com/

passe lá eu te espero.
Sandra

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