quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Em Nova York, gestores têm total autonomia"

Chris Cerf, subsecretário de Educação da cidade norte-americana conta o que fazem os diretores para melhorar o desempenho das escolas

Cinthia Rodrigues (gestao@atleitor.com.br)

Foto: Marina Piedade
CHRIS CERF
Foto: Marina Piedade

Poucos lugares no mundo podem apresentar um exemplo tão abrangente de revolução no sistema da Educação como Nova York. Nos anos 1980, a maior metrópole norte-americana amargava altos níveis de evasão e um índice de aprendizado que variava conforme a classe social. As ações implementadas por diferentes governos geravam resultados inexpressivos que se diluíam na burocracia. "Tudo esbarrava em um sistema cheio de amarras, que não cedia espaço para nenhuma tentativa de solução", conta o subsecretário de Educação da cidade, Chris Cerf, um dos responsáveis por puxar o fio que desfez esse nó. Há sete anos, a prefeitura iniciou uma reforma chamada Crianças em Primeiro Lugar. O slogan do programa ressaltava que o sistema engessado, em vigência até então, beneficiava mais os funcionários, os prestadores de serviços e os políticos do que os alunos. Partindo dessa máxima, tudo que era visto como obstáculo às mudanças foi repensado. Acabaram-se as 32 coordenadorias de ensino regionais, os conselhos de escola, as licitações para compra de materiais e o processo de escolha de classes por ordem de tempo de serviço (por parte dos professores). O dinheiro e a autoridade passaram às mãos dos diretores. Ao mesmo tempo, a cobrança sobre eles começou. Quem não conseguiu resultado foi demitido. "Buscamos os melhores advogados da iniciativa privada para encontrar interpretações em leis que pareciam imutáveis e demos aos diretores todo o poder. Mas também cobramos deles que fizessem bom uso dessa autonomia", afirma. Em agosto deste ano, Cerf visitou o Brasil a convite da Fundação Itaú Social e do Instituto Fernand Braudel para contar como se deu a reforma em Nova York e conversou com NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR sobre as mudanças no papel dos diretores, que passaram a decidir o que é melhor para a escola que lideram. Para ele, a responsabilidade por garantir a Educação de cada aluno deve ser do gestor escolar e cabe ao governo proporcionar o que esse profissional precisa para atingir o objetivo.

Por que Nova York precisou fazer uma mudança no sistema educacional?
CHRIS CERF Precisávamos melhorar o índice de alunos que concluem os estudos. Queremos que todos os estudantes completem 12 anos de escolaridade e estejam prontos para a faculdade ou uma carreira de sucesso. Era necessário, ainda, dar chances iguais a todos. Nos Estados Unidos, temos grandes desníveis sociais. Se a criança nasce pobre - o que ocorre com mais frequência (mas não exclusivamente) entre negros e latinos -, historicamente ela terá uma performance acadêmica pior. A porcentagem desses alunos que chega à faculdade é menor e eles também ficam para trás em habilidades de leitura e de Matemática. Uma das metas é acabar com o desnível.

Como começou a reforma?
CERF Quando iniciamos, em 2002, a cidade contava com uma Secretaria, 32 coordenadorias de ensino, pessoas ligadas à Educação na prefeitura, políticos que se diziam defensores da causa etc. Porém ninguém se sentia diretamente responsável pelo desempenho dos alunos. Para ter uma ideia, tivemos 14 secretários em 20 anos, cada um com seu próprio plano, que era interrompido pelo sucessor. Isso gerou uma anarquia, um caos. O poder era exercido por gente interessada em cargos, contratos, política e não por quem se importa com as crianças. Não foi fácil, mas procuramos brechas nas leis e enfrentamos batalhas judiciais para acabar com as administrações regionais e os intermediários. Conseguimos assim colocar o dinheiro e a autoridade diretamente nas mãos dos líderes escolares.

Em quanto tempo a mudança foi implementada?
CERF
Em lugares complexos e grandes, como Nova York e São Paulo, uma reforma educacional requer tempo. Eu diria uma década, no mínimo. Por isso, a nossa ainda está em andamento. Só depois de dois anos debruçados sobre os índices de aprendizagem, conseguimos mapear os problemas. Em seguida, explicamos aos diretores nosso objetivo e demos a eles o dinheiro e a autonomia para buscar o melhor caminho para atingir as metas. Informamos que os que não conseguissem alcançá-las no prazo de dois anos teriam de se justificar, fazer novos planos e contar com mais dois anos para outra tentativa. Se após quatro anos os resultados não aparecessem, as escolas seriam fechadas, e eles, demitidos. Nesses casos, os alunos são transferidos para novas unidades construídas na vizinhança.

Quais foram os resultados?
CERF Até agora, muito positivos. Entre 2006 e 2009, o total de alunos concluintes do High School (correspondente ao nosso Ensino Médio) passou de 44% para 62%. No mesmo período, a porcentagem de estudantes que atingiram os padrões adequados de aprendizagem para sua idade nas avaliações saltou de 57% para 82% e a diferença entre o desempenho dos alunos negros em relação ao dos brancos diminuiu de 31% para 17%. Esses números estão longe do ideal, mas mostram melhoras inquestionáveis. Hoje, para uma criança mudar de série, precisa ser aprovada em um teste. Antes da reforma, todos passavam por idade.

O papel do diretor mudou também?
CERF
Totalmente. Nos velhos tempos, os diretores recebiam ordens sobre o que fazer. Agora, exigimos deles que os alunos melhorem a performance a cada ano, que o número de formados aumente e o desnível entre os estudantes diminua. Conferimos a eles autoridade e autonomia financeira para fazer o que quiserem para chegar lá. Se der uma sem a outra, acontece um desastre. Por exemplo, se eu falo ao diretor que o trabalho dele é fazer com que todas as crianças aprendam em dois anos, mas que ele não poderá controlar o orçamento, contratar ou demitir professores e precisará usar determinado currículo, nunca dará certo! Do mesmo jeito, se existir só autonomia, sem cobrança de metas, corre-se o risco de manter um gestor que não ache importante que os alunos concluam o curso, por exemplo. Precisamos dos dois lados.

Houve muita reação dos diretores?
CERF
A maioria desistiu logo no começo. Em sete anos, cerca de 70% dos diretores se aposentaram ou deixaram a rede pública. Outros 10% foram demitidos com o fechamento das instituições. Os que ficaram passaram por cursos de gestão de orçamento, de atualização pedagógica e de gerenciamento de pessoas.

Quais foram as medidas que os gestores com autonomia tomaram?
CERF Os diretores fizeram coisas incríveis. Alguns investiram em tecnologia e outros ofereceram cursos fora do horário e aulas aos sábados. Muitos se associaram a universidades que dão treinamento aos professores universitários. Nesse sistema, as faculdades enviam consultores para as escolas e ajudam a promover a formação de professores e o aprendizado dos alunos. Um grupo de diretores escolheu alguns educadores da escola para voltar a estudar e pagou o curso universitário. Alguns mexeram no currículo, instituíram mais aulas de algumas disciplinas, introduziram outras e reduziram o que decidiram que não era prioridade. Eles também se uniram em associações de diretores para a troca de experiências.

Como ficou a relação do diretor com os professores?
CERF O diretor escolar ganhou autoridade para contratar o educador em quem confia ou demitir quem não traz resultados. Antes, os professores podiam escolher, por ordem de tempo de serviço, onde iam dar aula. Os diretores não opinavam. Hoje, nenhum professor trabalha em uma escola sem que o líder concorde. Os docentes se candidatam a uma vaga e a direção contrata se quiser. Se há um profissional muito bom, um gestor pode pagar um salário maior a ele.

A estabilidade profissional acabou?
CERF Não, mas a estabilidade não é mais um contrato vitalício. Até há poucos anos, muitos professores eram temporários, contratados para suprir a falta de efetivos em Nova York. Pouco antes de iniciarmos a atual reforma, esse problema acabou. Agora eles passam por concursos. Eles podem bater à porta de uma escola e buscar emprego. Se não conseguirem, têm ainda a opção de buscar mais cursos, de participar dos nossos programas de aperfeiçoamento e depois tentar novamente. Os diretores também são concursados.

O diretor também pode escolher a escola em que vai trabalhar?
CERF Sim, quando há uma colocação disponível. Normalmente, as vagas estão nas novas escolas, construídas no lugar das que foram fechadas ou naquelas em que o antigo gestor se desligou. As duas situações representam desafios e nós procuramos talentos para resolver os casos mais difíceis. É mais comum pedirmos a alguém que assuma determinada escola do que um diretor solicitar transferência.

Como os gestores administram os recursos recebidos?
CERF Eles gastam conforme precisam e apresentam um balanço. O orçamento é baseado no perfil de cada aluno. Se a escola recebe mil dólares por um estudante comum, ganhará mais por aquele com deficiência, que exige investimento maior, pelo que apresenta uma performance abaixo da média, pelo que não fala inglês etc. Assim, cada instituição tem a mesma oportunidade de sucesso. Por isso, não checamos para onde vai o dinheiro.

A Secretaria preparou os diretores para tomar tantas decisões?
CERF Abrimos a Academia de Líderes com dinheiro conseguido com a iniciativa privada. Lá, eles recebem formação em gestão em seus diversos níveis - como elaborar orçamentos, tomar decisões com foco no pedagógico e, talvez o mais importante, como administrar pessoas.

A função administrativa prejudica a atuação do gestor no pedagógico?
CERF
Qualquer decisão administrativa tem consequências no aprendizado. É claro que as instituições contam com profissionais assistentes, como o coordenador pedagógico, o vice-diretor e o auxiliar administrativo. Também há o coordenador de pais, um familiar de aluno contratado para resolver questões entre as famílias e a unidade, porém é o diretor que responde pela escola e, especificamente, pela aprendizagem dos alunos.

A reforma se preocupou com o engajamento da comunidade?
CERF
A escola tem de ser responsável por um alto nível de atendimento educacional, independentemente das condições externas. O que é epidêmico nos Estados Unidos e em qualquer lugar é que, diante de tantas coisas a que as crianças estão expostas - TV, drogas e desagregação familiar -, a sociedade (e a escola) decide que não pode fazer mais nada. Cada vez mais, vivemos em um mundo que aceita isso. Nós, pelo contrário, enfrentamos os problemas sem usá-los como desculpas. A escola é responsável pela vida acadêmica do aluno. Mas procuramos engajar a família, temos um eficiente sistema de comunicação, um site a que todos os pais têm acesso para ver como os filhos estão aprendendo. Quando um familiar recebe a informação precisa, ele passa a entender e, então, a cobrar resultados da escola.

E como a reforma trata a questão de indisciplina dos alunos?
CERF
Criamos também um Código de Disciplina com um leque de punições possíveis para diferentes tipos de comportamento, o que ajudou muito. Mas o mais importante é a qualidade de ensino. Não vamos nos iludir achando que, fazendo uma escola melhor, todo mundo vai se comportar. Sempre haverá problemas de disciplina. Mas alguns fazem parte de um ciclo vicioso: escolas que não adotam bons programas pedagógicos registram mais distúrbios de comportamento dos alunos, o que eleva o índice de fracasso no aprendizado. Se a qualidade dos professores é alta, e o currículo, desafiador, as questões de indisciplina somem. Tínhamos sérias dificuldades com gangues, mas agora está bem melhor. Havia uma escola enorme com índice de apenas 30% de alunos que concluíam o curso. Ela foi fechada. Para compensar, abrimos quatro outras menores no bairro. Os estudantes se esforçam para fazer dessas novas unidades um sucesso e, em todas, a graduação mais do que dobrou.

Sem apoio oficial, os gestores escolares conseguem fazer mudanças?
CERF
Eles podem mexer no currículo, introduzir atividades, exigir dedicação dos professores e buscar opções extracurriculares significativas para os alunos. Mas não há receita. Por essa razão, demos o poder ao diretor, pois, no fim, é ele quem está lá e sabe o que é necessário.

O que acha da realidade brasileira?
CERF
Eu não tenho ideia do que acontece no Brasil, mas meu palpite é que ou há pessoas com poder que não são cobradas ou há cobrança em cima de quem não tem poder para resolver. Em todos os lugares do mundo onde os índices não são bons, se vê uma dessas coisas.

Quer saber mais?

INTERNET
A Reforma Educacional de Nova York - Possibilidades para o Brasil, relatório do Instituto Fernand Braudel, 135 págs., disponível no site da Fundação Itaú Social


Fonte:Gestão Escolar Edição 005 | Dezembro 2009/Janeiro 2010

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