terça-feira, 31 de março de 2009

Por que ler as obras que marcaram a história do pensamento?

Por José Renato Salatiel*

Ler os clássicos: que tal começar por "O Banquete" de Platão?

Imagine, caro leitor, a seguinte cena. Você caminha nas ruas de uma cidade qualquer, de madrugada, e está com muita fome. De repente, se depara com dois restaurantes abertos: o primeiro, um fast-food, localizado a poucos metros de distância. Basta atravessar a rua. O segundo, localizado a três quarteirões de distância, ladeira acima, serve uma deliciosa comida caseira.

Você prefere comer um lanche rápido e matar a fome ao invés de saborear uma refeição melhor, só para poupar-se do esforço de andar mais um pouco?

Pois é exatamente isso que fazemos quando nos acomodamos e aceitamos ter contato com a filosofia apenas por meio de livros didáticos, obras de comentadores ou escritores que prometem pílulas de sabedoria em 15 minutos.

No caso de comentadores - aquelas pessoas que dedicam boa parte da vida a analisar, interpretar e criar novos usos para a filosofia -, recorremos a eles quando queremos nos aprofundar nas idéias do autor e buscar um diálogo.

Mas em se tratando de obras de introdução ao pensamento, o objetivo deve ser estimular o leitor a ler o original. Em ambos os casos, não substituem a leitura dos filósofos.

Você poderia perguntar: "Mas não dá no mesmo? Não estarei adquirindo o mesmo conteúdo, com a diferença de que não terei tanto trabalho, porque já vem tudo 'mastigado'"? Não, não é a mesma coisa. E o motivo é que não se trata exatamente de conteúdo, mas de forma.

Experiência

Ao deixar de ler a obra original, abortamos a chance de sentir os efeitos que aquele pensamento não só produziu no seu tempo, como ainda produz em mentes e corações contemporâneos. Afinal de contas, o que faz de determinado autor um clássico é que suas idéias permanecem atuais.

Os diálogos de Platão, por exemplo, além de serem belíssimas peças de literatura, encontram ressonância em qualquer consciência ocidental e cristã. Todas as ocasiões em que pensamos que existe um mundo ideal, muito melhor do que este, no qual vivemos, e que podemos conhecer a essência das coisas e das pessoas, estamos sendo platônicos, mesmo que nunca tenhamos lido Platão.

A mesma coisa Aristóteles. Raciocinamos o tempo todo sob as regras da lógica aristotélica, mesmo que nunca tenhamos lido uma linha sequer da "Metafísica".

Viagem

Outro bom motivo para ler os clássicos, além da experiência de "primeira mão", é sentir na pele a sensação de pensar aquele pensamento, ao invés de recebê-lo por meio de interpretações, por melhor que seja o comentador.

Calma, eu explico.

Imagine que um amigo seu esteve na Europa, visitou os museus, conheceu pessoas, culturas e lugares diferentes. Ele relata tudo isso e lhe mostra uma coleção de fotos.

Você dispensaria fazer a mesma viagem e ficaria somente com o relato de seu amigo como experiência? Ou, se tivesse oportunidade, iria conferir tudo por si mesmo?

Com a filosofia é a mesma coisa. Cada comentador vai lhe fazer um relato diferente sobre determinado filósofo. Se o "lugar visitado" é aquilo mesmo que ele fala, você só vai saber conferindo o original. Fazendo a viagem.

Ah, mas dá trabalho

Ok, você pode contra-argumentar o seguinte: "Mas dá muito trabalho! Não entendo o que o autor quer dizer! O texto é tão difícil!".

Em uma coisa você está certo. Dá trabalho, mesmo. Muito trabalho.

Em tempos de internet, com um clique, obtemos um resumo das principais teorias de certo filósofo, sua importância na História da Filosofia e seus conceitos bem explicados. Já os originais demandam dedicação, releituras e, acima de tudo, tempo para assimilarmos as idéias.

Ora, então, por que ler os clássicos da filosofia?

Botequins das letras

Um exemplo pessoal. Guimarães Rosa escreveu um livro chamado "Grande Sertões: Veredas" em uma linguagem diferente. Durante um bom tempo, eu não conseguia sair das primeiras páginas, não conseguia avançar no texto.

Eu poderia ter lido vários best-sellers ao invés do tal livro, afinal, não é tudo romance?

Mas depois que consegui assimilar o vocabulário do autor, não larguei mais o livro. Como recompensa, tive acesso a uma beleza extraordinária que compensou todo o meu esforço.

Este é o valor dos clássicos, inclusive os de filosofia. Como diria Peirce, pensamentos "baratos" são encontrados facilmente em qualquer "botequim das letras". Mas uma filosofia original, que vai atravessar séculos e ainda permanecer atual, não se adquire facilmente.

O que faço então?

Se concordamos, então, que vale a pena, qual a melhor estratégia para enfrentar a dificuldade dos textos?

Antes disso, por que, afinal de contas, os filósofos escrevem de modo tão difícil? Podemos identificar pelo menos dois motivos para isso:
  • Porque o autor faz questão de escrever difícil, para parecer inteligente.
  • Porque aquela filosofia precisa, digamos, de uma nova "embalagem", porque é absolutamente original.

    A obra "Crítica da Razão Pura", de Kant, é um exemplo do segundo caso. Como enfrentar a dificuldade desse texto? Aí vão algumas dicas:
  • Não desista na primeira leitura.
  • Organize uma rotina de leitura.
  • Um dicionário de termos filosófico do autor é bem-vindo.
  • Peça ajuda! Faça um grupo de estudos com seus amigos.
  • Procure um bom professor e assista ao curso como ouvinte.
  • Tente aplicar o que lê em fatos de seu cotidiano.

    A surpresa é que isso dá certo! Ao final, você irá conhecer um filósofo que a maioria das pessoas apenas ouviu falar - e essa experiência ficará com você por toda a vida.

    Bons e maus autores

    Ah, sim! E como podemos reconhecer um bom ou um mau autor, ou seja, diferenciar um filósofo de qualidade daqueles picaretas que só enrolam? Bem, os clássicos são clássicos porque sobreviveram a tudo, de governos autoritários até às críticas mais afiadas e deturpações mais absurdas.

    Estes têm algo de muito valioso para nos dizer. Só precisamos estar dispostos a ouvir sua voz, que ecoa através dos séculos.

  • *José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.

    Fonte: http://educacao.uol.com.br/filosofia/classicos-filosoficos.jhtm

    segunda-feira, 30 de março de 2009

    A gota d’água - Violência na escola leva professores a repensarem a profissão


    Por Kelly Roncato

    Tiros, facadas, socos, pontapés, cadeiradas, ameaças, roubos, furtos, agressão moral. Essas são apenas algumas das formas encontradas por alunos para intimidar professores.

    Quem sentiu essa realidade na pele foi Paula*, vice-diretora de uma escola em Curitiba. “No dia 22 de agosto foram disparados seis tiros, dos quais quatro acertaram meu carro do lado em que eu dirigia. Só não fui atingida porque Deus não quis. Tudo porque alguém decidiu que não posso mais ser a vice-diretora da escola em que fui eleita democraticamente.”

    Paula está afastada temporariamente do trabalho. Ela conta que recebia ameaças desde março. Por isso, sai pouco de casa, está sempre com medo e reluta em mostrar o rosto. O que a deixa mais indignada é o fato de ficar presa em casa enquanto criminosos continuam a planejar suas maldades livres e impunes.

    Para ela, é mais fácil afastar a vítima do que prender ou exonerar os culpados. “O que me preocupa é que essas pessoas podem se organizar e prejudicar outros da escola porque provavelmente são pessoas que pertencem ao nosso meio”, pondera.

    Tráfico
    O professor Hélio*, que lecionava numa escola estadual da periferia de Belo Horizonte, foi morto na frente do local onde trabalhava porque desobedeceu o toque de recolher de traficantes da região. De acordo com a Secretaria de Educação do Estado, ações assim aumentaram muito nos últimos anos. Em Minas Gerais, inclusive, alguns traficantes pressionam professores e diretores para aprovarem alunos que façam parte do tráfico, mesmo que eles não tenham alcançado a média necessária para isso.

    No Rio de Janeiro, outro professor foi assassinado dentro da escola porque vinha impedindo alunos de venderem maconha nos intervalos das aulas. Para se ter uma idéia da autoconfiança dos traficantes, Miriam Abramovay, secretária executiva do Observatório Ibero-americano de Violência nas Escolas, conta que um diretor precisou abandonar o cargo e mudar de cidade devido a ameaças de morte que ele e a família vinham sofrendo. Tudo porque descobriu, entre seus alunos um traficante que agia dentro da instituição e passou a impedi-lo de fazer suas vendas. O rapaz, irritado com a situação, passou a ameaçar o diretor e a família dele de morte.

    A história faz parte do livro Violências nas escolas, maior estudo sobre o tema com foco em educação já realizado na América Latina. A pesquisa foi desenvolvida nas capitais do Pará, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo e Brasília.

    Agressão física
    No entanto, esse é apenas um dos lados da “violência contra o professor”. De acordo com Miriam, na maioria das vezes os problemas encontrados nas escolas referem-se a roubos de dinheiro, celular e riscos no carro do docente. “Essa é a parte de danos materiais. A parte de agressões morais ocorre por meio de coação, discussões e ameaças veladas em tom de avisos”, explica.

    Ela conta a história de um aluno que disse, próximo a um grupo de educadores, que tinha uma professora ali que queria ter os dentes quebrados. E foi algo parecido que aconteceu com a docente Isabela*, do Espírito Santo. Ela estava no 3° ano do curso do Magistério e precisou substituir uma professora que tinha passado mal. A turma era de adolescentes, do turno da noite. A professora entrou na sala, cumprimentou a classe e começou a fazer a chamada. “Ao falar o nome de um aluno, ele gritou, e eu disse que na sala não havia ninguém surdo. Ele saiu imediatamente e bateu a porta. Eu disse para os que ficaram que precisávamos entender que a escola não é como a nossa casa; lá a gente grita, bate a porta. Tem gente que grita até com a mãe. Mas na escola isso não poderia acontecer”, lembra.

    Isabela terminou a chamada e continuou a aula. Na hora do intervalo, foi para a frente da instituição conversar com alguns amigos. “Ao atravessar a rua, alguém tocou em meu ombro e perguntou se eu me chamada Isabela. Respondi que sim. Imediatamente me vi no chão. O rapaz deu-me um soco na face. Perdi dois dentes, machuquei o joelho direito e desmaiei. Fui levada ao hospital.”

    Segundo a professora, outros alunos tentaram linchar o agressor e o caso foi parar no Fórum. “Frente a frente, quis entender o motivo da agressão. Ele relatou que um dos seus amigos disse-lhe que quando saiu da sala eu falei da mãe dele. Meu aluno acreditou e, por ser extremamente nervoso, filho de pais separados... sobrou para mim! Em frente à promotora, o perdoei. Hoje ele é um pai de família e há pouco tempo me pediu perdão outra vez”, relata.

    Mocinho ou bandido?
    Mas não são só os professores as vítimas da violência. Muitos alunos também são violentados verbalmente pelos mestres em sala de aula. Prova disso é uma história que aconteceu numa escola particular. Um aluno, que estava atrapalhando a aula, foi convidado a se retirar. Ele disse que não iria sair, a professora voltou a fazer o pedido e ouviu do estudante: “Venha me tirar daqui então”. Ao que ela respondeu: “Eu não vou sujar as minhas mãos com você!” O garoto foi levado à sala da coordenação pelo inspetor da escola.

    Posturas assim ilustram a opinião de Miriam Abramovay, que explica a violência na sala de aula como conseqüência da falta de preparo das instituições para receber um perfil de aluno diferente daquele com o qual se lidava antes da democratização do ensino. “Na escola que se vê hoje há pouco espaço para os alunos colocarem o que pensam. As regras, quando o estudante chega, já estão todas prontas, elas vêm de cima para baixo e cabe ao aluno simplesmente cumprir, sem que lhe seja dado o direito de compreender o que acontece; os motivos daquelas regras. Muitas vezes, a conseqüência é vista por meio de atitudes violentas”, acredita.

    Para a pesquisadora, os professores que chegam nas escolas para trabalhar hoje não estão preparados para lidar com o público-alvo deles. Por isso, não dão conta. E isso se reflete no contato com o aluno, na forma de tratá-lo. “Quando encontram a indisciplina, os professores tentam botar os indisciplinados para fora da sala, tiram ponto, dão nota baixa. Isso só piora o relacionamento. Os professores até percebem isso, mas não sabem de que outra forma podem agir”, alega.

    Caso queira fazer uma ponte entre a indisciplina e a realidade de fora das escolas, basta pensar se é possível acabar com a fome matando os famintos ou dar fim à pobreza eliminando os pobres do mundo. Da mesma forma como a resposta a essas duas perguntas é “não”, a indisciplina e a violência não poderão terminar com mais violência ou repressão.

    Do mandar ao convencer
    Por tudo isso, não se pode dizer que a violência do aluno contra o professor é a única que existe. “Aliás, esse é um conceito que precisa ser discutido”, reitera Miriam. “O professor, muitas vezes, também agride o aluno. Dizer que o estudante não vai passar de ano se não obedecer. Essa é uma forma de coação que já funcionou, mas, hoje, com a progressão continuada, os alunos perderam o medo de reprovar, e os professores reclamam disso.”

    No entanto, a pesquisadora alerta que esses professores reclamam, não pela dificuldade que o aluno vai enfrentar nos anos seguintes e, sim porque perdem uma das armas que se mostrava mais eficiente antigamente. Com essa nova questão, o aluno deixa de ser passivo e começa a reagir. Dessa maneira, também se dá a violência.

    Prova disso é uma situação na qual um professor pediu para um aluno sentar no lugar e ouvir a aula, e escutou do garoto: “Aqui você até pode mandar, mas lá fora mando eu, e é bom você se cuidar.” Por essas e outras é que Miriam alerta para a necessidade de haver mais respeito nas relações dentro das instituições de ensino. “A primeira dica é o diálogo. Mas é preciso tomar cuidado com a maneira segundo a qual esse diálogo acontece. Dialogar não é colocar regra em cima de regra. Pelo contrário, é discutir, é democratizar. A escola se democratizou porque todos tiveram acesso a ela, mas ainda não é democrática.”

    Chá de coragem
    De acordo com as pesquisas realizadas para a edição do livro Violências nas escolas, é grande a quantidade de professores que deixaram de ir à escola por medo da violência. O que se percebe é que os educadores desanimaram. “Três anos atrás, fiz uma pesquisa e perguntei aos professores se queriam deixar a profissão. Na época, a grande maioria disse que não, hoje eles dizem que sim. Tudo isso porque as relações entre professores e alunos pioraram nos últimos anos”, diz Miriam.

    Além de piorarem, a impunidade dos agressores existe porque se mantém a chamada “lei do silêncio” dentro das escolas. Os motivos que colaboram para isso são vários: manutenção do nome da instituição longe de escândalos, medo de represálias, descrença na proteção policial, necessidade de manter alunos tranqüilos e pais acreditando na segurança das instituições, entre outras. São sérias também as formas de coação contra os professores.

    Olhos fechados
    Um dado preocupante é que, quando o assunto é violência contra o professor, o Brasil é praticamente cego. A Fenep – Federação Nacional das Escolas Particulares – não tem dados tabulados a respeito do assunto. O mesmo acontece com os Sindicatos das Escolas Particulares de Ensino e o Sinpro (Sindicato dos professores, órgão estadual). Esse último possui algumas histórias, mas nada tabulado. As delegacias não separam o número de agressões contra professores do número total de agressões no Brasil.

    Salvo as pesquisas realizadas pelo Observatório de Violência nas Escolas, em parceria com a Unesco – que não tem dados numéricos referentes apenas aos professores, mas trabalham com o panorama geral da violência nas escolas –, contando a sala de aula, os centros de convivência e o entorno, o País não possui documentos oficiais que analisem a questão. Esse quadro muda quando o foco da pesquisa é o aluno.

    Além disso, as pesquisas realizadas pelo observatório só se baseiam na realidade da escola pública. Isso porque as instituições particulares existem no Brasil em menor número.

    Outro fator apontado por Miriam Abramovay para a falta desses dados é que o universo das escolas particulares é diferente entre si. “Se formos verificar essas instituições, perceberemos algumas que custam R$200,00, teremos as de R$700,00 e as de R$1.400,00. São públicos muito distintos; é uma parcela muito pequena da população. A amostragem das pesquisas de educação vem da escola pública porque é onde está concentrada a grande massa”, finaliza.

    *Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar a fonte.

    Fonte:
    JORNAL VIRTUAL PROFISSĂO MESTRE
    Profissăo Mestre – Ano 7 Nº110 – 27/03/2009


    domingo, 29 de março de 2009

    O Caderno Walter Benjamin

    Vale a pena conferir o lançamento do Caderno Walter Benjamin,
    do Grupo de Pesquisa Walter Benjamin e a Filosofia Contemporânea.

    O Caderno Walter Benjamin encontra-se no site:
    http://www.gewebe.com.br/cadernos.htm.

    sábado, 28 de março de 2009

    Pedagogia do (diálogo) entre muros - Por Nilton Bueno Fische

    "Entre os Muros da Escola" trata da realidade de um escola na periferia de Paris, mas pode falar pelo Brasil

    Nilton Bueno Fischer, professor colaborador PPG/EDU/UFRGS (programa de pós graduação em educação UFRGS) e do mestrado Unilasalle


    Entendo e proponho que este título sirva não só como uma espécie de metáfora retirada do título do filme do Laurent Cantet, Entre os Muros da Escola (em cartaz na Capital) mas, especialmente, como uma chave de leitura para a compreensão das inúmeras tentativas de interação que a escola pode e tem condições de agir no sentido da construção de uma ‘educação de qualidade’ em cada entorno social onde ela estiver. Aliás este filme bem que poderia fazer parte de vários roteiros daquilo que também ocorre em nossas escolas públicas. Penso naquelas que tenho algum conhecimento e que estão situadas em nosso Estado e em especial em torno de nossa capital. Escrevo isso porque muitos de nós, professores, nos deparamos com essa conhecida situação de uma sala de aula onde estão adolescentes que convivem em cotidianas relações com o mundo adulto, tanto conosco como com os quadros gestores das escolas, nas figuras dos supervisores, orientadores e a sua própria direção.

    Neste filme o ‘tom’ realista da cultura escolar se acentua nas diversas reuniões de avaliação coletiva dos alunos através dos nossos conhecidos ‘conselhos de classe’. Nesse cenário interativo é que o filme revela sua qualidade e potência pois trata o simples e repetitivo, do cotidiano escolar, como fonte para um criativo roteiro que nos faz rever o quanto ainda precisamos nos debruçar sobre como ocorrem as relações nesse microterritório de uma sala de aula e o quanto fazem também parte de uma totalidade sóciocultural.

    O título deste comentário é uma resposta que já lanço de início, pois os ‘muros’ apresentados no filme se mostram pelas culturas dos adolescentes em suas origens africanas, asiáticas, latino-americanas e francesas, todas combinadas nas vivências cotidianas de uma sala de aula. Instigante isso para o campo da pedagogia, pois estamos, em nosso país, num momento de elevada produção científica, em qualidade e quantidade, tanto em nossas faculdades de educação quanto nos institutos isolados de pesquisa. Assim, as contribuições das diversas áreas do conhecimento se tornam cada vez mais explícitas em aproximações com as práticas de sala de aula e na formação de professores. Mesmo que as especificidades da psicologia da educação, da psicopedagogia e teorias da aprendizagem estejam com sólidas trajetórias nas suas produções, constata-se também a indispensável contribuição e parcerias das áreas das ciências sociais, especialmente as da história, da sociologia, da antropologia, entre outras. No movimento relacional entre os campos do conhecimento e junto às práticas pedagógicas docentes de nossas escolas se combinam criativas e compreensivas fundamentações sobre o ato de ensinar. Também “quem são os nossos alunos e como eles aprendem”, bem como na fundamentação de processos formativos docente no sentido de “como nossos professores ensinam”.

    Ora, o filme não foi resultante de um insight isolado, único e espontâneo de parte do seu diretor. Foi na disciplinada busca de situações vividas por estudantes – adolescentes, num período bem longo (quase um ano) em que a “metodologia de pesquisa interativa” com jovens que vivem na França que a equipe do filme obteve um vivo conjunto de depoimentos que serviram para a estruturação do filme em sua tradução possível no tempo e no cenário, quase único, de uma sala de aula. O mesmo diálogo que sustentou essa busca de registros e também para a seleção dos atores (leigos em sua maioria) é que nos traz de volta aquilo que foi cunhado por educadores brasileiros como Paulo Freire e Miguel Arroyo a respeito dos temas e palavras geradoras, que tentam compreender a vida vivida pelos alunos de nossas escolas.

    A centralidade do diálogo, entre o professor e sua turma, poderia nos levar a uma visão somente parcial, somente positiva ou idealizada do efetivamente “vivido” na sala de aula, corredores, pátio e reuniões. Somos brindados com plásticas cenas e planos diretos de imagens que mostram os jeitos de escrita dos alunos em seus cadernos, as suas caretas, as suas trocas de olhares; seus cochichos e seus silêncios. Teríamos aí uma espécie de “proposta pedagógica” a ser seguida. Mas o diretor trouxe também imagens e falas do professor com a mesma densidade daquelas dos alunos.

    Mas no momento em que os alunos desconfiam do pedido do professor para que escrevessem sobre suas vidas e de seus gostos revela-se o limite desse procedimento. O filme tem aí uma contribuição diferenciada, pois não simplifica a complexidade das interações entre jovens e adultos. O professor, como uma clássica atividade de sala de aula, tenta capturar informações para “sua” função de ensinar, informar e controlar. Os conteúdos e as correções sobre o ensino da língua francesa ficam como ferramentas auxiliares e subordinadas a esse poder do professor, e os alunos percebem e questionam esse procedimento. O realismo desse registro por parte do cineasta sinaliza um imenso respeito aos profissionais da educação que se torna, ao mesmo tempo, uma pista para continuidades em outros “entornos sociais” na medida em que supera uma certa tradição do pensamento pedagógico do “converter ao bom caminho e aos bons resultados”, apagando limites e contradições de nossas práticas de sala de aula. Confidencio que o meu gosto pelo filme está na sua intencionalidade em ser nada mais e nada menos do que uma explícita tentativa em “desvelar” o vivido na sala de aula, entre alunos e o professor e com as conexões possíveis com o entorno social e cultural dos alunos adolescentes e, ao mesmo tempo, como o mundo adulto se manifesta dentro dos seus territórios profissional e pessoal. Isso é muito bom mesmo, pois se no contexto da França o desempenho do professor foi associado como do “colonizador”, ao passar a “língua culta” como norma nós poderemos entender como outros conteúdos podem (ou não) exercer a mesma função disciplinadora. O foco não é a quantidade ou a qualidade do conteúdo, culto ou “popular”, mas sim a mediação que o professor (adulto) realiza num processo de ajustes dos mundos e culturas de seus alunos (adolescentes) em suas múltiplas formas.

    Depois da sessão de cinema, a gente fica com a cabeça em ebulição, assim como saímos de nossas aulas, provocados que fomos pelas cenas de um ano letivo tão bem concentrado em apenas duas horas do filme. Saí afetado por uma das cenas mais curtas e, ao mesmo tempo, mais silenciosas e até uma tanto lenta se comparada com o restante do filme. Após a entrega das histórias de vida de cada aluno, devidamente avaliadas pelo professor, quando todos já tinham saído festivamente da aula, uma aluna negra, dirige um expressivo olhar ao professor. A linguagem do olhar se transporta para a fala e ela diz, quase sussurrando: “Eu não aprendi nada” para responder a pergunta de despedida, de final de ano sobre o que cada aluno tinha aprendido ao longo do ano. O cineasta produziu continuidades com essa tomada, imagino eu, fazendo um convite para que a gente reaja também. Ficou em aberto o que fazer... e, por isso, no título, o plural nas pedagogias, nos diálogos e nos muros. Penso que o Cantent, neste filme, pedagogiou!


    Publicado originalmente em 21/03/2009

    ZERO HORA

    Fonte: http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/oxdaeducacao/noticia/detalhe/Pedagogia-do-dialogo-entre-muros.html

    Artigo da Revista Veja - O vestibular funciona, mas deve acabar. E isso é bom

    Por Claudio de Moura Castro

    "Embora selecione os melhores, o exame vestibular
    feito no Brasil atualmente é inconveniente para os
    candidatos e massacra o ensino médio"


    Valeria Gonçalvez/AE

    Com os dias contados. De olho no vestibular, o ensino médio oferece muito mais matéria do que é razoável esperar que a maioria dos alunos possa digerir.


    Ao contrário do que pensam alguns, os nossos vestibulares são impecáveis para a tarefa de selecionar os melhores candidatos. Como nos países de educação séria, buscam identificar os alunos que melhor dominam os conteúdos do ensino médio. Há sólida evidência de que barram os mais fracos e aprovam os mais sabidos, escolhendo assim os que terão mais probabilidade de sucesso nos cursos superiores. Sua administração é ágil, sem fraudes e mostra resultados rapidamente. Coisa de país sério. Várias nações do nível do Brasil não têm nada comparável. Ora, se são tão bons assim, por que o MEC anuncia sua iminente decapitação?

    Em contraste com pretéritos acessos de burrice, desta vez o MEC está coberto de razão. Embora descubra e selecione os melhores, o vestibular atual é inconveniente para os candidatos. E, pior, massacra o ensino médio.

    Para um aluno genial – e que sabe disso –, basta escolher seu curso favorito e fazer o vestibular correspondente. Mas os outros têm todo o interesse em fazer tantos vestibulares quanto logisticamente possível. A maioria não sabe nem onde nem em que vai passar. Portanto, suas opções aumentam se fizer muitos vestibulares. Contudo, essa operação é penosa e, sobretudo, cara. Há múltiplas taxas a pagar e mais os deslocamentos entre cidades. Sofre a equidade, pois muitos não têm recursos para isso. Dessa forma, o vestibular único é um presente generoso para os alunos mais modestos.

    Porém, o problema mais grave está na influência funesta sobre o nível médio. Diante das orientações vagas dos parâmetros curriculares e da realidade concreta do vestibular da universidade pública mais próxima, o ensino médio se vê atraído para este, como a mariposa para a lâmpada.

    Entendamos a lógica do vestibular. Inclui perguntas fáceis, para separar os burrinhos dos apenas meio burrinhos. E, entre os 2% mais sabidos, é preciso identificar o 1% ainda melhor, para que eles sejam aceitos nos cursos hipercompetitivos. Conseguir isso, só com perguntas difíceis. Porém, a presença de perguntas terrivelmente ardilosas ilude o ensino médio, pressionado a ensinar tudo o que pode aparecer na prova.

    O resultado é uma inundação curricular. É muito mais matéria do que é razoável esperar que a vasta maioria dos alunos possa digerir. Ao contrário de países como o Japão – em que o currículo é desenhado para que todos possam entender tudo –, somente um ou outro gênio tupiniquim conseguirá se beneficiar dessa abundância. Para a maioria, o excesso de assuntos dilui o ensino – é muita água deitada ao feijão. Quando se tenta ensinar demais, aprende-se de menos. Não há tempo para profundidade. Portanto, não há tempo para uma real educação. É decorar palavras e fórmulas, o que sabemos ser uma perversão do ensino.

    Uma escola que queira simplificar arrisca-se a ver os pais retirar de lá seus pimpolhos, pois não está ensinando tudo o que pode cair na prova. Contudo, não nos esqueçamos: mais de três quartos dos alunos do superior entraram em cursos em que o vestibular é apenas uma liturgia, pois passam quase todos. O que é ainda pior, escolas em que poucos entram no superior acabam seguindo a boiada e tentando ensinar demais. Ou seja, para pescar o 1% que vai para a medicina, arrasta-se todo o ensino médio para a superficialidade de decorar infindáveis nomes de bactérias, enzimas e pedaços das células.

    Portanto, mudar o sistema é uma boa ideia. Quando se cria uma prova centralizada e única, acaba-se com o passeio aflito para prestar múltiplos vestibulares. Como são muitos candidatos, diluem-se os custos de preparar uma prova tecnicamente sofisticada. Ainda mais importante, é possível formular um teste circunscrito aos aprendizados essenciais do ensino médio. Os vestibulares atuais são feitos por professores que buscam garantir o conhecimento de suas matérias por parte dos calouros. Meritório. Mas, quando todos fazem o mesmo, a prova fica ambiciosa demais. Em contraste, uma prova concebida para o ensino médio que almejamos tem melhores chances de conter as tentações dos especialistas de cada área.

    O Enem é o candidato mais óbvio para substituir os vestibulares tradicionais. Em que pesem alguns problemas técnicos, é uma prova que vem melhorando ao longo do tempo. Sabemos que seleciona praticamente os mesmos candidatos que um vestibular tradicional. E, ao contrário dos vestibulares, privilegia o raciocínio e o conhecimento dos conteúdos centrais que devem ser aprendidos no médio. Dispensa decoreba. Esse é o lado bom, mas também traz perigos. Se a prova ficar apartada demais dos conteúdos curriculares tradicionais, haverá o risco de que as escolas parem de ensiná-los. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Com boas razões, o MEC quer temperar o Enem com um pouco mais de currículo. O equilíbrio do tempero é crítico. Currículo de mais, volta a ser vestibular de federal. E, de menos, deixa de orientar o ensino. Além disso, para que se reduza a margem de erro, é preciso aumentar o número de perguntas, mas isso é problema menor.

    Os candidatos fazem a prova e ganham uma nota. Mas e aí? O sistema vai parecer um pouco com o americano (exceto pela diferença nas provas). Lá, os alunos fazem o teste SAT, que passa a ser o certificado nacional do tanto que aprenderam na escola. Munidos dele, apresentam-se a diferentes instituições. Estas, por sua vez, decidem se aceitam um candidato com tal ou qual pontuação. Ademais, antes de decidir, costumam exigir outras demonstrações de aptidão ou vocação.

    No caso brasileiro, o novo Enem será a cotação do aluno na "bolsa de valores acadêmicos". Diante dos outros candidatos que aparecerem, o curso compara e decide. Um curso muito concorrido poderá escolher os melhores talentos. Outros se contentarão com desempenhos mais modestos. Para as universidades, faz pouca diferença. Atualmente, baseado no vestibular da instituição, cada curso escolhe os melhores que optarem por ele. No sistema proposto muda pouco, embora seja uma prova nacional. Os candidatos ao curso trazem as suas notas, e os melhores serão escolhidos. O candidato brilhante do Acre pode entrar na medicina da UFRGS. Em contrapartida, a UFRGS poderá recrutar um aluno brilhante no Acre. Para os dois lados, a concorrência passa a ser nacional e mais aberta.

    Se o curso de medicina achar que precisa de alunos que conheçam mais nomes de bichinhos e plantinhas, poderá fazer uma prova adicional. A grande vantagem é que somente os alunos voltados para esses cursos precisam decorar as amebas e protozoários. Naturalmente, o curso de educação física pode querer que os alunos deem a volta no quarteirão correndo, para ver se estão em boa forma. Os candidatos de arte podem se ver obrigados a desenhar a cara do reitor, para testar seus talentos. Por que não?

    Na prática, há alguns desafios técnicos a ser enfrentados, sobretudo na logística de operar a "bolsa de valores acadêmicos" dentro de cada curso. Alunos aceitos em vários lugares têm de optar, criando um período de indefinição. Mas, comparado com o sistema americano, é mais simples, pois não tem a multiplicidade de critérios subjetivos usados nos Estados Unidos.

    A grande dúvida é a adesão das universidades públicas. Vivemos em um país em que os impostos são transferidos às universidades públicas, mas o órgão encarregado de zelar pelo seu bom uso, o MEC, está proibido pela Constituição de dar palpites nesse assunto (não haveria espaço aqui para uma discussão responsável sobre autonomia). Nisso, a universidade federal é dona do seu nariz; portanto, o MEC não pode mandar que use o seu novo vestibular (embora possa azucrinar infinitamente, com suas armadilhas burocráticas). Para não ser refém delas, a adesão será voluntária.

    Recordando: para selecionar os candidatos mais talentosos, nosso vestibular não deixa nada a dever aos de outros países. Seu problema é envenenar o ensino médio com o dilúvio de conhecimentos exigidos. Para consertar o médio, é preciso divorciá-lo desse vestibular. Já passou a hora de liberar o ensino médio dessa tirania. Afinal, só a metade dos graduados vai para o superior e, desses, só uma quarta parte para cursos de acesso competitivo. Faz muito sentido a proposta do MEC de exame nacional com um Enem turbinado. Vamos torcer para que seja bem implementada.


    Fonte: Revista Veja - Edução 2106 - 1º de abril de 2009.

    http://veja.abril.com.br/010409/p_090.shtml

    quinta-feira, 26 de março de 2009

    Convivência e Disciplina na Escola

    A qualidade de uma instituição escolar depende em grande parte do modo pelo qual ela enfoca o processo de condução das atividades que se desenvolvem nas classes, pois, ali não é somente o lugar onde se realiza o processo de ensino-aprendizagem, como também, o lugar que traz sempre o momento oportuno para se desenvolver e promover os valores humanos nos alunos. Essa qualidade depende sobretudo também da capacidade dos professores estimularem o esforço dos alunos.
    Podemos formular várias perguntas:

    - Como conseguir um ambiente harmônico de trabalho? Como conseguir a integração dos alunos na classe? Como promover a disciplina? Como agir diante de condutas que podem ser consideradas irregulares, que perturbam o direito dos outros alunos?
    Para responder a tais questionamentos, é necessário em primeiro lugar que a instituição escolar tenha bem claro o que é disciplina para ela. Dependendo da maneira com que a escola conceitua disciplina, as respostas às formulações acima irão variar muito, o que nos indica claramente porque um aluno é considerado indisciplinado em uma escola e quando freqüenta outra, isso pode não acontecer, confundindo os pais muitas vezes a respeito do conhecimento que acham que possuem sobre seus filhos.
    Consideramos que uma escola preocupada com a formação dos seus alunos e não somente em "ensiná-los" é aquela que considera a disciplina como: o domínio de si mesmo para ajustar a conduta às exigências do trabalho e de convivências próprias da vida escolar, não como um sistema de castigos ou sanções que são aplicadas a alunos que alteram o desenvolvimento normal das atividades escolares com uma conduta negativa.
    A disciplina é um hábito interno que facilita a cada pessoa o cumprimento de suas obrigações, é um autodomínio, é a capacidade de utilizar a liberdade pessoal, isto é, a possibilidade de atuar livremente superando superando os condicionamentos internos ou externos que se apresentam na vida cotidiana.


    Necessidade de normas básicas de convivência

    Pelo que vim expondo até agora, quem está lendo poderia pensar que um bom clima na classe ou a ação positiva e continuada dos professores tornassem desnecessárias quaisquer regras de disciplina. Não é isso o que estou defendendo. O que torna possível essa ação positiva continuada dos professores e um bom clima na classe são alguns pontos de apoio, podemos chamá-los assim. Com efeito, o respeito às pessoas e à propriedade, a ajuda desinteressada aos companheiros, a ordem e as boas maneiras, exigem exigem que todos que convivam na escola aceitem algumas normas básicas de convivência e se esforcem por vivê-las dia após dia. O bom clima de uma escola não se improvisa, é uma questão de coerência, de tempo e constância.
    São imprescindíveis, portanto, algumas normas que sirvam de ponto de referência e ajudem a conseguir um ambiente sereno de trabalho, ordem e colaboração; um referencial geralmente aceito, que determina o limite que a liberdade dos outros impõe à nossa própria liberdade. Para que estas normas sejam eficazes é necessário que :

    1. sejam poucas e coerentes com o processo educativo;

    2. que estejam formuladas e justificadas com clareza e sensatez;

    3. que sejam conhecidas e aceitas por todos: pais, professores e alunos;

    4. que seu cumprimento seja exigido.

    É lógico que as normas por si mesmas não são suficientes. Não se consegue a disciplina escolar mediante a aplicação exaustiva das sanções estabelecidas. A convivência harmônica entre toda a comunidade escolar é conseqüência de um processo de formação pessoal que torna possível a descoberta da necessidade e valor destas normas elementares de convivência; que ajudam a fazê-las próprias porque se converteram em hábitos de autodomínio que se manifestam em todos os ambientes onde se desenvolve a vida pessoal.


    A disciplina como instrumento educativo

    Em uma escola não existem problemas de disciplina: há alguns alunos com problemas, a cuja formação é preciso atender de uma maneira particular. Para um real processo educativo a solução não é excluir os que atrapalham e sim atender a cada um segundo suas necessidades pessoais.
    Como se trata de pessoas em formação, é preciso estabelecer um sistema de estímulos que favoreçam o desenvolvimento da responsabilidades dos alunos, muito mais que punir, o que vem a exigir uma atuação continuada dos professores: os alunos não mudam de um dia para o outro. Em educação é absolutamente necessário contar com o tempo, pois o importante é a formação.
    A primeira e mais fundamental norma para o professor é tratar seus alunos com estima e respeito. Para estar em condições de educar, o professor precisa estabelecer relações cordiais e afetuosas com seus alunos; criar um ambiente estimulante de compreensão e colaboração, usando de atitudes amistosas e pacientes com todos os alunos sem distinção.
    Neste ambiente de cordialidade que deve envolver as relações professor- aluno, não há espaço para palavras ou mesmos gestos que signifiquem menosprezo; nem que se ridicularize um aluno perante seus companheiros, ou a impaciência com seu erro; nem para ameaças ou concessão de privilégios; ou para a ação que não aceita que os alunos tenham direitos à justificativas, ou ainda, a utilização de sanções para estimular aprendizagens.
    Um dos fatores que mais estimula a indisciplina, ou a falta de consideração dos alunos a um professor é a falta de coerência entre o que o professor diz e o que ele faz, entre os valores que ele tenta transmitir aos alunos e os que ele mesmo vive.
    Os valores e atitudes cultivados numa escola precisam ser incorporados por toda a equipe de profissionais; a incoerência entre a vivência desses valores pelos professores, pode transmitir aos alunos uma visão distorcida dos valores que a instituição cultiva.

    Sabemos também que existem comportamentos que pela gravidade e transtornos que provocam nos demais podem prejudicar o andamento normal da classe e o bom ambiente entre os alunos. Nessas ocasiões em que se põe a prova a qualidade humana e profissional, ofício do professor, importa e muito agir com acerto.
    O mau comportamento é com freqüência, conseqüência de condições desfavoráveis do mesmo ambiente escolar que está atuando sobre os alunos: locais e mobiliários inadequados, falta de unidade e critério dos professores e equipe da escola etc., e sobre eles devem centrar-se inicialmente a atenção antes de tomar medidas mais drásticas e também atuar com a família e com o próprio aluno.
    Já, nos casos em que a indisciplina é coletiva, em que a maioria dos alunos de uma classe se comporta com irresponsabilidade, as raízes podem estar em diversas condições ambientais que estão atuando sobre a realidade escolar. Estas condições devem ser analisadas com objetividade e identificadas para que se possa tratá-las de modo adequado: as instalações são funcionais?; o número de alunos na classe é muito grande?; as atividades escolares são monótonas?; os profissionais atuam de modos muito diferentes demonstrando falta de integração entre si e entre as normas da escola?; acontece em todas as aulas ou apenas com um ou outro professor?
    Soluções para os chamados problemas de "indisciplina" deverão estar baseados numa análise exaustiva da situação, na reflexão, no diálogo e em técnicas que capacitem os alunos para o autocontrole e a responsabilidade por sua conduta.
    O assunto não se esgota aqui. Retornaremos posteriormente a ele.
    Queremos deixar claro também que não estamos centrando exclusivamente nos professores a responsabilidade pelo comportamento dos alunos na aula, mas, não podemos deixar de acentuar que quando os professores atuam com competência profissional, unidade e coerência, sentindo-se responsáveis pelo que ocorre ao seu redor, os comportamentos inadequados ficam restritos a poucos alunos, com problemas muitas vezes de origem extra-escolar.


    Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.

    quarta-feira, 25 de março de 2009

    As vacas sagradas da educação brasileira

    Por Celso Antunes

    A religião hinduísta promove a adoração dos animais e, de forma especial, a das vacas. Concebida como mãe da humanidade pelo valor simbólico do leite para a vida, e, também, porque amamenta seus filhos sem esperar troca ou compensação. Matar uma vaca constitui sacrilégio imperdoável e é por esse motivo que, quando existe algo intocável, usa-se a expressão "vaca sagrada". A educação brasileira, como não poderia deixar de ser, possui também itens intocáveis, afirmações falsas, mas, que de tanto serem repetidas como autênticas, parecem ter se transformado em verdades que ninguém ousa discutir. Esta pequena crônica busca o sacrilégio de tentar demonstrar algumas dessas tolas falácias, verdadeiras "vacas sagradas" que não se ousa debater. Vamos a elas.


    1. A educação brasileira só poderá melhorar quando aumentar a carga horária recebida pelos alunos.
    A aula, como tradicionalmente é concebida no Brasil, constitui, quase sempre, um espaço em que se transmite informação. Mais aulas, por meio da estratégia do discurso, representam apenas volume de informação maior, inutilidade utópica que não leva ninguém a aprender, apenas acumular. O papel da escola é ensinar o aluno a usar as informações para refletir, pensar, argumentar, pesquisar, ligar-se ao mundo, solidarizar-se e agir. Dessa forma, precisamos de mais situações de aprendizagens desafiadoras, propostas de momentos de criatividade, reflexão e experimentos. Não mais aulas expositivas que nada fazem para o verdadeiro sentido do crescimento humano que tanto se deseja. A jornada de estudos e não o número de aulas é que necessita crescer. Os brasileiros passam seis anos em sala de aula e a média é de doze anos em países verdadeiramente desenvolvidos.

    2. A educação brasileira necessita promover cidadania, formar consciências.
    É claro que nossa escola necessita formar cidadãos, mas essa preocupação não deve anteceder a importância de promover conhecimentos essenciais, ensinar a ler e compreender, operar símbolos numéricos, perceber a magnitude do avanço científico e a importância do espaço e do tempo na compreensão do momento que se vive. Buscar cidadania, construir valores, ensinar administrar emoções é essencial ao ser humano, mas não é o principal de uma excelente escola e, não poucas vezes, se enfatiza com tanta energia a busca dessa "educação holística" que se esquece de ensinar o essencial de se subir escada, começando sempre pelos primeiros degraus.

    3. A excelência de uma boa educação começa por uma melhoria salarial urgente.
    Em muitos lugares, vários professores, efetivamente, ganham uma miséria, mas são lugares onde qualquer outro profissional se encontra na mesma situação. O salário de professores é uma vergonha nacional, como é também o de médicos, enfermeiros, nutricionistas e muitos outros. A comparação entre o salário dos docentes com o de outras categorias, desconsidera aspectos diversos como a jornada de trabalho, férias adicionais por atividades extras e outras vantagens. Mal maior que falar do salário do professor sem o comparar com o de outras categorias profissionais é tentar comparar o que no Brasil se ganha, com ganhos em países muito mais ricos. Os professores brasileiros, em geral, recebem o salário com mais de 50% acima da média nacional, enquanto que em países altamente desenvolvidos essa remuneração é 15% menor, ainda que em termos brutos se paga muito mais por uma aula lá que uma aqui, como se paga muito mais para qualquer profissional quanto no Brasil.

    4. Apenas a escola particular pode proporcionar ensino de qualidade excelente.
    Os resultados dos exames realizados por estudantes em avaliações do SAEB, do ENEM e de provas aplicadas por organismos internacionais não cansam de reiterar que existem escolas públicas admiráveis e escolas particulares enganosas. Boas escolas se fazem com professores que se reciclam e estudam sempre, com aulas abertas para que todos aprendam com todos, com ajudas específicas a alunos com dificuldades. Para organizar esse tripé a escola pode ser pública ou particular. O que, na maior parte das vezes, se constata é que os alunos das escolas particulares trazem para a instituição uma situação cultural, familiar e socioeconômica melhor e, por isso, aprendem com mais facilidade e melhor. Além disso, em muitas escolas particulares não há mecanismos burocráticos para se colocar na rua profissional incompetentes.

    5. A educação somente vai melhor quando o País investir mais.
    O Brasil gasta muito mal em educação, joga dinheiro bom em causas ruins, mas não investe pouco. Enquanto gastamos 3,4% de nosso PIB na educação básica, em países da OCDE (Organização formada por países da Europa e pelos Estados Unidos) esse gasto corresponde a 3,5%. A tragédia é que nesses mesmos países é considerado normal se gastar duas vezes mais com a formação de alunos em cursos superiores e o Brasil gasta nada menos que dezessete vezes mais. Generoso e perdulário com o ensino superior que abriga apenas 20% dos jovens, fazemos demagogia e inventamos lorotas em investimentos concretos para a educação infantil e ensino básico, em que a verdadeira mudança de paradigma educacional necessita acontecer. A China gasta apenas 2% de seu PIB ao ano em educação e vem conquistando progressos extraordinários e o Brasil, gastando quase o dobro, apresenta aos olhos do mundo resultados pífios. Com toda essa dinheirama jogada no ensino superior ocupamos o 23º lugar em uma lista de 25 países quanto à publicação de artigos científicos.

    6. Precisamos avaliar mais vezes nossos alunos para uma radiografia mais perfeita sobre sua aprendizagem.
    Não adianta aumentar o número de exames, provas, concursos e tudo o mais se continuarmos a bater na tecla de uma avaliação quantitativa que não mostra nada, que não diagnostica coisa alguma. Não se afere aprendizagem com questões robotizadas ou testes de escolhas múltiplas, mas com condução de competências efetivas, habilidades essencialmente conquistadas. Preocupa-nos em saber se nossos profissionais aprendem ou não o nome do rio mais comprido, da montanha mais alta e dos gerúndios lingüísticos, mas nada temos para aferir se a escola realmente transformou o aluno, tornando-o mais capaz de produzir, pesquisar, argumentar, viver, realizar, solidarizar e agir. Ou aprendamos a avaliar ou abandonemos críticas em relação a resultados que em nada resultam.

    É importante que saibamos respeitar o culto hinduísta às vacas, mas é essencial perceber que estamos no Brasil e que nossa educação requer o sacrifício de tolices intocáveis, afirmações mentirosas, que de tanto serem ditas vão, como tudo neste País, ganhando cores de verdade.

    Celso Antunes é mestre em Ciências Humanas e especialista em Inteligência e Cognição. Membro consultor da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar, reconhecido pela UNESCO. Autor de cerca de 180 livros na área educacional.

    Fonte:
    Gestão Educacional - Jornal Virtual 105 - 24/03/09


    terça-feira, 24 de março de 2009

    Seja você mesmo!

    Armando Correa de Siqueira Neto*


    Não importa se os vizinhos agem de forma semelhante. Se vários colegas do trabalho concordam entre si com certas questões. Se os parentes falam a mesma coisa. Se a história reconta o passado estimulada pelos fatos presentes. Se a mídia exibe a mesma situação repetidamente. Se a maioria faz tudo quanto faz. Conveniência?

    Nada deve interessar se você não analisa criticamente cada impressão que recebe. Portanto, é um dever opor-se à opinião de terceiros sem apreciá-la primeiramente, para não tropeçar e, pior, ao cair, apontar o dedo da culpa para os outros. Boa parte da responsabilidade pessoal é fruto da consciência sobre si mesmo, admitindo que se errou ao agir inconscientemente. Aquele que não ilumina o seu caminho através da reflexão, vaga errante nas picadas escuras formadas pelos retalhos das ideias alheias. Só você é capaz de lançar compreensão sobre os pensamentos e atos com os quais convive. Seja você mesmo!

    Por não ter consciência sobre o que pensa, o homem concorda com muita coisa que sequer lhe diz respeito, no intuito de, pelo menos, mostrar-se cordato com os demais de convívio. Na ausência da opinião crítica individual, resta-lhe a concordância cega do pensamento coletivo. Medo de ser rejeitado? É um tipo de compensação, ainda que despercebida, efetiva no seu propósito. Parte e todo, pois, andam morosa e empobrecidamente.

    É preferível desagradar a alguns e evoluir solitariamente a manter-se preso ao atraso do grupo. Cumpre dizer, contudo, que não é pela discordância que as pessoas se separam – ela, ao contrário, aproxima aqueles que nela enxergam proveito -, mas pelo desinteresse que se instala à medida que um avança e outro fica para trás. O ser humano agrupa-se socialmente por interesses particulares que atendam necessidades e desejos próprios. Ao perder tais proveitos, dá novo direcionamento às relações, buscando inusitados horizontes, ainda que negue a importante mudança, pelo sentimento de culpa que pode imprimir pressão e pesar.

    Não é simples atravessar o deserto da transformação pessoal ao separar-se das pessoas de convívio, todavia há ganhos que não apenas compensam, mas elevam o entendimento de que a evolução cobra por cada passo dado e o seu preço é mais do que justo. Interessantes personagens atraem e são atraídos, gerando renovada e oportuna roda de convivência, além do alargamento da consciência que dá testemunho, cada vez mais, dos próprios atos que, por sua vez, são fruto da reflexão e não do acaso que é par constante da inconsciência. Seja você mesmo!


    *Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, palestrante, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br

    Fonte: http://www.centro-filos.org.br/odiad/

    domingo, 22 de março de 2009

    Tempo de ser



    Por Jane Patrícia Haddad

    Nos últimos tempos, discute-se muito o papel da escola, família e educação. Fala-se muito das funções de cada um, do tempo, do tempo de fazer e do tempo de executar, mas não se fala do tempo de ser.

    Nós, ocidentais, sentimos o tempo como algo vazio, que precisa ser preenchido rapidamente. Vivemos em um tempo sem tempo! Um tempo de ter! Um tempo de preencher. Um tempo de excesso de informação circulante.

    É necessário resgatemos em nós e em nossos alunos o tempo de ser, o tempo de despertar potenciais,competências, sonhos e desejos adormecidos por um tempo de ter.

    É tempo de despertar em nossos aprendizes o desejo de saber. O saber que deve ser provocado por uma escola diferente. Uma escola encantada, impregnada de sonhos, desejos e possibilidades de ser. Acredita-se que a escola não pode tudo, mas pode muito mais do que imaginamos.

    Tempo de ser! É essa a função do verdadeiro educador. É essa a missão das verdadeiras instituições de ensino – injetar confiança em crianças e jovens, muitas vezes descrentes de seu valor, de suas habilidades, de sua singular capacidade de escrever novos roteiros para suas vidas.

    Façamos das nossas escolas um caminho real para uma efetiva mudança no ato de educar.

    * Jane Patrícia Haddad é Pedagoga, Psicopedagoga clínica, em constante Formação Psicanalítica.Ministra Palestras para Famílias e Educadores.

    Fonte: http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=3850

    sábado, 21 de março de 2009

    Eles dão o exemplo

    As receitas dos quatro municípios gaúchos com melhor desempenho na Prova Brasil, onde aprender português e matemática é assunto sério, mas divertido

    a proximidade dos conteúdos da sala de aula com o cotidiano que determina o bom desempenho escolar. Os municípios que se destacaram em português e matemática em levantamento do Movimento Todos pela Educação (www.todospelaeducacao.org.br) não tratam as duas disciplinas como um conjunto de regras e fórmulas.

    No topo da lista estão cidades que se aproximaram da meta projetada para o país em 2022: até lá, espera-se que 70% dos estudantes atinjam pontuação considerada mínima para o aprendizado. No Estado, encabeçam a lista Roque Gonzales, Nova Bréscia, Camargo e Três Arroios. O levantamento tem como base os resultados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicados pelo Ministério da Educação em 2007 em turmas de 4ª e 8ª séries.

    Especialistas concordam que tanto o português quanto a matemática tendem a provocar a aversão dos alunos quando sua aplicação é abstrata. Professora de prática de ensino de português e coordenadora do Departamento de Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da PUCRS, Jocelyne Bocchese defende um ensino focado nas habilidades de leitura e escrita. Para ela, a gramática deveria ocupar no máximo 15% das aulas no Ensino Fundamental.

    – O português que a gente aprende na escola deve servir para a vida. O professor pode criar um CD ou livro com as histórias da região, por exemplo. O estudante vai pesquisar as histórias, vai anotar, vai transformar a linguagem oral em escrita – ensina.

    Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, João Lucas Barbosa compartilha da opinião. Ele defende que o professor explore a fase da vida do estudante para ensinar. Problemas matemáticos podem ser elaborados usando comparações com compras na cantina ou troca de figurinhas.

    – É a ciência mais aplicada do mundo. O exercício da cidadania pode ser feito com a matemática. Não é possível brigar pelo salário sem entender de juros, proporções, qual é a proposta do patrão – explica Barbosa.

    Só que não é apenas o que ocorre dentro das salas que conduz à meta. Conforme Ruben Klein, especialista em avaliação da educação e integrante do comitê técnico do Movimento Todos pela Educação, o nível socioeconômico interfere no desempenho.

    – A base familiar e o valor que as famílias dão ao aprendizado são importantes. Para muitas, o fato de o filho estar na escola é um avanço, só que elas não sabem o que é um aprendizado de qualidade – comenta Klein.

    O especialista observa que a presença dos pais deve ser permanente e não ocorrer apenas quando os filhos têm problemas na escola.


    silvana.castro@zerohora.com.br

    SILVANA DE CASTRO

    Fonte: Jornal Zero Hora - 22 de março de 2009 - nº 15915
    O X da Educação

    Para o mesmo filme, visões diferentes

    Utilizar filmes na sala de aula não é novidade. Televisões e videocassetes são aparelhos básicos em muitas instituições de ensino - claro, há centenas de escola que não os possuem, mas se o professor realmente quiser passar um filme em classe, tem sempre alguém que tem esses aparelhos em casa e poderia emprestar, não é mesmo?

    Gostaria de indicar um livro que contém desde as formas de utilização de filmes até opções mesmo divididas em temas (o livro é voltado à gestão de pessoas, não estranhe, mas inclui técnicas e sugestões para trabalhar tanto com professores e gestores como crianças a partir dos sete anos), é o Luz, câmera, gestão - A arte do cinema na arte de gerir pessoas de Myrna Silveira Brandão, editora Qualitymark.

    Algumas dicas retiradas do próprio livro:

    "- O filme deve ser cuidadosamente escolhido de acordo com o tema-objeto do treinamento. É importante levar em consideração o perfil profissional do grupo, a sua faixa etária, o tempo de duração do filme e outros aspectos relacionados à situação específica do programa a ser administrado;

    - o facilitador deve assistir ao filme previamente e anotar os pontos e as cenas que ele, como especialista da área e também como espectador, destacaria para trabalhar os assuntos. Esses pontos podem servir como orientação para os temas a serem trabalhados e debatidos;

    - ao escolher o filme, é importante ler textos relativos a ele, no sentido de obter elementos adicionais sobre o tema central a ser debatido. Mesmo que um filme possa ser analisado sob vários assuntos, normalmente ele tem um enfoque maior em determinado tema. Por exemplo, o filme Fale com Ela, de Pedro Almodóvar, embora tenha questões ligadas à superação de obstáculos, comunicação e sentido de vida, o ponto alto a ser trabalhado são as visões, reações e os comportamentos diferenciados em situações semelhantes;

    - após a exibição, é recomendável que haja uma breve exposição de um debatedor ligado ao tema. Por exemplo, se o treinamento se referir ao tema "liderança", um profissional especialista no assunto certamente pode ajudar muito na transposição de aspectos do filme para a área, na condução do debate e no esclarecimento de dúvidas;

    - os pontos debatidos devem ser anotados e posteriormente distribuídos para todos. A anotação também será um material importante para o facilitador nas sessões subseqüentes do filme."

    Luz, câmera, gestão - A arte do cinema na arte de gerir pessoas, página 20.

    Temas e filmes (importante fazer duas observações, uma é que cada filme pode abranger mais de um tema e que no livro existem várias outras opções)

    Aprendizagem - Mestre dos Mares- O lado mais distante do Mundo
    Competição - Madagascar
    Conflito (choque de gerações) - Os Incríveis
    Conflito (de pessoas e grupos) - A Fantástica Fábrica de Chocolates
    Criatividade - A Marcha dos Pinguins
    Desafio - O Homem Urso
    Diferenças individuais - Doutores da Alegria
    Perda - Lendas da Vida
    Preconceito - Eu, Robô
    Valores - Meninas

    por
    Priscila Conte.

    Fonte:
    Profissão Mestre - Jornal Virtual 109 - 20/03/2009

    sexta-feira, 20 de março de 2009

    Dica de Filme: A Língua das Mariposas

    Por João Luís de Almeida Machado

    Menino-conversando-com-senhor

    Ir a escola pela primeira vez é um grande desafio para uma criança. Não importa a idade, independe do país e mesmo do contexto histórico no qual está inserida a criança. A superação da insegurança só acontece após alguns dias, depois de uma plena adaptação, através da qual o menino ou menina conheça seus colegas, compreenda a dinâmica do ambiente escolar e trave o necessário e primordial contato com seu professor.

    Nesse aspecto, a figura do professor é definidora não apenas no sentido da ambientação. Os mestres respondem pela própria paixão a ser despertada nos infantes. Parte deles toda a energia vital que, necessariamente, contagia os alunos e faz com que eles não apenas se sintam bem na escola, mas também, que alimentem certa paixão pela aprendizagem, pelo conhecimento, pela pesquisa...

    José Luiz Corda, cineasta espanhol, retratou com grande êxito, os primeiros passos do menino Moncho (Manuel Lozano), de sete anos, nessa grande aventura de ingressar na escola, através de seu filme “A Língua das Mariposas”.

    A sensibilidade do filme de Corda nos remete a duas outras grandes obras recentes da filmografia européia, as produções italianas “A Vida é Bela”, de Roberto Begnini e “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Além disso, a intensa relação que se define entre Moncho e seu velho professor Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes) nos fazem lembrar das parcerias estabelecidas entre Giosué e Guido (de “A Vida é Bela”) e entre Totó e Alfredo (de Cinema Paradiso).

    Entretanto, diferentemente daqueles filmes, “A Língua das Mariposas” tem como foco a relação professor-aluno. Estabelece a imagem do professor humano, caloroso, próximo e paciente. Nos mostra a atitude do profissional da educação como aquela do erudito, que lê, pesquisa, conversa regularmente com muitas pessoas e é admirado pela comunidade.

    O filme nos mostra Don Gregório como uma figura impar dentro do contexto educacional da época retratada (o filme se passa no período brevemente anterior a Guerra Civil Espanhola), fica claro para o espectador que a atitude desse educador contrasta com posicionamentos mais fortes e autoritários dos demais professores da época (Antes de conhecer Don Gregório, o menino Moncho tem medo de ir a escola e fala em fugir para a América; receia que possa ser punido com severidade pelo futuro professor).

    Além disso, a preocupação em ensinar e cativar as crianças não se restringe a demonstrar todo o conhecimento obtido a partir de leituras e pesquisas. Don Gregório representa o educador íntegro, que se percebe como referência (e que, nem por isso, se envaidece) e que, ciente de suas responsabilidades a partir de então, se mostra sempre sereno, altivo e elegante.

    Mais que teorias, ele ensina a seus alunos novas posturas perante o mundo, onde as pessoas devem se respeitar, ter sensibilidade e jamais abandonar seus ideais...


    O Filme

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    Moncho (Manuel Lozano) tem apenas sete anos e se prepara para o maior desafio de sua vida. Está a apenas algumas horas de seu primeiro dia de aula. Alertado por alguns meninos, ele acredita que o professor poderá castigá-lo ao menor erro. O menino pensa, inclusive, em fugir para a América, como alternativa a escola.

    O que lhe espera, entretanto, é uma grande surpresa. Seu professor, Don Gregório (Fernando Fernán-Gomes), um senhor próximo da aposentadoria, jamais agiu agressivamente em relação a nenhum de seus alunos. Pessoa de fala mansa, de grande tranqüilidade e de postura elegante, apesar de toda a simplicidade, o professor garante sua credibilidade perante seus alunos a partir do conhecimento que possui e da calma com que resolve os pequenos problemas do cotidiano.

    Moncho se apaixona pela escola e passa a se dedicar com grande vontade às tarefas e atividades propostas por Don Gregório. Encanta-se com as histórias contadas pelo velho mestre e se anima ainda mais quando algumas aulas são dadas ao ar livre. Paralelamente a suas realizações escolares, o menino acompanha os acontecimentos da vida cotidiana da pacata cidade onde vive.

    Descobre o amor e se percebe no meio de um emaranhado de relações políticas e sociais (mesmo não entendendo exatamente o significado desses acontecimentos), numa época em que a Espanha ferve as vésperas de sua guerra civil. As turbulentas transformações pelas quais passava o país colocam o velho e honrado professor em situação delicada devido a seus posicionamentos políticos. Em quem deve acreditar Moncho?

    Fortes emoções tornam “A Língua das Mariposas” filme obrigatório para todos aqueles que acreditam na vida e na educação. Não percam!


    Aos Professores

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    • Encantamento é a palavra definidora da relação estabelecida entre Don Gregório e seus alunos (especialmente Moncho). E como se dá essa mágica? Muitos professores me perguntam quando realizo workshops e palestras de que forma conseguimos cativar nossas crianças e adolescentes. Não há fórmulas prontas. Não há “receitas de bolos”. Essencialmente o que caracteriza um trabalho que encanta os estudantes é o amor do professor pelo trabalho que realiza, pelas crianças e jovens com os quais trabalha e pelo conhecimento.

    • Outro aspecto relevante do sucesso de vários profissionais que conheço se refere à sensibilidade. Saber ouvir os estudantes quando necessário. Compreender seus problemas. Dar atenção sempre que requisitado. É claro que não podemos e nem devemos abrir mão de nossas demais responsabilidades como educadores. Continuaremos a trabalhar a história, a literatura, a matemática, as ciências e todo o conhecimento que nos cabe proporcionar a nossos alunos. Temos que adicionar a isso a educação das emoções, garantida pela presença, pelo estímulo constante, pela crença na capacidade de todos nossos alunos,...

    • “A Língua das Mariposas” destaca outro aspecto muito relevante para o trabalho dos educadores, a necessidade da leitura, da pesquisa, da busca do conhecimento. Isso vale tanto para nossa própria formação quanto para o aperfeiçoamento de nossos estudantes. Temos que ler para saber ler. Temos que mostrar a nossos alunos que ler e pesquisar são essenciais para nosso crescimento, para nossa maturação e melhoria individual. Temos que fazê-los perceber que ler e pesquisar são (mais que necessidades) prazeres!

    • Toda e qualquer forma de repressão política, ideológica, social ou cultural representa o que há de mais vil entre os seres humanos. O patrulhamento patrocinado pelo fascismo na Espanha (e em todos os países que, infelizmente, vivenciaram regimes totalitários) fez muitas vítimas. Seus crimes? Pensavam de forma diferenciada em relação ao regime dominante. Levantamentos e pesquisas acerca da Guerra Civil Espanhola e da ditadura fascista que se estabeleceu na Espanha podem ser aprofundados com o exame da obra “Guernica” de Pablo Picasso, com a leitura do clássico “Por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingway (que era correspondente de guerra na Espanha na época da guerra) e pela comparação desses recursos (incluindo-se aí o próprio filme “A Língua das Mariposas”) com textos didáticos e paradidáticos.

    Obs.: “Por quem os sinos dobram” foi transformado num ótimo filme (produzido em 1943), dirigido por Sam Wood e estrelado por Ingrid Bergman e Gary Cooper. Apesar disso, recomendo que inicialmente se faça a leitura do livro de Ernest Hemingway para que, depois se utilize o filme.


    Ficha Técnica

    A Língua das Mariposas
    (La Lengua de Las Mariposas)

    País/Ano de produção: Espanha, 1999
    Duração/Gênero:
    96 min., Drama
    Direção de
    José Luis Cuerda
    Roteiro de
    Rafael Ascona, Manuel Rivas e José Luis Cuerda
    Elenco:
    Fernando Fernán-Gomes, Manuel Lozano, Úxia Blanco, Gonzalo Uriarte,
    Aléxis de los Santos, Jésus Castejón, Guillermo Toledo.


    * João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

    Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=211



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