quinta-feira, 30 de abril de 2009

Artigo: Como formar um marginal?

Exemplo extraído da ficção ajuda a refletir sobre a vida real

Por Carlos Alberto Barcellos, professor

Falar em ética está ficando algo distante de nossa realidade. Gloria Perez, autora da novela Caminho das Índias, apresenta para nossa reflexão um exemplo clássico de como se forma um marginal ou delinquente.

Educado por adultos inconsequentes a transgredir, o jovem personagem faz de suas vítimas verdadeiros objetos de deboche e de desprezo pelo ser humano. A cena em que ele agride a professora é carregada de realidade. A ficção proposta por Gloria Perez há muito tempo tem se constituído numa cena real de nossas escolas.

A direção dessa escola ficcional decide, então, suspender o aluno, como forma de mostrar aos demais estudantes que, naquela escola, existe disciplina e regramento, independentemente do valor da conta bancária.

Os pais, grandes estimuladores da marginalidade do filho, prontamente saem em sua defesa. O argumento usado não tem nada de ficção. Colocam uma direção de escola sem rumo em xeque ao afirmar que são eles que pagam a escola. Como já vimos esse filme na realidade, fica o dito pelo não dito. Aquele garoto volta com a certeza de que será sempre acobertado por adultos incoerentes. Imagino que, ao longo da novela, a autora deverá discutir a mudança de quadro. Também não me surpreenderia se nada mudasse, apenas para confirmar o quadro patético de vazio existencial vivido pela geração a que temos a responsabilidade de educar.

O agressor, caso do personagem da novela, está à solta em todos os cantos de nossa sociedade. Intimida a todos pelo poder do dinheiro ou pelo poder da força. O agressor sabe constituir sua turma, que o segue embevecida, como se estivesse seguindo um deus. Essa turma despreza por completo normas de convivência. A cena da novela pode ser vista todos os dias em escolas brasileiras no famoso corredor polonês. Para quem nunca viu em uma escola, duas filas de estudantes se dispõem a dar tapas naquele que foi eleito para sofrer a punição da hora. Agressores são cruéis. Perdem a noção do juízo moral. Para eles, a palavra limite inexiste. Estão acima do bem e do mal. Ofendem professores, serventes, pessoas que passam nas ruas, tanto quanto pela força dominam seus pais em casa. Esse é o quadro de uma infantocracia e adolescentocracia que desconhece a palavra não.

Gloria Perez contribui para que saibamos ler as lições da ficção. Trazê-las para a luz do dia da vida da escola é necessário. De uma maneira explícita, ela nos apresenta uma aula de como se faz bullying nessa instituição. Tiros em Columbine é um documentário-filme obrigatório de se ver.

Como lidar com agressores e seus grupos? Como minimizar as agressões de todos os níveis das vítimas de condutas recorrentes? Como aprofundar com a grande massa dos indiferentes e silenciosos, quase sempre coniventes, temas tão significativos? Que lugar essa discussão ocupa na mesa de nossas casas e nossas escolas? Perguntas que clamam por respostas que vão além da mera indignação diante do personagem da novela de Gloria Perez.


Fonte: http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/oxdaeducacao/noticia/detalhe/Artigo-Como-formar-um-marginal-.html

Cota de 100% para doidos


Por Paulo Moreira Leite

Precisei ler duas vezes para acreditar: a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara acaba de aprovar um projeto que reserva 10% das vagas em instituições públicas de ensino médio e superior para deficientes físicos.


Minha mãe passou os últimos de sua vida numa cadeira de rodas. Pude conhecer de perto as dificuldades dessa condição. Mas não é disso que estamos falando.


Bernardo Mello Franco, de O Globo, fez a conta. Somando os 50% de vagas que o Senado pretende reservar para alunos de escolas públicas, em breve apenas 40% das vagas de nossas universidades públicas poderão ser disputadas por estudantes que não se enquadram em nenhuma das categorias anteriores.


Aquilo que se chama de mérito, critério que envolve o premio aos mais preparados e mais capazes, só irá vigorar para 4 em cada 10 vagas.


Isso é mais do que absurdo. Não faz sentido educativo, nem social.


Não importa: o que se pretende é criar uma reserva de mercado eleitoral. Sem entrar no mérito particular de cada uma dessas iniciativas, o projeto é criar um eleitor cativo, que nunca vai abandonar o parlamentar que arrumou um atalho para colocá-lo na universidade.


Lembra aqueles coronéis que davam um pé de sapato e só entregavam o outro depois de conferir o voto? É disso que estamos falando.


É tão delirante que acho que o Michel Temer deveria recuar do recuo do recuo das passagens aéreas e reestabelecer as mordomias para suas excelencias — agora em vôos de primeira classe, com estadia paga.


Dessa forma, eles poderiam ficar longe do plenário e evitariam prejudicar o país com medidas delirantes como esta.


Fonte: ÉPOCA - Paulo Moreira Leite » Blog Archive » Cota de 100% para doidos

As buscas via internet

Estudo realizado pela Universidade de Buenos Aires, na Argentina, mostra como os estudantes procuram informações na rede mundial

Gabriel Pillar Grossi (ggrossi@abril.com.br), de La Plata, Argentina

Foto: Philippe Lissac/Godong/Corbis
ESTUDO NA TELA O jovem precisa saber selecionar sites e, dentro deles, interpretar as informações corretas. Foto: Philippe Lissac/Godong/Corbis

A tecnologia está cada vez mais presente na vida de todos. Tanto é assim que pela primeira vez na história o Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação Comparada, a famosa prova realizada com jovens de 15 anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE) vai incluir, neste mês de maio, um teste para ser respondido com o auxílio do computador. As 27 questões serão aplicadas apenas em 17 países (dos quase 60 que fazem o Pisa), justamente para medir a capacidade de encontrar informações e construir conhecimento utilizando a rede mundial.

No entanto, o uso de computadores na escola ainda não está tão disseminado em nosso país (e em muitos de nossos vizinhos). Pesquisa divulgada no mês passado mostrou que 63% dos estudantes brasileiros dizem que o lugar mais habitual para acessar a internet é a escola. Porém, esses mesmos jovens afirmam que metade dos professores não utiliza nem recomenda a rede. E apenas um em cada dez entrevistados aprendeu a usar a ferramenta com um educador.


Cientes dessa falta de familiaridade dos professores com a internet, pesquisadores da Universidade de Buenos Aires vêm se dedicando a entender como os alunos buscam informações na rede. "Muita gente acha que, pelo fato de terem mais acesso às máquinas desde cedo, as crianças sabem tudo o que precisam fazer, o que não é verdade", destaca Flora Perelman, a coordenadora do estudo, que foi apresentado em março durante as Jornadas 30 Anos de Leitura e Escrita na América Latina, em La Plata. "Temos um papel fundamental na hora de ajudar essa turma a usar as novas tecnologias."

O estudo, feito com alunos do equivalente ao nosso 7º ano em 400 escolas da província de Buenos Aires, indica que há cinco pontos essenciais a considerar antes de colocar a garotada na frente da tela: compreender que a busca na rede é uma prática social de leitura, tomar consciência de que a máquina deve ser usada ao nosso favor, aprender a escolher os sites que têm o que se quer procurar, saber selecionar informações confiáveis e entender o peso da imagem no processo.

O que o aluno deve buscar na rede, onde e como

O primeiro problema que se coloca para os estudantes ao pesquisar na internet é onde encontrar o que se quer. Em geral, acessam um site de busca (tipo Google) e digitam uma ou mais palavras. Há três comportamentos padrão. Quando quer apenas se divertir, o jovem clica no primeiro resultado de busca e vai para o novo site. Na hora de buscar conhecimento geral, ele clica em no máximo dois sites, até achar o tema em questão. Finalmente, quando tem de localizar algo específico para uma tarefa escolar a complexidade aumenta: o aluno faz a busca, lê o site, tenta avaliar a qualidade dos dados oferecidos e refaz o processo várias vezes, até ter alguma certeza de que os nomes, números e datas conferem. Mas o processo é eficaz? "Isso prova que buscar informação na internet é altamente complexo, é uma prática social de leitura e, portanto, requer auxílio constante do professor", explica Flora Perelman.

Mariana Ornique, também da equipe que realiza o estudo, conta que, quando o professor não orienta o trabalho, o mais comum é a turma digitar qualquer coisa na tela, sem pensar muito. "Só que a página de busca não é capaz de interpretar nada." Por isso é fundamental discutir o que exatamente se quer encontrar - antes de clicar. Em outras palavras, é preciso levar os alunos a entender a diferença entre pedir informação a alguém e à máquina. Só assim a tecnologia é usada a favor do usuário e da aprendizagem.

Na hora de escolher, confiança é a chave

O terceiro passo é aprender a selecionar os sites "Na dúvida, as crianças muitas vezes optam por um ‘.org’ ou ‘.gov’, porque acreditam que páginas não-comerciais têm mais credibilidade", afirma outra pesquisadora, Vanina Estévez. "Será? Duvidar das informações é essencial e é preciso ensinar a turma a fazer isso." Segundo a pesquisa, os jovens acreditam muito na objetividade dos fatos históricos. Mas é essencial que eles compreendam que qualquer ponto de vista carrega consigo uma certa parcialidade - conhecimento, aliás, que deve ser explorado também em atividades sem o computador. Daí a importância de saber selecionar as informações confiáveis (a quarta conclusão do estudo). Afinal, nem tudo o que está disponível na internet é verdadeiro.

Como, então, levar a turma até dados confiáveis? "Essa é a questão quando se trata de explorar a tecnologia na escola", diz a pesquisadora Emilia Ferreiro, conhecida por seus estudos em alfabetização, mas que coordena trabalhos sobre o uso do computador em classe. "Quando alguém nos pergunta algo, imediatamente pensamos para que essa pessoa quer saber isso, aonde quer chegar. E a máquina não faz isso. Nenhum site de busca consegue interpretar como nós fazemos."

A força das imagens e como não se enganar

Finalmente, María Rosa Bivort, também da equipe de Buenos Aires, chama a atenção para a importância da imagem na busca via internet. "Numa das tarefas propostas, os alunos tinham de encontrar fotos de imigrantes que vieram da Europa no século 19", conta ela. "Ao colocar palavras-chave nas ferramentas de busca, como ‘navio’ e ‘século 19’, algumas crianças encontraram fotos recentes de embarcações antigas em festas em homenagem aos imigrantes, por exemplo." Isso serviu para os professores explicarem que nem todas as imagens em sépia (aquele tom amarelado que as fotos em preto-e-branco ganham com o tempo) são velhas de verdade, pois esse efeito pode ser obtido hoje justamente graças à informática. Sem falar no próprio visual dos sites - um mais atraente pode "parecer" mais confiável, sobretudo para crianças menores.

Tudo isso só reforça a importância de cruzar informações e checar antes de simplesmente comprar o que aparece na tela. "A confiabilidade é mesmo o aspecto crucial", analisa Emilia Ferreiro. "A grande vantagem é que a máquina nos permite experimentar infinitamente. Podemos voltar, refazer, trocar tudo. E isso não causa nenhum problema ao trabalho, pois ele é 100% reversível. No entanto, precisamos ensinar a interpretar. Pois só assim vamos ajudar os alunos a construir conhecimento de fato."


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/buscas-via-internet-466998.shtml

Edição 222 | Maio 2009


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tribunal de Justiça lança concurso antiviolência

Os melhores trabalhos estudantis sobre o combate à violência darão microcomputadores a seus autores.

O Tribunal de Justiça lança, na próxima semana, o Prêmio Fala – Formando Adolescentes na Luta Antiviolência, direcionado para estudantes da 5ª série do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio.

Os estudantes poderão participar nas modalidades artes plásticas, música, teatro e texto literário. As escolas dos vencedores também ganharão computadores.

Para concorrer, as instituições devem primeiro agendar uma visita ao Memorial a fim de participarem do programa Formando Gerações, uma tarde de atividades que objetiva apresentar o funcionamento do Judiciário e noções de Justiça. Após a visita, será entregue ao professor material de orientação. Cada aluno receberá um kit contendo informações sobre os temas a serem abordados nos trabalhos: direito da criança e do adolescente, família, racismo, violência e conflitos.

Premiação ocorrerá no fim de novembro

Segundo a juíza-corregedora Márcia Kern Papaleo, a ação busca uma maneira diferente de incentivar os jovens a refletirem sobre a questão da prevenção à violência. As informações distribuídas utilizam uma linguagem acessível, inclusive com gírias, buscando uma maior aproximação com o público-alvo.

Os trabalhos, que deverão ser entregues pelas escolas até o dia 1º de setembro, podem ser feitos em grupos ou individualmente.

A cerimônia de premiação ocorrerá no fim de novembro. O Tribunal de Justiça concederá o prêmio aos vencedores do Ensino Fundamental e Médio em cada modalidade.


Contato
Informações sobre o concurso do Tribunal de Justiça podem ser obtidas pelo e-mail cemjug@tjrs.jus.br

Fonte: Jornal Zero Hora - 29 de abril de 2009 - N° 15954

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ligações entre currículo oculto e violência escolar

Marisa Crivelaro da Silva

Cada escola tem registrado em seu projeto político-pedagógico o sistema de normas, critérios e valores que norteiam as relações interpessoais entre todos os sujeitos que interagem no espaço escolar; normas, essas, que existem para regular a convivência, tornando-a, também, objeto de aprendizagem.

O problema se instaura quando há dissonâncias entre o que prevê a teoria (PPP) e a operacionalização, no exercício da prática. Está escrito no documento qual a concepção de educação que cada escola assumiu como compromisso público para defender e praticar; definiu, também, o perfil de professor para atuar naquela instituição, bem como as formas como devem acontecer as relações afetivas entre professor/aluno. Entretanto, o currículo oculto de cada instituição evidencia formas diferenciadas de se fazer essa transposição teoria/prática. Cada professor, devido a seus traços de personalidade, sua capacidade de resiliência, sua forma particular de ser, reage diferentemente diante de atitudes de indisciplina de alguns alunos e é exatamente a partir dessas circunstâncias que poderão se desencadear os grandes e graves conflitos, resultando, possivelmente, em agressões verbais e até físicas.

Esse fato é facilmente observável no cotidiano escolar. Há professores que não apresentam problemas na organização do seu espaço pedagógico e são admirados e respeitados pelos mesmos alunos que se comportam de forma indisciplinada e arrogante com outros professores. Qual a diferença? O aluno é menos provocativo com um determinado professor e mais com outro? Com certeza, não, mas a forma como cada professor reage à provocação e como administra o conflito que se cria é que faz toda a diferença.

Essa habilidade ou inabilidade na forma de se relacionar, de resolver conflitos e encaminhar soluções de problemas disciplinares junto a instâncias superiores é que determina o quanto um professor é respeitado ou temido e odiado e, por conseguinte, vítima de agressões verbais e/ou físicas, porque alimentou os sentimentos de agressividade pela forma de gerenciar a situação posta. Esse jeito de lidar com os conflitos é um dos elementos que compõem o chamado “currículo oculto” e evidencia a concepção de educação e de liderança que cada professor tem. Ensinamos com nosso jeito de ser, de agir e de reagir. Somos referenciais para a juventude.

Diante dos desafios comportamentais dessa nova geração de jovens que frequentam as instituições escolares impõe-se, aos gestores, uma necessidade emergente: um tipo de capacitação especial ao seu corpo docente sobre estratégias para gerenciar conflitos de forma construtiva e modo de se reagir diante de uma situação de provocação. É um aprendizado que está se fazendo necessário diante das circunstâncias atuais e que não se aprendeu nos cursos de formação de professores.

Um outro aspecto do currículo oculto é a cultura organizacional que se cria a partir das ações dos gestores escolares. Há que se ter normas claras que regulem uma convivência sadia e construtiva e devem ser dadas a conhecer a toda a comunidade escolar, com plena conscientização de todos de que, se infringidas, os que descumprirem serão devidamente responsabilizados pelos seus atos.

Disseminou-se no meio educacional a ideia de que o limite da escola, no que tange a punições por desvios de conduta, esgota-se no simples aconselhamento e diálogo com o aluno e seus pais. A escola nada mais poderia fazer além disso. A origem dessa ideia que se propagou no imaginário popular apareceu há alguns anos, quando o órgão responsável pela aprovação dos regimentos escolares passou a questionar e reprovar textos de Regimentos que continham a suspensão como medida educativa para alunos que apresentassem problemas de indisciplina. Os documentos eram devolvidos às direções das escolas para que fossem reformulados, com a orientação de que não poderia constar o termo “suspensão” por não encontrar respaldo na legislação de proteção à criança e ao adolescente. Em caso de o aluno ser retirado da sala de aula, a escola deveria providenciar recursos humanos para atender esse aluno no recinto da escola. E até hoje, nos regimentos de muitas instituições, perdura essa normatização.

Nesse contexto, outro papel que fica questionado é o das famílias. O que cabe aos pais, então, se tudo é na escola que deve ser resolvido? Muitos pais apóiam as atitudes dos filhos e desmerecem os educadores e gestores. Quando chamados à escola, já chegam de espírito prevenido para questionar, duvidar e, muitas vezes, desmoralizar o professor, a proposta da escola e dar razão aos filhos. Esquecem a lição básica da Psicologia que explica que o adolescente, quando em grupo, por vezes olvida os valores com que foi educado na família para concordar e fazer o que o grupo incentiva – tudo em busca de aprovação. Em situações como essa, em que os pais sempre dão razão aos filhos, os mesmos sentem-se cada vez mais fortalecidos para continuar com a mesma conduta afrontosa e indisciplinada.

Não poderia resultar em algo diferente do que ora estamos presenciando e que a mídia vem divulgando com uma preocupante frequência. E quantos casos ainda ficam no anonimato?

Perguntas que não querem calar entre os professores:
  • Quem protege e defende os estudantes que vêm à escola para aprender e lutar por um futuro melhor? Com esses não há preocupação?
  • A legislação de proteção à criança e ao adolescente só é invocada para defender quem ultrapassa todos os limites da civilidade e se acha sempre vítima do sistema quando é punido?
  • Como formar uma geração de profissionais competentes, que sonhem alto e empreendam os melhores esforços para se destacarem nas áreas que optarem para exercer sua profissão, quando se tem que parar o desenvolvimento dos conteúdos para se ocupar daqueles que perturbam e comprometem o bom ambiente para os estudos?
Urge resgatar o poder de autoridade da escola, dos professores – responsáveis pela educação do ser humano – sob pena de se formar uma geração de pessoas sem limites, capazes de qualquer ato para satisfazerem seus interesses e vontades. Isso é nocivo para qualquer sociedade. É preciso criar uma nova cultura organizacional nas escolas que garanta, aos educadores, um espaço de respeito à sua dignidade enquanto pessoa e profissional.

Por fim, o currículo oculto de uma instituição revela se ali é um espaço onde se cultivam e difundem os valores:
  • Do respeito – entendido como caminho de mão dupla, em que é necessário respeitar para ser respeitado.
  • Da responsabilidade – traduzida pela competência e pelo comprometimento, importando-se em fazer bem feito o que precisa ser feito.
  • Na vivência da espiritualidade – forma de desenvolver a força interior, as potencialidades do ser, as emoções positivas.

Marisa Crivelaro da Silva é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e Docência do Ensino Superior, mestre em Educação, MBA em Gestão Educacional. Diretora do Colégio Marista Sant’Ana/Uruguaiana-RS, docente e coordenadora do curso Pedagogia da PUCRS/Campus Uruguaiana, Coordenadora da comissão de estágio supervisionado do referido curso.
Contato: criversil@gmail.com


Fonte:
JORNAL VIRTUAL GESTÃO EDUCACIONAL Ano 2 nº 109 - 28/04/09

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Questões de valor

Como devemos agir? Como queremos viver? Você se faz essas perguntas no seu dia a dia de educador?

Terezinha Azerêdo Rios

Numa de minhas idas a uma livraria, levei alguns exemplares ao caixa e a moça me disse: “Vou calcular o valor”. Pensei em brincar com ela: “O valor desses livros é incalculável! O que você vai calcular é o preço”.

Conferir valor é algo que marca a intervenção dos seres humanos no mundo como criadores de cultura. A transformação que se opera por meio do trabalho se dá no aspecto material e também no plano simbólico de atribuição de significados. Os objetos e bens ganham valor pelo que representam para nós. Valorizar significa não ficar indiferente, implica manifestar-se em relação a algo.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano afirma que “fomos ensinados que o que não tem preço não tem valor”. Assim, ele faz uma provocação para nós: as pessoas “são ensinadas” em todas as instituições, mas na escola o ensino se dá de maneira diferenciada. Somos desafiados a ref letir sobre os valores que difundimos.

Os valores presentes nas ações do cotidiano

Em todas as nossas ações e relações estão valores de diferentes naturezas: lógicos, estéticos, econômicos e morais. Esses últimos dizem respeito às atitudes dos indivíduos e, no cotidiano do trabalho dos diretores e dos coordenadores pedagógicos, eles aparecem na condução de uma reunião com a equipe, na resposta a uma reivindicação dos familiares, numa orientação aos alunos, no acompanhamento do trabalho dos funcionários. Existe sempre uma dimensão moral – e é preciso que haja também uma perspectiva ética. Moral e ética não são sinônimos. A primeira diz respeito ao ethos, ao jeito de viver de uma sociedade e ao conjunto de prescrições que orientam a vida coletiva. A segunda, a ciência do ethos, é a reflexão crítica sobre os fundamentos dos valores morais. Agimos moralmente e nem sempre realizamos uma ref lexão ética. E é isso que tem faltado em todas as instituições, incluindo as escolas. A pergunta da moral é: como devemos agir? A resposta está nos códigos, formalizados ou não, com as regras de cada sociedade. A pergunta da ética é: como queremos viver? Ela faz referência ao sentido do agir.

Como educadores, temos de fazer as duas perguntas. A da ética nos faz olhar para a significação do dever. Devemos ensinar conteúdos, avaliar e construir um projeto pedagógico, mas... por quê? Para quê? Nosso trabalho está colaborando para a construção da vida plena, nossa e dos alunos? Nas respostas e nas ações que delas derivam, empenhamos nossa liberdade e definimos nossa responsabilidade. É o nosso desafio cotidiano, um desafio que não tem preço!


TEREZINHA AZERÊDO RIOS é professora do programa de pós-graduação
da Universidade Nove de Julho.


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/diretor/questoes-valor-448779.shtml

domingo, 26 de abril de 2009

Os cursinhos correm para mudar

A nova prova do MEC, que substituirá o vestibular em
centenas de universidades já neste ano, obriga os
cursinhos a reformular rapidamente seus negócios


Camila Pereira e Renata Betti

Oscar Cabral

Os maiores na frente
Cursinho pH, no Rio: a impressão mensal de apostilas facilita mudanças nos grandes grupos



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O calendário do vestibular

Os cursinhos que, há seis décadas, preparam os estudantes para o velho vestibular estão diante de um duro desafio: reformular rapidamente seus negócios para adaptar-se ao novo Enem, prova feita pelo Ministério da Educação (MEC) que, já neste ano, substituirá o vestibular em mais de 500 universidades brasileiras. Para a maioria, as mudanças vão implicar uma verdadeira transformação em duas frentes essenciais do negócio: a produção de material didático e o treinamento dos professores. Juntas, elas representam até 40% dos custos fixos de um cursinho. As adaptações, não há dúvida, vão encarecer ainda mais essa conta. Um grupo como o Objetivo, dono de uma das cinco maiores redes de cursinhos do país, calcula que terá de desembolsar neste ano 10% além do previsto por causa do novo Enem, uma prova mais voltada para o raciocínio lógico, com questões que entrelaçam diferentes áreas do conhecimento, e menos para a memorização de uma vasta quantidade de conteúdos e fórmulas, como ainda ocorre no vestibular. Outros cursinhos se viram forçados a recrutar dezenas de pessoas para reescrever as apostilas e treinar os professores de modo que consigam preparar os alunos para resolver a nova prova – caso do COC, um dos cinco maiores do setor. "Estamos reformulando nosso sistema de ensino", resume o diretor Tadeu Terra. "Quem não fizer isso será engolido."

Um grande complicador é o tempo exíguo para executar tamanha mudança. Normalmente, um processo como esse – que requer uma reestruturação do plano pedagógico – consome mais de um ano. Como só restam cinco meses até a aplicação da prova e os alunos ainda precisam ser treinados para ela, será necessário fazer o mesmo até julho, em apenas três meses. O prazo curto vai exigir um aumento na carga horária das aulas, para que todo o conteúdo seja passado a tempo. Nessa corrida, levam vantagem aqueles cursinhos que já haviam começado a se reformular antes de o MEC anunciar o novo sistema. "Estamos nessa direção há cinco anos", diz Carlos Eduardo Bindi, diretor da rede Etapa. Ele e outros, como o próprio COC, miravam, na realidade, o velho Enem, que já é adotado na admissão a cerca de 500 faculdades do país. Também se adaptavam a vestibulares como o da Unicamp, menos afeito à decoreba. Como ambos os exames mantêm semelhanças com o novo Enem (ao menos conceitualmente, uma vez que falta ao MEC divulgar muitos detalhes sobre a prova), quem já ajustava sua linha pedagógica ficou em situação mais confortável. Diz o consultor Mateus Prado: "Esses são os cursinhos mais bem posicionados para ganhar terreno". Eles estão em melhores condições para brigar por alunos num mercado que é extremamente sensível à novidade. "Para um cursinho prosperar, deve dispor de capacidade para empreender mudanças radicais rapidamente", sintetiza Prado.

Marcio Lima

Medo da extinção
Jorge Curvelo, dono de um cursinho em Salvador: "Os pequenos temem perder ainda mais mercado"

No atual cenário, as grandes redes, por uma questão logística, estão mais bem posicionadas para se ajustar à nova realidade. As cinco maiores, com cursinhos esparramados pelo país inteiro, possuem gráfica própria, nas quais o cronograma de impressão já é mensal. Somando-se todo o material produzido numa dessas gráficas por mês, chega-se a meio milhão de apostilas. Os cursinhos menores, que não contam com tal estrutura, recebem o material apenas uma vez por ano. Sem escala para a impressão, não seria economicamente viável fazê-lo mensalmente. "Só vai dar para adaptar nosso material em 2010", admite Jorge Curvelo, diretor do Quanta, cursinho de 250 alunos em Salvador.

Outro fator que pesa em favor dos grandes é o fato de não dependerem de um negócio só. Além de escolas e faculdades, tais grupos ganham muito dinheiro com a venda do que é conhecido no mercado como "pacote pedagógico". Entenda-se por isso material didático, treinamento de professores e consultorias prestadas a cursinhos menores, negócio que já supera a receita proveniente das próprias matrículas. Na prática, significa que, ainda que o lucro com os cursinhos encolha por ora, uma vez que precisarão desembolsar mais dinheiro para dar conta das mudanças, os grandes grupos apresentam condições bastante favoráveis para superar esse momento. Mais capitalizados, podem, por exemplo, bancar a decisão de não repassar o prejuízo para as mensalidades – o que periga acontecer com os concorrentes. Diz Jorge Curvelo, do Quanta, que faz coro com donos de cursinhos médios e pequenos: "A verdade é que estamos com medo de ser extintos".

Fotos Roberto Setton

Mudança antecipada
Carlos Bindi, diretor do Etapa: esse e outros cursinhos já haviam feito ajustes para atender às exigências do velho Enem

Nos últimos anos, o mercado brasileiro de cursinhos, que faturou 1,2 bilhão de reais em 2008, vem se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos grupos. Sete grandes redes detêm hoje mais de 60% das 400.000 matrículas. Esse processo de concentração começou na década de 90, momento em que explodia o número de vagas em universidades particulares. Com o ingresso no ensino superior mais acessível, a procura pelos cursinhos despencou 40% em quatro anos – e não voltou a subir. Trata-se, portanto, de um mercado estagnado para a maioria das empresas e muito competitivo, em que apenas as grandes redes estão conseguindo realmente crescer. Na competição, uma de suas vantagens tem sido o investimento em marketing. No período de provas, essas redes fincam estandes na porta das maiores universidades, com o objetivo de atrair os alunos que fracassam na primeira tentativa. Só isso consome algo como 15 milhões de reais de cada rede. Outra estratégia foca nos melhores estudantes. Tais grupos chegam a promover simulados nacionais para rastreá-los. Depois, distribuem bolsas de estudos para contar com eles em seu corpo discente. "Nenhuma propaganda é tão eficaz nesse mercado como emplacar os primeiros lugares num vestibular", diz Márvio Lima, diretor da rede pH. O fato de possuírem escolas de ensino médio às centenas também é favorável às redes. Cerca de 80% dos alunos que se formam no ensino médio seguem na mesma rede de ensino caso ela disponha de cursinho e haja a decisão de frequentá-lo.

Os cursinhos pré-vestibulares são um fenômeno brasileiro da década de 50, quando a concorrência por vagas nas universidades se acirrou. Desde que surgiram, eles sempre se concentraram em ensinar macetes das provas e em treinar os alunos para se sair bem nesse tipo específico de concurso. Frases para fixar a tabela periódica, por exemplo, ajudaram gerações a passar no concurso. Como muitos dos vestibulares ainda demandam alta dose de decoreba, técnicas de memorização, à base de músicas e rimas, são até hoje comuns. Embora muito da essência dos antigos cursinhos permaneça, do ponto de vista dos negócios eles se profissionalizaram. Foi ainda na década de 70 que alguns empresários do setor vislumbraram a chance de se expandir para o ensino básico, depois para o ramo de venda de apostilas e serviços e, finalmente, na década de 90, para o prolífero mercado de ensino superior. Os cursinhos, no entanto, nunca ficaram de lado. Com classes lotadas de alunos e uma infraestrutura simples, oferecem margens de lucro de 20%, em média, segundo um estudo da consultoria Hoper. É o dobro das margens obtidas com escolas de ensino médio. Motivo mais do que suficiente para que os cursinhos, agora, corram para se adaptar ao novo Enem.

Com reportagem de Marana Borge



Fonte: Revista Veja - Edição 2110 - 29 de Abril de 2009.

O Homem Etiqueta - Os Sem-Identidade...

“Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.”

Carlos Drummond de Andrade


(Trecho do poema “Eu Etiqueta”, publicado no livro “O Corpo”, Editora Record)


Li o poema e me vi etiquetado. Dos pés à cabeça. E até nas roupas íntimas, invisíveis aos olhos alheios, também vem grudada uma marca... Não sou mais eu? Deixei de ser quem sou? Assumi outra(s) identidade(s)? E que novas formas de me apresentar perante aos outros passei a utilizar a partir das etiquetas que uso?

Se sou aquilo que visto então sou o jeans da moda ou o genérico vendido na feira ou no saldão do grande magazine? Meu odor é de perfume francês, recomendado por uma bela modelo ou por um famoso atleta? Ou então minha fragrância é somente aquela do desodorante vendido em grande quantidade em qualquer supermercado de bairro? Uso calçados esportivos dos grandes campeões? Ou calço as sandálias que não soltam as tiras, não deformam e não tem cheiro – que até pouco tempo atrás eram populares e hoje são internacionais?

Em meu pulso, a ditar o ritmo de minha vida tenho um original relógio suíço, daqueles que valem um automóvel? O que estou bebendo é anunciado com pompa e cerimônia na TV como a bebida da juventude ou do sucesso? Ando de ônibus ou já me dou ao luxo de ter um belo sedan daquela multinacional poderosa?

Quem sou eu? Homem livre ou escravo da moda e das tendências? Para onde vou e como penso dependem de influências externas, de itens de mercado, de posses e bens? Sou filho de minha mãe e de meu pai ou um rebento do mercado, da publicidade, do consumismo que não apenas consome meu dinheiro, minha grana, mas principalmente minha alma, meu ser?

Num mundo de marcas alhures é difícil perceber-se e, mais complicado ainda, ver os outros por detrás de tantos logotipos, marcas, propagandas e comerciais. O que se vê não é alguém, com RG e Certidão de Nascimento que definem origens, paternidade e dão indícios de identidade... O que vemos, a olho nu, como nos diz do alto de toda a sua sabedoria e alma de poeta o mestre Carlos Drummond de Andrade, é somente o homem etiqueta...


Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1436

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

sábado, 25 de abril de 2009

Diário do pensador sem fronteiras



DIÁRIO DO PENSADOR
SEM FRONTEIRAS


"O coração tem razões que a razão desconhece." Tudo bem, doutor Pascal, mas não esqueça que a razão tem emoções de que o coração nem suspeita.

"O inferno são os outros." Sartre dizia isso, com sua habitual falta de autocrítica. Mais racional, completo: "Certo, messiê, mas falta dizer: ‘O céu também’."

"Ouço a toda hora pobre e rico, preto e branco, brilhante e medíocre repetindo: ‘Da morte ninguém escapa!’"

Mentira. Da morte todo mundo escapa. O morto nunca sabe que está morto. Quem tem medo da morte e faz essas frases está bem vivo. Da vida é que ninguém escapa.

"Não confie em ninguém com mais de 30 anos", slogavam os hippies. Mas eu me pergunto: "Por que confiar em dimenor?".

"Arte é coisa mental", pensava Da Vinci, mas como se explica tanto idiota pintando, compondo e tocando?

"Só sei que nada sei." Sempre me parece frase dita por um corno manso.

"Penso, logo existo." É frase de moribundo.

"À noite todos os gatos são pardos." Depois do sucesso dessa negada aí da timbalada, as meninas tão dando pra turma, adoidadas. E murmuram: "À noite todos os pardos são gatos".

Taqui, O Guarani, do Zé de Alencar. Mais que nacionalista – o que não chega a ser uma qualidade, a não ser quando os paraguaios nos guerreiam barbaramente. Zé também Indianista, movimento reivindicando pros silvícolas (por que não selvícolas, se eles são da selva e não silvam?) explorarem, quando todo mundo sabe que o natural é o índio ser o explorado? Como é que índio nu ia explorar o cara de gravata e colarinho?

Mas, seja como for, Zé é um escritor menos pretensioso do que o Joaquim, metido a filósofo – "Mais vale cair das nuvens do que de um terceiro andar", Deus do Céu! – e a entender de mulher embora ceguinho a respeito, não tendo percebido que Escobar traçava a mulher de Dom Casmurro.

Mas Zé de Alencar também tinha das suas. Veja como ele termina, gloriosamente!, o seu romance. Transcrevo:


"Então passou-se sobre esse vasto deserto de água e céu uma cena estupenda, heroica, sobre‑humana; um espetáculo grandioso, uma sublime loucura. Peri, alucinado, suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de água, e com esforço desesperado, cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou‑o até as raízes.

Luta terrível, espantosa, louca, desvairada: luta da vida contra a matéria; luta do homem contra a terra; luta da força contra a imobilidade.

Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrível: ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou; as raízes desprenderam-se da terra já minada profundamente pela torrente.

A cúpula da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flor da água como um ninho de garças ou alguma ilha flutuante, formada pelas vegetações aquáticas.

Peri estava de novo sentado junto de sua senhora quase inanimada: e, tomando-a nos braços, disse-lhe com um acento de ventura suprema: – Tu viverás!...

Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte. O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face.

A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...

E sumiu-se no horizonte."


O público, isso que eles hoje chamam genérica e vulgarmente de galera, lê e bate palmas para essa descrição heroica feita pelo Zé de Alencar. Mas o Zé esqueceu, ou nem percebeu, que foi a primeira vez que um nativo começou a destruir o meio ambiente pra servir à classe dirigente.




Fonte: Revista Veja - Edição 2110 - 29 de abril de 2009.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mídia e a sedução sem encantamento

Desde os tempos mais remotos, a intenção de seduzir partia de um pacto. Seduz quem tem poder; é seduzido quem a ele se submete. Para o pacto vingar, algo de especial era prometido. A mediação se dava pelo "objeto de encantamento". Cleópatra bem soube conduzir a trama de seus desígnios para atrair Júlio César e Marco Antonio.

Durante séculos, o princípio esteve preservado e reforçado pela tradição literária em várias versões: o mito de Dom Juan, na matriz espanhola; a figura de Valmont, na vertente francesa, bem como a de Casanova, no modelo italiano. Até então, a sedução implicava a dominação sob o "império de Eros". A história da sedução se confundia com a dinastia dos libertinos que não dispensavam o requinte de conhecimento e de astúcia, ou seja, o jogo da sedução pressupunha um embate de inteligências. Todavia, uma trava brusca, no curso da modernidade, cortou o fluxo.

O novo perfil de sedução

À segunda fase da Revolução Industrial coube a tarefa de fascinar o Ocidente com o "mito do consumo". Para tanto, faz-se indispensável recuperar-se a etimologia da palavra "sedução", a fim de melhor se caracterizar o que se pretende aqui problematizar.

A palavra provém do latim seducere (se[d] + ducere). Sed, além de conjunção equivalente a "mas", atuava nos textos antigos como prevérbio, significando "separação", "afastamento", "privação"; e ducere queria dizer "levar", "guiar", "atrair". Em síntese, portanto, "seduzir" era o processo pelo qual se atraía para privar o outro da autonomia de si, sob a promessa de possibilitar-lhe a experiência do prazer pleno.

A sociedade de consumo montou a armadilha na qual a mídia assume o papel do sedutor, transformando-se na imensa vitrina onde ficam expostos os "objetos" do suposto desejo. Nela se mesclam o sublime e o grotesco, fazendo do real o palco para o pastiche e o fetiche. Um aspecto, entretanto, aflora como um dado novo, merecedor de destaque, porque totalmente ausente e impensado na história da sedução: o encantamento vazio.

No passado, como já foi salientado, a sedução calcava sua eficácia no fato de que permitia ao seduzido vivenciar a plenitude do prazer. Antes de ser descartado, o seduzido era atraído para o êxtase. Atualmente, dá-se o oposto. A sedução será tão mais eficiente quanto menos estiver atada ao êxtase. Neste caso, o que fascina é a segurança diante do já-sabido e, por isso, dominado, ou seja, é exatamente o contrário do que a antropóloga da USP, Esther Hamburger, afirmou no artigo "Formatos da intimidade", publicado no suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo (24/2/02).

A propósito do modelito midiático (reality show), a autora afirma: "Essa sensação de tocar o distante e desconhecido, torná-lo familiar, domesticá-lo e, principalmente, atuar sobre ele, faz o fascínio do reality show". Creio que uma análise dessas faria o antropólogo Lévi-Strauss encontrar no suicídio a única forma digna para uma vida à qual emprestou tanto esforço teórico.

Sinceramente, o que há de "distante" e "desconhecido", ante pessoas comuns, banais e reprodutoras do que, a todo instante, a maioria da população está exposta nas cenas reais de suas vidas? O que há de incomum nas bobagens até então exibidas? Afinal, a que programa a ilustre antropóloga assiste? Bem, mas no afã de teorizar profundamente sobre o "nada", ela ainda lapida o diamante derradeiro: "O desafio para a dramaturgia contemporânea talvez se situe aqui, na fronteira avançada pelo reality show".

A democracia abriga tudo, inclusive o direito de dizer aquilo que jamais deveria ter sido pensado. Quanto a isso, estamos de acordo, a fim de não ameaçarmos a democracia. O restante, porém, fica por conta da ingenuidade crítica de que parece padecer o "conhecimento" proposto nos últimos tempos por alguns segmentos da chamada "antropologia urbana".

Morte da imaginação

Deixando de lado a discussão com o conteúdo do artigo citado, o que efetivamente interessa ao tema deste escrito é demonstrar a fixação de um "formato midiático", cujo encargo maior consiste em difundir a sedução destituída de qualquer encanto. Nisto reside o jogo perverso, esquadrinhado na moldura da mídia, cultuando o "non sense" com o qual a maioria se identifica e sente alívio, em razão de uma vida também desprovida de maiores expectativas. A sedução sem encantamento propõe, sem disfarces, a esfinge sem enigma para decifrar. A esfinge, no caso, é o que está dado a "ver". Não encanta, porque nada envolve mistério. A polêmica outrora gerada pelo "Mr. M", na verdade, trazia essa questão: a morte da imaginação. Retira-se do receptor o espasmo último de fantasia. Como desfecho residual, fica ao receptor a realidade crua e desnudada daquilo que é exibido para não suscitar nenhum foco de reflexão ou de engendramento lúdico. É nessa sucessão ininterrupta que se vai consolidando a "cultura do sem-sentido". Basta ver e ver o já-visto.

O parágrafo anterior pretende deixar claro que nada deve profanar a enganosa tranqüilidade que firma um "sem-destino" liberto de transgressões e rebeldias. A recompensa é a de sempre: o sonho do sucesso, mesmo sendo anônimo e isento de mínima virtude. Essa é a esperança com a qual milhares de famílias empurram suas "crias" para a vitrina perversa. Dessa mesma matriz, surgem "lolitos" e "lolitas", prontos para ilustrar as passarelas do mundo. Em seguida, realimentam a "indústria do sexo", ao desnudarem-se em nome da arte, realizando "ensaios fotográficos". Depois de sugados até a última gota, e recheados de dinheiro, descobrem que o cérebro ficou para trás. Dinheiro sem imaginação é como transa compulsiva sem gozo. Assim funciona a máquina produtora da sedução sem encantamento. Ela é fria, calculista, dotada de astúcia. No novo formato, só há lugar para uma inteligência. Sedução, portanto, virou fraude. Todos que dele tomam parte blefam com o sentido da vida. O consolo, se algum sobrevive, é o de não se sentir peça do esquema, não por fundamentos moralistas (também esses são perigosos e suspeitos), e sim por mera dedução de quem faz da vida uma experiência própria e proveitosa, sem ter de amargar o "dia seguinte"...

Por Ivo Lucchesi*


*Ivo Lucchesi - Professor de Teoria da Comunicação, ensaísta, mestre em Literatura Comparada pela UFRJ e doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, participante do programa Letras & Mídias, exibido mensalmente pela UTV.


Fonte: Observatório da Imprensa nº 162

http://br.geocities.com/mcrost11/oi005.htm


Educação começa em casa

A convivência familiar é a maior oportunidade para a criança apreender uma formação baseada nos princípios morais e das virtudes.

Quando a família tem bons princípios de educação, usando em seu cotidiano formas educadas de lidar uns com os outros, falando num tom de voz tranqüilo e baixo, usando as palavras que traduzem educação e delicadeza, como dar bom dia e boa noite, pedir por favor, agradecer com um muito obrigada, pedindo licença, dentre várias outras, a criança absorve esses conceitos e os leva por toda a vida.

Porém, o que vemos são famílias que deseducam achando que os meninos não podem aprender boas maneiras, pois isso comprometerá a sua masculinidade.

Quem não gosta de um homem fino, bem educado, que abre a porta do carro para sua namorada ou esposa, que tem a delicadeza de presentear-lhe com rosas, puxar a cadeira para a mesma sentar? O famoso “gentleman”, tão raro hoje em dia, que na sua masculinidade consegue permanecer com conceitos que não o comprometem nesse sentido, tornando-o o homem mais desejado.

Mas para que isso aconteça, é necessário que a criança tenha aprendido a conviver com esses exemplos e conceitos desde muito pequena.

Em algumas famílias é normal que usem palavrões como forma de se tratar, pais chamam filhos de burro, porco, mas é bom lembrar que filho de porco só pode ser porquinho, que filho de burro também é burrinho e que não somos animais para recebermos tratamento como se fôssemos, de forma grosseira e pejorativa.

Outra coisa que compromete muito a educação da criança é quando ela não recebe informações adequadas de higiene, como limpar o nariz no banheiro, assuando o mesmo e lavando as mãos com água e sabão, e não tirando as secreções por todos os cantos da casa ou mesmo na rua, na frente de outras pessoas.

Comum também é ver a família rindo, se divertindo quando a criança está com flatos, soltando seus gazes em qualquer lugar, na frente de qualquer um. É claro que a criança muito pequena demora certo tempo para conseguir controlar os mesmos, mas por volta dos dois anos, quando já consegue fazer o controle dos esfíncteres, esse domínio pode ser aprendido também, se esse for o exemplo dado pela família. No caso dos arrotos, quando é bebê deve fazer sim, para não ter perigo de engasgar com os refluxos, mas aos poucos, à medida que cresce, deve deixar o hábito também.



Uma criança pequena consegue cortar adequadamente seu alimento


Quanto à alimentação, desde pequenas as crianças conseguem absorver os conceitos de boa etiqueta e, mesmo dentro de suas limitações ligadas ao desenvolvimento da coordenação motora, são capazes de mostrar algumas aprendizagens nesse sentido, como segurar a colher e levar sozinha o alimento à boca, aprendem a cortar corretamente os alimentos e, aos poucos, isso vai fazendo parte de sua rotina, tornando-se bem fácil.

É bom lembrar que aquilo que se aprende na infância fica por toda a vida e o que não se aprende pequeno fica muito mais difícil de ser aprendido depois. Um erro comum dos pais é permitir que quando crianças podem fazer tudo o que querem e, quando vão crescendo, chegando por volta dos sete/oito anos iniciam uma cobrança repentina, chegando a bater nos mesmos para corrigi-los. Se tivessem ensinado boas maneiras desde bem pequeninos isso não aconteceria, não precisariam chegar a tal extremo.
Então, eduquem seus filhos ensinando-os as regras básicas de educação, de boas maneiras e de boa convivência, pois a vida exige esses conceitos e quem não os tem encontra maiores dificuldades no meio social.


Por Jussara de Barros
Graduada em Pedagogia
Equipe Brasil Escola

Fonte: http://www.brasilescola.com/psicologia/dizer-nao.htm

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Leitura: quem começa não para mais

Jornal Mundo Jovem
Entrevista publicada na edição nº 394, março de 2009.


Elisabeth Dangelo Serra
Há muitos anos o jornal Mundo Jovem divulga o bordão “Ler é uma atitude inteligente”, uma ideia que se confirma nesta entrevista.
Elisabeth D’angelo Serra, fala da leitura como companhia na formação e como instrumento de acesso à cidadania, mesmo em tempos de novas tecnologias e advento da internet.

Elisabeth Dangelo Serra,
secretária geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Endereço eletrônico: fnlij@fnlij.org.br
Site: www.fnlij.org.br


Mundo Jovem: Qual a importância da leitura para os jovens?

Elisabeth Dangelo Serra: A leitura no mundo moderno é a habilidade intelectual mais importante a ser desenvolvida e cultivada por qualquer pessoa e de qualquer idade. Os jovens que não tiveram a oportunidade de descobrir os encantos e os poderes da leitura terão mais dificuldades para realizar seus projetos de vida do que aqueles que escolheram a leitura como companhia. Apesar dos atrativos atuais trazidos pelas novas tecnologias, hoje há um número expressivo de jovens que leem porque gostam e ao mesmo tempo são usuários da internet.

Aqueles que são leitores têm muito mais chances de usufruir da internet do que aqueles que não têm contato com a leitura de livros, jornais e revistas. Contudo é a leitura literária que alimenta a imaginação, a fantasia, criando as condições necessárias para pensar um projeto de vida com mais conhecimento sobre o mundo, sobre as coisas e sobre si mesmo. Uma mensagem: nunca é tarde para começar a ler literatura. Portanto aqueles que não trilharam esse caminho e desejarem experimentar, vale a pena tentar.


Mundo Jovem: Índices apontam que a leitura cresce no Brasil, mas no senso comum há o sentimento que não...

Elisabeth Dangelo Serra: O acesso aos livros aumentou, principalmente nos últimos 15 anos. Os programas dos governos de compra de livros de literatura para as escolas do Ensino Fundamental mudaram o cenário de 20 anos atrás. Hoje, a quase totalidade das escolas públicas brasileiras tem um acervo de livros de literatura de qualidade para uso de seus professores e alunos.

Mas, para que essa conquista resulte efetivamente em mais leitores, tem que estar integrada com outras ações dos governos e da sociedade em que a leitura seja considerada um bem cultural desejado e valioso. Quero dizer com isto que, por exemplo, a formação dos professores do Ensino Fundamental e Médio deve ter o seu eixo principal na leitura e na escrita. Somente com professores que sejam leitores será possível exigir dos alunos que eles leiam, interpretem e escrevam com fluência.


Mundo Jovem: Como nos tornamos leitores, como desenvolvemos o gosto pela leitura?

Elisabeth Dangelo Serra: Só há uma maneira de nos tornarmos leitores: lendo. E essa atitude é cultural, ela não nasce conosco, tem que ser desenvolvida e sempre alimentada. O entorno cultural em que a pessoa vive é determinante para que a habilidade de ler tenha chances de crescer. Ela é fruto do exemplo e das oportunidades de contato com a cultura letrada, em suas diversas formas. O exemplo e as oportunidades são criados por adultos que estão próximos às crianças e aos jovens.

Cabe aos professores brasileiros uma carga muito pesada, já que a maioria das famílias não tem chances de comprar livros, jornais diários e revistas semanais, dificultando o acesso ao texto escrito nas casas. Para que os professores possam desempenhar essa função, as escolas devem oferecer as condições para eles agirem de maneira a suprir essa falta, o que significa oferecer meios para uma formação continuada, ter bibliotecas com livros novos e variados e um projeto pedagógico em que o convívio com os livros e a leitura esteja no centro dos trabalhos e dos int eresses de todos.


Mundo Jovem: Há exemplos de projetos eficazes de leitura que acontecem no Brasil?

Elisabeth Dangelo Serra: Inspirada no exemplo do International Board on Books for Young People (IBBY), a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) criou, em 1994, o primeiro concurso para os melhores programas de incentivo à leitura. Estamos já na 13ª edição do concurso que serviu de base para o Prêmio Viva Leitura. Os vencedores desses concursos são projetos com perfis diferentes (escolas, bibliotecas e sociedade civil) e mostram experiências em que os livros e a literatura são o centro do trabalho e apresentam como resultados o interesse por livros e o desempenho dos alunos e dos que frequentam ambientes de leitura.

Para que pudéssemos medir a eficácia desses projetos, seria necessário saber o que ocorreu com eles depois de alguns anos. Juntamente com o Instituto Ecofuturo, estamos trabalhando no sentido de avaliar o trabalho que realizamos em bibliotecas comunitárias implantadas pelo instituto, por meio de especialistas. O fruto dessa investigação visa a criar indicadores de leitura que poderão medir a eficácia dos pro etos de leitura. Porém, pela maneira tradicional, sabemos que os alunos com bom desempenho em leitura e escrita são aqueles que melhor se posicionam nos exames escolares. E isso não mudou.


Mundo Jovem: Qual a realidade e quais os desafios colocados para as bibliotecas escolares e comunitárias.

Elisabeth Dangelo Serra: Ao tomarmos como referência a situação dos sistemas de bibliotecas escolares, públicas e mesmo comunitárias em países desenvolvidos, a realidade de nossas bibliotecas é desanimadora. Os esforços de alguns bibliotecários e professores para mudar esse quadro vêm de anos e anos sem que na prática algo de essencial tenha mudado o cenário da política de acesso aos livros por meio da biblioteca.

Houve um momento em que algumas experiências com bibliotecas escolares e públicas tiveram sucesso em alguns estados, mas, como não temos o hábito de aprender com a história, elas ficam esquecidas. Não há, ainda, em nosso país, uma valorização do uso coletivo de livros como a maneira de se partilhar acervos para que todos possam usufruir dos mesmos livros. Portanto não há uma política pública que, de fato, esteja interessada em oferecer Bibliotecas, com B maiúsculo, para todos.


Mundo Jovem: Que projetos a escola pode implantar para garantir a promoção da leitura?

Elisabeth Dangelo Serra: A escola deve iniciar o projeto pela criação de uma biblioteca, por menor que seja, abri-la todos os dias e todos os horários e orientar os professores para que a usem como fonte de referência para seus planejamentos e para suas leituras, além de ser local de visita livre, e também obrigatória, por parte dos alunos.

O projeto pode contemplar grupos de leitura livre para os professores e grupos de estudo na biblioteca. Ela deve estar aberta às famílias que deverão ser convidadas a participar de suas atividades e mesmo contribuir, como voluntárias, para a sua organização. As feiras de livros e os encontros com escritores serão eficientes se a leitura fizer parte central do projeto da escola e a biblioteca for o seu coração de onde emanam as ideias, os questionamentos e os projetos e também o lugar para simplesmente desfrutar a leitura.


Mundo Jovem: Como a literatura impressa está convivendo com o advento da internet e das novas tecnologias?

Elisabeth Dangelo Serra: Acho que nunca houve tanto livro de ficção impresso como agora. Como é natural, há coisas com qualidade e outras não. A internet tem possibilitado a divulgação imediata do que está sendo publicado e facilita o acesso ao que já existe. O futuro, como sempre, é um exercício de ficção. Sou do grupo que acha que as novas tecnologias não tiraram, nem vão tirar, o prazer de ler um livro de literatura. Pode ser uma certeza das gerações que tiveram o livro como principal referência cultural, mas não sou radical.

Se alguém sentir a mesma emoção ao ler um texto literário na tela do computador que uma pessoa sente lendo no livro, e se isto possibilitar que ambos pensem sobre o que leram e possam trocar suas opiniões, sentimentos e ideias é o que importa. Essa é a função integradora da literatura. A escrita literária faz-nos olhar as palavras de maneira única e especial, e mobiliza-nos para, ao mesmo tempo em que nos deliciamos com elas - as palavras -, possamos viver uma história que nos leva a entrar pela página adentr , ou pela tela, levados pelo fascínio dessa construção artística que poucos dominam. Ler um texto literário é uma experiência única e intransferível cujas impressões e reflexões ganham novas interpretações quando podem ser compartilhadas.

Mundo Jovem: Quais livros seriam importantes que os jovens lessem no Brasil?

Elisabeth Dangelo Serra: Os livros que qualquer jovem de qualquer parte do mundo não podem deixar de ler são os clássicos universais e os de seus países e, assim, conhecer a história do pensamento e o patrimônio universal da humanidade. Devem procurar conhecer também o que há de novo e aqueles que ganharam prêmios. Para isso, é bom ler os suplementos literários, visitar as livrarias e ver os livros que mais despertam a curiosidade, sem nenhuma regra ou orientação. A construção do leitor passa por ler coisas sem qualidade também. Ouvir as sugestões de professores, pais e amigos é mais um caminho. No site da FNLIJ (www.fnlij.org.br) está a lista dos livros premiados, desde 1974, por categoria: jovem, tradução jovem, informativo, poesia e teatro... Enfim, cada um deve ir construindo o seu próprio acervo de livros.

Mundo Jovem: Todo bom professor é um bom leitor?

Elisabeth Dangelo Serra: Eu acredito firmemente que todo bom professor é um bom leitor e vice-versa. Considero um bom leitor aquele que tem na literatura o seu alicerce principal que é o que abre as portas e consolida, embora não termine nunca, a condição de ser leitor. Formar professores leitores é dar condições para que eles tomem a leitura literária como parte das suas vidas. Sem desfrutar dessa leitura, dificilmente o professor contribuirá para que seus alunos sejam leitores.



A leitura começa em casa

A família é decisiva para incentivar a leitura. Além do exercício intelectual partilhado, a leitura entre pais, filhos, irmãos, tios e avós agrega o componente afetivo de maneira muito forte, fortalecendo o ato de ler. Ler junto é dar afeto também.

Nas famílias com poder aquisitivo para comprar livros e que já estejam motivadas para ler com seus filhos e conversar com eles sobre os livros, essa tarefa é mais fácil. Eles sabem o quanto esse ato é importante para a educação dos filhos e para fortalecer os laços de amizade na família. Difícil é para as famílias mais pobres que não podem comprar livros e que muitas vezes não são elas mesmas leitoras. Nesses casos, temos conhecimento de ocorrências no sentido inverso que são emocionantes.

Os filhos de pais analfabetos levam a leitura para seus pais que, orgulhosos e curiosos, partilham o ato de ler como um bem precioso. Mesmo sem serem leitores, eles sabem que isso vai proporcionar uma vida melhor do que a que tiveram para seus filhos.

O analfabeto percebe, melhor do que ninguém, o que é estar alijado do mundo à sua volta por não saber ler e interpretar com independência. Por isso, ele quer para seus filhos a condição de letrados. É obrigação de todos nós, que temos o privilégio de sermos leitores, enfrentar os entraves criados por uma sociedade brasileira elitista e conservadora para que todos tenham a oportunidade de trilhar o caminho da leitura e decidir, por eles mesmos, se querem continuar nele ou não. Essa é uma decisão pessoal de cada um desde que as condições sejam dadas e garantidas pelos governos com bibliotecas escolares, públicas e professores e bibliotecários formadores de leitores.


Fonte: http://www.mundojovem.pucrs.br/entrevista-03-2009.php

Dia Mundial do Livro



Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=CKQecFFHqQ8

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Também a escola se depara com a violência

Jornal Mundo Jovem
Entrevista publicada na edição nº 395, abril de 2009.


Eveline Maria da Costa
O debate acerca da violência nas escolas torna-se cada dia mais intenso e urgente: indisciplina, falta de segurança, rivalidades entre grupos de alunos, conflitos entre professores e estudantes.
Sendo a escola um espaço potencializador de transformação, como construir alternativas para a superação desta realidade? É possível promover uma cultura de paz nas escolas e em suas comunidades?

Eveline Maria da Costa,
integra a equipe da ONG Educadores para a Paz e é professora da escola Municipal Wenceslau Fontoura, de Porto Alegre.
Endereço eletrônico: costa.eveline@gmail.com
Site: www.educapaz.org.br


Mundo Jovem: Como a questão da segurança atinge a escola?

Eveline Maria da Costa: Quando a gente pensa em segurança, muitas vezes temos uma visão individualista: eu quero segurança, quero segurança para minha família, quero segurança pra mim, quero poder andar livremente na rua, quero poder sair e não me preocupar se vou ser machucada, assaltada. Mas a segurança é muito mais do que isso. Ela não é só individual; envolve uma série de questões que na escola (e ainda mais na escola de periferia) a gente pode ter contato.

É importante trabalhar com o tema da segurança não simplesmente questionando o aluno sobre o que é segurança, para quem é a segurança. Deve-se ter, tambm, uma visão mais ampla da questão cultural. E aí entra o trabalho com uma nova cultura, um novo tipo de educação, com uma educação para a paz, buscando criar uma nova cultura que é a cultura de paz. Por que criar uma nova cultura? Porque a nossa cultura não é a cultura da paz. A cultura ocidental é uma cultura bélica, violenta, que nos ensina diariamente a usar a agressão e a força para conseguir os nossos objetivos, para resolver os nossos conflitos...


Mundo Jovem: É possível acabar com os conflitos?

Eveline Maria da Costa: Os conflitos são inevitáveis. Eles fazem parte da natureza humana, da diferença, de todas as coisas que nos fazem ser humanos. E como não tem como evitar o conflito, a gente tem que inventar uma maneira diferente para administrar essa questão, que não seja a maneira da violência. Então se pensa na cultura da paz, na resolução não-violenta de conflitos, na transformação das injustiças sociais.

Alterar o conceito de segurança que temos pode ser uma das transformações para mudar esta realidade violenta. Que segurança queremos? Que tipo de sociedade queremos? E aí, com os jovens na escola podemos questionar: o que é segurança para você? Para que serve este tipo de segurança? Assim como você vive diariamente é bom? Está sendo agradável? O que podemos fazer para transformar essa realidade? Quem faz a segurança na comunidade da periferia? Com certeza não é o Estado. Então, manter este discurso moralista de que todos temos que “seguir as leis”, que “temos direitos e deveres”, que “precisamos seguir nossas obrigações” que o Estado vai nos trazer o que é importante para a nossa segurança, não é suficiente.

Precisamos problematizar: por que o Estado não está fazendo a segurança aqui na periferia? Quem toma conta da segurança aqui? O que podemos fazer para transformar essa cultura e criar uma nova, uma cultura de paz?


Mundo Jovem: Por que existe violência na escola? Não deveria ser um lugar de paz?

Eveline Maria da Costa: O que eu vejo em relação à violência na escola é que muita coisa que faz parte da vida da comunidade se manifesta na escola. Então, se faz parte do costume de uma família ou de um grupo de amigos resolver as questões de conflito, que são inevitáveis, resolver as contrariedades, as diferenças no grito, no chute, na agressão verbal, no quem fala mais alto, quem tem mais poder da força física, isso se reflete dentro da escola. E a escola tem que trabalhar com isso. Muitas vezes, na escola, dizemos: “Aqui não pode brigar.

Se você quiser pegar seu colega, vai pegar lá na rua”. Assim não resolvemos o problema, só o tocamos para a rua. Em outras palavras, você está dizendo para o aluno que ele pode, sim, bater no colega, mas que só não o faça aqui dentro, porque vai gerar um probleminha para nós. Assim, continuamos trabalhando com a cultura da violência. Simplesmente colocamos a escola como um espaço proibido de briga, permitindo essa ação na rua. É preciso trabalhar de uma forma inversa.


Mundo Jovem: E como se faz isso?

Eveline Maria da Costa: Pelo diálogo, pela conscientização. Perguntar ao aluno por que ele quer bater no fulano? Bater nele vai resolver? O que a gente pode fazer em relação a isso? A violência se manifesta dentro da escola, mas ela pode ganhar uma cara nova; podemos trabalhar de uma nova maneira, transformar a violência, a resolução violenta de um conflito, numa resolução não-violenta, de um outro jeito, através do diálogo.

Uma proposta muito interessante está sendo discutida em Porto Alegre. Saiu do Judiciário e agora está se multiplicando através de oficinas e cursos para os professores, que propõe trabalhar com práticas. Consiste em reunir as partes envolvidas no conflito, sentar para conversar, pensar em opções para remediar ou tentar modificar aquele dano que foi causado, de uma maneira que não haja violência.

Um outro aspecto que não podemos deixar de analisar é que também existe a violência da escola. Porque quando ela trata com violência as próprias manifestações de violência, quando reprime, cala, oprime, ignora ou joga para a rua aquela manifestação, ela também está gerando violência. Neste caso a escola não é só um espaço de manifestação, mas também um espaço que pode gerar violência. Também pode ser um espaço que é inseguro. Às vezes os jovens procuram na escola um espaço de segurança e encontram um lugar onde aquele problema vai continuar persistindo.


Mundo Jovem: Como podemos construir essa cultura da paz na escola?

Eveline Maria da Costa: Ao invés de resolver aquela situação de briga dentro da escola com um chute, com um soco, com o meu bonde brigando com o teu bonde, te pegando na saída da escola, tentar resolver de outra maneira. De repente foi um mal-entendido, foi só porque eu falei determinada coisa pro meu colega e ele não gostou, mas eu não sabia que aquilo ali podia ofender. Eu posso sentar, eu posso conversar, eu posso me abrir e mostrar que eu sou gente, que eu tenho sentimentos. E aí construir uma outra forma de resolver as desavenças.

A paz não é algo parado, uma coisa que a gente alcança e pega no ar e pronto: agora a paz é minha e ela faz parte de mim para sempre. Não. A paz é algo em construção, é uma forma de viver, uma maneira de enfrentar a vida. Por isso falamos em cultura da paz. São jeitos de ser, tradições, costumes que vão transformando a nossa vida. Dela, a resolução de conflitos, a solidariedade e a cooperação fazem parte. E aí a segurança começa a integrar esse meio também. Não preciso mais olhar para o outro com desc nfiança, com medo. Posso começar a ocupar os espaços públicos e a comunidade começa a ocupar também e eu passo a me sentir seguro, porque eu sei que o outro não vai me apunhalar pelas costas; ele vai tentar conversar comigo quando alguma coisa não der certo.


Mundo Jovem: Ainda temos muito que fazer para construir esta cultura?

Eveline Maria da Costa: É um caminho lento e muitas vezes árduo, porque não faz parte da nossa cultura nacional e mundial. Mas ao mesmo tempo já existem muitas iniciativas por aí. Aqui na escola, por exemplo, temos vários professores trabalhando com essas questões em sala de aula, com grupos de estudo e de discussão, com oficinas de monitores, nas quais os maiores trabalham com os menores. Tais iniciativas de trabalhar com a cultura de paz e segurança devem ser vistas, estimuladas e valorizadas. Porque uma coisa não está desligada da outra. Não tem como eu querer trazer segurança para minha comunidade se eu não trabalhar com uma cultura de paz e se a escola não fizer parte desse movimento.

A escola não é salvadora da pátria, mas um espaço de discussão, de debate, de construção de novas ideias, onde a rapaziada aprende, onde se diverte; onde também o professor aprende e se diverte. Passamos muito tempo juntos dentro da escola e é aqui que vamos aprendendo a viver.



A indisciplina e a mediação de conflitos

Quando o assunto é indisciplina dos alunos e atitudes de rebeldia e agressões, há a necessidade de mudanças profundas na escola enquanto comunidade. A postura tradicional de onipotência por parte do educador, mesmo quando se coloca para ajudar o aluno, é um modelo inadequado para alcançar soluções. Entender os motivos, os porquês que estão por trás de cada fala, do que as pessoas dizem, é a chave na resolução dos conflitos. O respeito, a responsabilidade e a cooperação são fundamentais. Na mediação de conflitos dentro da unidade escolar, o professor não pode ser o protagonista, deve considerar que não está sozinho nesse processo, e por essa razão deve trabalhar em equipe.

Faz-se necessário neste novo paradigma compreender primeiro e não apenas penalizar; saber escutar as razões. O conceito de culpa deve ser mudado para o paradigma do conceito de responsabilidade. Quando há responsabilidade, há reparação, pois só a culpa não resolve nada, apenas paralisa e exclui. A corresponsabilidade leva à reparação por mei da ação de que foi feito. Culpa ou castigo envolve exclusão e rótulos, a responsabilidade não.

Vejamos esta situação. Entre um grupo de professores foi feita a seguinte dinâmica: cada participante recebeu um balão e o encheu. Em seguida, o coordenador solicitou que amarrassem os balões e os segurassem com a mão esquerda e que colocassem a mão direita aberta para trás, onde foi colocado um palito de dente. A regra era proteger o seu balão e mantê-lo bem cheio até acabar o tempo de cinco minutos.

Dado o sinal de início, alguns balões começaram a ser estourados pelos colegas com o palito de dentes. Ao final do tempo dado, apenas dois permaneceram com os balões cheios. Todos poderiam ter permanecido com os balões cheios se não usassem os palitos, pois a regra não era estourar os balões. Foi o espírito competitivo que os levou a furar os balões. Nesse espírito, todos querem ganhar. Embora a consigna fosse ter o seu balão cheio, apenas dois se preocuparam em proteger o seu balão. O palito de dentes simboliza o conflito.

Neste modelo, em situações de conflito, o nosso objetivo é ganhar, não asta proteger, é preciso vencer. E para vencer é preciso destruir o outro nas dimensões objetiva e subjetiva. Este é um paradigma cultural que precisa ser desconstruído. Todos tinham palitos e o outro esperava que o ataque ocorresse. A forma de proteger foi atacando, porque o outro esperava isso. A filosofia que predomina é: o importante é que a outra pessoa perca e eu ganhe! Na cabeça das pessoas, a fórmula era: para eu ganhar o outro tem que perder, mas isso precisa ser desconstruído na mediação. Em lugar de derrotar o outro, é preciso pensar no que podemos fazer juntos para solucionar o problema que nos envolve. Essa é a mudança de paradigma que deve ser feita.

Para os alunos adolescentes que desejam ter identidade própria, independência significa subjugar alguém. Então aparecem as gangues para subjugar os outros. Para ele ser alguém, deve levantar as limitações. A pergunta é: como se resolve um conflito satisfazendo ambas as partes? Todos devem ganhar na mediação escolar. Tal mediação não trabalha a questão (conflitos), mas as pessoas que estão envolvidas na questão. Nesse novo paradigma, o conceito de quem ganha e de quem perde deve ser superado. Nossa cultura está formatada para ganhar e perder. Faz-se necessário construir o princípio do ganha-ganha, no qual todos ganham e ninguém perde.

Jorge Schemes,
professor universitário na FGG-ACE, Joinville, SC.
Endereço eletrônico: jorgeschemes@yahoo.com.br

Fonte: http://www.mundojovem.pucrs.br/entrevista-04-2009.php

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