terça-feira, 30 de junho de 2009

Parceiros na aprendizagem

Abrir as portas à participação de familiares e da comunidade ajuda os alunos a ter sucesso na vida escolar e colabora para diminuir a evasão e a violência

Paola Gentile (pagentile@abril.com.br) de Aracaju, Belo Horizonte e Colorado (RS)

Ilustração: Carlo Giovani/Foto: Dulla

Quando as notas são altas e tudo vai bem, ninguém pensa em discutir a relação. Se o boletim e o comportamento deixam a desejar, começa o jogo de empurra. Professores culpam a família "desestruturada", que não impõe limites nem se interessa pela Educação. Os pais, por sua vez, acusam a escola de negligente, quando não tacham o próprio filho de irresponsável. Nessa briga nada saudável , a única vítima é o aluno.

Escola e família têm os mesmos objetivos: fazer a criança se desenvolver em todos os aspectos e ter sucesso na aprendizagem. As instituições que conseguiram transformar os pais ou responsáveis em parceiros diminuíram os índices de evasão e de violência e melhoraram o rendimento das turmas de forma significativa.

Pesquisa realizada pelo instituto La Fabricca do Brasil, em conjunto com o Ministério da Educação, mostrou que há um desejo explícito por mais intimidade: 77,2% dos pais acham que um bom relacionamento entre as duas partes é raro, mas 43,7% gostariam que a escola promovesse mais reuniões, palestras e encontros para eles. Já 77,2% dos professores de instituições públicas consideram insatisfatória a participação dos familiares, mas 99,5% crêem ser de extrema importância um contato mais estreito.

Ninguém quer exigir que em casa sejam ensinados conteúdos de Matemática ou Ciências. Mas cabe aos pais verificar se a lição foi feita e elogiar quando o menino ou a menina calcula certo o troco do sorveteiro. O professor também não deve se sentir como o único responsável pela formação de valores. Porém, é fundamental considerar os que são trazidos de casa pelos estudantes e contribuir para fortalecer princípios éticos. "O segredo de uma boa relação é saber ouvir, respeitar as culturas e trabalhar junto", afirma Heloisa Szymanski, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Existem diversas formas de esse casamento se consolidar. Nesta reportagem, você vai conhecer algumas experiências bem-sucedidas, além de um guia com ações para a equipe pedagógica se aproximar de seu público. Vai encontrar dicas para educadores e responsáveis ajudarem os estudantes a ter sucesso, para manter o bom relacionamento com a família de adolescentes e solicitar a participação de pais analfabetos ou analfabetos funcionais.

A família dos dias de hoje

Para a relação ser duradoura, tem de se basear em respeito. Preconceito, portanto, não pode existir. Falar em família desestruturada ou desajustada não faz sentido quando se analisa a realidade doméstica atual. Tanto que a Organização das Nações Unidas, há mais de uma década, trouxe o tema para reflexão ao instituir o Ano Internacional da Família. Os documentos elaborados na época apontaram que a principal característica dessa instituição é a capacidade de seus membros de manter e educar seus dependentes para a vida, segundo princípios éticos, culturais e legais. Os vínculos biológicos (ser o pai ou a mãe), jurídicos (matrimônio formal ou não), afetivos (amor), domiciliares (morar sob o mesmo teto) ou econômicos (dependência financeira) podem existir juntos ou isoladamente.

Essa explicação é necessária para derrubar a primeira barreira que impede uma convivência eficiente: o fato de muitas vezes a escola achar que uma família, por não corresponder aos padrões tradicionais, não é capaz de cuidar da formação de seus descendentes. Antonio Carlos Gomes da Costa, presidente da organização não-governamental Modus Faciendi, em Belo Horizonte, acredita que em cada casa deveria existir um educador familiar: a pessoa que "adota" a criança em termos de orientação. "Pode ser o pai ou a mãe, mas isso não é regra. Tem de ser alguém interessado no processo de aprendizagem, não importando o preparo intelectual nem o vínculo biológico, e sim o afeto."

A família é o primeiro grupo com o qual a pessoa convive e seus membros são exemplos para a vida. No que diz respeito à Educação, se essas pessoas demonstrarem curiosidade em relação ao que acontece em sala de aula e reforçarem a importância do que está sendo aprendido, estarão dando uma enorme contribuição para o sucesso da aprendizagem. Pode parecer simples, e é. Tanto que é exatamente o que tem sido pedido aos responsáveis pelos estudantes de todos os níveis de ensino.

Mostrar isso às famílias é tarefa dos educadores. Para tanto, é preciso um trabalho de conquista. Só que é impossível haver aproximação quando só são marcados encontros para falar de problemas. Isso causa antipatia e repulsa. O bom relacionamento deve começar na matrícula e se estender a todos os momentos.

Entrosamento total

Envolver os familiares na elaboração da proposta pedagógica pode ser a meta dos educadores ávidos por um entrosamento total com eles. Foi o que fez a EE Giulio David Leone, em São Paulo. Em 1994, os professores da Giulio sentiram na pele a rejeição dos pais ao chamá-los para conversar sobre a implantação do sistema modular de ensino. Depois de expor o projeto, a diretora Marlene Rodrigues da Cruz ouviu de vários deles: "Pior não fica". Chocada com o comentário, ela viu que, antes de qualquer iniciativa, era preciso mobilizar a equipe pedagógica para resgatar a credibilidade da instituição. Ao longo dos anos, reuniões eram convocadas a cada dois meses não para reclamar do comportamento dos estudantes, mas para contar o que eles iriam aprender, para que e como. Quem compareceu ajudou na consolidação do novo projeto pedagógico.

Os encontros eram marcados por dinâmicas nas quais os participantes percebiam a importância do trabalho conjunto. Aos pais (principalmente nos finais de semana) e aos alunos (sempre no contraturno) foram oferecidas oficinas de culinária, teatro, informática e jogos recreativos, entre outras. Hoje, depois de 12 anos de parceria consolidada, os resultados falam por si: a retenção caiu de 45% para 2% (antes mesmo da implantação da progressão continuada); a evasão recuou de 20% para 3%; e o número dos que prestam vestibular saltou para 60%, contra menos de 1% em 1994.

Marina Tavares, mãe de quatro alunos da Giulio, elevou o conceito sobre a escola depois que foi envolvida no processo e o conheceu de perto. Contribuiu também para a mudança o tratamento recebido quando um dos meninos, Douglas, hoje com 14 anos, apresentou dificuldades nos estudos em virtude da morte do pai. Após algumas conversas com a coordenação pedagógica, ela passou a acompanhar as lições de casa e a se envolver nas tarefas propostas pela professora. Sem computador em casa, Marina vai com Douglas até um cyber café do bairro para ajudá-lo em pesquisas.

Na EE Bolivar Tinoco Mineiro, na periferia de Belo Horizonte, a parceria com a família foi ainda mais intensa. No ano passado, a professora Joana D'Arc Santana Fonseca colocou Vanilda de Jesus dentro da sala de aula. Mãe de Pedro Henrique, 10 anos, ela se ofereceu para ficar ao lado dele e impulsioná-lo a superar um sério problema de dispersão, que o impedia de prestar atenção e de participar das atividades em grupo: "Como não acabei os estudos [ela cursou até a 3ª série], achei que não seria útil, mas só com a minha presença ele progrediu". Em casa, ela olha os cadernos todos os dias depois que volta do trabalho. "Ficou mais gostoso estudar ao lado dela", conta o menino, que continua freqüentando as aulas de reforço, mas viu as notas melhorarem sensivelmente.

A Bolivar Tinoco também está em processo de mudança de imagem para resgatar o prestígio. Ela era depredada e rodeada por um lixão, o que afastava o público e a comunidade. O programa Escola Viva Comunidade Ativa, implantado pela Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, fez com que o espaço em que havia entulho e dejetos virasse horta. Ali, estudantes mais velhos, pais e vizinhos trabalham no cultivo de hortaliças e ervas medicinais. Os pequenos vão até lá para aprender os mais diversos conteúdos. O colégio virou referência no bairro e acabou com a evasão. Diego de Paula Miranda, 17 anos, está no 2º ano do Ensino Médio, voltou a estudar lá e é um dos que cuidam da horta com o pai, o líder comunitário Itamar de Paula Santos.

Visitar as casas dos alunos

Nas grandes cidades, a falta de tempo é um dos fatores que afastam as famílias da escola. Na área rural, é a distância. O uso do transporte pelos estudantes transforma aquela conversa na porta de entrada em uma ocasião cada vez mais rara. Ainda que rápido, o encontro serve para troca de informações entre o professor e os pais. Contudo, essa realidade não pode servir de desculpa para a falta de contato. Algumas ações ajudam a suprir a carência, como uma pesquisa com as famílias para saber de sua rotina, hábitos e preferências e ela pode ser feita pelas próprias crianças ou durante uma visita pessoal do educador.

Sentindo que o afastamento poderia prejudicar seriamente o trabalho pedagógico, Simone Fiorese Weiss, da EMEF Espírito Santo, em Colorado, no interior do Rio Grande do Sul, optou pelo contato direto. Levou a turma toda para conhecer a moradia dos 14 estudantes da 3ª série, há dois anos. "Desde então, os pais demonstram mais confiança em meu trabalho, comparecem às reuniões e acompanham as lições", afirma.

As famílias sentiram-se valorizadas não só pela presença da professora em casa mas também pelo uso que Simone fez do que era aprendido nas visitas. Tudo virou conteúdo para ser pesquisado e estudado em sala de aula. Alguns exemplos:

A diferença entre agricultura comercial e de subsistência e a formação de condomínios para compra e uso de equipamentos agrícolas observadas durante a visita à família de Bruna Nicolao.

O aprofundamento do estudo dos mamíferos, o perigo da contaminação do solo provocado pelos chiqueiros e os pontos cardeais na confecção da maquete da propriedade em que mora Daniel Santos, que tem como principal atividade a criação de suínos.

A importância da alimentação natural e o cultivo de hortaliças em estufas, aprendizados iniciados na casa de Catrine Lammers.

"Depois dessa iniciativa da professora, minha filha deixou de ser tímida e agora se interessa por tudo. Até parece repórter", brinca Edair Nicolao, pai de Bruna. Jussara e Ademir Santos, pais de Daniel, lembram que o guri tinha muita dificuldade em redação no início do ano. Agora, seus textos são exemplares: "Ficou muito mais fácil escrever sobre assuntos e pessoas que eu conheço", justifica ele.

Portas sempre abertas

A Escola Teia Multicultural, em São Paulo, optou por uma estratégia diferente, mas que agradou muito a seu público. Existe um convite permanente para os pais irem até lá todas as sextas-feiras após as 18 horas. O encontro começa com uma atividade cultural (show de música, apresentação de dança etc.) ou uma dinâmica coletiva. Depois, a conversa com os professores flui naturalmente para o trabalho pedagógico e o progresso da garotada. "Queremos formar uma comunidade", diz a coordenadora pedagógica Elaine Naldi Martins.

A proximidade entre as pessoas que freqüentam a escola e atuam nela leva também à diminuição da violência. Na rede estadual de São Paulo, as ocorrências recuaram 51% desde 2003, quando foi implantado em toda a rede o Programa Escola da Família. A EE Castro Alves, na capital, vítima de roubo de equipamentos, pichação e quebradeira, nunca mais registrou agressões desde que passou a receber de 500 a 800 pessoas nos finais de semana. Os avanços no comportamento e no aprendizado dos alunos já estão sendo sentidos. Waldirene Gaboni não foi mais chamada para ouvir reclamações sobre a indisciplina do filho Moacir, 13 anos - o que era rotina na outra escola em que estudava. Depois da transferência, a família passa o sábado na Castro Alves. Ela começou a freqüentar a oficina de panificação; a filha Bruna, 8 anos, cuida da brinquedoteca para os pequenos; Moacir aprende a fazer mangá com uma colega do Ensino Médio; e o pai, também Moacir, faz a manutenção nos computadores e dá curso de Informática como voluntário. "Passei a valorizar mais o trabalho dos professores e agora, em casa, conversamos muito sobre tudo o que acontece na sala de aula", conta Waldirene.

Abrir os portões para os pais é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo que requisitam a parceria deles para melhorar a aprendizagem, os educadores devem estar preparados para receber críticas e implantar sugestões. Há dois anos, a EE Arício Fortes, em Aracaju, conseguiu atrair familiares oferecendo, duas vezes por semana, aulas de ginástica e dança.

Quando o programa Escola e Comunidade foi implantado pela Secretaria de Estado da Educação de Sergipe nas unidades da capital, a oferta de atividades foi ampliada, mas muitos pais já estavam envolvidos com a rotina escolar. Tanto que requisitaram ao diretor, Anderson Magalhães Oliveira, uma maneira de acompanhar tudo o que acontecia por lá. Foi criada uma ficha individual, atualizada diariamente por três pedagogas, contratadas exclusivamente para essa missão. Maria de Lourdes Tintiliano a consulta sempre para se inteirar do desenvolvimento da neta Itaianá de Oliveira, da 7ª série. No projeto realizado no ano passado sobre os 150 anos de Aracaju, os parentes foram as fontes de informação dos estudantes sobre a cidade antiga, ajudaram na confecção de maquetes e até na apresentação no dia da feira cultural, como fez Maria Isabel Santos Gonçalves, mãe de Tatiana, da 8ª série. As reuniões de pais - que antes registravam três ou quatro presenças - agora vivem lotadas. Em março, para discutir a implantação do período integral, apareceram 190 pessoas - e são 220 os matriculados nesse regime.

Para Antonio Carlos Gomes da Costa, o importante é que os familiares se engajem totalmente: "Os mais comprometidos, ainda que sejam minoria, têm capacidade de influenciar o restante da comunidade e mudar a escola". E essa mudança pode ser o segredo do sucesso para uma relação duradoura e com final feliz.


Guia para um bom relacionamento

Juntas, desde o comecinho

A parceria da escola com a família pode ocorrer em vários níveis e momentos. Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita, elaborou essa lista de ações para ajudar a estreitar o contato:

"Uma das vantagens de ter essa relação fortalecida é que os pais exigem cada vez mais qualidade da escola".

Matrícula

Logo no primeiro contato, cabe ao diretor ou ao coordenador mostrar o espaço físico e a proposta pedagógica, ouvir dúvidas e responder com clareza.

Com a matrícula efetuada, o ideal é conhecer o percurso escolar do novo aluno, as preferências e gostos dele, dados sobre saúde, relacionamento e comportamento em casa.

Na Educação Infantil, informar-se sobre os hábitos alimentares e a rotina, para facilitar a adaptação.

Definir em conjunto quais serão os canais de comunicação (bilhetes, e-mails, telefone).

Reuniões

Comunicar logo no começo do ano o dia e o horário previstos para os encontros, de preferência compatíveis com os de quem trabalha fora.

Na convocação, citar os objetivos da reunião.

Explicar para que a escola ensina determinados conteúdos, como ela ensina e como a criança aprende.

Mostrar a evolução da aprendizagem dos jovens.

Informar sobre os projetos didáticos e perguntar como cada família pode contribuir.

Dia-a-dia

Convidar os responsáveis para falar sobre a profissão deles sempre que for interessante para o entendimento de conteúdos e projetos.

Chamar pais, avós ou tios para ir à escola contar histórias do passado, ler livros, ensinar uma brincadeira ou fazer um doce.

Chamar os pais não só para comparecer mas também para ajudar na organização de festas juninas, feiras de Ciências e jornadas culturais ou esportivas.

Abrir a biblioteca, o laboratório de Informática e a quadra de esportes para uso dos familiares.

Promover palestras e debates que tenham como objetivo a formação dos pais, tratando de assuntos de interesse geral, como saúde, mídia, drogas, sexualidade etc.

Enviar relatórios periódicos sobre o desempenho da classe e as conquistas individuais.

Informar sobre mudanças na estrutura física, na organização do espaço e do tempo escolar ou na equipe pedagógica.

Comunidade

Distribuir lista com os nomes e contatos de todos os pais ou abrir fórum na internet para que eles se conheçam e troquem informações.

Só visitar as famílias para aproximar — nunca para averiguar, julgar ou fazer inferências.


Para os pais

Atitudes que favorecem o sucesso dos filhos*


1. Fale sempre bem da escola para criar em seu filho uma expectativa positiva em relação aos estudos.

2. Abrace-o e deseje coisas boas a ele quando estiver de saída para a aula.

3. Na volta, procure saber como foi o dia dele, o que aprendeu e como se relacionou com todos.

4. Conheça o professor e converse com ele sobre a criança e o trabalho dela na escola.

5. Em caso de notas baixas, não espere ser chamado: vá à escola para saber o que está acontecendo.

6. Mantenha uma relação de respeito, carinho e consideração com todos os professores.

7. Resolva diretamente os problemas entre você, seu filho e o professor e só recorra a outros em último caso.

8. Crie o hábito de observar os materiais escolares e ajude nas lições de casa.

9. Quando seu filho estiver com problemas, compartilhe-os com a escola sem omitir fatos nem julgar atitudes.

10. Comente com amigos e parentes os êxitos escolares dele, por menores que sejam, para reforçar a auto-estima e a autoconfiança.

*adaptado da cartilha elaborada por Antonio Carlos Gomes da Costa e Odelis Basile para a EE Rodrigues Alves, em São Paulo

Trabalho permanente


Na adolescência, atenção redobrada



Quando as crianças são pequenas, o interesse da família pela vida escolar é maior: os responsáveis querem saber como elas se comportaram na aula e as conquistas que fazem. O tempo passa, a molecada cresce e fica mais independente. Os adultos acham que o adolescente já sabe cuidar de si e não precisa de tutoria. Engano: "Quanto mais autonomia tem o jovem, mais a parceria entre família e escola deve se fortalecer", afirma Antonio Carlos Gomes da Costa. É nessa fase que os jovens vão construir a identidade e seu projeto de vida, tarefas nada fáceis.

Por isso, quanto mais esses dois pilares estiverem em sintonia, mais fácil fica para eles planejarem o futuro. Participar de reuniões e se informar sobre os aprendizados continua sendo fundamental, mas é hora de os responsáveis ficarem atentos às mudanças de comportamento e comunicarem a escola. Esta, por sua vez, deve promover atividades recreativas que possam ser praticadas ou apreciadas conjuntamente, como jogos, shows de música, teatro etc. Gomes da Costa acha importante criar espaços para discutir valores e promover o protagonismo juvenil em ações sociais, campanhas comunitárias e a educação para o mundo do trabalho.


Questão de cidadania

E se os pais forem analfabetos?


Muitos professores sentem-se constrangidos em pedir a pais analfabetos ou analfabetos funcionais para acompanhar a lição de casa. Yara Prado, secretária adjunta da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, afirma que é função dos educadores mostrar que eles não são os responsáveis pelo processo de aquisição do conhecimento, mas que o interesse deles pode fazer toda a diferença. A secretaria, ao lançar em abril o programa Ler e Escrever — Prioridade na Escola Municipal, publicou a cartilha Conversa com os Pais. "O aluno evolui com mais facilidade quando percebe que os responsáveis valorizam o aprendizado", afirma Yara. Mesmo sem intimidade com a língua escrita, os familiares estão aptos a uma série de ações:

Falar sobre a importância de saber ler e escrever para a vida pessoal e profissional.

Escutar as crianças lendo em voz alta, com paciência e sem corrigi-las caso errem ou gaguejem.

Estimular o interesse por livros, revistas ou jornais pedindo que tragam esse material da biblioteca.

Não fazer da leitura obrigação nem castigo.

Pedir que escrevam bilhetes, listas de compras.


Quer saber mais?


Contatos

EE Arício Fortes
, Av. Camilo Calazans, s/no, Aracaju, SE, 49082-090, tel. (79) 3179-7761

EE Bolivar Tinoco Mineiro, R. Divino Espírito Santo, 40, 31870-590, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3434-1094

EE Castro Alves, R. Francisco Bruno, 67, 02432-070, São Paulo, SP, tel. (11) 6256-6093

EE Giulio David Leone, R. Ribeira do Vouga, 91, 04830-180, São Paulo, SP, tel. (11) 5928-0014

EMEF Espírito Santo, Av. Santo Martins Pinto, s/n0, 99465-000, Colorado, RS, tel. (54) 3504-3785, r. 214
Escola Teia Multicultural, R. Lincoln Albuquerque, 312, 05004-010, São Paulo, SP, tel. (11) 3868-1993

Heloisa Szymanski, hszymans@pucsp.br

Modus Faciendi, R. São Paulo, 409, cj. 2407, 30170-902, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3201-4597

Programa Escola da Família, R. Marcelina, 629, 05044-010, São Paulo, SP, tel. (11) 3879-8040

Bibliografia

A Relação Família/Escola
, Heloisa Szymanski, 96 págs., Ed. Plano, tel. (61) 3272-3211, 16 reais


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/diretor/parceiros-aprendizagem-423371.shtml


Edição 193 | 06/2006

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Como fazer a diferença....

Show da língua portuguesa!

'Um homem rico estava muito mal, agonizando. Pediu papel e caneta. Escreveu assim:


'Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres. '

Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava a fortuna? Eram quatro concorrentes.

1) O sobrinho fez a seguinte pontuação:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:

Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3) O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4) Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:


Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.

Moral da história:
'A vida pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras. Nós é que fazemos sua pontuação.
E isso faz toda a diferença... '

Recebi por e-mail do colega prof. Paulo.

Adolescência: etapa ou estado?*





Neste texto, Rolando Martiñá reflete sobre a adolescência, distinguindo-a como etapa e como estado. Faz referência à sociedade “adolescentizada”, na qual muitos adultos comportam-se como eternos aprendizes da vida, e reclama a necessidade de reverter essa situação para que os jovens possam contar com a orientação de adultos consistentes, que lhes dêem outros exemplos, outros limites e outras regras diferentes das de seus pares.

Por Rolando Martiñá**

Tradução: Adriana Vieira


Se é certo que não se tem 15 anos mais que uma vez na vida, também é certo que as questões que se colocam nessa idade podem reaparecer em outras. Por exemplo, situações de crise que nos fazem regredir a esquemas prévios de comportamento ou o fato de que nem sempre fazer aniversário é o mesmo que amadurecer.
Queremos dizer que é possível distinguir entre a adolescência como etapa evolutiva e a adolescência como estado. Ou seja, como estado de ânimo. Como forma de nos relacionarmos com os demais, de perceber a realidade, de tomar decisões sobre ela.

Desta perspectiva, poderíamos dizer que as sociedades modernas atuais se “adolescentizaram” em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque é bastante notório que muita gente, de qualquer idade, pretende parecer adolescente e age como tal, não só ao imitar modas e costumes, mas também ao pretender se comportar como um eterno aprendiz da vida, quando já se está na idade, pelo menos, de dar algumas lições.

Oscilações extremas de estado de ânimo, desinteresse pelas consequências de seus atos, falta de perspectiva a longo prazo, emoção à flor da pele, busca de sensações imediatas são alguns dos traços comuns do aprendiz, que costumam causar, em quem já não deveria mais tê-los, um ar desconcertante e algo patético. Sobretudo, aos olhos dos autênticos aprendizes.

Em segundo lugar, porque o período da adolescência se expandiu muito se comparado com o século passado, sem ir muito longe. Isso se deve a diversas causas, nem todas negativas. Em grande parte, a permanência nessa etapa se deve ao fato de que, ao contrário do que acontecia em outras épocas, já não é tão certo que os filhos se constituam rapidamente em força de trabalho. E, simultaneamente, as possibilidades educativas também se expandiram como nunca na história – obviamente, falando de um modo geral.

O paradoxo, contudo, é que os adolescentes necessitam dos adultos para crescer bem, ainda que entrem em confronto com eles, os depreciem ou os ignorem. Necessitam de adultos consistentes, que não se deixem derrotar facilmente por eles, nem por qualquer imposição massiva da cultura global. Necessitam de outras palavras além das de seus pares, apesar de estas também serem muito necessárias a eles. Outros exemplos, outros limites, outras regras. E muitas vezes não as encontram.

Embora seja bastante difícil determinar quando e como, parece que a busca por melhorar essa situação está se convertendo em um dos desafios socioculturais de nosso tempo, pelo menos para quem, como nós, se ocupa da saúde, da educação e das interações humanas em geral. Alguns já estão nesta busca e esperamos que muitos outros se juntem a ela.




* Texto adaptado de "Adolescencia y salud", ed. Tinta Fresca, 2006, co-autoria de Rolando Martiñá soy co-autor.

* Rolando Martiñá é professor, licenciado em Psicologia Clínica e Educacional. Pós-graduado em Orientação Familiar, convênio Fundação Aigle-Instituto Ackerman de Nova York. Membro do Programa Nacional de Convivência Escolar, do Ministério de Educação da Argentina. Conselheiro familiar e de instituições educativas.



Fonte: EducaRede
Veja a imagem em: www.apeejosefalcao.net/files/index.php

sábado, 27 de junho de 2009

Trilha de contradições - Por Lya Luft

"Convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado"


"Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce." Já escrevi sobre essa frase. Sim, repito alguns temas, que são parte do meu repertório, pois todo escritor, todo pintor, tem seus temas recorrentes. No alto dessa escada nos seduzem novidades e nos angustia o excesso de ofertas. Para baixo nos convocam a futilidade, o desalento ou o esquecimento nas drogas. Na dura obrigação de ser "felizes", embora ninguém saiba o que isso significa, nossos enganos nos dirigem com mão firme numa trilha de contradições.


Ilustração Atômica Studio


Apregoa-se a liberdade, mas somos escravos de mil deveres. Oferecem-nos múltiplos bens, mas queremos mais. Em toda esquina novas atrações, e continuamos insatisfeitos. Desejamos permanência, e nos empenhamos em destruir. Nós nos consideramos modernos, mas sufocamos debaixo dos preconceitos, pois esta nossa sociedade, que se diz libertária, é um corredor com janelinhas de cela onde aprisionamos corpo e alma. A gente se imagina moderno, mas veste a camisa de força da ignorância e da alienação, na obrigação do "ter de": ter de ser bonito, rico, famoso, animadíssimo, ter de aparecer – que canseira.


Como ficcionista, meu trabalho é inventar histórias; como colunista, é observar a realidade, ver o que fazemos e como somos. A maior parte de nós nasce e morre sem pensar em nenhuma das questões de que falei acima, ou sem jamais ouvir falar nelas. Questionar dá trabalho, é sem graça, e não adianta nada, pensamos. Tudo parece se resumir em nascer, trabalhar, arcar com dívidas financeiras e emocionais, lutar para se enquadrar em modelos absurdos que nos são impostos. Às vezes, pode-se produzir algo de positivo, como uma lavoura, uma família, uma refeição, um negócio honesto, uma cura, um bem para a comunidade, um gesto amigo.


Mas cadê tempo e disposição, se o tumulto bate à nossa porta, os desastres se acumulam – a crise e as crises, pouca trégua e nenhuma misericórdia. Angústias da nossa contraditória cultura: nunca cozinhar foi tão chique, nunca houve tantas delícias, mas comer é proibido, pois engorda ou aumenta o colesterol. Nunca se falou tanto em sexo, mas estamos desinteressados, exaustos demais, com medo de doenças. O jeito seria parar e refletir, reformular algumas coisas, deletar outras – criar novas, também. Mas, nessa corrida, parar para pensar é um luxo, um susto, uma excentricidade, quando devia ser coisa cotidiana como o café e o pão. Para alguns, a maioria talvez, refletir dá melancolia, ficar quieto é como estar doente, é incômodo, é chato: "Parar para pensar? Nem pensar! Se fizer isso eu desmorono". Para que questionar a desordem e os males todos, para que sair da rotina e querer descobrir um sentido para a vida, até mesmo curtir o belo e o bom, que talvez existam? Pois, se for ilusão, a gente perdeu um precioso tempo com essa bobajada, e aí o ônibus passou, o bar fechou, a festa acabou, a mulher fugiu, o marido se matou, o filho... nem falar.


Então vamos ao nosso grande recurso: a bolsinha de medicamentos. A pílula para dormir e a outra para acordar, a pílula contra depressão (que nos tira a libido) e a outra para compensar isso (que nos rouba a naturalidade), e aquela que ninguém sabe para que serve, mas que todo mundo toma. Fingindo não estar nem aí, parecemos modernos e espertos, e queremos o máximo: que para alguns é enganar os outros; para estes, é grana e poder, beleza e prestígio; para aqueles, é delírio e esquecimento.

Para uns poucos, é realizar alguma coisa útil, ser honrado, apreciar a natureza, sentir o calor humano e partilhar afeto. Mas, em geral medicados, padronizados, desesperados, medíocres ou heroicos, amorosos ou perversos, nos achando o máximo ou nos sentindo um lixo, carregamos a mala da culpa e a mochila da ansiedade. Refletindo, veríamos que somos apenas humanos, e que nisso existe alguma grandeza. Mas, convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado.


Lya Luft é escritora


Fonte: Revista Veja - Edição 2119 - 1 de Julho de 2009


sexta-feira, 26 de junho de 2009

O “Chutzpah” e a educação do desejo

por Raymundo de Lima*

“Eu não procuro, acho”

Pablo Picasso

Pablo PicassoHá pessoas que são determinadas, vão à luta, demonstram garra, gana, pique, audácia. Outras demonstram falta de iniciativa, acomodam-se, não se empolgam, parecem não ter vontade própria e até transmitem desânimo ou falta de sentido de vida. Essa segunda não explora os seus talentos, lembrando a parábola bíblica.

Os judeus têm a palavra “chutzpah”, que em iídiche (dialeto alemão falado pelos judeus europeus) para se referir a algo como audácia, gana, garra, se virar, ter iniciativa ou coragem para ir à luta. Tem “chutzpah” o sujeito que não fica esperando que o governo tome iniciativa, ou que os outros façam por sua conta e risco.

Michel Kepp[1] considera três sentidos para chutzpah: positivo, negativo ou ambivalente. Positivo, quando ela exprime algo saudável como a auto-estima e a iniciativa de servir ao bem comum. A iniciativa de alguém para consertar brinquedos e distribuí-los para as crianças carentes, ou prestar serviços voluntários, ou para a preservação da Amazônia e do planeta são chutzpah positiva. Mas, a cara-de-pau de negar tudo do deputado Paulo Maluf, e dos corruptos cínicos, mesmo depois de serem condenados pela justiça é “chutzpah negativa”. Já o sentido ambivalente é quando o ato de coragem tem um traço de arrogância. Em 2004, quando estava apenas atrás de Pelé em número de gols Romário disse: "eu me considero o mais importante jogador desde 1970". Ronaldo reagiu, chamando o rival de pretensioso. Essa atitude de Romário é um exemplo de “chutzpah” ambivalente.

Chutzpah X Abulia X Vitimização

Postura oposta ao chutzpah é a abulia. Wilhel Stekel (1966), que junto com Freud foram pioneiros da psicanálise, descreveu os abúlicos como sendo pessoas sem vontade própria, sem iniciativa, e sem capacidade para tomar decisões.

O desânimo, apatia, o esvaziamento de interesse pela vida ativa são sintomas de depressão que estão presentes em alguns tipos de esquizofrenia. Mas, a abulia não necessariamente indica doença psíquica, mas um jeito de ser e de viver sem iniciativa, sem audácia, sem garra de lutar por algo; falta-lhes “vontade de ferro”, diziam os antigos. Falta-lhes “chutzpah”, dizem hoje os judeus de New York. “Elas experimentam algo assim como se sua vontade tivesse travada”, observa Stekel. Revelam-se incapazes de reunir energia suficiente para se lançarem numa ação ousada se arriscando ganhar ou perder. No fundo, falta-lhes coragem necessária para “dar a sua cara pra bater” se sua iniciativa fracassar; falta-lhes coragem para assumir responsabilidades e correr risco de executar um ato que pode mudar as coisas.

Há pessoas que depois de muita cobrança suspendem artificialmente sua modorra, por exemplo, para fazer um curso, que poderá mudar sua vida. Conheço alunos matriculados para “fazer o curso por fazer”, mas que não se esforçam para serem “estudantes”[2]. Tais alunos ocupam a vaga de outro que poderia aproveitar melhor o curso para vir a ser um pesquisador ou um profissional apaixonado pela sua profissão[3], enfim, um verdadeiro estudante. Há pessoas que se dirigem ao serviço de seleção das empresas com pés de chumbo, às vezes chegam demasiado tarde, perdendo assim a oportunidade do emprego. Não raro, elas inventam defeitos naquele que seria seu emprego, dizendo coisas como: o salário é baixo, a empresa fica muito longe, as tarefas seriam aborrecidas, o chefe é um carrasco, etc. É um momento propício para ela evocar o “mecanismo das uvas verdes” da conhecida história infantil, da raposa não conseguindo alcançar as frutas diz: “ora, elas estão verdes”. Também, a desculpa rasteira que coloca toda a culpa de insucesso pessoal no sistema político só faz o abúlico refinar tal racionalização se auto-enganar de vítima infeliz.

Nas escolas e universidades os abúlicos geralmente se fazem de vítimas eternas do seu ofício. Professores repetem compulsivamente queixumes por sua situação de miséria estresse. Como se somente o magistério carregasse a pedra de Sísifo. Algumas vezes, quando respondi que era professor, ouvi um colega dizer: “Ah! Você é meu companheiro de sofrimento”. Um colega,[4] constrangido com tal chiste, pergunta-lhe: “A senhora sofre de quê?”.

É verdade que a geração atual de alunos dá mais trabalho porque vem mal educada de casa, que o nosso sistema de ensino é excessivamente burocrático e não dá continuidade às políticas educacionais; que os conteúdos vivem defasados e as capacitações dos professores geralmente não conseguem responder aos problemas concretos da sala de aula, tudo isso termina causando nesses profissionais, confusão, insegurança, estresse. Há ainda o fato de a sociedade não valorizar o profissional do ensino, mas daí se tornar vítimas eternas, posar-se de coitados, se acomodar, e fazer propaganda negativa porque é professor, é demais. Tal vitimização só aumenta a desvalorização do professorado pela sociedade.

A propósito, um psicoterapeuta se pergunta: essas falsas justificativas fornecem uma proteção real ou de vidro aos abúlicos ou vitimizados? Como um pai, cônjuge ou professor devem se posicionar diante dos queixumes e do marasmo? Que defesa psíquica os alunos devem arrumar diante de professores ressentidos, cujas aulas transparecem baixo astral? Que fazer para educar filhos para irem à luta em vez de filhos acomodados, sem iniciativa, e sem sonhos? É melhor conviver com pessoas dotadas de chutzpah ou de abulia? A cultura tem alguma influência na formação desses estilos de ser-na-vida?

Natureza, cultura e educação

Há culturas[5] que influenciam o desenvolvimento da auto-estima, para o sujeito ir à luta no trabalho, estudos, esportes, na vida. É mais valorizado quem tem "cojones”, como dizem os hispânicos. Outras, porém, não trabalham desde cedo o “chutzpah” nas crianças. Contudo, há aqueles que, por necessidade, muito cedo se obrigam desenvolver um “chutzpah” medido pela sua sobrevivência, muitas vezes abdicando do seu sonho maior.

Dizem que as mães judias instilam em seus filhos a idéia de que nenhum objetivo está fora do seu alcance. Kepp (ibid) observa que os judeus são educados para desenvolverem o “chutzpah”[6]. As mães judias instilam em seus filhos a idéia de que nenhum objetivo está fora de seu alcance. Os anglo-saxônicos também empurram desde cedo a criança para se virar em casa, na rua, na escola; é comum o pai introduzir o filho pequeno nas empresas, para realizar pequenas tarefas. Os japoneses que aqui estabeleceram educaram os filhos com “chutzpah”. O resultado hoje é visível: seus filhos e netos entram nas melhores universidades e se tornam excelentes profissionais e bons cidadãos. E a nossa cultura latino-americana educa nessa linha?

Uma característica das famílias latino-americanas é a superproteção aos filhos. Filhos de classe média, no Brasil, cada vez mais são mimados, e assimilam que não precisam se esforçar para conseguir as coisas. Os pais compram tudo o que eles pedem, rompendo assim com certos valores e limites necessários num projeto de vida próprio. Hoje, o leva-e-traz dos filhos às escolas e as casas dos amigos, na hora que eles exigem, faz com que os pais pareçam seus escravos. Principalmente as mães com seus excessos de agradinhos e vozinha adequada para lidar com bebês, no fundo, desejam eternizar a infância dos filhos. Assim, os pais passam-lhes a falsa idéia de que na vida basta querer e terá. As meninas de classe média e alta são consideradas bonequinhas de luxo, e, como tal, são dispensadas das tarefas domésticas. Que moça hoje tem iniciativa para arrumar a casa, fazer comida, lavar suas peças íntimas? Que menino hoje toma iniciativa de também ajudar nas tarefas domésticas? Que menino hoje se oferece para segurar a lâmpada enquanto o pai conserta algo? Falta ou não “chutzpah” no nosso modo de educar os filhos?

Que fazer com o seu talento?

Pergunto: devemos educar nossos filhos para irem à luta, ou para se acomodarem? Eles devem aprender a se virar sozinhos desde cedo ou ser dependentes dos pais, com medo de sair de uma imaginária bolsa-canguru? E os professores, orientam seu ensino para irem à luta, lutar por seu espaço profissional? Qual é o efeito educativo do professor que age como se fosse “mãezona” dos alunos, fornecendo grandes mamas com leite infinito para eles mamarem a vida toda? Queremos que nossos alunos sejam discípulos ou sujeitos que ousam pensar por si próprios?

Para Stekel “A maioria dos pais não sabem que a educação da vontade, da independência, do domínio de si mesmo, em todos os aspectos é o mais valioso bem pedagógico”. Os professores, idem.

No mundo de hoje, complexo, competitivo, incerto e inseguro, a nova geração precisa de uma educação que propicia o fortalecimento da vontade, que estimula a audácia e a construção de um projeto de vida ativa para conviver com o mudo dos adultos, de preferência voltado para o bem coletivo. Na década de 1960, Hanna Arendt alertava que a educação contemporânea caminha na contramão das exigências de um mundo cada vez mais complexo. Em vez de contribuir para ‘adultecer’, a educação pós-moderna infantiliza a nova geração. No início de 1982, também Neil Postman constata um “desaparecimento da infância” – das brincadeiras tradicionais – e a ascensão de um adulto-infantilizado[7]. Certamente, tais mudanças já estão contribuindo para um novo perfil de sociedade e de cidadão. Por exemplo, comparando as gerações que acompanhamos nos últimos 20 anos na clínica psicanalítica constatamos que “os adolescentes [hoje] sonham pequeno”(Ler artigo de CALLIGARIS, 2007).

Hoje, o mundo dos negócios demanda pessoas empreendedoras, a vida social demanda pessoas comprometidas com o bem comum. As décadas marcadas pela cultura da Revolução (1950 a 1970) também se valorizava o estilo “chutzpah”, ainda que de modo velado e pasteurizado do sentido capitalista. A universidade contemporânea também pressiona professores e alunos para desenvolver pesquisas e publicar. “Publish or perish” (Publicar ou morrer), dizem os norte-americanos. O pesquisador autêntico tem chutzpah; é preciso que haja interesse de aprender-fazendo, ter iniciativa e desejo de mais-aprender no desenvolvimento da pesquisa. O professor universitário com pouco ou nenhum chutzpah não é convidado para certas tarefas marcadas pela competência e prazos definidos.

Em verdade, ninguém é obrigado a ser empreendedor, comprometido com uma causa social ou política, ou pesquisador na ciência, ou viver refazendo o seu currículo Lattes[8]. Tanto no mundo real, competitivo, como no mundo virtual do Lattes, e até mesmo no mundo subjetivo ou narcísico, é mais valorizado o estilo que se aproxima do chutzpah.

No fundo, trata-se de uma “opção desejante” do sujeito, que “é solitária, não se explica, se faz”, observa Forbes (2004, p. 45). A psicanálise propõe, primeiro, que as pessoas se assumam como sujeitos de sua história; segundo, que cada um deve sustentar o seu desejo, isto é, a não ceder no que deseja. Torna-se necessário, portanto, descolar a sua pulsão-desejante primordial da mãe-pai, ousar “atravessar o conforto das soluções coletivas, fantasmáticas” (ibid) e superar o pavor da conseqüência de tomar iniciativa, de ir à luta, se arriscar a ficar pirado, louco de desejo, ou perdido no êxtase (gozo) próprio de sua condição de sujeito. Esse risco sempre existe, por isso, “a psicanálise não poderia preconizar nenhum ‘gozo sem limitações (...), pois é precisamente a limitação ao prazer o que permite ao sujeito aceder ao gozo”(COTTET, 1990, p. 152). Essa “limitação” é a busca de uma ética do desejo. Complementando, essa ética do desejo visa conduzir o chutzpah num estilo próprio do sujeito, numa perspectiva da razoabilidade do Eu (Ego) em relação ao mundo.

Contudo, há limites impostos pela idiossincrasia da personalidade de cada um. Pessoas de vontade débil provavelmente nunca desenvolverão uma vontade de ferro, ainda que estas pertençam a uma cultura que valoriza o “chutzpah”, ou que realizam um bom percurso psicanalítico. Pelo menos, elas podem vir a reconhecer o seu desejo, realizar o pouco de sua vontade e daí fazer do seu mínimo um máximo.

Referências

ARENDT, Hanna. ARENDT, H. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.

CALLIGARIS, Contardo. “Os sonhos dos adolescentes”. Folha de S. Paulo – Cad. Ilustrada, 11 de janeiro de 2007.

KEEP, Michel. "Chutzpah" à brasileira. Folha de S.Paulo – Cad. Equilíbrio, 09/03/06.

POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Ghafia, 1999.

STEKEL, Wilhelm.Vontade de viver. São Paulo: Mestre Jou, 1966.

MARQUES JR, Nailor. Educação para a felicidade. Maringá: Liceu, 2001.

FORBES, Jorge. Você quer o que deseja? São Paulo: Best Seller, 2004.

COTTER, Serge. Freud e o desejo do psicanalista. Rio de Janeiro: 1990.


* Psicólogo e professor do Depto. Fundamentos da Educação, da UEM.

[1] Colunista da Folha de S.Paulo - Equilíbrio, 09/03/06.

[2] Para Stekel (1966:38), estudante é aquele que “estuda por estudar, não [necessariamente] para aprender. O mais importante [para o estudante] não é o assunto ‘a estudar’, mas sim o estudo em si mesmo”.

[3] A desistência precoce e a demora de se formar, fez com que a USP, em 2006, iniciasse uma discussão sobre os novos critérios para "zelar pela justa ocupação" das vagas.

[4] Marques Jr., 2001, p. 29.

[5] Uma dúvida: Geralmente são os homens que tomam a iniciativa de abordar a mulher para o ato sexual. Esse chutzpah é biológico, instintivo, ou é decorrente da influência da cultura?

[6] Educada segundo alguns princípios judaicos, Hannah Arendt (1972), escreve que a “A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para expulsá-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”.

[7] “O adulto-criança pode ser definido como um adulto cujas potencialidades intelectuais e emocionais não se realizaram e, sobretudo, não são significativamente diferentes daquelas associadas às crianças” (POSTMAM, N. “O adulto criança” (cap.7), 1999, p. 113).

[8] Ler “A corrida pelo Lattes”, de Antonio Ozaí. Disponível em:www.espacoacademico.com.br/046/46pol.htm.


Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/083/83lima.htm

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O melhor presente: ler com os filhos, por Mara Y Debus*

“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora, mas, sim, morar, como morei no Robinson (Crusoé).”

O comentário é de Monteiro Lobato em carta escrita a um amigo. E, de fato, ele criou um lugar especial chamado Sítio do Picapau Amarelo, onde encontramos uma boneca de pano travessa e tagarela chamada Emília, um sabugo erudito que é visconde, uma bruxa que é cuca, uma menina amável, um menino destemido e uma avó sabichona contadora de histórias com vocabulário acessível ao universo infantil. Nesse lugar mágico, atemporal, muitas crianças já “moraram” e muitas outras irão “morar” um dia!

Lembrar Monteiro Lobato é oportuno no momento em que Zero Hora lança no seu caderno Meu Filho a série “Frannie aprende uma lição”, criada pela Associação Mundial de Jornais. Visando aproximar pais e filhos e incentivar a leitura, a série trará capítulos semanais acompanhados de um guia de atividades didáticas – entre elas atividades que utilizam o jornal como objeto de pesquisa e que por si só estimulam o hábito da leitura – e outras que proporcionam a discussão sobre valores.

Todas as crianças ficam encantadas ao ouvir uma boa história! Seja contada pelos pais ou pela professora (que deve gostar de ler, já que quem não gosta de ler dificilmente ensina alguém a gostar de ler). E bons livros, boa literatura, devem estar ao alcance das mãos, não apenas em estantes ou em uma grande e bela biblioteca.

O ato da leitura é por si só um grande estímulo à criatividade, imaginação, inteligência e a capacidade verbal e de concentração. Assim, os livros devem estar presentes no dia a dia das crianças, do mesmo modo que os brinquedos e os jogos, pois permitem um mergulho no universo de aventuras, histórias e riquíssimas informações. A leitura é, sem dúvida, uma grande janela para a formação em todos os sentidos.

O ambiente de familiaridade que se desenvolve nas crianças quando compartilham histórias com adultos que se preocupam com elas é o melhor presente que os pais e as pessoas envolvidas em seu processo educativo podem oferecer, já que os questionamentos e as trocas proporcionados por esses cúmplices momentos permitem a descoberta dos prazeres da leitura. O momento da leitura em voz alta conduz as crianças a um mundo à parte, delicioso, gostoso e excelente e se constitui em uma aventura compartilhada do saber, conhecer e descobrir.

A escritora Ana Maria Machado destaca que “(...) ninguém resiste à tentação de saber o que se esconde dentro de algo fechado – seja a sabedoria do bem e do mal no fruto proibido, seja na caixa de Pandora, seja no quarto do Barba Azul. Mas, para isso, é preciso saber que existe algo lá dentro. Se ninguém jamais comenta sobre as maravilhas encerradas, a possível abertura deixa de ser uma porta ou uma tampa e o possível tesouro fica sendo apenas um bloco compacto ou uma barreira intransponível”.

Cabe aos educadores e pais o convite às nossas crianças para abrir a primeira página e entrar nesse mundo fantástico repleto de encantamentos!

*Administradora educacional

Fonte: Jornal Zero Hora - Nº 16011 - 25 de junho de 2009.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O que é democracia na escola?

Escolas que se autoproclamam democráticas revalorizam a ideia de liberdade do educando e acirram um debate antigo sobre o lugar do professor na educação.

Valéria Hartt

Estudante na escola Summerhill em 1969 (Foto: Hulton Archive / Getty Images)


Em 1959, o escocês Alexander Sutherland Neil lançava pela Hart Publishing a primeira edição de Summerhill (Summerhill: a radical approach to child rearing) e surpreendia o mundo ao descrever a experiência de uma escola inglesa, fundada por ele ainda nos anos 20, como a própria antítese da pedagogia tradicional. Em seu lugar, propunha uma escola voltada à construção da felicidade, em que as crianças não fossem obrigadas a frequentar as aulas e a prática da democracia participativa se constituísse num direito assegurado: professores, alunos e funcionários deveriam ter a mesma voz na tomada de decisões.

Quase um século depois, Summerhill resiste ao tempo e é possivelmente o exemplo mais categórico de uma proposta educacional partilhada hoje por centenas de escolas espalhadas pelo mundo. Elas se autoproclamam democráticas e, em comum, defendem a participação de todos na gestão escolar, além de conferir ao aluno autonomia para gerir seu próprio currículo. A ideia é polêmica e ainda hoje suscita debates calorosos.

"A partir dessa proposta, a escola passou a se mobilizar em torno de questões que transcendem o compromisso com o aprender. Os desafios se avolumaram e, hoje, parece que a escola tem pouco tempo para ser apenas escola", diz Lisandre Maria Castello Branco, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae.


Inspiração


Summerhill se mantém fiel às ideias de seu fundador, que há 87 anos pregava contra a pedagogia tradicional. Na escola britânica, nenhum adulto impõe sua autoridade à criança. Hoje administrada pela filha de Neil, Zoë Readhead, a escola tem 73 alunos matriculados e, sem falsa modéstia, se compara a um farol a iluminar a pedagogia centrada no estudante. Sob sua inspiração, muitas propostas se desenharam, com diferentes contornos.

"O diálogo que tipifica a educação democrática vem do espírito de Martin Buber, da antropologia filosófica; do romantismo de Rousseau e dos ensinamentos de John Dewey, combinando modelos inspirados em Carl Rogers; na Comunidade Justa defendida por Lawrence Kohlberg e na escola Summerhill, de Alexander Neil", sintetiza o israelense Yaacov Hecht, fundador e diretor do Instituto para Educação Democrática (The Institute for Democratic Education- IDE), com sede em Tel-Aviv.

É nesse caldeirão de novas propostas pedagógicas que se inscrevem também as práticas da Escola da Ponte, a bola da vez entre as boas referências mundiais da educação. Prova de que a designação de "democrática" não passa de um rótulo a abrigar conotações teóricas e práticas bem distintas. Há muitas faces entre as proclamadas e apontadas como tal, que não se opõem tão radicalmente à pedagogia tradicional.

Mas o que importa saber é uma questão central: ao mudar o eixo - do ensinar para o aprender, da centralidade no professor à centralidade no aluno - teria a escola desvendado as melhores práticas pedagógicas? Estaria o acesso ao conhecimento realmente mais democrático?

A infiltração de novas ideias no cotidiano escolar é o ponto de partida para um processo considerado por muitos como o esvaziamento do ato educativo, compreendido aqui como a transmissão do legado cultural acumulado pela humanidade.


Pedagogia crítica


Dermeval Saviani, da Universidade de Campinas, é um crítico conhecido da pedagogia nova e de suas herdeiras nos meios educacionais, entre elas as que se identificam como democráticas. É também voz ativa da pedagogia crítica, corrente que ajudou a fundar. Ele lembra que a cartilha do escolanovismo difundiu-se rapidamente, despertando natural simpatia ao assumir uma roupagem progressista e emancipadora, em oposição à pedagogia burguesa, de inspiração liberal. Não por acaso, encontrou terreno fértil nos ares da redemocratização dos anos 80, quando o discurso da centralidade no educando ganhou nova tônica. "(...) O ideário escolanovista, tendo sido amplamente difundido, penetrou na cabeça dos educadores, acabando por gerar consequências também nas amplas redes escolares oficiais organizadas na forma tradicional", escreveu Saviani em Escola e Democracia, livro que em 2008 atingiu sua 40ª edição, 25 anos depois de seu lançamento, em 1983. E conclui:

"(...) tais consequências foram mais negativas que positivas uma vez que, provocando o afrouxamento da disciplina e a despreocupação com a transmissão de conhecimentos, acabou a absorção do escolanovismo pelos professores por rebaixar o nível de ensino destinado às camadas populares, as quais muito frequentemente têm na escola o único meio de acesso ao conhecimento elaborado".

Polêmica, a crítica formulada por Saviani ainda hoje divide os meios educacionais. Há quem julgue difícil afirmar, mesmo com os dados de pesquisa existentes, em que grau e em que extensão o "escolanovismo" (e suas várias derivações) penetrou ou penetra na cabeça e nas práticas dos professores que atuam na linha de frente do sistema escolar brasileiro. A visão chega a parecer reducionista. Para explicar o fracasso da escola pública e as raízes do aligeiramento e rebaixamento do nível de ensino, melhor parece apoiar-se em análises mais globalizantes. Significa, por exemplo, considerar os objetivos postulados para a escola, o financiamento público da educação, o sistema de formação, a remuneração e as condições de trabalho dos professores.


"Ou adotamos uma posição nostálgica, de recuperar a autoridade perdida, ou reconstruímos a escola em bases democráticas", defende Eli Ghanem, da Feusp
Conflito geracional


Por outro lado, há quem identifique razões de caráter cultural que não estão dissociadas da vida escolar. Muito ao contrário, ajudam a explicar muitas das dinâmicas no interior da escola. Uma delas aponta para o padrão de relações entre adultos e gerações mais novas, que se modificou de forma acentuada pelo menos nas últimas cinco décadas. Chegou a se decompor, o que, seguramente, tem reflexos imediatos nas práticas didático-pedagógicas.

"Hoje, temos uma prática educacional que parece não satisfazer nem ao magistério nem às famílias nem à sociedade civil como um todo. Menos ainda é algo que parece entusiasmar as novas gerações. Isso não é efeito de um movimento democratizante", contesta Eli Ghanem, professor de filosofia da educação da Universidade de São Paulo, autor de Educação escolar e democracia no Brasil (Autêntica, 2004). "O que temos é uma tradição autoritária e um processo de mutação social de caráter muito amplo.O magistério até hoje se debate entre adaptar-se a essas mudanças ou manter-se dentro de uma tradição autoritária. Agora, ou adotamos uma posição nostálgica, de recuperar a autoridade perdida, ou reconstruímos a escola em bases democráticas. Se não for assim, dificilmente iremos encontrar caminhos", propõe.

Teoria e prática


Não se trata de saudosismo, nem de reabilitar o que parecia funcionar no passado. Trata-se, antes, de compreender a diversidade de conceitos e suas aplicações, a começar pela visão de democracia. Existem ainda divergências inconciliáveis em torno de seu significado e, consequentemente, da noção de "ensino democrático".

Há muito a proposta de democratizar o ensino pela instituição de práticas educativas fundadas na liberdade do educando se apresenta como sedutora para os educadores. Mas não se democratiza o ensino reservando-o a uns poucos sob pretextos pedagógicos. "A democratização da educação é irrealizável intramuros, na cidadela pedagógica; é um processo exterior à escola, que toma a educação como uma variável social e não como simples variável pedagógica", registrou o educador José Mário Pires Azanha, em debate realizado ainda no final dos anos 70 sobre a democratização do ensino (Democratização do Ensino: vicissitudes da idéia no ensino paulista, julho de 1978)

Não podemos chamar de democrática uma escola que não seja pública e, como tal, de livre acesso. Sob essa ótica, a democratização de ensino equivale à expansão de oportunidades para todos. Esse é um ponto de partida, ainda que se tenha a clareza de que tal pressuposto não encontra amparo em outras conceituações.

Modernamente, não são poucos os que taxam de democráticas as propostas educacionais pautadas pelos ideais de liberdade e gestão participativa. Entendem que o caráter democrático é dado principalmente pela participação dos estudantes nas decisões a respeito da própria educação que se processa na escola. Alguns entendem mesmo que tanto mais democrática será a escola ou a prática educacional quanto maior for a participação desses estudantes nas decisões relativas à própria educação. É uma perspectiva que parece predominar entre os defensores do modelo. São escolas até há pouco tempo designadas de libertárias, progressistas, românticas e alternativas, que agora se articulam em torno da "nova" designação.

"Escola democrática é quase um slogan. Com o ruir do muro de Berlim, a democracia passou a ser um valor de referência para todas as instituições. Virou o tal modismo, a tal frase de efeito, desprovida de significado", critica Lisandre. "Afinal, o que é mesmo democracia? E o que é democracia na escola?", questiona a educadora.


Anísio Teixeira (de óculos), ao lado do escritor Monteiro Lobato, em foto feita nos Estados Unidos ,nos anos 20: influência das ideias de John Dewey ajudou a estruturar a Escola Nova
A crise na educação


É nítido o reconhecimento de que a escola vai mal, a educação precarizou-se e o magistério há tempos carece de revalorização. Ao afastar-se de seu objetivo central - a transmissão do conhecimento - parece mesmo que a escola perdeu o foco.

Na intenção de melhor compreender o cenário, vale recorrer ao pensamento da filósofa Hannah Arendt, que, a partir da experiência americana do pós-guerra, refletiu sobre a crise na educação e a situou em uma crise maior, a crise da modernidade, marcada pela falência dos até então vigentes valores da autoridade e da tradição. Na nova conjuntura, a educação se daria pela eliminação do legado simbólico contido no ato educativo, imersa na convicção de que educar para o novo significa sepultar os métodos tradicionais. Nas palavras de Arendt, "o fio da tradição está rompido".

É através dessa perspectiva que se procura compreender outra crítica contundente: a psicologização da educação, fenômeno também referenciado na teoria arendtiana. Em um mundo que não está mais estruturado pela autoridade, nem mantido pela tradição, as raízes da falência educacional têm outras três vertentes. A primeira delas é descrita como o reconhecimento "de que existe um mundo da criança e uma sociedade formada entre crianças, autônomas, e que se deve, na medida do possível, permitir que elas governem". O segundo pressuposto identifica que "sob a influência da psicologia moderna e dos princípios do pragmatismo, a pedagogia transformou-se numa ciência do ensino em geral, a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efetiva a ser ensinada". E para fechar o tripé, Arendt nos apresenta a ideia da prática como valor máximo, expressando a visão de que "só é possível conhecermos e compreendermos aquilo que nós mesmos fizemos". Não basta mais o saber constituído, mas a prática, agora reverenciada.


Fracasso escolar


Os alunos com baixo rendimento escolar passaram a receber rótulos bem mais pomposos. Seriam acometidos de distúrbios psicopedagógicos ou déficits cognitivos, quem sabe até de um transtorno psicomotor ou vitimados por outra anomalia qualquer, que, por certo, ainda há de ser diagnosticada.

É ao incorporar esse repertório e um olhar pretensamente científico que a escola mostra outra herança do escolanovismo e sua crença nos saberes da psicologia do desenvolvimento e nas teorias interacionistas. O problema é que aquilo que se propunha como alternativa de superação é hoje em grande parte responsável pelo fracasso escolar, fazendo crescer as críticas à "psicologização" da educação, seja na prática docente, seja na fundamentação pedagógica. Àqueles que não alcançam os objetivos esperados, resta o rótulo de inadaptados, desajustados, portadores de transtornos de toda ordem.

"(...) a tese psicopedagógica da "adequação" não só faz, hoje, às vezes de passaporte educativo dos povos e/ou guardiã da "felicidade", da "criatividade" e da "inocência infantil", senão que também é considerada um instrumento de "humanização" e "democratização" das práticas educativas por oposição a um passado marcado pelo "autoritarismo" e o "sadismo pedagógico", registra Leandro de Lajonquière, da Faculdade de Educação da USP. "Nesse ponto, a atual e hegemônica psicologização do cotidiano escolar é, parcialmente, tributária do espírito da Escola Nova", sustenta.

Se na escola tradicional a disciplina e a autoridade eram instrumentos de conduta pedagógica, que caminhos percorrer hoje diante das dificuldades de aprendizagem e do insucesso escolar? É possível o trabalho com o aluno em dificuldades longe do estigma do fracasso e das condutas que reforçam a psicologização no interior da escola? Que propostas e alternativas nos oferecem as chamadas escolas democráticas?


O dilema pedagógico


Resgatar as origens e motivações das escolas democráticas implica compreender o cenário de mudanças que começa a se desenhar no campo da educação ainda no século 19. Desponta um sentimento de desilusão com a pedagogia tradicional, erigida a partir dos sistemas nacionais de ensino, criados sob inspiração do ideário iluminista e os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa. Para transformar servos em cidadãos livres, a escola postulava o domínio de saberes legitimados pela ciência, em que a figura do professor é a autoridade máxima, que detém e transmite esses saberes. "Nessa perspectiva, os sistemas nacionais de instrução foram concebidos como imensas máquinas de transmissão do saber constituído", observa Ghanem.

As reações se multiplicam e, em meio às críticas à chamada escola tradicional, diferentes teorias sobre a prática pedagógica começam a aparecer, em várias partes do mundo. São experiências como as do suíço Johann Pestalozzi, o jardim da infância (kindergarten) de Frederich Froebel, o trabalho de Célestin Freinet e a Escola do Pragmatismo de John Dewey, entre tantas outras. A educação liberal burguesa, construtora da nacionalidade e da cidadania, está em xeque.

Aprender X Ensinar
As críticas à pedagogia tradicional terminam por impulsionar um amplo movimento reformista. No Brasil, sob a expressão do "escolanovismo" , assume sua representação máxima.

"Ensinamos crianças, não matérias", difundia o da Escola Nova, para quem a pedagogia tradicional, "verbalista e enciclopédica", reduzia o processo educativo exclusivamente à dimensão do saber. Se até então o professor era a figura central, com a responsabilidade de iluminar o caminho de seus discípulos e transformar súditos em cidadãos, agora se reivindica uma escola capaz de extrapolar a mera transmissão de conteúdos para valorizar os processos de aprendizagem.

Desloca-se o eixo - do ensinar para o aprender. E ao deslocar o eixo de uma pedagogia centrada na ciência da lógica para uma pedagogia de inspiração filosófica, com contribuições crescentes da biologia e da psicologia, a educação começa a viver mudanças profundas.

Muda o papel do professor, mudam as relações de poder no interior da escola. "Os saberes, que eram dispostos segundo uma ordem lógica, passam a subordinar-se ao que se entendia por uma ordem psicológica, com uma conexão muito mais intencional entre a prática educacional e a idéia de interesse", descreve Ghanem. A aprendizagem não é mais vista como um processo atrelado ao treino, à retenção e memorização.

Na nova concepção, também não há lugar para a autoridade absoluta do professor, nem ele é mais o detentor do conhecimento. Ao invés da relação vertical professor-aluno, a pedagogia nova sai em defesa da assimetria nas relações em sala de aula. A própria geografia da escola está em debate.

"A feição da escola mudaria seu aspecto sombrio, disciplinado, silencioso e de paredes opacas, assumindo um ar alegre, movimentado, barulhento e multicolorido", descreve Dermeval Saviani no livro Escola e democracia, um marco na crítica pedagógica ao escolanovismo.


Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12702

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O professor morde a realidade (paulo Ghiraldelli Jr. )

(Fonte da imagem: www.morcego.blogger.com.br )



O professor é um maníaco ou não é nada. O professor é um alienador ou não serve. Essas duas normas precisam ser observadas, caso contrário, não temos educação.
O professor é um maníaco, pois entra ministro da educação e sai ministro, entra secretário e sai secretário, entra governo e sai governo e nada melhora a condição de trabalho e salário do professor, mas ele continua lá, firme, com mania de ensinar.
O professor é um alienador, pois ele precisa alienar as crianças e jovens de uma situação de “monólogo” para vinculá-los a uma situação de diálogo; deve fazer os estudantes atravessar a ponte do saber que possuem para entrar no ambiente dos saberes que a cultura universal
abriga. E isso, a despeito das “pedagogias descabeladas” que algum novo burocrata da educação quer lhe enfiar goela abaixo.
Essa postura de maníaco e de alienador é que garante ao bom professor que ele resista à campanha de difamação que criam contra ele, exatamente quando divulgam pesquisas dizendo que ele é mal formado, sem divulgar junto disso sua história: quanto é seu salário, em que condições ele se formou e como que ele consegue trabalhar na escola pública abandonada pelo Estado. Aliás, o Estado só aparece para jogar trabalho burocrático sobre ele, e fingir que lhe dá bônus, quando apenas cria mecanismos de falsa premiação que, na verdade, são mecanismos de punição por faltas não cometidas.
Politicamente o professor enfrenta um governo federal que transformou o piso salarial em teto, em algumas regiões, e em outras apenas colocou um piso para municípios sem recursos. Cultural e ideologicamente o professor enfrenta a Revista Veja, que visa destruir seus heróis, como tem tentado fazer – felizmente sem êxito – com Paulo Freire, ou simplesmente colocar uma campanha para abaixar seu salário, dizendo que salário não melhora a condição intelectual do professor.
Na parte técnica, tem de enfrentar tipos como Gilberto Dimenstein, que parecem bem intencionados, mas que “não sabem das coisas”. Por esses dias o jornalista divulgou uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (encomendada pelo Grupo Positivo?) dizendo que os professores não sabem ensinar matemática, e que isso era devido à falta de “metodologia” nos cursos de pedagogia. Ora, nós todos sabemos que o problema do ensino de matemática e ciências não é este, mas é, sim, um velho drama: a cultura brasileira não valoriza entre as crianças esse tipo de saber, e joga para o magistério – por uma série de fatores – os que menos gostam dessas disciplinas, ou melhor, os que menos gostam da cultura em geral.
Novamente, a questão salarial é o peso central, que faz com que o magistério tenha gente menos apta. Melhorando salários, melhoramos o nosso exército de professores. É assim em todo e qualquer país. Pedagogia é algo que só vinga se os professores ganham bem e são bem formados. Fora disso, a pedagogia tem muito pouco a fazer. Aliás, quanto a isso, nem mesmo a “pedagogia de Paulo Freire” pode lutar. Quando Freire pensou em uma pedagogia eficaz mesmo em condições de pobreza, ele a imaginou motivada por uma situação política de renovação ou revolução, mas não no contexto do marasmo político.
Nessa luta cotidiana, o professor que está na sala de aula enfrenta a violência. Há dados que mostram que 80% dos professores do Estado de São Paulo já foram agredidos ao menos uma vez em sala de aula – agredidos fisicamente! Por alunos!
Mas, a despeito disso tudo, o professor continua seu trabalho, pois é maníaco. Ele aliena, pois quer fazer a educação se efetivar segundo a etimologia da palavra, que tem a ver com “puxar pelos cabelos”, arrancando o aluno de uma situação para elevá-lo para outra, em uma acepção, e também tem a ver com “promover o que há no interior do aluno”, em outra acepção – pois a palavra educação vem de educare e educere.
Neste dia do professor, em 2008, eu aponto para cada herói da sala de aula no Brasil e digo: vocês devem continuar, pois o ministro e a mídia passam, e vocês sempre ficarão. Vocês mordem a realidade, os outros, seus detratores, mordem a si mesmos.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofoCEFA, Centro de Estudos em Filosofia Americanahttp://www.filosofia.pro.br/

Fonte: http://fundamentosfilosoficosdaeducacao.blogspot.com/

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin