segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Café da manhã no McDonald's (autoria desconhecida)


Esta é uma bela história e é também uma história real, por favor, leia-a até o fim! (Após o final da história, alguns fatos bastante interessantes!)

Sou mãe de três crianças (14, 12 e 3 anos) e recentemente terminei a minha faculdade.

A última aula que assisti foi de sociologia...

O professor dava as aulas de uma maneira inspiradora, de uma maneira que eu gostaria que todos os seres humanos também pudessem ser.

O último projeto do curso era simplesmente chamado "Sorrir"...

A classe foi orientada a sair e sorrir para três estranhos e documentar suas reações...

Sou uma pessoa bastante amigável e normalmente sorrio para todos e digo oi de qualquer forma. Então, achei que isto seria muito tranquilo para mim...

Após o trabalho ser passado para nós, fui com meu marido e o mais novo de meus filhos numa manhã fria de Março ao McDonald's.

Foi apenas uma maneira de passarmos um tempo agradável com o nosso filho...

Estávamos esperando na fila para sermos atendidos, quando de repente todos a nosso redor começaram a ir para trás, e então o meu marido também fez o mesmo...

Não me movi um centímetro.... Um sentimento arrebatador de pânico tomou conta de mim, e me virei para ver a razão pela qual todos se afastaram...

Quando me virei, senti um cheiro muito forte de uma pessoa que não toma banho há muitos dias, e lá estava na fila dois pobres sem-teto.

Quando eu olhei ao pobre coitado, próximo a mim, ele estava "sorrindo"...

Seus olhos azuis estavam cheios da Luz de Deus, pois ele estava buscando apenas aceitação...

Ele disse, Bom dia!, enquanto contava as poucas moedas que ele tinha amealhado...

O segundo homem tremia suas mãos, e ficou atrás de seu amigo... Eu percebi que o segundo homem tinha problemas mentais e o senhor de olhos azuis era sua salvação....

Eu segurei minhas lágrimas, enquanto estava lá, parada, olhando para os dois...

A jovem mulher no balcão perguntou-os o que eles queriam...

Ele disse, "Café já está bom, por favor....", pois era tudo o que eles podiam comprar com as poucas moedas que possuiam... (Se eles quisessem apenas se sentar no restaurante para se esquentar naquela fria manhã de março, deveriam comprar algo. Ele apenas queria se esquentar)...

Então eu realmente sucumbi àquele momento, quase abraçando o pequeno senhor de olhos azuis...

Foi aí que notei que todos os olhos no restaurante estavam sobre mim, julgando cada pequena ação minha...

Eu sorri e pedi à moça no balcão que me desse mais duas refeições de café da manhã em uma bandeja separada...

Então, olhei em volta e vi a mesa em que os dois homens se sentaram para descansar... Coloquei a bandeja na mesa e coloquei minha mão sobre a mão do senhor de olhos azuis...

Ele olhou para mim, com lágrimas nos olhos e me disse, "Obrigado!!"

Eu me inclinei, acariciei sua mão e disse "Não fui eu quem fiz isto por você, Deus está aqui trabalhando através de mim para dar a você esperança!!"

Comecei a chorar enquanto me afastava deles para sentar com meu marido e meu filho... Quando eu me sentei, meu marido sorriu para mim e me disse, "Esta é a razão pela qual Deus me deu você, querida, para que eu pudesse ter esperança!!"...

Seguramos nossas mãos por um momento, e sabíamos que pudemos dar aos outros hoje algo pois Deus nos tem dado muito....

Nós não vamos muito à Igreja, porém acreditamos em Deus...

Aquele dia, me foi mostrada a Luz do Doce Amor de Deus...

Retornei à aula na faculdade, na última noite de aula, com esta história em minhas mãos.

Eu entreguei "meu projeto" ao professor e ele o leu...

E então, ele me perguntou: "Posso dividir isto com a classe?"

Eu consenti enquanto ele chamava a atenção da classe para o assunto...

Ele começou a ler o projeto para a classe e aí percebi que como seres humanos e como partes de Deus nós dividimos esta necessidade de curarmos pessoas e de sermos curados...

Do meu jeito, eu consegui tocar algumas pessoas no McDonald's, meu filho e o professor, e cada alma que dividia a classe comigo na última noite que passei como estudante universitária...

Eu me graduei com uma das maiores lições que certamente aprenderei:

ACEITAÇÃO INCONDICIONAL.
AMAR AS PESSOAS E USAR AS COISAS
E NÃO AMAR AS COISAS E USAR AS PESSOAS...

**Mensagem que recebi da minha amiga Ana Maria de Minas Gerais.

Pequenas cabeças pensantes



Por PATRÍCIA ROCHA

Em parceria com os filhos Eduardo e Susana, Lya Luft lança obra infantil para incentivar crianças a buscar respostas

Um dia, uma garota chamada Lya entrou no escritório do pai e tascou: – Quem era Sócrates? – Era um filósofo. Então o pai explicou que filósofos são pessoas que se perguntam o porquê das coisas e refletem sobre o mundo. E depois de contar que Sócrates não havia escrito livros, mas seus alunos, sim, passou à menina O Banquete, de Platão. Ela não entendeu muito, mas achou lindo. Cresceu sem deixar de se fazer perguntas, tornou-se escritora, teve três filhos, e um deles, vejam só, virou filósofo. E agora Lya Luft e o doutor em Filosofia Eduardo Luft lançam um livro para incentivar as crianças a buscar respostas para suas questões, pois, como diz o título, Criança Pensa.

Mas não espere nada didático. A terceira incursão de Lya no universo infantil, e primeira de Eduardo, é mais uma aventura. A exemplo de Histórias de Bruxa Boa e A Volta da Bruxa Boa, não é difícil identificar traços de Lya no papel de uma avó original, que instiga a imaginação dos netos – crianças perguntadeiras livre e levemente inspiradas em histórias e questões de três netos de carne e osso, Rodrigo e as gêmeas Fernanda e Fabiana, todos com seis anos. E completando o trabalho a seis mãos, a pediatra e primogênita da escritora, Susana Luft, assina as ilustrações dessa produção em família que em tom divertido leva a sério a capacidade das crianças de filosofar e surpreender.

– Criança pensa e pensa lindamente. Sou fascinada pela visão singular que elas têm entre o real e o mágico – diz Lya.

– As crianças têm um olhar de maravilhamento diante do mundo, que lembra o senso de admiração da filosofia. Aristóteles e Platão diziam que a filosofia começa com a admiração do mundo que, para o filósofo, tem a ver com a dúvida – completa Eduardo, que é professor universitário e autor de livros de filosofia.

É esse olhar maravilhado que conduz o livro. Os primos Diogo, Isa e Dora viajam com a avó para o sítio de um tio, e lá espera por eles uma ilha cheia de segredos e um livro dos pensamentos. É o início da jornada que inclui o gigante Dandão (que, diz o nome, não usa muito a cabeça), uma árvore falante e muitas perguntas: “Por que as folhas caem?” ou “Se eu faço uma coisa errada e ninguém vê, ela ainda é errada?”.

A história foi tomando forma na troca de e-mails entre Lya e Eduardo, e assim um dragão entrou e saiu de cena, o lago tranquilo virou mar revolto, e perguntas levaram a outras perguntas e mais aventuras. E a grandes achados. O título foi uma resposta de Lya à frase que costumava ouvir na infância, ainda que de brincadeira, “Criança não pensa”, e provocou o comentário que virou epígrafe do livro. Quando Eduardo disse ao filho caçula, Rodrigo, que o livro se chamaria Criança Pensa, o guri retrucou:

– Claro, pai, minha cabeça é pequena, mas está cheia de ideias.

Duas gerações de filosofias

Quando o filho mais velho, Marco, 21 anos, era pequeno, o filósofo Eduardo Luft começou a colecionar as perguntas e comentários surpreendentes que ele fazia. Hoje, a lista aumenta com as frases do caçula, Rodrigo, seis anos – duas delas fazem parte da narrativa de Criança Pensa. A coleção e tantas outras questões reunidas ou imaginadas poderão fazer parte do próximo livro que Eduardo e a mãe, Lya Luft, planejam escrever, reunindo perguntas e respostas possíveis.

Questões do Rodrigo Luft:
> Quando o inverno vem, o verão vai para a sua estação. É como os trens.
> Se no início o universo era uma bola bem pequenininha, o que tinha ao redor?
> O espaço tem chão? Pergunta de Lya Luft, quando era pequena:
> Por que de algumas pessoas a gente gosta e de outras não?



Fonte: Jornal Zero Hora

domingo, 30 de agosto de 2009

Adolescência: etapa ou estado?*


Neste texto, Rolando Martiñá reflete sobre a adolescência, distinguindo-a como etapa e como estado. Faz referência à sociedade “adolescentizada”, na qual muitos adultos comportam-se como eternos aprendizes da vida, e reclama a necessidade de reverter essa situação para que os jovens possam contar com a orientação de adultos consistentes, que lhes dêem outros exemplos, outros limites e outras regras diferentes das de seus pares


Por Rolando Martiñá**
Tradução: Adriana Vieira

Se é certo que não se tem 15 anos mais que uma vez na vida, também é certo que as questões que se colocam nessa idade podem reaparecer em outras. Por exemplo, situações de crise que nos fazem regredir a esquemas prévios de comportamento ou o fato de que nem sempre fazer aniversário é o mesmo que amadurecer.

Participe do debate


Opine sobre o tema "Adolescência" no Blog da Comunidade Entre Pais. Compartilhe sua opinião respondendo a essas duas perguntas:

Os adolescentes hoje se rebelam contra o quê?

E nós, pais e educadores, nos rebelamos contra o quê?

Vote também na enquete:

O que mais o preocupa em relação à chegada do seu filho à adolescência?

Queremos dizer que é possível distinguir entre a adolescência como etapa evolutiva e a adolescência como estado. Ou seja, como estado de ânimo. Como forma de nos relacionarmos com os demais, de perceber a realidade, de tomar decisões sobre ela.

Desta perspectiva, poderíamos dizer que as sociedades modernas atuais se “adolescentizaram” em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque é bastante notório que muita gente, de qualquer idade, pretende parecer adolescente e age como tal, não só ao imitar modas e costumes, mas também ao pretender se comportar como um eterno aprendiz da vida, quando já se está na idade, pelo menos, de dar algumas lições.

Oscilações extremas de estado de ânimo, desinteresse pelas consequências de seus atos, falta de perspectiva a longo prazo, emoção à flor da pele, busca de sensações imediatas são alguns dos traços comuns do aprendiz, que costumam causar, em quem já não deveria mais tê-los, um ar desconcertante e algo patético. Sobretudo, aos olhos dos autênticos aprendizes.

Em segundo lugar, porque o período da adolescência se expandiu muito se comparado com o século passado, sem ir muito longe. Isso se deve a diversas causas, nem todas negativas. Em grande parte, a permanência nessa etapa se deve ao fato de que, ao contrário do que acontecia em outras épocas, já não é tão certo que os filhos se constituam rapidamente em força de trabalho. E, simultaneamente, as possibilidades educativas também se expandiram como nunca na história – obviamente, falando de um modo geral.

O paradoxo, contudo, é que os adolescentes necessitam dos adultos para crescer bem, ainda que entrem em confronto com eles, os depreciem ou os ignorem. Necessitam de adultos consistentes, que não se deixem derrotar facilmente por eles, nem por qualquer imposição massiva da cultura global. Necessitam de outras palavras além das de seus pares, apesar de estas também serem muito necessárias a eles. Outros exemplos, outros limites, outras regras. E muitas vezes não as encontram.

Embora seja bastante difícil determinar quando e como, parece que a busca por melhorar essa situação está se convertendo em um dos desafios socioculturais de nosso tempo, pelo menos para quem, como nós, se ocupa da saúde, da educação e das interações humanas em geral. Alguns já estão nesta busca e esperamos que muitos outros se juntem a ela.



* Texto adaptado de "Adolescencia y salud", ed. Tinta Fresca, 2006, co-autoria de Rolando Martiñá soy co-autor.

* Rolando Martiñá é professor, licenciado em Psicologia Clínica e Educacional. Pós-graduado em Orientação Familiar, convênio Fundação Aigle-Instituto Ackerman de Nova York. Membro do Programa Nacional de Convivência Escolar, do Ministério de Educação da Argentina. Conselheiro familiar e de instituições educativas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Curta premiado no Festival de Berlim

Lindo demais, vale a pena conferir.
Recebi por e-mail da minha querida amiga Ana Maria de Minas.
Obrigada Ana Maria.

video

A escola da família

Aproximar os pais do trabalho pedagógico é um dever dos gestores. Conheça aqui 13 ações para essa parceria dar resultado


Gustavo Heidrich (gestao@atleitor.com.br)

Ilustrações: Sattu

Clique para ampliar
Ilustrações: Sattu

Está na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): as escolas têm a obrigação de se articular com as famílias e os pais têm direito a ter ciência do processo pedagógico, bem como de participar da definição das propostas educacionais. Porém nem sempre esse princípio é considerado quando se forma o vínculo entre diretores, professores e coordenadores pedagógicos e a família dos alunos (assista ao vídeo em que pais dão suas opiniões sobre o relacionamento deles com a escola).


O relacionamento chega a ser ambíguo. Muitos gestores e docentes, embora no discurso reclamem da falta de participação dos pais na vida escolar dos filhos - com alguns até atribuindo a isso o baixo desempenho deles - não se mostram nada confortáveis quando algum membro da comunidade mais crítico cobra qualidade no ensino ou questiona alguma rotina da escola. Alguns diretores percebem essa atitude inclusive como uma intromissão e uma tentativa de comprometer a autoridade deles. Já a maioria dos pais, por sua vez, não participa mesmo. Alguns por não conhecer seus direitos. Outros porque não sabem como. E ainda há os que até tentaram, mas se isolaram, pois nas poucas experiências de aproximação não foram bem acolhidos e se retraíram.

No Brasil, o acesso em larga escala ao ensino se intensificou nos anos 1990, com a inclusão de mais de 90% das crianças em idade escolar no sistema. Para as famílias antes segregadas do direito à Educação, o fato de haver vagas, merenda e uniforme representou uma enorme conquista. "Muitos pais veem a escola como um benefício e não um direito e confundem qualidade com a possibilidade de uso da infraestrutura e dos equipamentos públicos. Isso de nada adianta se a criança não aprender", afirma Maria do Carmo Brant de Carvalho, coordenadora geral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo.


A escola foi criada para servir à sociedade. Por isso, ela tem a obrigação de prestar contas do seu trabalho, explicar o que faz e como conduz a aprendizagem das crianças e criar mecanismos para que a família acompanhe a vida escolar dos filhos. "Os educadores precisam deixar de lado o medo de perder a autoridade e aprender a trabalhar de forma colaborativa", afirma Heloisa Szymanski, do Departamento de Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (assista à entrevista completa com Heloisa em vídeo)


Um estudo realizado pelo Convênio Andrés Bello - acordo internacional que reúne 12 países das Américas - chamado A Eficácia Escolar Ibero-Americana, de 2006, estimou que o "efeito família" é responsável por 70% do sucesso escolar. "O envolvimento dos adultos com a Educação dá às crianças um suporte emocional e afetivo que se reflete no desempenho", afirma Maria Amália de Almeida, do Observatório Sociológico Família-Escola, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


Mas o que significa uma parceria saudável entre essas duas instituições? Os pais devem ajudar no ensino dos conteúdos e os professores no dos bons modos? Claro que não. A colaboração que se espera é de outra ordem. "O papel do pai e da mãe é estimular o comportamento de estudante nos filhos, mostrando interesse pelo que eles aprendem e incentivando a pesquisa e a leitura", diz Antônio Carlos Gomes da Costa, pedagogo mineiro e um dos redatores do ECA (leia sobre o que a família pode fazer para ajudar na Educação dos filhos no quadro abaixo). Para isso, é preciso orientar os pais e subsidiá-los com informações sobre o processo de ensino e de aprendizagem, colocá-los a par dos objetivos da escola e dos projetos desenvolvidos e criar momentos em que essa colaboração possa se efetivar.


Quando o assunto é aprendizagem, o papel de cada um está bem claro - da escola, ensinar, e dos pais, acompanhar e fazer sugestões. Porém, se o tema é comportamento, as ações exigem cumplicidade redobrada. Ao perceber que existem problemas pessoais que se refletem em atitudes que atrapalham o desempenho em sala de aula, os pais devem ser chamados e ouvidos, e as soluções, construídas em conjunto, sem julgamento ou atribuição de culpa. "Um bom começo é ter um diálogo baseado no respeito e na crença de que é possível resolver a questão", acredita Márcia Gallo, diretora da EME Professora Alcina Dantas Feijão, em São Paulo, e autora do livro A Parceria Presente: A Relação Família-Escola numa Escola de Periferia de São Paulo.


Visando ajudar você a dar os passos necessários para cumprir o dever legal e social de ter um relacionamento de qualidade com as famílias, NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR elaborou uma lista com 13 ações, que vão desde o acolhimento no começo do ano letivo até as atividades de integração social. Dê sua opinião sobre o assunto no final desta página, em "comentários". A consultora Márcia Gallo responderá suas dúvidas.


Os deveres da família


Até o século 19, a separação de tarefas entre escola e família era clara: a primeira cuidava daquilo que à época se chamava "instrução", que na prática era a transmissão de conteúdos, e a segunda se dedicava à "Educação", o que significava o ensinamento de valores, hábitos e atitudes. "A Era Moderna deixa nebulosa essa divisão do trabalho educacional. Reconhecida como um valor de ascensão social para as classes surgidas com a urbanização, a Educação passa a ser objeto de atenção das famílias e as expectativas em relação à escola se ampliam", diz Maria Amália de Almeida, da UFMG. Na prática, a escola passou a ser reconhecida como um espaço de aprendizagem dos conteúdos e de valores para a formação da criança. Assim, as fronteiras se tornaram confusas. As responsabilidades da escola já foram detalhadas na reportagem ao lado. Mas, o que se pode esperar das famílias, além de que elas garantam o ingresso e a permanência das crianças em sala de aula? Quando se sentem integradas, elas passam a participar com entusiasmo das reuniões e se tornam parceiras no desafio de melhorar o desempenho dos filhos. Com o intuito de indicar caminhos para a participação mais efetiva das famílias, o projeto Educar para Crescer, iniciativa da Editora Abril e da Universidade Anhembi Morumbi, vai lançar a partir de 26 agosto o Guia da Educação em Família, que será encartado em diversas publicações da editora. Esse material, assim como o folheto Acompanhem a Vida Escolar dos Seus Filhos, do Ministério da Educação, traz orientações simples sobre como os pais podem trabalhar com a escola. Entre as dicas, estão:
- Ler para as crianças ou pedir para que elas leiam para eles.
- Conversar sempre com os filhos sobre assuntos da escola.
- Acompanhar as lições de casa e mostrar interesse pelos conteúdos estudados.
- Verificar se o material escolar está completo e em ordem.
- Zelar pelo cumprimento das regras da escola.
- Participar das reuniões sempre que convocados.
- Conversar com os professores.

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Fonte: Edição 003 | Agosto/Setembro 2009

Ilustrações: Sattu
Clique para ampliar
Ilustrações: Sattu

Está na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): as escolas têm a obrigação de se articular com as famílias e os pais têm direito a ter ciência do processo pedagógico, bem como de participar da definição das propostas educacionais. Porém nem sempre esse princípio é considerado quando se forma o vínculo entre diretores, professores e coordenadores pedagógicos e a família dos alunos (assista ao vídeo em que pais dão suas opiniões sobre o relacionamento deles com a escola).

PARTICIPE DO FÓRUM

Troque ideias com a consultora Márcia Gallo sobre o tema: a relação da família com a escola. Para participar, clique aqui e publique sua mensagem na área de comentários, no final desta página.

O relacionamento chega a ser ambíguo. Muitos gestores e docentes, embora no discurso reclamem da falta de participação dos pais na vida escolar dos filhos - com alguns até atribuindo a isso o baixo desempenho deles - não se mostram nada confortáveis quando algum membro da comunidade mais crítico cobra qualidade no ensino ou questiona alguma rotina da escola. Alguns diretores percebem essa atitude inclusive como uma intromissão e uma tentativa de comprometer a autoridade deles. Já a maioria dos pais, por sua vez, não participa mesmo. Alguns por não conhecer seus direitos. Outros porque não sabem como. E ainda há os que até tentaram, mas se isolaram, pois nas poucas experiências de aproximação não foram bem acolhidos e se retraíram.

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No Brasil, o acesso em larga escala ao ensino se intensificou nos anos 1990, com a inclusão de mais de 90% das crianças em idade escolar no sistema. Para as famílias antes segregadas do direito à Educação, o fato de haver vagas, merenda e uniforme representou uma enorme conquista. "Muitos pais veem a escola como um benefício e não um direito e confundem qualidade com a possibilidade de uso da infraestrutura e dos equipamentos públicos. Isso de nada adianta se a criança não aprender", afirma Maria do Carmo Brant de Carvalho, coordenadora geral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo.

A escola foi criada para servir à sociedade. Por isso, ela tem a obrigação de prestar contas do seu trabalho, explicar o que faz e como conduz a aprendizagem das crianças e criar mecanismos para que a família acompanhe a vida escolar dos filhos. "Os educadores precisam deixar de lado o medo de perder a autoridade e aprender a trabalhar de forma colaborativa", afirma Heloisa Szymanski, do Departamento de Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (assista à entrevista completa com Heloisa em vídeo)

Um estudo realizado pelo Convênio Andrés Bello - acordo internacional que reúne 12 países das Américas - chamado A Eficácia Escolar Ibero-Americana, de 2006, estimou que o "efeito família" é responsável por 70% do sucesso escolar. "O envolvimento dos adultos com a Educação dá às crianças um suporte emocional e afetivo que se reflete no desempenho", afirma Maria Amália de Almeida, do Observatório Sociológico Família-Escola, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Mas o que significa uma parceria saudável entre essas duas instituições? Os pais devem ajudar no ensino dos conteúdos e os professores no dos bons modos? Claro que não. A colaboração que se espera é de outra ordem. "O papel do pai e da mãe é estimular o comportamento de estudante nos filhos, mostrando interesse pelo que eles aprendem e incentivando a pesquisa e a leitura", diz Antônio Carlos Gomes da Costa, pedagogo mineiro e um dos redatores do ECA (leia sobre o que a família pode fazer para ajudar na Educação dos filhos no quadro abaixo). Para isso, é preciso orientar os pais e subsidiá-los com informações sobre o processo de ensino e de aprendizagem, colocá-los a par dos objetivos da escola e dos projetos desenvolvidos e criar momentos em que essa colaboração possa se efetivar.

Quando o assunto é aprendizagem, o papel de cada um está bem claro - da escola, ensinar, e dos pais, acompanhar e fazer sugestões. Porém, se o tema é comportamento, as ações exigem cumplicidade redobrada. Ao perceber que existem problemas pessoais que se refletem em atitudes que atrapalham o desempenho em sala de aula, os pais devem ser chamados e ouvidos, e as soluções, construídas em conjunto, sem julgamento ou atribuição de culpa. "Um bom começo é ter um diálogo baseado no respeito e na crença de que é possível resolver a questão", acredita Márcia Gallo, diretora da EME Professora Alcina Dantas Feijão, em São Paulo, e autora do livro A Parceria Presente: A Relação Família-Escola numa Escola de Periferia de São Paulo.

Visando ajudar você a dar os passos necessários para cumprir o dever legal e social de ter um relacionamento de qualidade com as famílias, NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR elaborou uma lista com 13 ações, que vão desde o acolhimento no começo do ano letivo até as atividades de integração social. Dê sua opinião sobre o assunto no final desta página, em "comentários". A consultora Márcia Gallo responderá suas dúvidas.

Os deveres da família

Até o século 19, a separação de tarefas entre escola e família era clara: a primeira cuidava daquilo que à época se chamava "instrução", que na prática era a transmissão de conteúdos, e a segunda se dedicava à "Educação", o que significava o ensinamento de valores, hábitos e atitudes. "A Era Moderna deixa nebulosa essa divisão do trabalho educacional. Reconhecida como um valor de ascensão social para as classes surgidas com a urbanização, a Educação passa a ser objeto de atenção das famílias e as expectativas em relação à escola se ampliam", diz Maria Amália de Almeida, da UFMG. Na prática, a escola passou a ser reconhecida como um espaço de aprendizagem dos conteúdos e de valores para a formação da criança. Assim, as fronteiras se tornaram confusas. As responsabilidades da escola já foram detalhadas na reportagem ao lado. Mas, o que se pode esperar das famílias, além de que elas garantam o ingresso e a permanência das crianças em sala de aula? Quando se sentem integradas, elas passam a participar com entusiasmo das reuniões e se tornam parceiras no desafio de melhorar o desempenho dos filhos. Com o intuito de indicar caminhos para a participação mais efetiva das famílias, o projeto Educar para Crescer, iniciativa da Editora Abril e da Universidade Anhembi Morumbi, vai lançar a partir de 26 agosto o Guia da Educação em Família, que será encartado em diversas publicações da editora. Esse material, assim como o folheto Acompanhem a Vida Escolar dos Seus Filhos, do Ministério da Educação, traz orientações simples sobre como os pais podem trabalhar com a escola. Entre as dicas, estão:
- Ler para as crianças ou pedir para que elas leiam para eles.
- Conversar sempre com os filhos sobre assuntos da escola.
- Acompanhar as lições de casa e mostrar interesse pelos conteúdos estudados.
- Verificar se o material escolar está completo e em ordem.
- Zelar pelo cumprimento das regras da escola.
- Participar das reuniões sempre que convocados.
- Conversar com os professores.
=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====
=== PARTE 4 ====
=== PARTE 5 ====
=== PARTE 6 ====

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* Acolhimento
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* Comunicação
* Organização de pais
* Convívio social

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

VÍDEO: Filme sobre a gripe A gravado em Erechim será lançado em 19 de setembro

Obra mostra o drama de uma família que tenta fugir da contaminação da doença

Marielise Ferreira | marielise.ferreira@zerohora.com.br

Já tem data para lançamento, a ficção gravada em Erechim, no norte gaúcho, sobre a gripe A. Com mil cópias para distribuição, o longa de 125 minutos feito com atores amadores vai ser apresentado em 19 de setembro durante um congresso em Gramado, na Serra.

Assista ao trailer do filme:

Gravado durante um final de semana com locações nas ruas da cidade e em municípios do interior da região, o filme conta o drama de uma família que tenta fugir da contaminação da gripe A, quando a população da cidade em que mora foi dizimada pela epidemia.

Com orçamento baixo, cerca de R$ 4 mil, o filme reuniu 64 figurantes e oito atores amadores, além de mais de 30 pessoas que trabalharam voluntariamente na produção dirigida pelo cineasta Osnei de Lima.


ZERO HORA

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 148 - Cotidianos em contraste

A reportagem de Educação acompanhou três professores paulistas, das redes pública e privada, para fazer um pequeno retrato de seu dia a dia.

Beatriz Rey / Fotos: Gustavo Morita


Mural de avisos de uma escola paulistana: preocupação com novas regras de contratação


Na Nova York dos anos 60, um professor já convencido de que seus alunos não passam perto do protótipo idealizado de estudantes que poderiam desafiá-lo a superar os limites de seu conhecimento para proporcionar-lhes novos horizontes de vida, adere ao mais radical pragmatismo para despertar-lhes, ao menos, algum interesse pela leitura e pela escrita . Ainda que troquem os cânones literários pela narração dos próprios feitos ou pelas virtudes da culinária.

Assim como o personagem literário descrito, resultante da experiência docente do hoje escritor Frank McCourt (Ei, Professor, Cinzas de Ângela), um exército de professores - 1,8 milhão na Educação Básica de todo o Brasil, sendo 238 mil apenas na rede estadual paulista - luta cotidianamente para construir suas estratégias de ensino (ou de guerra?) no mundo real. Longe tanto das idealizações que lhes reserva a missão de transformar todos os problemas do país, como do senso comum corrente, que os desqualifica, os docentes buscam, na lida diária com realidades diversas, a identidade possível.


Discutido nos mais variados espaços, como universidades, órgãos do governo, terceiro setor e a imprensa, o professor é geralmente lembrado quando se questiona a má formação à qual é submetido ou quando o tema é a polêmica avaliação docente. Em todos os casos, o professor do qual se fala faz parte de uma categoria - o sujeito por trás dele é pouco conhecido. Com o intuito de retratar exatamente o cotidiano que escapa dos debates sobre a docência, a reportagem de Educação acompanhou o dia a dia de três professores que lecionam na cidade de São Paulo.


Eduardo ensina física no Colégio Brasília, escola particular da zona leste de São Paulo. Carlos é professor temporário em duas escolas estaduais na zona oeste da capital paulista. Sandra Virgínia é professora efetiva de português nas redes municipal e estadual, ambas no Itaim Paulista, zona leste, divisa entre São Paulo e Ferraz de Vasconcelos. O critério de seleção dos entrevistados, além de passar pelo universo público e privado, atende à diversidade de bairros paulistana. A proposta original era retratar mais um professor, que lecionasse na região central, mas, segundo a Secretaria de Estado da Educação, as escolas contatadas não se dispuseram a participar.


O que se lerá a seguir não é - nem pretende ser - a verdade absoluta a que a totalidade dos professores da cidade está sujeita. É, apenas, um recorte escolhido para se enxergar alguns fragmentos das condições do professor, realidade múltipla, complexa e pouco afeita a reducionismos. Além disso, está fatalmente alterada pela presença de um observador estranho à rotina do professor e da sala de aula, fator que, por si só, altera comportamentos e interfere no cotidiano observado.


O andarilho



No bairro da Pompeia, o professor Carlos Alberto Guimarães aguarda o ônibus que o levará à escola

Entre o momento em que deixa o prédio de dois andares onde mora, na rua Apinagés, na Pompeia, e a hora em que retorna ao local, o professor Carlos Alberto Pires Guimarães, 25 anos, caminha bastante. Não só de sua casa até o ponto de ônibus, na rua Heitor Penteado, mas também entre uma e outra escola estadual onde leciona. Carlos costuma sair de casa por volta de 8h30. Às 18h20, quando termina a última aula de biologia na última escola, inicia o trajeto de volta, também a pé. No total, caminha 7,2 km por dia. Não é à toa que as solas de seus sapatos pretos estão desgastadas. Anda porque, às vezes, o dinheiro não dá. Mas anda, sobretudo, porque gosta. Seu dia começa entre um café feito em coador de pano e um cesto de roupas jogado na máquina de lavar. Natural de Assis, interior de São Paulo, saiu da casa dos pais com 18 anos. Estudou biologia em Bandeirantes, interior do Paraná.

Sua primeira experiência como educador foi numa sala de aula rural. "Na área de biologia, é a melhor coisa. Aproveitava o meio ambiente do entorno para fazer experiências. E o respeito com os alunos de lá era dado, não precisava ser imposto", conta. Carlos compara o ensino paulista a uma "selva de pedra". "O respeito aqui tem de ser conquistado pelo conhecimento", resume.


Em seu quarto no apartamento - divide o imóvel com dois primos -, além de livros de biologia dos mais variados, encontram-se títulos como "Capitalismo, trabalho e educação", de José Claudinei Lombardi, Dermeval Saviani e José Luís Sanfelice. A predileção pelo cantor Raul Seixas é estampada num adesivo colado num minisystem, o famoso três-em-um. E, pregado sobre sua escrivaninha, um apanhador de sonhos - "um filtro de sonhos", como ele diz. Quando veio para São Paulo, o sonho de Carlos era emendar um mestrado na área de política ambiental. "Quando vi a realidade da educação aqui, resolvi dar aula", conta. Uma das maiores reclamações do professor é que a autonomia nas escolas é inexistente, o que o obriga a seguir uma cartilha.

Nas duas escolas visitadas pela reportagem, os outros docentes têm reclamações semelhantes. Um professor de educação física, Ricardo (nome fictício), amigo de Carlos, contesta, por exemplo, a proposta de colocar o ensino de boxe nas escolas estaduais. "Como vou ensinar boxe para esses jovens? Eles vão sair da escola e socar o colega no ponto de ônibus!". Ricardo também relata a história de uma colega que leciona em Cotia. "Ela entrou em sala e o aluno perguntou se ela ia dar aula. Com a resposta afirmativa, ele disse: 'não tô a fim de ter aula.' No que ela virou para começar, levou um soco do aluno, que reafirmou: 'não tô a fim de ter aula, já disse'", relembra.


Na escola em que trabalha, Ricardo diz não sentir tanto os efeitos da violência. Os alunos que estudam lá, diz, fazem-no por opção: a maioria mora em regiões violentas e vai até outro bairro para estudar. "O diferencial aqui é a equipe de professores, o nosso comprometimento." Carlos, professor eventual da escola, concorda. No dia em que a reportagem o acompanhou, ele se deslocou até a escola para substituir uma professora, mas ela não faltou. Assim, depois de esperar o fim do horário das aulas, começou a caminhada até a outra escola, onde atua como Ocupante de Função Atividade de biologia (OFA, denominação da Secretaria de Estado da Educação para o temporário que tem aulas atribuídas). Seu holerite de março, época em que trabalhava na EE Romeu de Moraes, aponta os seguintes valores: como PEB2 (professor do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio), ele recebeu, por oito aulas dadas, R$ 60,62 - o que significa que sua hora-aula vale R$ 7,57.


Os percalços
Na sala dos professores da segunda escola, Carlos exerce seu lado 'político' com os colegas. Inconformado com as novas regras para os professores eventuais, ele copiou notícias de jornal e levou aos outros docentes. Em clima de discussão, eles se mostram inconformados. Uma professora de história diz: "A única coisa que eu faço para o Estado hoje é dar uma boa aula. Cansei de tudo". Carlos é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) há um ano e meio. Também transita no sindicato da categoria (Apeoesp) e na Central Única dos Trabalhadores (CUT). Buscou espaços políticos para discutir as questões que mais o preocupam: educação, meio ambiente e saúde.


Quando vai à sala de aula, tenta levar algumas questões correlatas para os alunos, como as que giram em torno de política ambiental. Mas ele mesmo reconhece que é difícil. Somente dar aula é algo extremamente trabalhoso na segunda escola em que leciona. Invariavelmente, precisa levantar a voz, pedir silêncio, avisar que o barulho está atrapalhando. Naquele dia, Carlos aplicou uma prova sobre ecologia. "Não sou professor de avaliação, na verdade. É mais um instrumento de acompanhamento, que não uso como punição. Prefiro que eles façam exercícios tirando dúvidas", explica.


Em aula, houve vários episódios de desrespeito dos alunos com o professor. Concorrendo com o barulho dos carros e das buzinas que circulam pela região da Lapa e com as vozes dos alunos, o professor precisa elevar cada vez mais a voz. Em uma das salas, uma aluna o aborda, dizendo que não trouxe o livro de biologia, material de consulta para a prova. Ele diz que avisou dois dias antes e ela retruca: "Eu faltei". Ao ouvir a resposta de Carlos ("procure falar com seus colegas sobre o que foi dado quando você faltar"), ela grita: "Não tenho livro e não vou fazer prova nenhuma".


Ao sentar em sua cadeira, coloca um fone de ouvido e só vai olhar para a prova quase no final da aula. A falta de respeito acontece entre os próprios alunos. Numa das salas, Carlos se deparou com uma briga entre dois meninos logo ao entrar. Tentou impor respeito, mas foi obrigado a berrar - algo inusual em sua conduta, segundo o próprio. Tranquilo, é adepto da conversa, do diálogo. Um de seus passatempos preferidos, além da leitura, é passar horas ao telefone com o filho de seis anos, Caio, que mora no Paraná. "Nós ligamos a televisão no mesmo desenho e damos risada juntos", conta.


Sua angústia particular: não conseguir fazer mais pelo mundo. "Fico triste, fico feliz, é um ciclo. O que posso fazer é dar aula. É a minha contribuição", diz. Lembrando do filme Apenas o fim, de Matheus Souza, que trata justamente das angústias da geração dos nascidos a partir dos anos 80, ele lembra de outro ícone: a banda Los Hermanos. "Me sinto como naquela música, De onde vem a calma: de onde vem a calma daquele cara, ele não sabe ser melhor, viu? Ele não sabe não, viu? Às vezes dá como um frio, é o mundo que anda hostil. O mundo todo é hostil".


7hDepois de tomar café e colocar a roupa na máquina, Carlos assume outra tarefa diária: lavar a louça
7h30Em seu quarto, separa os recortes de jornais que levaria às escolas onde leciona
8hNa rua Heitor Penteado, no bairro da Pompeia, aguarda o ônibus Lapa (7281)
13h30Dia de prova: o professor aguarda a devolução dos exercícios sobre ecologia
15h30Enquanto faz a chamada, o docente é obrigado a pedir silêncio inúmeras vezes
19hA última caminhada do dia: 4,2 km entre a escola e o prédio onde mora, na rua Apinagés, na Pompeia, bairro de classe média da capital paulista


A comunicadora


Na Emef Newton Reis, a professora Maria Vera acompanha a leitura das redações


Sandra Virgínia, professora de português na Emef Newton Reis e na EE Profª Maria Vera Lombardi Siqueira, ambas no bairro de Itaim Paulista, gosta de cores fortes. Basta ver a fachada laranja de sua casa, a parede verde de sua sala ou o avental vermelho que ela usa para dar aula. Também é católica, ou uma bíblia não estaria aberta na mesa de centro da sala, ao lado de um portaretrato com a foto da filha e da neta, que moram hoje nos EUA. Sandra é mãe de mais dois adolescentes: Pedro, de 17 anos, e Fernanda, de 12. Os três estudaram em escolas onde a mãe ensina. "A escola particular tem os mesmos problemas que a pública: droga e indisciplina", garante.

Casada há 18 anos com um membro da Guarda Civil Metropolitana, Sandra acha que, de alguma maneira, o ambiente privado transforma os alunos em robôs. Na escola pública, eles ficam mais à vontade - o que, para ela, não é sinônimo de falta de aprendizagem. A professora tem uma relação diferente com a escola pública. Leciona desde 2001 na EE Profª Maria Vera, que acompanha desde a fundação. "Trabalhava como secretária. Me formei e voltei como professora", conta. Sandra queria estudar jornalismo - a verborragia e a curiosidade justificariam a opção -, mas acabou optando pelo curso de Letras. "O curso de jornalismo mais perto era em Mogi das Cruzes, muito longe. Sempre morei em Itaim e em Guaianazes", diz.


Essa proximidade trouxe consequências boas e ruins. Sandra sempre encontra ex-alunos no supermercado ou em lojas do bairro, por exemplo. Por outro lado, durante o período em que trabalhou numa escola municipal lecionando inglês para 7ªs e 8ªs séries, sentiu na pele a violência dentro da escola. Um de seus alunos, irmão de um jovem que vivia sob liberdade assistida, resolveu não fazer uma prova, amassar o papel e jogá-lo no lixo.


Sandra tem pulso firme em sala de aula. Pensa que o professor deve pensar bastante antes de tomar uma decisão. Uma vez que tomou, não pode recuar - caso contrário, perde o respeito e o controle. Decidiu colocar o aluno para fora de sua aula, o que, para ela, significa acompanhá-lo até a direção e convocar os pais para discutir a indisciplina. O aluno em questão a xingou e foi para cima dela e do inspetor. Quando foi retirado da sala, dirigiu-se até a cantina, onde foi comer um pudim. Inconformada, exigiu que fosse levado à direção. "Eu sei onde você mora. Sei o caminho que você faz", disse o aluno. A escola, relutante em fazer um boletim de ocorrência por medo, acabou aceitando.


"A pergunta era: como eu sobrevivo aqui depois disso? Como a polícia ficou mais presente, ligaram para a escola dizendo que nada ia acontecer comigo e que não precisava de polícia por perto", relata. Uma das coisas de que sentiu falta na época foi de uma direção mais ativa no apoio ao professor. "O aluno não é só meu, é da escola também. Você não o leva para casa", diz. Outra distorção que ela identificou que ainda persiste atualmente é a relação da escola com a família.



"Muitas vezes, você chama o pai e diz: 'não sei mais o que fazer com o seu filho'. E a resposta dele é: 'pior é que eu também não, já fiz de tudo. O que eu faço?' Quem chamou quem? Se bobear, você age como psicóloga", questiona.


O relato atual


Hoje, Sandra não tem mais problemas com violência nas duas escolas em que leciona. A reportagem não pôde entrar no EE Maria Vera, já que não obteve autorização da Secretaria de Estado da Educação. Após o contato feito por telefone, a diretora da escola, Vanilza, mostrou-se disposta a participar da reportagem, com a condição de que a secretaria autorizasse (veja boxe na página 35). Com a negativa, o cotidiano da escola foi obtido a partir do relato da própria docente. Ali, onde ela leciona todos os dias pela manhã e pela noite, as salas são divididas por disciplinas. Há a de português, por exemplo, e o aluno se desloca até ela.


A maioria dos docentes trabalha há tempo considerável na escola. "Tenho carinho pelas pessoas e pela escola", afirma. A direção - não só Vanilza, mas Berenice, a antiga diretora que se aposentou recentemente - acompanha os alunos, conta Sandra. "Na época da Berenice, percebemos que os alunos de 5ª série tinham dificuldades em anotar todas as matérias, porque estavam acostumados com um professor só. Virou norma que, para cada disciplina, um caderno deve ser usado", conta. Reflexo disso ou não, os índices no Saresp da EE Maria Vera são altos: enquanto a média estadual para a 8ª série do ensino fundamental e o 3º ano do ensino médio em matemática são, respectivamente, 245,7 e 273,8, a escola tem 264,8 e 272,8.


Na Emef Newton Reis, onde trabalha das 11h às 15h, ela leciona para as 5ªs séries. No dia 2 de julho, quase fim de semestre escolar, a professora pedia aos alunos a leitura de uma redação elaborada na aula anterior, com base numa ilustração. O tema era preconceito. Logo ao entrar em sala, muitos alunos corintianos brincavam com Sandra, são-paulina roxa, por conta da vitória do Corinthians na Copa do Brasil.


Mas, ao entrar em sala de aula e pedir silêncio pela primeira vez, ela foi obedecida prontamente. "Não sou professora boazinha. Pego no pé. A princípio não vão muito com a minha cara, mas no começo não dá pra chegar sorridente. Mesmo porque eles não gostam de muito oba-oba", afirma, tentando estabelecer um perfil de si mesma. Numa outra aula, já na sala de leitura, onde outra professora mostrava quadros expressionistas, os estudantes, eufóricos, querem falar ao mesmo tempo. Ela berra: "Se todos falarem ninguém escuta". E o silêncio toma conta da sala.


Depois das cinco aulas, Sandra vai a pé para sua casa. É a hora que ela tem para tirar um cochilo e cuidar da casa. A comida que ela faz para o jantar fica também para o almoço do dia seguinte - o cardápio era arroz, feijão e bife. Ela quase não vê a filha, Fernanda. Quando sai de casa, às 7h, ela ainda está dormindo. À noite, Sandra retorna à EE Maria Vera, e dá aulas até às 23h20 em alguns dias e até às 9h20 em outros. Sandra não deseja que seus filhos sejam professores, a não ser que seja por vocação. Para ela, o salário é baixo demais. Em média, com oito anos na rede estadual e 15 anos na municipal, ela tira R$ 1,5 mil no primeiro caso e R$ 2,5 mil no segundo.


Com uma rotina tão atribulada, prefere ficar em casa nos fins de semana, quando não visita a sogra ou a mãe. Vê filmes para relaxar e, quando lê, o objetivo é outro. "A leitura é sempre voltada para o vestibular e para o Enem. Ler por prazer é muito difícil", diz. Com uma pós-graduação lato sensu finalizada em gestão escolar, diz não pensar em assumir cargo de direção porque não quer perder o contato com os alunos, pois gosta dessa proximidade. Para ela, mesmo os alunos bons devem ser acompanhados, já que podem cair em estagnação. Um dos alunos da prefeitura tem necessidades especiais e não consegue escrever. Naquele dia, ele prometeu pensar numa história sobre preconceito para o dia seguinte. "Quem sabe ele não me conta uma história amanhã? Se me contar, já me dou por satisfeita. É coisa de professor."


8hCom pantufas nos pés, Sandra recebe a reportagem de Educação em sua casa
9hUm gole de café antes de sair para trabalhar
9h30O muro da Emef Newton Reis: distância entre a casa de Sandra e a escola é de 1 km
11h30Numa 5ª série, ela faz a chamada: respeito entre alunos e professora
15h30Antes do cochilo, Sandra aproveita para acompanhar as notícias do dia pela TV
18h30Na entrada da EE Maria Vera, com a filha, Fernanda: jornada até as 23h

No Colégio Brasília, Zona Leste de SP, Eduardo explica aos alunos a diferença entre massa e peso

O driblador


No Colégio Brasília, os alunos mantêm um nível de respeito pelo professor. Tanto que Eduardo raramente põe estudantes para fora de sua aula. Naquele dia, entretanto, um deles, do 9º ano, passou dos limites e teve de sair. "Ele já estava ameaçando a semana inteira que ia aprontar", explica. Para o professor, são um ou dois alunos que desestabilizam a sala - o todo não é assim. Enquanto ensina eletricidade com o auxílio de um sistema de pilhas, consegue atrair diversos adolescentes à sua volta, que ficam curiosos. Querem ligar uma, duas, três pilhas na lâmpada ao mesmo tempo.


Em outra sala, de ensino médio, ele fala sobre massa e peso. Mais uma vez, os alunos se sentem instigados a perguntar. "Ele tenta se igualar àquilo que o aluno é. Ele não se acha", comenta Rafael, aluno do 3º ano, que vai prestar vestibular para o bacharelado em esportes, na USP. Na escola, o vestibular parece ser o grande objetivo a ser alcançado. Antigamente, um hábito provinciano tomava conta do lugar: todos os alunos iam direto para a Universidade São Judas, do lado da Vila Formosa. No ano passado, quatro alunos, de um total de cem, entraram na USP.


Além de o material didático ser apostilado, a escola investe em outras maneiras de garantir o sucesso acadêmico. Eduardo conta que é proibido ir sem uniforme, chegar atrasado e não entregar tarefas. Caso o aluno não siga essas regras, recebe um ponto negativo e a anotação vai parar no boleto bancário que chega à casa dos pais. "Assim, quando a mãe chega à reunião e diz que o filho está fazendo as tarefas e nós mostramos que não, ela percebe que está sendo enganada", explica.


Mesmo com todas essas investidas, ainda é possível encontrar, no turno da manhã, alunos com dificuldades em contas básicas de matemática. À tarde, diz Eduardo, é pior. A maioria dos alunos é bolsista e proveniente de escolas públicas municipais e estaduais. São estudantes que não teriam como arcar com os quase mil reais de custo, entre mensalidade, transporte e alimentação. "Para você dar a mesma matéria pra eles é doído. A base é muito fraca, não sabem fazer nem o mínimo múltiplo comum", aponta.


Por esse motivo, e por já ter lecionado na rede estadual, ele não colocaria os filhos em escola pública. E não deseja a carreira de professor para eles também. "Lidar com o filho dos outros é complicado. A responsabilidade de casa está sendo transmitida para o professor e tem horas que você tem de falar coisas que não agradam", justifica. Por Eduardo, eles seriam médicos - "é uma profissão bonita, o profissional que sai com a maior qualificação geral". Ele mesmo não queria ser professor.


Seu sonho era ser engenheiro elétrico, mas passou em faculdades integrais e precisava trabalhar para ajudar em casa. Tentou processamento de dados, não gostou e acabou estudando matemática. Depois de um período como professor eventual ("tapa buracos mesmo") numa escola estadual, assumiu aulas de química. "Tive problemas com professores. Como nenhum aluno aparecia às sextas para ter aula, os docentes também não iam. Decidi ensinar matemática financeira e todos iam assistir às aulas. Os professores ficaram bravos", conta. Hoje, a hora-aula de Eduardo vale mais de R$ 30 na escola particular. Ele não sente vontade de voltar a lecionar na rede pública. Outro motivo seriam as facilidades dadas aos alunos. "Não se reprova mais e isso não acontecia antes. Você trabalha com grandes quantidades de alunos e eles vão sendo empurrados para a frente, sem aprender", desabafa.


Descendente de italianos e torcedor do Palmeiras, Eduardo mora em Santo André, mas tem hábitos tipicamente paulistanos. Aos fins de semana, vai ao shopping. Adora ir ao cinema. Os últimos filmes que viu foram Anjos e demônios e Exterminador do futuro 4 - gostou apenas do primeiro. Não abre mão de jogar futebol aos sábados, muitas vezes em companhia dos próprios alunos do ensino médio. Adora o lanche de pernil do bar do prédio do Diário de S. Paulo, no centro de São Paulo.



Quando leva o filho para a natação, no final da tarde, Eduardo também gosta de levar um livro (A Cabana, de William P. Young, e Casais inteligentes enriquecem juntos, de Gustavo Cerbasi, foram os últimos que leu), para esperar Bruno sair da aula. Sua vontade inicial pode não ter sido a de dar aula, mas no final das contas, acabou se saindo bem e hoje é feliz como professor. Espectador voraz de televisão, assiste aos canais Discovery Channel e o History Channel, da TV a cabo, para ter respostas rápidas aos seus alunos. "Por mais que pareça a mesma coisa, quando você muda de sala, são 40 alunos diferentes. Você nunca sabe o que vai acontecer", diz.


De todas as partes de sua casa, localizada em Santo André, o professor Eduardo gosta mais da área reservada ao churrasco. Esse é o local onde ele reúne os amigos nos fins de semana em que não corrige provas de física dos alunos dos ensinos fundamental e médio do Colégio Brasília de São Paulo, na Vila Formosa, zona leste de São Paulo. Todos os dias, Eduardo deixa a esposa e a filha pequena às 6h30 e sai com o filho, Bruno, de 5 anos, rumo à escola. O trajeto, feito de carro, dura menos de vinte minutos. Às 7h, já está na sala dos professores: depois de vestir um avental branco e pegar sua caixa de giz - com seu nome marcado em madeira queimada - dirige-se à sala de aula. "O palco da sala de aula" é o que mais gosta da docência. "Não gosto da parte burocrática, corrigir provas e preparar aulas", confessa.


6h15Em companhia do filho, o professor deixa sua casa, em Santo André (SP)
7hEm seu armário, na sala dos professores, apanha a caixa de giz e os diários
9hCorrigindo exercícios do vestibular: silêncio e interesse dos alunos
16hApós aplicação de prova de recuperação, ele guarda o avental e deixa a escola


O estranho silêncio oficial

Ignorar as demandas de alguns veículos de comunicação, notadamente os menores e que trabalham de forma crítica. Parece ser essa a postura deliberadamente adotada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Ao menos é o que a experiência relativa aos colaboradores da revista Educação permite depreender. Para esta matéria, foi enviado, por solicitação da assessora Maria Teresa Pinheiro Moraes, um pedido de autorização de entrada na EE Maria Vera Lombardi Siqueira. Além disso, a reportagem solicitou a indicação de outra escola na região central que se dispusesse a participar. Três dias depois de inúmeras tentativas de contato telefônico, o e-mail não havia sido respondido. Quem deu a notícia que a entrada tinha sido autorizada foram a professora Sandra e a diretora Vanilza, que comunicaram para a reportagem. No dia seguinte, entretanto, ligaram dizendo que a assessoria de imprensa havia desautorizado. Até então, nenhuma posição da secretaria havia sido passada à reportagem, o que só aconteceu quase uma semana depois de o pedido ter sido enviado, e por telefone. Uma resposta oficial, por escrito, nunca foi recebida.

O caso não é o primeiro. O repórter Henrique Ostronoff tentou fazer a mesma matéria entre o final de 2008 e o início de 2009. Tentou inúmeras vezes, sem sucesso, a autorização para entrar nas escolas e conversar com os professores. Falou com as assessoras Jéssica, Maria Teresa e Flávia - nenhuma delas deu uma resposta (ainda que negativa). O tratamento se repetiu com o dossiê desta edição, que trata da avaliação docente. Em contato com Flávia, que prometeu uma entrevista com o secretário Paulo Renato Souza, Henrique foi vencido pelo cansaço. Enviou perguntas por e-mail, esperou, cobrou e não obteve resposta. O secretário, muito ocupado, não poderia falar e quem domina o assunto em todo o órgão é apenas ele, disse a assessoria de imprensa. Em outra matéria, sobre educação e tecnologia, falou com a assessora Manoela sobre programas de informatização na rede pública estadual e não obteve nenhuma resposta, apenas releases.

O mesmo quadro aconteceu com o repórter Diego Braga Norte, quando apurava uma matéria sobre a obrigatoriedade do ensino de espanhol nas escolas públicas a partir de 2010. Após contato telefônico com a assessora Marina, no qual perguntou a posição da secretaria em relação ao oferecimento obrigatório da disciplina a partir do próximo ano, recebeu uma resposta genérica por e-mail, que não entrava no mérito dos questionamentos, ou seja, se havia alguma estratégia para formar professores do idioma para que todas as escolas pudessem passar a oferecê-lo. Insistiu, mas não houve ninguém com conhecimento técnico específico designado para atendê-lo. Até o fechamento desta edição, a secretaria não comentou o assunto. Os contatos foram feitos, via e-mail e telefone, entre os dias 8 e 16 de julho.



Fonte: REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 148

domingo, 23 de agosto de 2009

Dicionário de prazos



Na revista Você S/A encontrei este "Dicionário de prazos", vale a pena conferir, pois as expressões fazem parte do nosso dia-a-dia.




Não só no mundo corporativo, entregar os projetos dentro dos prazos é fundamental. Mas atire a primeira pedra quem nunca furou um cronograma ou foi prejudicado pelo atraso de um colega.
Para você se prevenir dessas situações, listamos alguns prazos e expressões e seus REAIS significados:


DEPENDE

Envolve a conjunção de várias incógnitas, todas desfavoráveis. Em situações anormais, pode até significar sim, embora até hoje tal fenômeno só tenha sido registrado em testes teóricos de laboratório. O mais comum é que signifique diversos pretextos para dizer não.

JÁ JÁ

Aos incautos, pode dar a impressão de ser duas vezes mais rápido do que já. Ledo engano; é muito mais lento. Faço já significa "passou a ser minha primeira prioridade", enquanto "faço já já" quer dizer apenas "assim que eu terminar de ler alguns blogs, prometo que vou pensar a respeito."

LOGO

Logo é bem mais tempo do que dentro em breve e muito mais do que daqui a pouco. É tão indeterminado que pode até levar séculos. Logo chegaremos a outras galáxias, por exemplo. É preciso também tomar cuidado com a frase "Mas logo eu?", que quer dizer "tô fora!".

MÊS QUE VEM

Parece coisa de primeiro grau, mas ainda tem brasileiro que não entendeu. Existem só três tipos de meses: aquele em que estamos agora, os que já passaram e os que ainda estão por vir. Portanto, todos os meses, do próximo até o Apocalipse, são meses que vêm!

NO MÁXIMO

Essa é fácil: quer dizer no mínimo. Exemplo: Entrego em meia hora, no máximo. Significa que a única certeza é de que a coisa não será entregue antes de meia hora.

PODE DEIXAR

Traduz-se como "nunca".

POR VOLTA

Similar a no máximo. É uma medida de tempo dilatada, em que o limite inferior é claro, mas o superior é totalmente indefinido. Por volta das 5h quer dizer a partir das 5h.

SEM FALTA

É uma expressão que só se usa depois do terceiro atraso. Porque depois do primeiro atraso, deve-se dizer "fique tranqüilo que amanhã eu entrego ." E depois do segundo atraso, "relaxa, amanhã estará em sua mesa. Só aí é que vem o amanhã, sem falta."

UM MINUTINHO

É um período de tempo incerto e não sabido, que nada tem a ver com um intervalo de 60 segundos e raramente dura menos que cinco minutos.

TÁ SAINDO

Ou seja: vai demorar. E muito. Não adianta bufar. Os dois verbos juntos indicam tempo contínuo. Não entendeu? É para continuar a esperar? Capisce! Understood? Comprendez-vous? Sacou? Mas não esquenta que já tá saindo…

VEJA BEM

É o Day After do DEPENDE. Significa "viu como pressionar não adianta?" É utilizado da seguinte maneira: "Mas você não prometeu os cálculos para hoje?" Resposta: "Veja bem…" Se dito neste tom, após a frase "não vou mais tolerar atrasos, OK?", exprime dó e piedade por tamanha ignorância sobre nossa cultura.

ZÁS-TRÁS

Palavra em moda até uns 50 anos atrás e que significava ligeireza no cumprimento de uma tarefa, com total eficiência e sem nenhuma desculpa. Por isso mesmo, caiu em desuso e foi abolida do dicionário.


Fonte: http://vocesa.abril.uol.com.br/home/

sábado, 22 de agosto de 2009

Lições kafkianas - por Gabriel Perissé



Os seres humanos são farejadores natos da verdade. Mas nem sempre encontram ambiente propício para as buscas decisivas

Gabriel Perissé

Os escritores, sem a pretensão de nos ensinar coisa alguma, transformam suas obras em aulas de humanização. Uma leitura educadora parte desse pressuposto: ler é aprender numa escola feita de palavras com um mestre da linguagem.


As aulas kafkianas são das mais estranhas. Os escritos de Franz Kafka (1883-1924) nos fazem encarar o mundo, a sociedade e a nós mesmos como realidades que ainda não conhecemos o bastante. Levam-nos a pôr em xeque pensamentos prontos e ações rotineiras. Num de seus aforismos, retirado do livro póstumo Considerações sobre o pecado, a dor, a esperança e o caminho verdadeiro (1931), o autor tcheco avisa a si mesmo e a cada um de nós: "És a tua própria lição de casa".


Sou a minha própria lição de casa na medida em que considero o problema da existência a primeira, a mais radical de todas as questões. O autêntico estudante, portanto, estuda a si mesmo e estuda o seu entorno com a disposição de encontrar respostas que lhe satisfaçam mais do que as já estabelecidas. As tarefas escolares são importantes, contanto que não atrapalhem o cumprimento do dever fundamental: perseguir verdades pessoais, por mais inglórios que sejam os esforços para atingi-las.


Essa pesquisa pessoal tem um preço, e por isso não é tão fácil encontrar quem a ela se dedique. O conto Investigações de um cão (1922) retrata a solidão de quem abandona as facilidades de uma vida sem questionamentos. O protagonista (um cão) observa, pergunta, analisa, reflete, tem um comportamento mental que o afasta do convívio dos outros cães.


Mas esse afastamento não se deve a uma falha do animal cientista e filósofo. Ao contrário. Ele sabe que esse é o seu destino, e deveria ser o de todos os seus companheiros:


Não é de se supor que as coisas estejam tão mal para mim. Não estou um fio de cabelo fora da essência canina. Todo cão tem, como eu, o ímpeto de perguntar e, como todo cão, tenho o de silenciar. Todos têm a tendência a perguntar.


Os seres humanos são farejadores natos da verdade. Mas nem sempre encontram ambiente propício para as buscas decisivas. Paradoxalmente, a instituição escolar, que deveria ser o lugar da livre reflexão sobre problemas vitais, sobre os problemas que realmente interessam ao ser humano, pode tornar-se o maior dos obstáculos.


Nos esboços de Investigações de um cão há um trecho, excluído na versão final do conto, no qual o autor, que passara maus bocados na escola, fazia uma avaliação contundente sobre o ato de educar:


Toda educação, provavelmente, possui dois objetivos. Em primeiro lugar, conter o impetuoso assalto das crianças ignorantes para a verdade. Em seguida, iniciar as crianças humilhadas, de modo imperceptível, suave e progressivo, na mentira.


Uma educação que teme a inventividade do estudante, que incentiva a homogeneização, que inibe a capacidade de perguntar, que está mais preocupada em definir limites do que em apresentar horizontes é uma educação humilhante e desumanizante. Por outro lado, fomenta a mentira, o engano. A crítica kafkiana ultrapassa tempo e espaço e vale também para o Brasil dos dias de hoje.


São enganosas, por exemplo, as fichas de leitura que acompanham certos livros. Desde a década de 1970 generalizou-se a prática editorial (com referendo pedagógico...) de incluir entre as páginas de livros infanto-juvenis essas fichas, ou suplementos, ou guias, ou orientações, com o intuito de "facilitar" o trabalho do professor e a interpretação dos alunos.


Tornou tudo tão fácil e "seguro" que a leitura perdeu qualquer atrativo. Para que ler e pensar, criar hipóteses e levantar dúvidas novas, se a ficha, camisa de força do texto, tem como função tolher o vigor imprevisível da mente, anular as ainda mais imprevisíveis forças da imaginação, a "louca da casa", que o texto queria era mesmo despertar?


É equivocada também a forma como se avalia o mérito intelectual de um jovem candidato ao ensino superior público. Afinal, podemos considerar "superior" um ensino a que o adolescente só terá acesso (com uma ajudinha do destino...), se estudar centenas de questões que o distraem do essencial? Por que deve o vestibulando empregar suas melhores energias na tarefa de decorar, por exemplo, as características geológicas e químicas do granito e do mármore? Por que dedicar seu tempo à lei de Lenz (outro tema típíco de questão do vestibular), segundo a qual o sentido da corrente é o oposto da variação do campo magnético que lhe deu origem?


Se esses e outros conhecimentos (válidos em si mesmos e de fato relevantes quando contextualizados na prática do geólogo ou do físico) passam a ser apenas questões de um exame, elaboradas com o objetivo de restringir o acesso ao ensino gratuito, pois este não oferece o número de vagas suficiente em comparação com a quantidade de pessoas que conclui o ensino médio, para que estudar? Para que estudar, enfim, se há mais vagas e oportunidades em instituições particulares, cujos testes de seleção, infinitamente menos seletivos, não estão nem um pouco preocupados com o mármore e o campo magnético?


Em 1917, após os primeiros sintomas de tuberculose, Kafka interrompeu sua atividade profissional em Praga e foi passar alguns meses numa cidade mais tranquila, Zürau, período que lhe permitiu escrever com maior regularidade. Utilizando cadernos escolares, produziu vários textos, publicados somente em 1953, por Max Brod (1884-1968), grande amigo do autor e responsável pela conservação e difusão de sua obra.


Em certo momento desses cadernos, Kafka escreve sobre uma escola noturna destinada a jovens comerciários. O professor pediu-lhes que fizessem um exercício de matemática, acreditando conseguir alguns minutos de sossego para estudar ele próprio. A classe, porém, está no maior alvoroço, e o supervisor de ensino entra na sala para averiguar o motivo da confusão. Segue um diálogo tenso entre supervisor e professor:


Supervisor: [...] Em que tipo de escola nos encontramos?
Professor: Na Escola Noturna para Aprendizes da Área Comercial.
Supervisor: É uma escola superior ou inferior?
Professor: Inferior.
Supervisor: Talvez uma das mais modestas?
Professor: Sim, uma das mais modestas.
Supervisor: Exatamente, uma das mais modestas. É inferior às próprias escolas primárias, já que, afora as matérias que são apenas a mera repetição das que se ministram na escola primária (e, portanto, dignas de respeito), aqui se ensinam apenas os mais básicos rudimentos de ciências. De modo que todos nós (os alunos, o professor e eu, o supervisor) trabalhamos, ou seria melhor dizer... deveríamos trabalhar, como é nosso dever, numa das escolas mais modestas que existem. Isso é porventura algo desonroso?
Professor: Não, aprender jamais é desonroso. Além do mais, a escola é tão-somente um lugar de passagem para esses jovens.
Supervisor: E é também para o senhor um lugar de passagem?
Professor: Na realidade, para mim também.


A escola cumprirá sua função se a entendermos como um passadouro, uma ponte. As atividades e exigências da escola só fazem sentido à luz de algo que esteja para além dela. Seria absurdo pensar na escola como o destino final de nossos esforços. Toda escola é um estágio. Um caminho (entre outros) para a nossa realização como seres humanos. (Para a revista Educação)



Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação/USP e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho/SP(www.perisse.com.br)


Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12331

Imagem: Acervo pessoal - "Num momento de estudos".

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Impressione o entrevistador

As respostas certas para perguntas complicadas

Por Bruno Vieira Feijó


Alexandre Camanho


Como impressionar o entrevistador

Aprenda a resposta certa para as perguntas mais complicadas dos recrutadores.

As entrevistas de emprego estão mais complicadas. Um estudo da consultoria Korn/Ferry, especializada em recrutar diretores e presidentes no mundo inteiro, concluiu o que, na prática, headhunters e candidatos já sentem na pele: as entrevistas de trabalho não são mais meras comprovações de competências técnicas e realizações passadas. Elas caminham para se tornar avaliações comportamentais, em que o candidato é avaliado desde o primeiro contato telefônico. “Como o entrevistador está mais rigoroso, o candidato precisa estar muito bem preparado para ver, em poucos minutos, sua vida profi ssional ser detalhada minuciosamente”, diz Rodrigo Araújo, sócio-diretor da Korn/Ferry no Brasil.

Se passar pelo contato telefônico, o profissional terá uma conversa pessoal, na qual serão recordadas as fases mais complicadas da carreira — aquelas que envolvem arrependimentos, pontos fracos e decisões equivocadas. “Não é para constranger, mas para conhecer quem está por trás daquele estereótipo de candidato ideal, que permeia quase todos os currículos recebidos atualmente”, diz Lucia Costa, sócia-diretora da Mariaca, consultoria em gestão de capital humano. O objetivo é descobrir se a inteligência emocional do candidato ou seu estilo social combinam com o da vaga e o da empresa pretendida. De acordo com os especialistas, ainda são poucos os executivos que fi cam a vontade para falar sobre si mesmo ou sobre experiências adquiridas em situações delicadas. Por isso, a VOCÊ S/A separou algumas perguntas que exigem raciocínio complexo e mostra como você deve se portar em cada uma delas para ter sucesso numa entrevista de emprego.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Quais foram as críticas profissionais que você já recebeu que mais
lhe surpreenderam?”

ELE QUER TESTAR: Autenticidade, sinceridade e humildade em reconhecer falhas.

COMO AGIR: “Escolha episódios que lhe chamaram atenção, mas nada que coloque em dúvida seu desempenho para a vaga em questão. Acrescente o que aprendeu e como você encara cada falha como uma oportunidade para se aperfeiçoar”, diz Marcelo Abrileri, presidente do site Curriculum.com.br.

ATENÇÃO: Evite respostas que disfarçam um ponto positivo como se fosse negativo (por exemplo: “Era exigente demais, perfeccionista ou workaholic”). Elas passam a ideia de artificialidade.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Como você descreveria a cultura corporativa das últimas empresas por onde passou?”

ELE QUER TESTAR: Lealdade e capacidade de se adaptar a diferentes tipos de gestão.

COMO AGIR: “Faça um paralelo sobre o jeito de cada empresa trabalhar. Ao falar do que gostava e não gostava, seja honesto, mas apele para dados de conhecimento geral”, diz Lucia Costa, da Mariaca. “Diga, por exemplo:
‘Empresas alemãs são mais rígidas e burocráticas hierarquicamente, e eu me ressentia por mais agilidade. Por outro lado, gostava da estabilidade’.”

ATENÇÃO: Não seja crítico e sarcástico em relação a chefes e empresas. Quem está sendo avaliado é você, não seus antigos patrões.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Conte algumas histórias sobre você em ‘ação’”

ELE QUER TESTAR: Como você se vira na adversidade (sob pressão e prazos curtos).
COMO AGIR: “Em qualquer entrevista, seu objetivo é convencer o recrutador de que você dá conta do recado”, diz Rodrigo Araújo, da Korn/Ferry. Conte iniciativas em que você foi o responsável, quais os desafi os que esperava e o que realmente encontrou. E depois mostre os resultados: como esses obstáculos foram superados e de que forma isso o deixa pronto para futuros obstáculos.

ATENÇÃO: Seja objetivo. Contar “um pouco” significa contar em três minutos no máximo.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Como você gerencia pessoas com pontos de vista diferentes dos seus”

ELE QUER TESTAR: Talento para liderar um time.

COMO AGIR: Cite projetos em que houve divergências de opinião e como você conseguiu ajudar todos a chegar a um consenso. “Por trás da pergunta, o examinador quer saber se você é sensível ao ponto de captar o que cada funcionário tem para oferecer de melhor”, diz Marcelo Abrileri, do Curriculum.com.br.

ATENÇÃO: Aqui está sendo medido seu eventual grau de autoritarismo e como você impõe suas ideias.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Que opinião seus subordinados têm de você? E seus chefes?”

ELE QUER TESTAR: Aptidão para ouvir e transmitir feedback.

COMO AGIR: “Se você já passou por avaliações do tipo 360o, fi ca mais fácil saber o que chefes e colegas pensam”, diz Lucia, da Mariaca. “Senão, prove que você se preocupa em obter a opinião da equipe.”

ATENÇÃO: Ninguém vence sozinho. Exalte a importância de todos que trabalham com você.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Como você se vê daqui a cinco anos?”

ELE QUER TESTAR: Capacidade de enxergar e se planejar no longo prazo.

COMO AGIR: “Não há problema em abrir suas aspirações para o futuro, mas evite citar nomes de empresas
(principalmente das concorrentes) e cargos específicos”, diz Lucia, da Mariaca.

ATENÇÃO: Passe a noção de que você está à procura de uma empresa com a qual possa estabelecer uma ligação
duradoura.

QUANDO O HEADHUNTER DIZ: “Qual é seu maior arrependimento na carreira?”

ELE QUER TESTAR: Capacidade de compartilhar aprendizados de experiências, até mesmo as decepcionantes.

COMO AGIR: “Diga a verdade, mas também o que você teria feito de forma diferente se pudesse voltar no tempo
e como tem aplicado esse aprendizado em outras situações”, diz Rodrigo Araújo, da Korn/Ferry.

ATENÇÃO: Não se faça de vítima, alegando que as circunstâncias da época eram injustas, por mais que fossem.


Fonte: Revista Você S/A - Editora Abril - Edicção 134 - Agosto 2009

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