sábado, 31 de outubro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Adolescentes resignam-se ao bullying

Pensamos que isso nunca vai acontecer conosco. E quando acontece? Minha filha foi (ainda é) vitima de bullying, e tudo começou com o ciberbullying ... "grandes amigas da sala de aula" .

Violência encarada com normalidade entre os jovens




A maioria dos adolescentes acha que o bullying em contexto escolar “sempre existiu e continuará a existir” e encaram com “pessimismo e resignação” o fenómeno, o que torna difícil uma intervenção eficaz e deixa pouca esperança à sua erradicação. São estas as principais conclusões de uma tese de doutoramento apresentada na Universidade de Granada, em Espanha, e que foi coordenada, entre outros, pela investigadora portuguesa Ana Maria Tomás Almeida, da Universidade do Minho.

O objectivo deste trabalho foi analisar a perspectiva dos próprios protagonistas do fenómeno relativamente ao bullying, utilizando uma amostra de 1.237 jovens entre os 11 e os 16 anos das cidades de Braga, Porto e Granada. O estudo conclui que entre os inquiridos 7,3% são vítimas, 8,5% agressores e 84,1% presenciam actos de violência entre colegas.

Segundo Ana Tomás Almeida, esta “é uma realidade preocupante que justifica uma intervenção”. “Há que promover uma consciencialização relativamente a valores sociais fundamentais, como o respeito pelo outro”, acrescenta a investigadora.

O estudo refere que a aceitação do bullying como uma rotina e algo natural nas relações sociais entre os jovens é crescente. “Essa indiferença dos jovens face ao fenómeno deve-se sobretudo à banalização e tolerância da violência na escola e na sociedade em geral nas mais variadas situações, nos jogos de vídeo, na televisão, etc”, comentou ao PÚBLICO Sónia Seixas, doutorada em Psicologia e autora de uma tese sobre bullying. “Se não existe intervenção por parte de uma figura adulta, há como que um reforço não dito, a atitude agressiva intensifica-se”, sublinha Sónia Seixas. E acrescenta: “Este fenómeno surge de uma necessidade de afirmação normal na adolescência; no entanto, o bullying não é normal, essa afirmação pode ser manifestada de formas saudáveis.”

O questionário aplicado aos jovens revela que as vítimas de bullying são descritos como pessoas passivas, socialmente incompetentes, ansiosas, depressivas e inseguras; por outro lado, os agressores, são vistos como fortes, extrovertidos e alegres, detentores de um poder e confiança que reforçam o seu carácter de liderança dentro do grupo.

A investigação provou também a existência de algumas diferenças decorrentes do sexo dos jovens no que toca à percepção deste fenómeno. As raparigas tendem a ser mais críticas que os rapazes criando uma maior empatia com as vítimas. A coordenadora portuguesa acrescenta que “de facto as raparigas não participam muito nas formas tradicionais de bullying, mas aderem às vias de pressão indirecta como o ciberbullying, por exemplo”.

Segundo o estudo, esta recente forma de agressão aos jovens, utilizando as novas tecnologias como os telemóveis ou a Internet, está a aumentar e, na opinião de Sónia Seixas, “cabe mais aos pais a vigilância nesta matéria, uma vez que é em casa que esta ameaça está mais presente”. “Esta é uma situação muito complexa, porque sabemos quem são as vítimas, mas não conseguimos conhecer os agressores.”

As conclusões desta investigação permitiram detectar problemas e questões que poderão ser úteis na aplicação de medidas realistas e consistentes no espaço escolar. “Há que perceber o fenómeno, perceber como ele se processa e se forma. A abordagem preventiva deve ser o caminho”, refere a professora da Universidade do Minho.

As soluções poderão passar por uma maior supervisão dos espaços que, se acontece com relativa eficácia nos 1.º e 2.º ciclos, no 3º ciclo, que corresponde ao pico da ocorrência deste fenómeno, na generalidade, praticamente não existe, por outro lado há que apostar numa rígida regulamentação nas escolas, consciencializar os pais de que existe um regulamento disciplinar que deve ser respeitado e que deve ser transmitido aos alunos”, remata Sónia Seixas.

De referir que esta tese foi orientada por Maria Jesús Caurcel Cara durante os anos de 2006, 2007 e 2008 e coordenada, para além de Ana Tomás Almeida, por mais dois professores da Universidade de Granada.


Artigo do “Público”, de Renato Duarte
Imagem daqui

Fonte: Esse excelente artigo sobre bullying , foi publicado no ProfAvaliação, pelo amigo português Miguel Loureiro.




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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um lógico na Educação


 

A escola deveria ensinar o aluno a avaliar argumentos e evidências para pensar por si mesmo, defendia este filósofo britânico


Como matemático, Bertrand Russell (1872-1970) foi autor de uma das obras mais intrincadas do século 20. Sua figura pública, no entanto, era bastante acessível. Durante a maior parte da vida, ele escreveu e publicou um grande número de livros de divulgação científica — entre eles um guia da Teoria da Relatividade, do físico Albert Einstein, e uma história da Filosofia ocidental. Além disso, tornou-se um conhecido militante, entre outras causas, do pacifismo e do pensamento lógico aplicado a diversas esferas — como a Educação.

Se houve um ponto em comum entre todas essas atividades, foi o combate ao dogmatismo, em favor de uma radical liberdade de pensamento, o que fez dele um contestador tenaz mas elegante do nacionalismo e da religião. Aos 89 anos, em 1961, Russell foi acusado de incitar a desobediência civil e condenado à prisão após liderar um ato contra as armas nucleares na Inglaterra. A decisão da Justiça britânica provocou o efeito contrário na opinião pública, contribuindo para torná-lo ainda mais admirado.

"Ele era um pensador completo: epistemologia, lógica, metafísica, Ciência, paz, Educação — tudo isso, para ele, estava ligado", diz o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., de São Paulo. "Russell era do tipo dos grandes sábios renascentistas." Sua trajetória intelectual teve início quando, aos 11 anos, descobriu a geometria euclidiana e com ela o entusiasmo de entrever a possibilidade de sustentar todo tipo de conhecimento sobre fundamentos seguros e verificáveis, na tradição do pensador francês René Descartes (1596-1650). "Vindo do campo lógico, Russell preferiu acreditar na objetividade, e não na subjetividade, quando se trata de buscar o que é verdadeiro", explica Ghiraldelli.

Russell e seu tempo

Um século de guerras e armas

Mais do que os avanços da Ciência e da Tecnologia, os conflitos sangrentos do século 20 foram os acontecimentos que mais impressionaram e mobilizaram Bertrand Russell. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele se engajou integralmente numa campanha pacifista e contra o recrutamento militar, o que resultou em duas condenações à prisão e em sua demissão da Universidade de Cambridge, onde era conferencista. Como aconteceu com muitos intelectuais de sua época, a guerra precipitou em Russell uma transição do liberalismo para o socialismo, mas sua simpatia pela Revolução Russa de 1917 durou bem menos do que a dos seus colegas: terminou quando fez uma visita à União Soviética, três anos depois. Mesmo assim, Russell continuou partidário da esquerda e manteve sua ficha de filiação ao Partido Trabalhista britânico até os anos 1960, quando a rasgou em protesto contra o apoio ao envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã. Também como grande parte de seus pares, o filósofo fez uma exceção em seu pacifismo durante a Segunda Guerra Mundial, que julgou necessária para enfrentar o nazi-fascismo, mas a bomba atômica contra o Japão abriu uma fase de ativismo ainda mais intenso. Ele manteve um programa de rádio para advertir sobre os perigos das armas nucleares, fundou com Albert Einstein o Movimento Pugwash, pela paz mundial, e liderou atos antiarmamentistas. Com o apoio da Organização das Nações Unidas, ajudou a fundar o Tribunal Bertrand Russell de Crimes de Guerra, que continua existindo.

Com os métodos modernos de educação e propaganda, tornou-se possível doutrinar toda uma população com uma filosofia que não tem bases racionais para ser verdadeira

Polêmicas teóricas

O trabalho principal do filósofo britânico partiu da convicção de que todos os grandes sistemas lógico-matemáticos que o precederam estavam equivocados por se basearem em um método sintético (não analítico). Para ele, a Matemática era lógica pura e seus princípios podiam ser resumidos a algumas categorias externas a seu campo teórico, como proposições e classes, no lugar de números, por exemplo.

Os avanços nessa investigação, que atingiram seu ponto mais célebre no livro Princípios da Matemática, levaram Russell a esboçar aplicações em outras áreas, como a Psicologia e a Física, e provocaram impacto considerável nos meios filosóficos. Esse trabalho também conduziu o autor a um paradoxo que ele tentou vencer, sem chegar a uma solução cabal, com elaborações cada vez mais complexas. O desafio chegou a ser assumido pelo alemão Ludwig Wittgenstein (1889-1951), que depois rompeu com a linha de raciocínio proposta pelo antecessor.

"Russell pode não ter chegado ao fim de sua teoria realista, mas apostava que outras tradições, não realistas, estavam erradas", observa Ghiraldelli. "E uma coisa é certa: seu realismo não admitia relativismos." Por isso, o filósofo britânico combateu as tendências de pensamento que considerava psicologizantes. No domínio educacional, ele concentrou artilharia contra o norte-americano John Dewey (1859-1952), a quem acusava de relativismo, numa polêmica travada por meio de artigos. "Toda formulação sobre o conhecimento e, conseqüentemente, sobre Educação vinda de Dewey era, para Russell, uma porta aberta para a falta de fibra moral e a fraqueza da investigação teórica", diz Ghiraldelli.

O filósofo britânico via no pragmatismo do norte-americano, que influenciou fortemente a Pedagogia no século 20, uma visão "instrumentalista". Era uma crítica à concepção de que o conhecimento é definido pelas ações que ele propicia — o que se traduz no campo pedagógico no princípio de que o saber só se difunde se estiver vinculado a uma dimensão pragmática. Russell, por sua vez, defendia o valor do conhecimento por si mesmo, baseado na idéia de que ele se torna parte da constituição do sujeito — e isso já modifica a relação com o mundo.

Saber e discernimento

Por tudo isso, dizia, o contato com o saber acumulado ao longo dos séculos é tão importante para a formação das crianças e adolescentes, pois a finalidade da Educação é civilizar. O peso que Russell conferia ao conceito de civilização equivalia, segundo Ghiraldelli, "ao dos iluministas mais benévolos". Isso significa, em termos intelectuais, uma visão geral do conhecimento humano, habilidade técnica na profissão escolhida e o hábito de formar opiniões com base em evidências; moralmente, imparcialidade, generosidade e uma dose de autocontrole; e, no âmbito social, respeito às leis, princípios de justiça interpessoal, determinação de não infligir sofrimento a nenhuma parcela da humanidade e inteligência para adaptar os meios aos fins. Finalmente, o filósofo considerava fundamental a espirituosidade e o gosto pela vida.

Juntas, essas condições garantiriam ao ser humano a capacidade de distinguir por si mesmo o que é verdadeiro e o que é falso, o bem e o mal. A liberdade e a independência mental eram vistas por Russell como conquistas da Educação. O problema é que a maioria das escolas estava a serviço de perpetuar dogmas, convenções e idéias preconcebidas — aquilo que chamava de "mentalidade de rebanho" —, e não um pensamento lógico para permitir à criança tirar as próprias conclusões, junto com um princípio de tolerância que a levasse a respeitar as opiniões alheias. O caminho prescrito para isso era acostumar-se à racionalidade e aos princípios de verificação cuidadosa do método científico, o que implica questionar sempre e, portanto, mudar de idéia. "O problema deste mundo é que os imbecis são categóricos; e os inteligentes, cheios de dúvidas", dizia Russell.

Russell e a escola

Cultivo de cooperação e autocontrole

Tal era o descontentamento de Bertrand Russell com a Educação que, com sua segunda mulher, Dora Black, fundou a escola experimental de Beacon Hill. O empreendimento, que durou cinco anos, deu origem ao livro Educação e Ordem Social. Em Beacon Hill, o casal pôs em prática algumas das convicções do filósofo na área pedagógica. Para ele, a escola deveria tornar as crianças livres intelectual e emocionalmente, mas não que isso seria conquistado simplesmente proporcionando um ambiente de liberdade. Russell não acreditava em desenvolvimento espontâneo nem em virtude inata. Só um esforço intencional construiria nelas o senso de cooperação necessário para a vida em sociedade.

Mas todo cuidado era pouco contra os perigos da autoridade, que, segundo ele, desenvolve comportamento submisso ou rebeldia gratuita. Pior ainda: criava um círculo de autoperpetuação da tirania, porque os que sofreram a repressão adquirem a vontade de exercê-la. Sem a presença de um adulto regulador, no entanto, as crianças tenderiam a se organizar segundo a lei do mais forte, gerando brutalidade. Embora defendesse a função da escola como veiculadora de cultura, Russell lamentava que o efeito freqüentemente fosse o contrário: os alunos adquirem prevenção contra o saber porque não são apresentados a ele como uma fonte de prazer. Num raciocínio análogo, ele identificava no sistema educativo tradicional um traço de sadismo e gosto pela punição perceptíveis mesmo em alguns professores e diretores que se consideravam imbuídos das mais generosas intenções. Muitos adultos, dizia, nem sequer percebem que não gostam de crianças, condição essencial para convencê-las a adotar comportamentos de autocontrole e disciplina. A missão civilizatória e pacificadora da escola só pode ser assegurada com uma nova mentalidade, dizia. Um dos hábitos a deixar de lado era a glorificação dos heróis de guerra. Outra providência, banir o ensino religioso. "Não há nos Evangelhos uma só palavra de louvor à inteligência", escreveu o filósofo.

Biografia

Acadêmico e agitador
Russell:
Russell: "O problema é que
os imbecis são categóricos;
e os inteligentes, cheios de
dúvidas".

Foto: Hulton/Getty images

Bertrand Russell nasceu em 1872 em Trelleck, País de Gales, numa família aristocrática. Seu avô havia sido primeiro-ministro britânico duas vezes. Aos 6 anos, já estava órfão. Foi criado pela avó e educado em casa. Ingressou no Trinity College, da Universidade de Cambridge, aos 18 anos, para estudar Matemática e depois Filosofia. Seus dois primeiros livros como autor foram sobre geometria e política alemã, inaugurando o hábito de escrever tanto obras científicas quanto livros de interesse social. Em 1907, concorreu sem sucesso a uma vaga no Parlamento por um partido feminista. Uma atividade intensa no campo da lógica resultou em Princípios da Matemática (1913), cuja elaboração lhe custou um enorme esforço intelectual encerrado em impasse. Sua vida mudou com o segundo casamento e a descoberta de que tinha talento para escrever sobre assuntos difíceis de maneira coloquial. Os trabalhos na Matemática seguiram com mais vagar e cheios de percalços.

A Primeira Guerra Mundial deu início a uma série de campanhas pacifistas, em que Russell se engajou até o fim da vida. Na década de 1920, fundou e administrou uma escola (leia o quadro na página 72). Entre 1938 e 1944, viveu nos Estados Unidos, onde foi impedido de dar aulas, pelo City College de Nova York, devido a suas opiniões a respeito de sexo e casamento, consideradas permissivas. Tornou-se cada vez mais uma referência intelectual, com livros como Por Que Não Sou Cristão e A Conquista da Felicidade. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1950. Morreu em 1970, aos 97 anos, deixando viúva sua quarta esposa.

"Os homens nascem ignorantes, não estúpidos; é a educação que os torna estúpidos"

Para pensar

Um dos alvos prediletos do autor de Educação e Ordem Social eram as doutrinas intransigentes, que considerava "o túmulo da inteligência". Em sua experiência de educador, você já percebeu nas escolas tendências de infundir idéias preconcebidas em vez de estimular a capacidade de análise dos alunos? E já avaliou sua prática profissional desse ponto de vista?

"Com os métodos modernos de educação e propaganda, tornou-se possível doutrinar toda uma população com uma filosofia que não tem bases racionais para ser verdadeira"


Quer saber mais?

História da Educação, Paulo Ghiraldelli Jr., 240 págs., Ed. Cortez, edição esgotada

O Melhor de Bertrand Russell, Bertrand Russell, 176 págs., Ed. Bertrand Brasil, tel. (21) 2585-2070 , 33 reais


Fonte: Revista Nova Escola - Edição 193 - 06/2006

Veja  a imagem em: conversapramae.wordpress.com/category/educacao 

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Louise - Parabéns pela Primeira Eucaristia!









Minha querida filha Louise,

Que este sacramento seja recebido por você com muito carinho e amor . Desejo que você guarde em seu coração, todos os ensinamentos adquiridos para receber este ato consagrado.

E que estes ensinamentos lhe auxiliem, na trilha de novos caminhos para sempre em sua vida.

Que este coraçãozinho continue cheio de amor, fé e bondade.


com carinho...


da mamãe Marise.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Contra o corporativismo - Entrevista Paulo Renato Souza

O secretário da Educação de São Paulo diz que sem meritocracia não haverá avanços na sala de aula - e que os sindicatos são um entrave para o bom ensino.


Por Monica Weinberg


Lailson Santos (imagem)



"É preciso premiar o esforço e o talento para tornar a carreira de professor atraente. O bom ensino depende disso"

Criar um sistema capaz de atrair os melhores alunos para a carreira de professor é imperativo para um ensino de alto nível. Daí a relevância da aprovação, na semana passada, de um projeto concebido pelo economista Paulo Renato Souza, 64 anos, secretário estadual da Educação em São Paulo. Trata-se de um plano de carreira para os professores inteiramente baseado na meritocracia, conceito ainda raro nas escolas brasileiras e repudiado pelos sindicatos, seus principais adversários. "Os sindicalistas são um freio de mão para o bom ensino", resume o ex-ministro da Educação no governo Fernando Henrique, que reconhece avanços na implantação dos rankings no Brasil e da cobrança de resultados com base neles, mas adverte: "É preciso discutir a educação com mais objetividade e menos ideologia".

Um relatório recente da OCDE mostra que o Brasil foi o país que mais aumentou o investimento na educação em proporção ao total dos gastos públicos - mas muitos se queixam de falta de dinheiro nas escolas. Estão certos?
O maior problema no Brasil não é a falta de dinheiro, mas como esses recursos são empregados - em geral, de maneira bastante ineficaz. Daria para obter resultados infinitamente superiores apenas fazendo melhor uso das verbas já existentes. Prova disso é que, com orçamento idêntico, algumas escolas públicas oferecem ensino de ótima qualidade e outras, de péssimo nível.

O que explica isso?
As boas são comandadas por diretores com uma visão moderna de gestão, coisa raríssima no país. Não existe no Brasil nada como um bom curso voltado para treinar esses profissionais a liderar equipes ou cobrar resultados, o básico para qualquer um que se pretenda gestor. Quem se sai bem na função de diretor, em geral, é porque tem algo como um dom inato para a chefia. A coisa funciona no improviso.

As avaliações sempre chamam atenção para o despreparo dos professores brasileiros. A que o senhor atribui isso?
Às universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.

"Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. Essa apologia da ausência de método só atrapalha"

Como isso se reflete nas escolas?
Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas, inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir
o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer ciência pressupõe um método. No ensino superior, há também inúmeras mostras de como a ideologia pode sobrepor-se à razão.

O senhor daria um exemplo?
Existe um terrível preconceito nas universidades públicas contra o setor privado. Ali, qualquer contato com as empresas é visto como um ato de "venda ao sistema". Como se as instituições públicas fossem sustentadas por marcianos e não pelo dinheiro do governo, que vem justamente do sistema econômico. O resultado é que, distantes das empresas, as universidades se tornam menos produtivas e inovadoras.

Em muitos países, as universidades públicas cobram mensalidade dos estudantes que têm condições de pagar. Seria bom também para o Brasil?
Sem dúvida. Só que esse é um tabu antigo no país. Se você defende essa bandeira, logo o identificam como alguém que quer privatizar o sistema. Preservar a universidade gratuita virou uma questão de honra nacional. Bobagem. É preciso, de uma vez por todas, começar a enxergar as questões da educação no Brasil com mais pragmatismo e menos ideologia.

Na semana passada, foi aprovado em São Paulo um novo plano de carreira para professores e diretores. Esse tipo de medida tem potencial para revolucionar o ensino nas redes públicas?
Planos de carreira são essenciais para tornar essas profissões novamente atraentes, de modo que os melhores alunos saídos das universidades optem por elas. Sem isso, é difícil pensar em bom ensino. O plano de São Paulo não apenas eleva os salários, o que é um chamariz por si só, mas faz isso reconhecendo, por meio de avaliações, o mérito dos melhores profissionais. Ou seja: esforço e talento serão premiados, um estímulo que a carreira não tinha. A meritocracia consta de qualquer cartilha de gestão moderna, mas é algo ainda bem novo nas escolas brasileiras.

Os principais adversários do projeto foram os sindicatos desses profissionais. Que lógica há nisso?
É uma manifestação de puro corporativismo. Pela nova lei, só poderão pleitear aumento de salário aqueles professores assíduos ao trabalho - um pré-requisito mais do que razoável. É o mínimo esperar que, para alguém almejar ascender na carreira, ao menos compareça ao serviço. Apenas o sindicato não vê desse jeito. Ele encara as "faltas justificadas" como um direito adquirido. E ponto. Não quer perdê-lo. Mas repare que eu não estou dizendo que os professores ficarão sem esse direito. Só estou tentando fornecer um estímulo adicional para que eles deem suas aulas. O último levantamento que fizemos mostra que a média de ausências na rede estadual de São Paulo é altíssima: foram trinta faltas por docente apenas em 2008. Ao resistir a uma medida que premia a presença na escola, o sindicato dá mais uma mostra de como o espírito corporativista pode sobrepor-se a qualquer preocupação com o ensino propriamente dito.

"No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por perder tempo com discussões teóricas que, não raro, se baseiam em conceitos sem nenhuma comprovação científica"

O movimento sindical passa ao largo da preocupação com o bom ensino?
É exatamente isso. Está claro que os sindicatos estão focados cada vez mais no próprio umbigo e menos nas questões relativas à educação. Entendo, evidentemente, que lutem pelos interesses da categoria, propósito de qualquer organização do gênero. Mas a qualidade do ensino, que é de responsabilidade social deles, deveria vir em primeiro lugar. Em 1984, quando fui secretário da Educação em São Paulo pela primeira vez, já se via essa forte tendência nos sindicatos. Em reuniões com os professores, palavras como aluno ou ensino jamais eram mencionadas por eles. Apenas se discutiam ali os interesses da categoria. E esse problema só piora.

O que causa a piora?
O movimento sindical politizou-se a um ponto tal que não se acham mais nele pessoas realmente interessadas em educação. Estas debandaram. Hoje, os sindicatos estão tomados por partidos radicais de esquerda sem nenhuma relevância para a sociedade. Para essas agremiações insignificantes, o sindicalismo serve apenas como um palanque, capaz de lhes dar uma visibilidade que jamais teriam de outra maneira. É aí que tais partidos aparecem e fazem circular seu ideário atrasado e contraproducente para o ensino. Repare que esses sindicalistas são poucos - e estão longe de expressar a opinião da maioria. Mas têm voz.

Com a nova lei fica determinado que, para pular de nível na carreira, o professor seja submetido a uma prova. Por que os sindicatos rejeitaram a ideia?
É lamentável que um grupo de professores critique a existência de uma prova. Veja o absurdo. Eles alegam que um exame os obrigaria a estudar mais e que não têm tempo para isso. A crítica expressa também uma resistência à avaliação, que até hoje se vê arraigada em certos setores da sociedade brasileira.

Nisso o Brasil destoa de outros países?
Em culturas mais individualistas e competitivas, como a anglo-saxã, as aferições do nível dos professores e do próprio ensino não são apenas bem-aceitas como têm ajudado a melhorar as escolas, na medida em que fornecem um diagnóstico dos problemas. Os professores brasileiros que agora resistem a passar pela avaliação certamente não estão atentos a isso. Sua maior preocupação é lutar por direitos iguais para todos - velha bandeira que ignora qualquer noção de meritocracia. Por isso, eles se posicionaram contra uma regra do projeto que limita o número de promoções por ano: não mais do que 20% dos profissionais poderão subir de nível. É um teto razoá-vel: evita um rombo no orçamento e, ao mesmo tempo, promove uma bem-vinda competição. Demandará mais empenho e estudo dos professores - o que não lhes fará mal.

No campo salarial, premiar o mérito significa romper com o conceito da isonomia de ganhos para todos os funcionários. Esse não é um valor que deveria ser preservado?
Não. Já é consenso entre especialistas do mundo todo que aumentos concedidos a uma categoria inteira, desprezando as diferenças de desempenho entre os profissionais, não têm impacto relevante no ensino. O que faz diferença, isso sim, é conseguir premiar os que se saem melhor em sala de aula. A isonomia é uma bandeira velha.

Há experiências no Brasil com a concessão de bônus aos melhores professores. Isso funciona?
Sem dúvida. Quando há um sistema feito para reconhecer e premiar os talentos individuais, a eficácia das políticas públicas para a educação aumenta. Coisa de quinze anos atrás, o Brasil estava a anos-luz disso. Não havia informação sobre nada - nem mesmo se sabia o número de escolas no país. O dado variava entre 190 000 e 230 000 colégios, dependendo da fonte. Hoje, já dá até para comparar o ensino de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, com o das escolas da Finlândia. Desse modo, é possível traçar metas bem concretas para a educação e cobrar por elas - alicerces para uma boa gestão em qualquer setor.

Já se formou um consenso no Brasil de que esse é o caminho acertado?
Acho que sim. Nos primeiros anos de governo Lula, os petistas chegaram a pôr em xeque a ideia de que a qualidade do ensino precisa ser aferida com base em dados objetivos. Foi um retrocesso. Mas hoje o MEC norteia suas políticas com base em avaliações, metas e cobrança de resultados. Diria que eles chegam até a exagerar na dose, divulgando rankings que, como ministro, eu mesmo preferia não trazer a público. É o caso do Enem.

O Enem não é um bom indicador da qualidade do ensino em escolas públicas e particulares?
O problema é que, como só faz o exame quem quer, ele não necessariamente traduz a qualidade de ensino na escola como um todo. E se apenas os bons alunos de determinado colégio se submeterem à prova? O retrato sairá distorcido. Grosso modo, o Enem até espelha bem a realidade. Mas, como a amostra de alunos de cada escola é aleatória, há espaço para que se cometam injustiças. Em tese, qualquer colégio particular que se sentisse prejudicado pelo ranking poderia processar o MEC. De modo geral, porém, sou absolutamente favorável a que se lance luz sobre os resultados. O monitoramento deve ser constante.

No começo do ano, flagraram-se em material que seria distribuído às escolas pela Secretaria Estadual da Educação erros crassos, tais como a inclusão de dois Paraguais num mapa da América
do Sul. Faltou fiscalização por parte do governo?
Sem dúvida. Ainda que o material não seja produzido pela secretaria, é de responsabilidade dela que não passem erros. Não há o que argumentar aí. Depois do episódio, os cuidados foram redobrados. Cada livro é revisado de três a quatro vezes. Apostila com erro é um desserviço à educação - e desperdício de dinheiro público.


Fonte: Revista Veja

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A sensatez ( Herbert Viana) É PRA PENSAR

Essa pergunta foi à vencedora em um congresso sobre vida sustentável.

“Todo mundo ‘pensando’ em deixar um planeta melhor para nossos Filhos… Quando é que ‘pensarão’ em deixar filhos melhores para o nosso planeta?”

Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro de casa e recebe o exemplo vindo de seus pais, torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta onde vive…

...É de se pensar... e colocar em prática.

Fonte: Recebi por e-mail da minha amiga Márcia Fronza de Caxias do Sul, obrigada.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Filosofar é preciso




Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz. Jovens ou velhos, devemos sempre filosofar; no último caso, para rejuvenescermos ao contacto do bem, pela lembrança dos dias passados, e no primeiro, para sermos, embora jovens, tão firmes quanto um ancião diante do futuro. É mister, pois, estudar os meios de adquirir a felicidade; quando a temos, temos tudo; quando a não temos, fazemos tudo por adquiri-la.
 
Epicuro, in "A Conduta na Vida"

Veja abaixo a imagem em: www.setubalpeninsuladigital.pt/.../

sábado, 17 de outubro de 2009

Uma bela homenagem da Prof. Dra. Maria da Conceição Nogueira , aos professores.

Um belo texto literário da Prof. Dra. Maria da Conceição Nogueira , em homenagem ao professor em geral e em particular aos professores reformados que em regime de voluntariado, acrescentam mais-valia aos utentes e cidadãos com direito à ginástica inteletual, à fuga ao isolamento e à felicidade do dia-a-dia.

E porque a “aula” tem uma qualidade literária de registar, registámo-la aqui, como leitura obrigatória.

Dra. Maria da Conceição Nogueira

PRESENTE – PASSADO – FUTURO - Intertexto literário e de experiência pessoal

«Perfeito é não quebrar

A imaginária linha.»

«Pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.»

É sob a epígrafe destes versos de Sophia de Mello Breyner, essa Deusa da Palavra, que inicio esta modesta intervenção, para, dentro das minhas possibilidades – prestar homenagem ao Professor, essa figura tão ensombrada, objecto de tantas polémicas, neste mundo labiríntico e conflituoso em que nos encontramos.

Retomando a epígrafe inicial deste texto, quero sublinhar que contra este mundo caótico surge a voz de Sophia com a sua palavra feita de «fio de linho».

«Pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.»

Palavras feitas de “fio de linho” – fio inquebrável, incorruptível, fio de que é feita a “túnica sem costura” – tecido divino, puro, subtil.

Quer dizer, as palavras de Sophia revestindo-se da pureza e consistência do linho, revelam-nos a inteireza do seu ser e a fidelidade à demanda de um Reino:

«Perfeito é não quebrar

A imaginária linha.»

À demanda de um Reino, Reino que se opõe a habitat, o mundo em que vivemos.

Reino é aquele que cada um constrói e conquista, é a aliança que cada um tece na demanda de algo sem limites, impulsionado por um crescente desejo de conhecer, por uma paixão sempre insatisfeita.

Cito ainda Sophia:

«As imagens atravessam os meus olhos

E caminham para além de mim.»

«Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor.»

Neste mundo conturbado em que vivemos, no habitat em que nos sentimos fechados, a poesia de Sophia transporta-nos para um mundo de amplidão, de claridade – um mundo de sentido misterioso, em que as fontes de inspiração surgem transformadas em exemplos de pureza, de perfeição, de harmonia.

Mas, porquê citar Sophia de Mello Breyner?

É que para Sophia escrever é uma missão, tal como conhecer é um anseio de partilha com os outros:

«A poesia (…) pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.»

É que Sophia vive sempre atenta para “dar nome às coisas”, denunciá-las, descobrir-lhes o sentido:

«Ia e vinha

E a cada coisa perguntava

Que nome tinha.»

Eis a sua Inscrição, isto é, o seu compromisso com a realidade circundante, o seu profundo empenhamento, a sua constante disponibilidade.

Não deverá ser esta também a Inscrição do Professor?

O mundo que Sophia nos aponta não servirá de paradigma para o transmitirmos aos que nos sucedem?

Após este momento de reflexão, proponho uma “viagem” através de significativos, melhor, plurissignificativos textos literários que, cruzando-se com a minha experiência docente, documentarão a temática proposta – PASSADO – PRESENTE – FUTURO.

Esta trilogia temporal, inserida, aliás, nos conteúdos programáticos escolares, além de ser uma das preocupações básicas de todo o ser humano, constitui uma manifestação evidente desde a Arte Clássica até à Modernidade, continuando no tempo actual.

Assim, Horácio, poeta latino, que viveu no século I a.C., finaliza o seu III Livro das “Odes”, dizendo: “Acabei um monumento mais duradoiro que o bronze, mais alto que as pirâmides: nem a chuva que desgasta, nem o vento desabrido o poderão destruir, nem a sucessão interminável dos anos ou a fuga do tempo. Não morrerei completamente: uma grande parte de mim mesmo escapará à Morte. Crescerei continuamente, e a posteridade, pelos seus elogios, conservar-me-á jovem.

Este pensamento e “modus vivendi” horacianos vão ressurgir no Modernismo, em Ricardo Reis, o heterónimo neoclássico de Fernando Pessoa, que adoptou para a sua produção poética o mesmo título da do escritor latino – “Odes”. Aliás, era este o seu livro de cabeceira.

Assim, numa das Odes reisianas, ler-se-á:

«Seguro assento na coluna firme

Dos versos em que fico,

Nem temo o influxo inúmero futuro

Dos tempos e do olvido.

(…)

Assim na placa o externo instante grava

Seu ser, durando nela.»

Ambos os textos que acabamos de ler reflectem a concepção da imortalidade do Artista através da obra realizada. Quer dizer, o Presente inclui não só o Passado como também o Futuro.

E até Álvaro de Campos, o “poeta sensacionista e por vezes escandaloso”, como o define o próprio Pessoa na sua conhecida carta a Casais Monteiro, sobre a génese dos heterónimos, até Álvaro de Campos – o mais modernista dos diversos “eus” ou “não-eus” de Pessoa, o engenheiro naval, autor de um extenso cântico ao Progresso – a “Ode Triunfal” – onde exalta a máquina, a velocidade, a força mecânica, admite a fusão de todos os tempos num único – o Momento absoluto:

«Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.

Porque o presente é todo o passado e todo o futuro.»

Ocorre-me neste momento o controverso conceito de Saudade de Teixeira de Pascoaes, alvo de juízos tão contraditórios. Eis uma citação de uma das suas obras “Regresso ao Paraíso”, definindo a “lírica Figura” da Eva paradisíaca:

«Sou a esperança, ou antes a saudade:

A esperança é saudade do futuro,

A saudade é esperança no passado.»

Quer dizer, a saudade tem um poder presentificador, tanto do passado como do futuro. Se o que foi ainda é, por virtude da memória; o que há-de ser, já é, por virtude da fantasia. Em resumo, Saudades do que foi e do que há-de ser.

Não poderia continuar este percurso literário sobre a “presença da ausência”, sem citar um conhecido excerto do “Prefácio dos Azulejos do Conde de Arnoso”, em que o imortal escritor poveiro, Eça de Queirós, nosso conterrâneo, por meio de um registo de discurso abstracto, amplifica a ideia de “ficabilidade”, isto é, a ideia de “duração” através da obra escrita, alargando-a a toda a Arte: “... a Arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida – que é não ser apagada de todo pela morte. (...) ... a única esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a fama, essa imortalidade relativa que só dá a Arte”. E quase a finalizar, acrescenta: “ A Arte é tudo porque só ela tem a duração – e tudo o resto é nada!”. Inicia ainda o parágrafo seguinte por um discurso repetitivo que termina particularizando o valor do livro: “ A Arte é tudo – tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo”.

Relembro, também, Agustina Bessa-Luís. O seu romance A Sibila é essencialmente o tempo de Quina, a protagonista, à procura do ser, isto é, a personagem entrega-se a um tempo absoluto donde resulta a abolição momentânea do tempo, colocando a personagem numa situação mítica. Quina não é apenas um indivíduo vivendo o seu tempo, ela confunde-se com os seus predecessores, em busca do Arquétipo. Quer dizer, passado, presente e futuro estão dispostos num único plano, sendo em certo sentido simultâneos. A própria “Casa da Vessada” representa a fusão dos tempos: nela não se distingue apenas uma existência individual, mas os traços intemporais de uma geração.

Direi o mesmo da nossa Escola. As suas paredes, corredores, salas e objectos guardam marcas do Passado, falam-nos de quantos por lá passaram. Não são testemunhas totalmente mudas.

Como se lê em Os Incuráveis, outro romance de Agustina: “... muito depois da morte, enquanto uma impressão da nossa mão restar na superfície de um objecto que uma vez se tocou, o tempo ainda nos pertence”.

E cito ainda: “Há coisas muito estranhas... uma frase, como um gesto e um rosto sucedem-se intactos duma a outra época ...”.

Depois deste percurso literário – é assim que eu viajo – através de alguns dos magos da escrita, que estudei apaixonadamente com e para os meus alunos, que estudei e que continuo ainda a estudar, que me diz a minha experiência sobre este trinómio PASSADO – PRESENTE – FUTURO?

Professora de Português ao longo de três décadas, tive oportunidade de prosseguir o seguinte objectivo, que considero uma felicidade: “Fazer gostar aos outros aquilo de que gostamos”. Sentimo-nos, deste modo, projectados nos outros, naqueles a quem ensinamos, aprendendo; naqueles que, agora, felizmente, encontramos no nosso lugar. Disse muitas vezes, aos meus alunos: “Se tivesse de escolher novamente a minha profissão, escolheria a mesma.”

Assim se entende nesta perspectiva de Escola, a temática PASSADO – PRESENTE – FUTURO – Bola de Neve que se vai formando ao longo das gerações. É que uma Escola não é apenas uma massa de cimento e pedra. Uma Escola implica toda uma geração que pode ser revivida em qualquer lugar e momento.

E dela fazem parte não só os vivos como os que já partiram, que só estarão verdadeiramente mortos, se os esquecermos.

Permitam-me um momento de presentificação para os nossos Grandes Ausentes, companheiros de trabalho, que viveram connosco lado a lado, partilhando o seu saber, a sua experiência, ajudando-nos a resolver as nossas dúvidas e problemas.

É que de uma Escola fazem parte os que por lá passaram, os que passam agora e os que passarão depois.

Para concluir: creio que todos nos sentimos fortemente ligados a esse espaço – a Escola – que nos une a todos. Portanto, Escola entendida como Geração, como espaço por onde caminhámos grande parte da nossa vida, se não a maior parte e por onde fomos deixando marcas de nós próprios. Razão tem Henri Frédéric Amiel, quando afirma em Fragmentos de um diário íntimo: “Chaque jour nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin” («Cada dia deixamos uma parte de nós mesmos pelo caminho»), reflexão que impressionou profundamente Miguel Torga, a ponto de a escolher como epígrafe para os dezasseis volumes do seu Diário.

E essa ligação de que falava faz com que o passado se torne continuamente presente, evoluindo para um futuro a que gostaria de lembrar a mensagem de Sebastião da Gama, de todos conhecida, mas quantas vezes esquecida: “O segredo é amar (...). Amar numa dádiva total (...) sem cálculo nem medida (...) a vida só é vida quando actuante na responsabilidade maravilhosa de nos sabermos vivos de olhos, ouvidos e coração abertos”.

A finalizar, um juízo crítico, que, de certo modo, poderá ser considerado a versão moderna destas palavras de Sebastião da Gama. É de George Steiner, autor de “Errata: Revisões de uma vida”: “Mesmo nas horas piores sou incapaz de abdicar da convicção de que as duas maravilhas que validam a existência mortal são o amor e a invenção do tempo futuro”.

Dra. Maria da Conceição Nogueira – Directora do “Boletim Cultural da Póvoa de Varzim”

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Agradeço ao amigo Miguel Loureiro pela oportunidade de publicar esse belo texto reflexivo da prof. Dra. Maria da Conceição Nogueira.

Fontes:http://rcpvarzim.blogspot.com/ e http://www.profblog.org/

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blogagem Coletiva - "Professores do Brasil"


Como sou filha de professora e fui aluna de minha mãe Nelvi Güntzel von Frühauf, não poderia deixar de dizer que ela , na qualidade de professora, me marcou profundamente . Digo isto pois nunca diferenciou "alunos que eram filhos" dos " filhos que eram alunos" . Vivíamos na zona rural do Rio Grande do Sul na década de 1960 e , com recursos escassos, sem luz elétrica, com limitações imensas conseguiu transmitir muitíssimo a seus alunos (filhos ou não).
A educação para ela sempre foi um modo do ser humano crescer. Para minha mãe (que também foi a professora que me alfabetizou) o importante era (e é ) "ser mais" do que "ter mais" .
Minha mãe começou a dar aulas na escola em 17 de outubro de 1954, quando tinha apenas 14 anos e 9 meses, e no ano seguinte em maio de 1955, passou no concurso do município, e se tornou professora municipal da Escola David Canabarro de Cotovelo do Jacuí – Distrito de Cochinho, pertencendo na época ao município de Não me Toque – RS.
Depois do meu nascimento, no ano letivo de 1963 minha mãe colocou um berço na escola, havia dois berços, uma parte do tempo passava na escola e outra em casa, já que meu pai era agricultor e na época os homens não cuidavam dos filhos (pensamento machista da referida época e que ainda predomina na cabeça de muitos homens).Lembro como se fosse hoje, riscando todos os livros da minha mãe, segundo minha mãe, eu só riscava os livros dela, respeitando os livros da escola que eram da “prefeitura”. Verifico nesta colocação que respeitar o bem público era uma honra, nesta época. Na época a escola contava de 50 a 60 alunos do 1º ano primário até o 5º ano, e dava-se aula na mesmo ambiente para as cinco classes, havia dois quadros negros, existia castigo para os alunos desobedientes.
Mudamos para casa em frente à escola no ano de 1964, e no ano seguinte caiu neve, tipo neve que só vemos na Europa ou na América do Norte, e eu só perguntava porque o tio Osvaldo está cortando os galhos de todas as árvores? A neve era tão pesada que estava quebrando os galhos das árvores do potreiro , imagens inesquecíveis que ficaram para sempre na minha memória. Para dizer a verdade são início da minha tomada de consciência da existência como pessoa.Minha mãe sempre foi muito dedicada à escola, a comunidade, e aos alunos, muitas vezes, eu e meus irmãos sentíamos muito ciúmes desta dedicação, deste carinho tão especial, depois de tantos anos, nós reconhecemos esta dedicação, que falta hoje nas nossas escolas.
Todos os filhos da minha mãe, meus irmãos são professores , mas o primeiro foi meu irmão Mirton Paulo von Frühauf, que ontem completaria 46 anos, era professor do Departamento de Química da Universidade de Passo Fundo ( com 21 anos de idade). Veio a morrer de acidente de carro (25-01-1986 com 22 anos), no município de Tapera, numa visita aos nossos pais. Esta morte marcou profundamente a nossa vida e principalmente da minha mãe, pois o meu irmão Mirton foi o primeiro a concluir um curso universitário, e estava muito feliz no dia da sua morte, confessou “que não tinha pensado chegar aonde chegou”, estava lecionando na faculdade desde a sua formatura em 1984. Após o sepultamento “comissão da secretária de educação da prefeitura” veio aposentar minha mãe, que era professora há mais de 31 anos. Ela estava desesperada pelo fato de ter perdido o filho. Para piorar surgiu esta aposentadoria forçada. Não tenho como descrever o momento. Foi como se ela tivesse perdido mais um filho , o desespero tomou conta.
Para minha mãe a coisa mais importante é a educação, o conhecimento, a formação. Pois formação e conhecimento ninguém tira, e o sonho dela era que todos os filhos fizessem uma faculdade, sonho realizado com louvor.
Nunca é tarde para começar, e todos que trabalham com meus pais, ela incentiva a estudar, e acaba perdendo os seus empregados, pois os mesmos seguem os seus conselhos.
Sendo que todas pessoas em Victor Graeff, conhecem a minha mãe como “a professora Nelvi”.
Para minha mãe não existe tesouro maior que o conhecimento e a formação.

E minha homenagem é para minha mãe:
Nelvi Güntel von Frühauf (professora em Victor Graeff – RS)


E também para meus queridos irmãos professores:

Marcos – Professor Biologia em Santa Cruz do Sul – RS
Moacir – Foi professor numa Universidade de Feira de Santana – Veterinário e Administrador - Feira de Santana - BA.
Márcia – professora de Química em Rio Grande e mestranda na FURGS – Rio Grande - RS.

E aos meus dois irmãos já falecidos, que também eram professores:
Mirton - professor da UPF – Passo Fundo –RS.
Marilei - professora do Ensino Fundamental I em Não-Me-Toque – RS. 



Escola David Canabarro em 20 de Agosto de 1965 - Victor Graeff - RS.


Parabéns a todos "Os Professores do Brasil".

Marise - Mogi das Cruzes - SP.



Essa postagem faz parte da blogagem coletiva promovida pelo blog Ponderantes, do grande amigo Valdeir Almeida .

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