domingo, 10 de janeiro de 2010

Descrição de um projeto interdisciplinar que faz sentido na vida do aluno


Dado que não possuo (ainda) experiência própria em projeto interdisciplinar, descrevo o projeto que minha irmã, professora Márcia Von Frühauf Firme(professora de química) desenvolveu no Rio Grande do Sul: Foi partido do princípio que as pessoas não aprendem com finalidade prática. Deste modo o aprendizado torna-se extremamente maçante, aborrecido. Em geral não nos preocupamos com os motivos que levam uma coisa a ser ensinada nas escolas. Deste modo o ato de aprender transforma-se em algo sem nenhum atrativo.

Assim, os conceitos introduzidos não se fixam e não são adicionados ao "pool" de conhecimentos do aluno formando elementos com os quais o indivíduo possa raciocinar depois.

É imperativa a pergunta: " Aprender isto ou aquilo para que?".

A importância desta pergunta torna-se mais gritante em alunos do assim chamado EJA (educação de jovens e adultos). As coisas dadas em aula estão distantes daquilo que estas pessoas vivem. Assim , surgiu , durante uma aula de química do EJA um debate sobre produtos de limpeza e materiais de construção. Durante este debate , uma aluna estagiária do curso de licenciatura em química foi questionada sobre estes tópicos. Para que ela pudesse opinar ficou combinado que os alunos trariam rótulos e diversos produtos na próxima aula. Isto foi o embrião deste trabalho. Após isto resolvemos continuar com o assunto, tal foi o interesse despertado. Começou-se a perceber que as coisas ensinadas ali tinham " alguma coisa" a ver com a "vida real" (palavras de um aluno). Assim foi realizado este projeto com os alunos do EJA do ensino médio da Escola Estadual Silva Gama no balneário do Cassino na cidade de Rio Grande (RS) nos anos de 2005 e 2006. Envolveu as disciplinas de química, história , geografia, física , artes e português.

A divisão dos grupos foi realizada de acordo com a área de atuação dos integrantes.Deste modo, as pessoas que trabalhavam na área de construção atuariam com cimento e cal (por exemplo) . Clorofina (conhecido nome comercial de água sanitária no Rio Grande do Sul), sabão em pó , sabão, detergente, ceras e desinfetantes para quem trabalha com produtos de limpeza. Finalmente deixamos os inseticidas para os que não tinham trabalho definido ou não quiseram ficar em outros grupos.

A pesquisa deveria englobar o histórico , o surgimento e a evolução destes materiais no cotidiano dos alunos.

Esta pesquisa foi realizada através da internet, de revistas, de jornais, das próprias embalagens dos produtos , de livros e de fornecedoras destes materiais.

Após três meses de pesquisa , às quartas-feiras , dia reservado para formação continuada dos professores do EJA do estado do Rio Grande do Sul, os projetos começaram a ser apresentados pelos grupos.

A apresentação oral foi realizada para a turma e os professores envolvidos . O projeto escrito deveria conter capa, sumário, introdução, desenvolvimento, anexos, conclusão e bibliografia. A avaliação seria para todo o grupo , mas individual na apresentação oral.

Os alunos utilizaram vários recursos tais como folhetos, cartazes, experimentos, propuseram novas embalagens e rótulos, esclareceram o significado das cores nas embalagens de inseticidas e nos símbolos das roupas (para lavagem) durante a apresentação oral.

Os experimentos foram sugeridos pela professora e auxiliados pela estagiária de química que apresentou algumas reações durante as aulas.

Muitos foram os questionamentos dos alunos: o tamanho das informações contidas nos rótulos , a largura dos bicos dos produtos para aumento do consumo , os produtos vendidos em embalagens reaproveitadas, o desinteresse no uso de equipamentos de proteção e a importância de usá-los .

No final das apresentações, todos os professores perceberam o desenvolvimento dos alunos em termos de conhecimento, de visão crítica e de auto-estima.

No final do ano letivo de 2006, muitos destes professores perceberam que os alunos aprenderam muito mais do que apenas o conteúdo tradicional, como: capacidade de leitura e interpretação, expressão oral e escrita, respeito ao outro, trabalhar em grupo, resolver problemas em grupo.

Um projeto como este pode: em primeiro lugar despertar o interesse dos alunos sobre assuntos que eles não julgavam que tivessem aplicação prática; em segundo lugar mostrar como pode ser feita uma pesquisa e não a simples cópia (principalmente o tão atual "control c e control v" tão na moda); também incorporou uma série de conceitos deste assunto no intelecto dos alunos com os quais os mesmos raciocinam e dos quais dificilmente se esquecerão.

Em abordagem paralela , narro um fato que este projeto me fez recordar: há cerca de 26 anos atrás , um saudoso professor (daqueles que infelizmente não existem mais ) perguntava de hábito a sua classe de química (como aula inaugural): - O que é ciência? Os alunos gritavam, outros ficavam em silêncio, outros falavam baixo. O professor então dava sua definição de ciência: - Ciência é um caminho para descobrir o que não sabemos. Depois mostrava aos alunos uma caixa de sapatos vedada com fita adesiva. Ele dava a caixa a um dos alunos e perguntava o que a caixa continha. Uma das respostas foi : - tampinhas de garrafa. O professor perguntava o nome do aluno e dizia : Eis a hipótese de Fulano ( o nome do aluno). Outro aluno dizia que a caixa continha parafusos e outro ainda dizia que ela continha arruelas. O professor perguntava o nome dos que tinham arriscado palpites dizia: eis as hipóteses de Fulano, Cicrano e Beltrano, notem entretanto que as três hipóteses concordam que os objetos aqui dentro são de natureza metálica. E por aí ia. No final ele fazia analogias com muitíssimos conceitos científicos e aquela caixa de sapatos. Ou seja, este homem não nos ensinou apenas química. Ele nos ensinava a pensar.


Marise.


*** Atividade desenvolvida para a disciplina: Tendências Atuais da Educação - Julho 2008.


Um comentário:

Mari Amorim disse...

amada,
adorei o post
deixo-lhe um haikai para desejar um ano cheio de luz
chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora
Boas energias
Mari

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