segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Uma bela contribuição do Amigo Miguel Loureiro



Estou publicando um texto do Filósofo Agostinho da Silva
que o amigo Miguel Loureiro do blog Rotary Club da Póvoa de Varzim , deixou no comentário sobre o post "O trabalhar e sofrer" de autoria da escritora Lya Luft.
Obrigado Miguel e Em@ ( que citou o Filósofo no comentário).

A Escola, pelo filósofo Agostinho da Silva

Não podemos negar que a escola não deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência —, todas as condições para virem a ser o que são agora; se não saíram da escola com amor à escola, a culpa não é deles, mas da escola. Acresce ainda que, lançados na vida, a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orientações de espírito, para lhes pedir a sua colaboração, o seu interesse na educação das gerações mais moças. Houve um corte de relações, quando a sua manutenção poderia ainda de algum modo apagar as más lembranças que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora à nossa volta paixão e rancor? Tivemo-los nas nossas mãos e não fizemos por eles tudo quanto podíamos, mesmo com as possibilidades económicas e pedagógicas de que nos cercara o meio; em nós temos de reconhecer o principal defeito; por consequência, também em nós a principal causa do ataque.


Agostinho da Silva, in 'Glossas'
Imagem: acervo pessoal - Escola Antônio Olgário

13 comentários:

Em@ disse...

Marise:
O professor Agostinho da Silva foi daqueles homens epcionais a quem a sociedade e o estado português não deu o devido valor.Foi memso um mal-amado. No final da sua vida, quando regressou a Portugal, ainda lhe dedicaram alguma atenção. Mas nunca aquela que ele merecia e merece ainda hoje. Amo de paixão este homem e o que ele nos ensinou. Não perdia uma entrevista ou programa com ele, fosse na rádio e ou televisão (as conversas vadias da RTP1). Não tenho toda a sua obra escrita, mas ando sempre à procura.
Temos tanto a aprender com este professor, poeta e filósofo prático e livre pensador.

Deixo-te aqui, também dele:
O Professor como Mestre

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.

A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

Beijinhos

Nota: Vou colocar um vídeo dele no blog.

Marise von disse...

Olá Em@,

Agradeço pela postagem do seu comentário,irei postar o mesmo amanhã como post.
Hoje li vários textos do prof. Agostinho da Silva e fiquei impressionada. Ele é um exemplo a seguir. E pode ter certeza que santo de casa não faz milagre.
Graças a Internet, podemos divulgar e promover algumas pessoas esquecidas, que merecem serem lembradas e seguidas.
Obrigada Em@ e um grande abraço,
Marise.

Em@ disse...

Marise:
Nâo tens que agradecer. Isto é partilha.
Se te der jeito vê o vídeo que postei com uma entrevista dele.
Beijinho e um abração.

Vera Y. Silva disse...

A Marise (que é professora) leu realmente o texto? O que lá diz é que os alunos são umas marionetas passivas que só não se tornarão excelentes pessoas se não receberem os estímulos certos - a responsabilidade nunca é deles. De quem é a responsabilidade? Dos professores, dos pais, do chefe do governo? Hum, isso são pessoas reais e não é agradável dizer mal de pessoas reais! Não, não, a responsabilidade é da ESCOLA. Mas o que é a escola senão os professores e os alunos? Fará sentido desresponsabilizar os alunos das consequências das suas acções?
E já agora: é assim tão evidente que o saber é menos importante que a formação da personalidade? E mesmo que seja, isso significará que o papel da escola é investir na formação da personalidade? Quem investirá então no saber? Ou o saber é tão pouco importante que não é preciso ninguém investir nele?
Sempre achei a conversa do Agostinho da Silva uma treta vaga (aquelas elocubrações sobre o 5º Império são um insulto à inteligência), mas este texto ultrapassa tudo!
A Marise devia tentar pensar um pouco antes de escrever. E a sua leitora Em@ também (aposto que agora vai deixar de seguir o meu blogue).

Em@ disse...

Marise:
Peço desculpa pelas gralhas no meu 1º post.

Corrigindo:
*...EXCepionais
*...mesmo

Beijinho

Em@ disse...

Vera Y. Silva:

A Vera tem direito à sua opinião , ponto, parágrafo.
Eu tenho dirito à minha opinião, ponto, parágrafo.
Podemos confrontar e discutir as duas.
Agora, deixe-me que lhe diga, não percebi a agressividade latente no seu comentário.
Assim como também não percebi o final desta frase :"E a sua leitora Em@ também (aposto que agora vai deixar de seguir o meu blogue).
Aposta porquê? O acto de seguir o seu blogue não é uma vontade minha? Era isso que a Vera faria se estivesse no meu lugar? Lamento, mas perdeu a sua aposta. Só deixarei de seguir o seu blogue se esse for o seu desejo.É só dizer, Vera. Smpre detestei impor a minha presença, mesmo que virtual.
Boa tarde.

Em@ disse...

O meu teclado é louco, come ou troca letras quando lhe dá na veneta...
Sorry!
Corrigindo:
*...direito
*...:"E a sua leitora Em@(...)."

Marise von disse...

Vera,
Agradeço a visita neste humilde recanto. Tento levar alguns pensamento para gerar reflexões e ao mesmo tempo a filosofar, isto quer dizer que, pensar é uma atividade constante, não conseguimos deixar de pensar, agora filosofar é bem diferente.
Penso eu, que nas diferenças é que crescemos. Você já imaginou como seria o mundo,se todos pensassem da mesma forma?
Vera,eu li o texto ( muitas vezes e fiquei imprecionada com o mesmo,este é o motivo pelo qual postei o mesmo no meu blog), e é o que eu penso, respeito a sua opinião...isto não vai mudar a minha.
E quanto a culpa ser da Escola, é sim, sabes por que?
Porque a Escola é o conjunto, direção, pais, professores, alunos e funcionários e todos devem trabalhar em conjunto... e quando não acontece isto, é porque a escola falhou. Como é o conjunto que falhou, não posso culpar o aluno ou o professor, ou até mesmo a direção...
Como dizia Aristóteles para atingirmos a felicidade é necessário o equilibrio, isto quer dizer que a formação do aluno deve ser equilibrada entre a formação de um cidadão consciente/reflexivo e o saber.

Abraços,
Marise.

Marise von disse...

Vera,
Eu penso muito, aliás todos nos pensamos...ninguém consegue deixar de pensar. Agora, refletir é diferente, é o que está em falta no momento.
A Ema é uma grande amiga, e mesmo que não fosse, eu não gostaria que tratasse mal os leitores do meu blog.
Como a Ema escreveu, ainda somos dotados de vontade própria.
E pelo que eu saiba, ainda somos livre ( até hoje) para escolher, optar , ainda existe liberdade...
O que é liberdade?
É uma boa pergunta para se pensar e refletir.
E até onde vai a nossa liberdade?

És bem-vinda ao blog, Com uma condição que não ofenda os meus leitores.
E não se esqueça, que nas diferenças que aprendemos e crescemos.
Abraços,
Marise.

Miguel Loureiro disse...

Vera Y Silva
Partindo do princípio de que se refere ao texto publicado e não ao da Ema, penso que tem que o ler de novo, porque a interpretação que fez não é a mesma de 3 pessoas, pelo menos.

"...desprezou os mal dotados..."

Por acaso os Sistemas Educativos estão estruturados para todos?

"...hes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência..."

Tem dúvidas, que antes do saber (Instrução), ou em paralelo, está a formação do carácter e o desenvolvimento da inteligência (Educação)?

"...a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura..."

Então o slogan: "aprender durante toda a vida, não é o que agora se diz e se faz-que-faz? Agora, porque no tempo em que Agostinho da Silva escreveu isto, as coisas não eram o que são.

Sobre o 5º Império, que vem bem descrito no seu livro "Educação de Portugal" é a utopia mais bonita que já se inventou para a lusofonia, um poema à cultura lusófona e um estímulo à auto-estima de quem tem ou se aculturou ao carácter de ser "português".

Cara Vera Y Silva
Adjectivar não é demonstrar e mesmo demonstrando não é seguro que se convença o outro que lê e pensa diferente. Agostinho sempre defendeu a diferença, por isso é que (talvez) não gosta dele...

Cumprimentos de quem discorda.

Em@ disse...

Marise:
Obrigada pelo carinho.
Beijinho

Austeriana disse...

Vinha eu comentar o post quando dou com outra vez com os insultos de Vera Y. Silva. Digo outra vez, porque a senhora deve andar a difundir fel por tudo quanto é blogue. Também apareceu no meu a dar sentenças; visitei mais dois blogues que costumo seguir e continuei a ler as declarações azedas; chego aqui e volto a encontrar as opiniões insultuosas desta senhora!
Marise, não vale a pena responder pois, como sabe, melhor do que eu, o Freud tem explicação para este tipo de declarações.
Abraço.

Marise von disse...

Austeriana,
Concordo com você, Freud explica...
Que é estranho é, quando não estamos acostumados, mas estamos aqui abertos para o mundo...e estamos sujeitos a comentários do tipo.
Obrigada e um grande abraço,
Marise.

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