quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Que tal educar seu filho como se fosse cachorro?

Um artigo da revista Época que nos faz pensar, refletir e rever valores. O mesmo está relacionado com a educação e a disciplina. Vale a pena conferir!


Pais recorrem a técnicas do adestrador de cães Cesar Millan para disciplinar as crianças. E garantem que funcionam.

Por Kátia Mello



SIMILARIDADES

Crianças e cães precisam de hierarquia e disciplina, certo? Com base nessa semelhança, pais americanos e ingleses estão adotando com seus filhos os princípios elementares de autoridade que Millan, o Encantador de Cães (abaixo), ensina na televisão .

Gregg Segal

O que leva pessoas aparentemente normais a adotar em casa, com seus filhos, formas de adestramento recomendadas por um treinador de cachorros? Nas últimas semanas essa pergunta vem sendo feita por veículos como o jornal americano The New York Times e o britânico The Guardian. Por meio de blogs, Twitter e redes sociais, a mídia anglo-saxã detectou uma onda de seguidores do programa de televisão O encantador de cães que dizem ter adotado técnicas de adestramento canino no cotidiano de seus filhos. No Brasil, o programa, apresentado pelo mexicano radicado nos Estados Unidos Cesar Millan, é veiculado no canal Animal Planet e, aparentemente, ainda não teve o mesmo efeito – ao menos por enquanto não se sabe de brasileiros que resolveram tratar seus filhos com a pedagogia pavloviana de esfregar o nariz sobre as poças de urina ou premiar com biscoitos as manifestações de obediência.

Bem, não são ordens como senta, levanta, deita ou dê a patinha que os pais americanos e europeus adeptos da canisterapia estão esbravejando para os filhos. Basicamente, o treinador Millan se apoia em três elementos para a “educação” de um cão: exercício, disciplina e afeto. Para ele, o mais importante é demonstrar quem está no comando. Se o cão não obedece, é porque ele não sabe quem é o chefe da matilha. Se ele é agressivo, a agressividade está diretamente ligada ao excesso de energia de seu dono. Com algum senso de humor, é possível perceber nas ideias de Millan as linhas gerais de um novo freudianismo, capaz de explicar, simultaneamente, a psicologia do animal e de seu cuidador.

A psicoterapeuta de crianças americana Brenna Hicks, autora do blog The Kid Counselor (A Conselheira de Crianças), afirma que adotou as ideias centrais de Millan, mesmo sabendo que um Canis lupus familiaris é muito diferente de um filhote de Homo sapiens. Em seu texto Raising kids: wisdom from the dog whisperer (Educando crianças: sabedoria de um encantador de cães), Brenna conta que, depois de assistir ao programa por causa de seus dois cachorros da raça beagle (Toby e Daisy), conseguiu encontrar aspectos em comum no comportamento de crianças e cachorros. Um deles seria a percepção sentimental. Ela diz que animais e pessoas são capazes de perceber como realmente nos sentimos em relação a eles, “mesmo se não expressarmos verbalmente nossos sentimentos”. Ou seja, se você está bravo, não adianta falar manso porque o cachorro e a criança vão notar. Ela ainda afirma que, tanto no treinamento de cachorros como na educação dos filhos, três princípios são fundamentais: determinação, respeito e segurança.

Para o Encantador de Cães, o essencial é mostrar quem está no comando. Pais perdidos adoram essa ideia.

Assim como Brenna, a educadora inglesa Judy Reith começou a ver o programa por causa de seu cachorro – no caso dela, um terrier chamado Ollie. Agora, Judy usa as mesmas técnicas ensinadas pelo treinador Millan em seus três filhos de 18, 15 e 10 anos, entre elas a imposição de limites. “Os pais querem se tornar amigos dos filhos porque raramente os veem. Mas às vezes é preciso ser impopular e impor regras”, diz Judy. Nem todo mundo, claro, concorda que crianças e cachorros merecem a mesma pedagogia. O psicanalista inglês Aric Sigman, autor do livro The spoilt generation (Geração de mimados), diz que é “ridículo” pensar em educar filhos como cães. Ele até consegue traçar um paralelo entre o modo como alguns mamíferos tratam seus filhotes e a maneira com que as mulheres cuidam de seus bebês – mas as semelhanças terminam aí.

Sigman e outros especialistas suspeitam que os pais perderam tanta autoridade sobre os filhos que ficaram totalmente sem referências sobre seu comportamento – e por isso agarram qualquer tipo de receita, por mais maluca que seja. O psicanalista inglês também aponta outra explicação para a falta de controle desses pais: o desaparecimento da hierarquia familiar. Sem noção de autoridade, as crianças passaram a desrespeitar as mais elementares regras caseiras. É aí que entra o charme eficiente de Cesar Millan. Ao tratar com animais de inteligência inferior – os cachorros –, ele adota procedimentos simples e diretos, que tentam fixar na mente limitada dos cães uma única percepção essencial: quem manda neles. A produtora americana de televisão Jenny Hope diz que adota as lições de Millan tanto para o cachorro da família, Heide, como para seu filho Rowan, de 3 anos. “As crianças adoram limites, assim como os cachorros”, diz ela. É possível que também adorem biscoitos de cachorro, banhos mensais e um cantinho no chão da cozinha para dormir apenas quando tiverem vontade – mas os pais que cederem a essas predileções poderão ter problemas com o Juizado de Menores.

Para os especialistas, o fascínio das famílias por soluções fáceis para seus problemas educacionais é consequência de vários fenômenos: pais que geram tardiamente seus filhos, redução no número de crianças nas famílias, aumento no número de pais que criam seus filhos sozinhos e, finalmente, pai e mãe que trabalham fora e delegam a educação de seus filhos a terceiros, às vezes por tempo integral. Por chegarem cansados do trabalho e por ter pouco tempo de lazer com os filhos, eles sentem-se constrangidos em punir as crianças quando os limites são ultrapassados. Ou então procuram recompensá-las com presentes pelo tempo em que não estiveram com elas. A psicoterapeuta Brenna Hicks diz que esse sistema de recompensas não funciona com as crianças – nem serve para os cães.

Autora do romance I don’t know how she does it (Eu não sei como ela faz), cujo tema é o estresse da maternidade moderna, a escritora americana Allison Pearson tem outra explicação para a dificuldade dos pais com as crianças. “Somos de uma geração em que a obediência era inimiga do amor. Não queríamos que nossos filhos tivessem medo da gente.” Resgatar a autoridade não significa, como muita gente imagina, ser menos doce, sensível ou amoroso em relação à criança. Allison diz que há uma lição a ser aprendida com os adestradores: “Diferentemente de pais modernos, os treinadores de cães não acreditam que a disciplina seja uma coisa ruim”.


Fonte: Revista Época

11 comentários:

Elenáro disse...

"Sigman e outros especialistas suspeitam que os pais perderam tanta autoridade sobre os filhos que ficaram totalmente sem referências sobre seu comportamento"

Ora aqui está o cerne da questão. Mas o pior ainda está para vir. Pense-se nas crianças de hoje como os adultos de amanhã. Que ricas sociedades teremos...

Excelente post, Marise.

Reyel Angel disse...

Eu não digo criar filhos como cães, pois filhos são muito mais complexos, são humanos e questionam. Porém o problema da educação hoje é a frouxidão dos pais em nome de uma pedagogia de amor excessivo, que teme ferir, magoar... Amor verdadeiro impõe limites e disciplina, sim.
Bjos na alma!

Wolf Edler disse...

Por incrível que pareça há um fundo de verdade nessa proposta, é claro, que tomada com as devidas adaptações ao caso humano. Realmente, parte do processo educativo é moldar comportamentos sociais aceitáveis e isto pode ser feito por condicionamento pavloviano sim, isto é, com prêmios para comportamentos desejáveis e privações para os indesejáveis. Isto não significa desamor nem crueldade, já que não se está falando de castigos corporais ou mesmo emocionais. E é importante para a criança saber, de fato, quem é que é o líder do grupo familiar ou escolar. Deixá-las tomar as rédeas e impor seus caprichos não é nada saudável. Mutatis mutandis, vamos, pois, aos métodos de Cézar Millan.

Fátima Campilho disse...

Mais um texto polêmico, Marise.
Você leu meu comentário sobre o texto "O fim dos professores"?
Volto mais tarde para verificar.
Ab

Marise von disse...

Fátima,

Li todos os seus comentários. Agradeço a sua presença, como de todos os leitores do blog.
Disciplina só faz bem. E muitas pessoas ainda não se deram conta, que a disciplina está presente em todos os momentos da nossa vida.
E a maioria da pessoas ( não só as crianças) já não sabe mais quem manda, e é preciso saber quem é quem (isto vale para qualquer lugar - empresa, escola, família...).
Hoje falta clareza em todos os sentidos...
Abraços,
Marise.

Marise von disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marise von disse...

Elenário,

Agradeço a sua presença aqui
Também estou preocupada com as crianças de hoje , que serão os adultos de amanhã...
O que mais me preocupa é a indiferença em relação a tudo...
a apatia, não querem aprender nada, perderam o sentido da coisa.
Para que aprender?
Além disso, a falta de respeito...parecem que são os donos do mundo e na verdade não são nada.
Abraços,
Marise.

Marise von disse...

Angel,

Quem ama educa, porque nos só queremos a felicidade dos nossos filhos.
Eu sempre falo para meu pai, que o melhor presente que ele nos deu foi educação rigida, e com muita disciplina.
Hoje todos só temos a agradecer.
Um grande abraço,
Marise.

Marise von disse...

Wolf,

Estava com saudades.
Concordo que as criança precisa saber quem manda, para que possam no futuro ser cidadãos que pensam e que saibam respeitar e se fazer respeitar...
Quem não sabe respeitar, também não é respeitado... e o que será do futuro destas crianças? Da humanidade?
Abraços,
Marise.

A filosofia dos anjos. disse...

Educar crianças como cães? IUSFDAHFUA...só pode ser brincadeira!

A garotada de hoje parece vir preparada, com chips para as novas tecnologias. Uma criança de hoje com 6 anos já consegue lidar melhor com a internet e tecnologias avançadas do que seus pais conseguem.

Talvez a questão seria, educar os pais para que ajam como aprendizes. A unica maneira de conseguir a confiança das crianças ultra-sensíveis dos dias atuais é mostrar a elas que também aprendemos com sua avançada percepção...

Em suma, educá-las mostrando que também aprendemos com elas.

Cães são cães... não tem como colocar as crianças no mesmo grupo.

Abraços.
Leonardo.
Filosofia dos anjos

sociedadeparalela disse...

Olá..

Sei que cheguei um pouco atrasado.. De qualquer forma queria passar uma mensagem que realmente acredito e que não é minha, mas sim de um grande pensador chamado Ohso.

"A criança nasce com um potencial desconhecido. Devemos ama-la incondicionalmente e não ajuda-la. Não podemos ajudar alguém a atingir um potencial desconhecido."

Esse é o grande erro da "educação" moderna. Os pais criam seus filhos para serem animais de estimação. Não estimulam o raciocinio e o aprendizado por conta própria. Projetam em seus filhos mais uma fonta de prazer.

"Se meu filho é o melhor aluno, super educado e obediente então as pessoas me elogiam e isso significa que eu sou um bom pai."

Criam mais uma criança ordinária.

Uma criança educada com técnicas pra cães passa a ser uma criança CONDICIONADA. O condicionamento é uma associação. A pessoa sera a vinda inteira assim.

"Se isso, então aquilo".

Cade o estimulo ao desenvolvimento do raciocinio? Crianças não são burras. Crianças são inteligentes e tem a vantagem de não terem perdido todo potencial com o qual nasceram porque ainda não passaram uma vida com pessoas tentando as ondicionar, doutrinar etc..

Então o importante é que o PAI AME a criança e permita que ela descubra o seu potencial.

Ensinar uma criança que não se pode fazer coco no chão é uma coisa.

Explicar que se ela fizer coco no chao não é bom porque causa odor, atrai moscas etc.. etc.. é outra.

A criança tem que entender as coisas.. e não ser treinada para atender o que os pais querem que ela passe pra sociedade para se sentirem auto-realizados.

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