quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quem fala se liberta



O homem está pronto para tudo desde que lhe seja dito com mistério;quem quer ser acreditado deve falar baixo. (Malcolm Chazal)

Os bons "escutadores" andam desaparecidos e nos fazem muita falta. E aí, quando temos poucos dispostos a nos ouvir, criamos diferentes maneiras de comunicar as nossas alegrias, dores e angústias de ser humano, como também nossas bestialidades. Amplia-se, então, geralmente, ainda mais nossa incompreensão por parte dos outros.

O fato é que temos necessidade de comunicar aquilo que nos incomoda, que nos irrita, que nos prende a nós mesmos. Falar é sempre um ato libertador, porque nos permite uma melhor compreensão de nós mesmos e dos outros. É também constante busca de compreensão, pois viver na eterna incompreensão gera desilusão e descrença nas possibilidades humanas.

Nossos relacionamentos interpessoais tornaram-se desacreditados, controversos e complexos porque, na sua maioria, são interesseiros. Comunicamos o que nos convém comunicar. Ouvimos, interpretamos e falamos aquilo que nos traz status e reconhecimento social, sem nos importar como os outros nos vêem, nos sentem ou nos percebem. E nem sempre medimos o que falamos.

É custoso dizê-lo, mas não existe emancipação do ser humano sem uma boa comunicação. E o privilegiado exercício da fala e da escuta torna consciente o que somos, o que pensamos e o que sentimos. Mas é um caminho arriscado que muitos temem percorrer, porque falar verdadeiramente aos outros sobre a gente mesmo significa desnudar-se, expor-se, abrir-se. Muito bem contemporiza Charles Brown Jr. numa de suas canções: "se perguntarem prá você/ o que falar sobre si mesmo o que dirá?/ dirá que sabe o que não sabe/ tudo aquilo que jurou nunca dizer, por que? pra que?".

As verdadeiras amizades e os relacionamentos sinceros engrandecem a vida do ser humano, tornando-o mais expansivo, mais aberto e mais liberto de suas angústias e sofrimentos. Geram confiança, imprescindível na fala e na escuta. Esta confiança, por sua vez, não nasce do acaso. Nasce como conquista, na lealdade, franqueza e sinceridade e vai se constituindo em relações de reciprocidade entre as pessoas.

Como nos revela, o exercício da fala também nos amadurece, nos torna mais sábios e mais conscientes no uso das palavras. Já disse Aristóteles: "o sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz". É, falar bem não é só uma questão de estética, construção gramatical ou retórica, mas é uma arte que nos exige ponderação, discernimento, bom senso, coragem, leitura de realidade, análise do contexto, consideração e respeito ao outro a quem dirigimos nossa mensagem. Sim, porque o que conta, afinal, é ser bem compreendido e bem interpretado.

Seres humanos realizam-se plenamente quando sujeitos, emancipados e livres. E permitir possibilidades da fala e da escuta aos outros é mais do que um gesto democrático e de cidadania. É, antes de tudo, uma atitude pedagógica que permite a cada um reconhecer-se como sujeito de pensamento e de ação. Todos falam, mas nem todos são ouvidos e bem compreendidos. E é lamentável que muitos acreditem que escutar os outros é perder tempo. Perdem-se, então, muitas possibilidades de vida e de liberdade.

Quem fala se liberta e quem escuta permite a si mesmo e aos outros que o mundo e as consciências se alarguem, permitindo que aconteça o que é a maior busca de todos: a felicidade.

Nei Alberto Pies

Nei Alberto Pies, professor e militante de direitos humanos.
Fonte:
Centro de Filosofia Educação para o Pensar -Boletim O dia D -Ano 2 - nº 63 de 07/02/2008

5 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

É raro encontrar pessoas que sabem falar e ouvir. Na medida certa...

MJ FALCÃO disse...

Prefiro ouvir...
E às vezes falo, pouco, muitas vezes escrevo para não falar...

jad disse...

Francis Jacques sintetiza este processo numa relação triádica que vai do "eu falo", "tu ouves" e "nós dizemos". É que todo o processo comunicacional deve conduzir à construção de um encontro entre os falantes que não é necessariamente o acordo, nem tão pouco o concenso. É simplesmente o encontro entre falantes.
É, parece-me, o que seu post pretende.

Bons textos os que Marise nos vai presenteando.

Já agora: Chico pedia que lhe enviasse daqui "um cheirinho a alecrim". Não quer, Marise, enviar para aqui um calorzinho daí? É que dava cá um jeitão!

Em@ disse...

Marise:
Outro texto muito bom.
O que escrevi no comentário anterior(que é o do texto seguinte) também podia ser a introdução para deste. Isto porque da observação passamos oa 3º passo que é a comunicação.O acto de comunicar (ouvir/falar/sentir).
E eu estou como o MJFALCÃO, eu pinto, desenho e escrevo para comunicar sem ter qe falar...

E o jad tem razão. manda um calorzinho para cá, mas sem chuvadas torrenciais que fartos de chuva estamos nós, ou eu!
Quero sooooooool!
Beijinho

Em@ disse...

Marise:
Levei este comigo. :))
Beijo

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