sábado, 16 de janeiro de 2010

Trabalhar e sofrer por Lya Luft


Ilustração Atômica Studio

"Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar,explorar e solapar qualquer dignidade"


O trabalho enobrece" é uma dessas frases feitas que a gente repete sem refletir no que significam, feito reza automatizada. Outra é "A quem Deus ama, ele faz sofrer", que fala de uma divindade cruel, fria, que não mereceria uma vela acesa sequer. Sinto muito: nem sempre trabalhar nos torna mais nobres, nem sempre a dor nos deixa mais justos, mais generosos. O tempo para contemplação da arte e da natureza, ou curtição dos afetos, por exemplo, deve enobrecer bem mais. Ser feliz, viver com alguma harmonia, há de nos tornar melhores do que a desgraça. A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam é uma ideia que deve ser reavaliada e certamente desmascarada.


O trabalho tem de ser o primeiro dos nossos valores, nos ensinaram, colocando à nossa frente cartazes pintados que impedem que a gente enxergue além disso. Eu prefiro a velha dama esquecida num canto feito uma mala furada, que se chama ética. Palavra refinada para dizer o que está ao alcance de qualquer um de nós: decência. Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação, e da dor como cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e dos valores que nos tornariam mais humanos. Para que se trabalhe com mais força e ímpeto e se viva com mais esperança.


O trabalho que dá valor ao ser humano e algum sentido à vida pode, por outro lado, deformar e destruir. O desprezo pela alegria e pelo lazer espalha-se entre muitos de nossos conceitos, e nos sentimos culpados se não estamos em atividade, na cultura do corre-corre e da competência pela competência, do poder pelo poder, por mais tolo que ele seja.


Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar, explorar e solapar qualquer dignidade, roubar nosso tempo, saúde e possibilidade de crescimento. Na verdade, o que enobrece é a responsabilidade que os deveres, incluindo os de trabalho, trazem consigo. O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente, nasce do sofrimento suportado com dignidade, quem sabe com estoicismo. Mas um ser humano decente é resultado de muito mais que isso: de genética, da família, da sociedade em que está inserido, da sorte ou do azar, e de escolhas pessoais (essas a gente costuma esquecer: queixar-se é tão mais fácil).


Quanto tempo o meu trabalho – se é que temos escolha, pois a maioria de nós dá graças a Deus se consegue trabalhar por um salário vil – me permite para lazer, ou o que eu de verdade quero, se é que paro para refletir sobre isso? Quanto tempo eu me dou para viver? Quanto sobra para meu crescimento pessoal, para tentar observar o mundo e descobrir meu lugar nele, por menor que seja, ou para entender minha cultura e minha gente, para amar minha família?


E, se o luxo desse tempo existe, eu o emprego para ser, para viver, ou para correr atrás de mais um trabalho a fim de pagar dívidas nem sempre necessárias? Ou apenas não me sinto bem ficando sem atividade, tenho de me agitar sem vontade, rir sem alegria, gritar sem entusiasmo, correr na esteira além do indispensável para me manter sadio, vagar pe-los shoppings quando nada tenho a fazer ali e já comprei todo o possível – muito mais do que preciso, no maior número de prestações que me ofereceram? E, quando tenho momentos de alegria, curto isso ou me preocupo: algo deve estar errado?


Servos de uma culpa generalizada, fabricamos caprichosamente cada elo do círculo infernal da nossa infelicidade e alienação. Essas frases feitas, das quais aqui citei só duas, podem parecer banais. Até rimos delas, quando alguém nos leva a refletir a respeito. Mas na verdade são instrumento de dominação de mentes: sofra e não se queixe, não se poupe, não se dê folga, mate-se trabalhando, seja humilde, seja pobre, sofrer é nosso destino, darás à luz com dor – e todo o resto da tola e desumana lavagem cerebral de muitos séculos, que a gente em geral nem questiona mais.

Lya Luft

Fonte: Revista Veja

9 comentários:

Em@ disse...

Marise:
O professor Agostinho da Silva disse uma coisas que eu assino por baixo sem qualquer sombra de dúvida:"O homem não nasceu para trabalhar mas para criar."
Quanto ao sofrimento, o mesmo pode fazer de nós autênticos montros.
Tudo de bom.
Beijinhos

Marise von disse...

Em@,
"O homem não nasceu para trabalhar mas para criar."
Concordo com você e o Prof. Agostinho mas, penso que a criação só acontece no momento em que você está fazendo algo que você gosta e ao mesmo tempo sem ser uma obrigação.
Quando nos sentimos obrigados a fazer alguma atividade (trabalho),
não conseguimos criar...
Beijinhos,
Marise.

Em@ disse...

Era isso mesmo que eu queria dizer. O acto de criar é livre.
Beijinho

DANIELA BORALI ॐ disse...

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

(Albert Einstein)

Beijos...

Dani

Marise von disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marise von disse...

Daniela,

Concordo," O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário."

(Albert Einstein)
Porque sem o trabalho não chegaremos ao sucesso, seia um sucesso vazio. Eis questão: para chegar ao sucesso você precisa trabalhar naquilo que você gosta, que te dá prazer e além disso, não pode ser uma obrigação.
Muitas vezes o sucesso custa muito caro, porque o atingimos por meios que não nos dão prazer. E aí onde fica a felicidade?
Como seria bom, se todos pudessem trabalhar livremente no que gostam.
Abraços e uma excelente semana,
Marise.

Miguel Loureiro disse...

Marise
A Ema tirou-me o Agostinho da Silva da boca. Se não o conheces, devora-o, porque é um dos maiores filósofos portugueses do século passado, pouco dogmático e que viveu muito tempo no Brasil (também no RS) fundou Universidades à toa e é apaixonante.
Quando ele disse que o homem nasceu para viver não para trabalhar, queria dizer exactamente o que tu interpretaste: trabalhar por prazer, não por necessidade e subsistência.

Aqui vai um texto dele (tem muitos curtinhos):

A Escola
Não podemos negar que a escola não deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência —, todas as condições para virem a ser o que são agora; se não saíram da escola com amor à escola, a culpa não é deles, mas da escola. Acresce ainda que, lançados na vida, a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orientações de espírito, para lhes pedir a sua colaboração, o seu interesse na educação das gerações mais moças. Houve um corte de relações, quando a sua manutenção poderia ainda de algum modo apagar as más lembranças que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora à nossa volta paixão e rancor? Tivemo-los nas nossas mãos e não fizemos por eles tudo quanto podíamos, mesmo com as possibilidades económicas e pedagógicas de que nos cercara o meio; em nós temos de reconhecer o principal defeito; por consequência, também em nós a principal causa do ataque.

Agostinho da Silva, in 'Glossas'

Marise von disse...

Miguel,

Acabei de pesquisar sobre o filósofo portugues Agostinho da Silva. Você tem razão, preciso devorá-lo. Fiquei encantada com que ele escreveu.E este texto "A Escola, "O professor como mestre", textos maravilhosos, de fácil etendimento e que dizem tudo, é como se falassem por nós. Dizem tudo que gostariamos de dizer, e é muito bom você ler textos que compartilham com as suas ideias.
Obrigado por compartilhar este texto maravilhoso neste blog.
Abraços e um excelente fim de semana.
Marise.

Suziley disse...

Bom dia, Marise:
Por uma feliz coincidência encontreio seu belo, criativo e educativo blog. Parabéns! Gosto muito de escrever e os temas de cultura, filosofia, educação, comunicação, arte, literatura e outros são do meu interesse. Por isso ousei criar o meu blog que se propõe a ser um espaço de livre pensamento, reflexão e ação. Estou aprendendo ainda os muitos recursos do blog...aprendo acompanhando o seu também. Obrigada! Tenha um bom dia, boa semana!
Um abraço fraterno,
Suziley Silva
yelizus_leonam@hotmail.com
http://arslitterayelizus.blogspot.com

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