sábado, 27 de março de 2010

Medo do medo, por Lya Luft



"Querendo ser politicamente corretos, estamos cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico"

Tenho observado alguns esforços psicopedagógicos no sentido de tornar nossas crianças politicamente corretas - postura que muitas vezes nos transforma em seres tediosos, sem graça nem fervor. Contos de fadas, por exemplo, alimento da minha alma de criança, raiz de quase toda a minha obra adulta, sobretudo romances e contos, foram originalmente - dizem estudiosos -narrativas populares, orais, de povos muito antigos. Assim eles representavam e tentavam controlar seus medos e dúvidas, carentes das quase excessivas informações científicas de que hoje dispomos. Nascimento e morte, sexo, sol e lua, raios e trovões, o brotar das colheitas lhes pareciam misteriosos, portanto fascinantes.

Muito mais recentemente, escritores como Andersen e os irmãos Grimm adaptaram tais relatos ao mundo infantil e criaram suas maravilhosas histórias, que unem, como a vida real, o belo e o sinistro. Uma sereia quer pernas para namorar seu príncipe na praia, mas o sacrifício é terrível, a cada passo de suas novas pernas, dores inimagináveis a dilaceram. Uma princesa, sua família, séquito e criados do castelo dormem um sono profundo, maldição de uma fada má, e só serão libertados pelo príncipe salvador - que, é claro, sempre aparece. Branca de Neve, Rapunzel e dezenas de outros personagens alimentaram nossa fantasia e continuam a alimentar a das crianças que têm sorte, cujos pais e escolas lhes proporcionam contato cotidiano com esses livros.

Porém, faz algum tempo, há um movimento para reformular tais relatos, tirando-lhes sua essência, isto é, o misterioso e até o assustador. Lobos seriam bobalhões e vovozinhas umas pândegas, só existiriam fadas boas, e as bruxas, ah, essas passam a ser velhotas azaradas. Até cantigas de roda seculares tendem a ser distorcidas, pois atirar um pau num gato é uma crueldade, como se fosse preciso explicar isso para as crianças saberem que animais a gente ama e cuida - se é assim que se faz em casa.

Vejo em tudo isso um engano e um atraso. Impedindo nossas crianças do natural contato com essas antiquíssimas histórias, que retratam as possibilidades boas e negativas do mundo, nós as deixamos despreparadas para a vida, cujos perigos entram hoje em seus quartos, rondam escolas e clubes, esperam na esquina com um revólver na mão de um drogado, ou de um psicopata lúcido e frio, sem falar nos insidiosos pedófilos na internet.

Estamos emburrecendo nossas crianças e jovens, mesmo querendo seu bem? E, afinal, o que será o seu bem? Ignorar o que existe de sombrio e mau, caminhar feito João e Maria alegrinhos, não abandonados pelos pais, mas procurando borboletas no mato? Receio que a gente esteja cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico com arquétipos humanos essenciais.

Em compensação, adolescentes e crianças procuram o encanto do misterioso lendo sobre vampiros, bruxos e avatares, vendo seus filmes e pesquisando na internet. Por que isso? - me perguntou recentemente um pai. Porque, neste momento de altíssima tecnologia, a alma humana busca a expectativa, o segredo e o susto. Precisa conhecer o mal para se acautelar e se proteger, o belo e o bom para crescer com esperança. Mas nós, pedagogos e pais, nem sempre seguros e informados, começamos a querer alisar excessivamente a estrada para eles, não lhes ensinando que o mal existe, assim como o bem, que o belo nos atrai, assim como o monstruoso, e que é preciso desenvolver discernimento (gosto dessa palavra), isto é, a capacidade de entender e distinguir o melhor do pior, a fim de fazer com mais clareza e segurança as inevitáveis escolhas.

Mas se, porque isso nos tranquiliza, tratamos as crianças como imbecis, e queremos nosso adolescente infantilizado por um longo tempo, exigindo-o cada vez menos em casa, na escola e nas universidades - embora deixando que se sexualize de forma precoce e criminosa -, vai ser difícil que tenham informação, capacidade de julgar e escolher, que seriam nosso maior e melhor legado para elas.

Lya Luft é escritora


Fonte: Revista Veja

Imagem em: www.coisasinfantis.com/infancia-contos-infant..

9 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

A Luft é ótima!

VELOSO disse...

Muito bom seu blog e trabalho estou gostando muito !

Valdecy Alves disse...

Sem dúvida que sempre que seguimos um blog ou somos seguidos, formamos uma verdadeira teia, capaz de ter um alcance quantitativo e qualitativo para matérias formativas e informativas, que mídia alguma consegue ter. POR ISSO PARABÉNS PELO BLOG.

Doutra feita, CONVIDO VOCÊ, seus seguidores e quem você segue, para lerem matéria sobre o espetáculo SAGRADO E PROFANO, que ocorrerá na cidade de Senador Pompeu, interior do Ceará, no pequeno Distrito de Engenheiro José Lopes. Experiência artística que mobiliza toda a população, que além de encenar a Paixão de Cristo ainda tem os caretas, que há cerca de 70 anos, saem pelas ruas. Experiência artística, social, política, folclórica, econômica..... que merece ser relatada, imitada e, sendo possível, vista e visitada ao vivo. Boa leitura em:

www.valdecyalves.blogspot.com

WacoBR disse...

Que textinho medíocre. Depois quando classificam Lya Luft de autoajuda, há quem reclame!

WacoBR disse...

Que textinho medíocre. Depois quando classificam Lya Luft de autoajuda, há quem reclame!

Suziley disse...

Bom dia, querida Marise:
Realmente, como bem escreve Lya Luft, os personagens imaginários em suas versões de vilões, com suas crueldades e maldades têm a sua utilidade pedagógica. E, ali, quando somos crianças que vamos formando o nosso ser, defrontando o que é o certo, o errado, o bem e o mal. Enfim, temática de importância para toda a vida de adulto. Os dois lados da moeda. Vamos refletir. Saudades. Um bom domingo, beijos, :)

experimental disse...

Discordo em parte do exposto. Em Portugal existe uma boa literatura infantil contemporânea, que mostra a realidade tal qual é, sempre com uma preocupação pedagógica. Aquelas velhas histórias têm muito de parvo e fantasia demais, por ex: A Bela Adormecida, Branca de Neve, Capuchinho Vermelho, etc..Estas histórias são agora bem satirizadas.
Quanto ao apego actual da adolescência pelo vampirismo, além de ser uma moda, os jovens gostam de modas, são também uma fuga à realidade. Hoje os jovens sabem muito mais que nós sabiamos e precisam de fugir à realidade. Vampiros é melhor do que drogas ou alcool.
Um abraço,
Nela

heitor21_ disse...

Lya Luft DESTROOOOI \O/ AHOAHOAHOAHOAHOAHOAHOAHOAHOAHOAO

Valdeir Almeida disse...

Marise,

Existe atualmente uma tendência de politizar corretamente tudo.

Por exemplo, hoje na TV, assisti uma escritora que defende a seguinte tese: os livros que tratam a madrasta como má e carrasca poderiam ser readaptados para que as crianças não tivessem mais a má impressão dessas pessoas.

Absurdo, não é?

Abraços e ótima quarta-feira pra você.

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