sábado, 6 de março de 2010

O amor constrói. Mas não ensina a tabuada. por Gustavo Ioschpe

"Um espectro ronda a educação brasileira. É a ‘pedagogia do afeto’, e está mais para Gasparzinho do que para alma penada."

Montagem sobre foto Latin Stock

Na teoria, ela bebe de fontes sérias, que vão da psicologia transpessoal de Abraham Maslow às ideias de inteligência emocional de Daniel Goleman. Aplicada à pedagogia, significaria alterar as práticas de sala de aula para incentivar a introdução da afetividade na relação aluno-professor e entre os próprios alunos, com o objetivo de criar um ambiente de bem-estar na escola que melhorasse o ensino-aprendizagem. Assim como a maioria dos professores brasileiros se diz construtivista sem jamais ter lido Piaget ou entendido sua teoria, também a pedagogia do afeto tem uma aplicação que, em seu simplismo, pouco tem a ver com a matriz teórica. No Brasil, usa-se essa definição para uma ideia algo difusa de que o fundamental de uma escola, de um professor, é dar afeto aos seus alunos e desenvolver com eles uma relação pessoal, suprindo a suposta carência de afeto sentida pelas crianças brasileiras.


Essa visão se espalha com enorme rapidez. Em pesquisa recente de Tania Zagury com uma amostra grande de professores de todo o país, 62% dos entrevistados disseram que "a melhor escola é aquela em que o aluno encontra professores amigos e ambiente agradável". Grupos de escolas particulares adicionam o coraçãozinho da sua pedagogia afetiva a seus anúncios, e a teoria é agora o norte pedagógico da Legião da Boa Vontade (LBV).


A pedagogia do afeto apresenta três vantagens importantes a seus adeptos. A primeira é que ela é de difícil mensuração (como se mede o amor?), de forma que é impossível dizer se funciona ou não. A segunda é que o uso do afeto serve como um antídoto ao fracasso de nossas escolas naquela que deveria ser sua primeira tarefa, a de transmitir conhecimentos da cultura universal e desenvolver o raciocínio analítico e a curiosidade do alunado. Sempre é conveniente defender-se do fracasso técnico atrás do véu propiciado por uma causa nobre. Afinal, o que é saber trigonometria diante de estar com o coração transbordante e em contato com sua alma? Finalmente, o terceiro benefício é que a pedagogia do afeto apresenta uma alternativa mais simpática para explicar o insucesso da escola em relação a seu principal concorrente, a ideologização do ensino, que pretende formar o "cidadão crítico e consciente". Você pode reclamar que seu filho não está aprendendo porque está sendo doutrinado, mas como atacar aqueles que se preocupam em criar um ambiente amoroso em sala de aula? Já vejo os seus simpatizantes pensando: "Mas o que esse cara defende, então? A pedagogia do ódio?". É um prato cheio para os maniqueístas.


Mais do que uma ferramenta cínica para cobrir nossa abissal incompetência no ensino, a pedagogia do afeto se encaixa como uma luva em duas vertentes da nossa cultura, especialmente populares entre os professores. A primeira é o maximalismo. Não basta ao docente brasileiro ser um profissional competente que consegue dar cabo de sua missão primeira (e nada simples) de transmitir aos alunos todo o conhecimento e desenvolver as habilidades intelectuais para navegar em um mundo crescentemente complexo. Isso é pouco. É preciso, também, desenvolver valores éticos, melhorar a autoestima do alunado, preservar o meio ambiente e prezar a diversidade. O bom professor precisa ser um herói, um abnegado, um missionário, um Quixote lutando contra uma sociedade que o ignora e o desrespeita.


A segunda vertente, muito estimulada pelo governo atual, é a ideia de que o brasileiro legítimo é um batalhador, que se esforça contra todas as adversidades. Se triunfa ou não, é irrelevante: o que importa é que não desiste nunca. E o faz mantendo, no processo, a simpatia e a cordialidade brejeira que ainda nos tornarão a Roma dos trópicos. Em suma, o processo e o esforço são mais importantes que o resultado. E o resultado do processo escolar – que deveria ser, antes de todo o resto, o aprendizado – fica de lado. A escola brasileira parece acreditar que terá cumprido sua missão se criar um sujeito bem ajustado, que não puxa os cabelos dos coleguinhas, ainda que não saiba a tabuada nem consiga escrever dois parágrafos concatenados.


A origem intelectual desse vírus que vai poluindo nosso discurso educacional é difusa, já que se trata de um pot-pourri de diversos pensamentos desconexos. Seus maiores praticantes no Brasil são Içami Tiba e Gabriel Chalita. Os escritos do primeiro se destinam mais a pais do que a professores, e se caracterizam pela superficialidade e autopromocionalismo dos manuais de autoajuda. Seu magnum opus, Quem Ama, Educa!, destila todos os assuntos imagináveis sobre educação dos filhos em apenas 300 páginas, com uma bibliografia de dezessete autores. É inócuo.


Já Chalita se vale de citações de grandes pensadores para convencer os leitores incautos e incultos de que se trata de um trabalho de densidade intelectual. Sob esse disfarce, esconde-se uma retórica insidiosa, com o objetivo claro de bajular os docentes, a fonte de votos do "pensador" que virou político. Na cosmovisão chalitiana, os professores são os heróis da nossa educação e as vítimas de um fracasso que é da civilização, não da escola. No autoexplicativo Educação: a Solução Está no Afeto, Chalita tenta passar do plano teórico à sala de aula, para descrever como seria uma aula afetiva: "Em matemática, física ou química, como se abordaria esse tema? Seriam feitas reflexões sobre as sensações humanas, o medo, a solidão. As retas, o plano, a trigonometria das ruas do Rio de Janeiro em que conviveram amigos – Vinicius, Toquinho, Tom Jobim (...)". Então tá. Adiciona: "Nada substitui o velho lar. A educação por conta do estado e das instituições não funciona". Assertiva curiosa para alguém que foi secretário da Educação de São Paulo, mas, pelo menos, consistente com sua práxis. Nos quatro anos em que ele esteve no cargo, os alunos sofreram: caiu em 700 000 o número de matrículas nos níveis fundamental e médio, caíram as taxas de aprovação e conclusão do ensino fundamental e mais de 300 escolas foram extintas. Mas com muito afeto.



Artigo • Gustavo Ioschpe
Fonte: Revista Veja

4 comentários:

Anna Carolina Fernandez disse...

Gustavo Ioschpe (Porto Alegre, 1977) é um economista com duas graduações (em Ciência política e Administração estratégica) pela Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, e mestrado em Economia internacional e Desenvolvimento econômico, pela Universidade Yale, nos Estados Unidos da América.

Foi colunista do jornal Folha de São Paulo e atualmente é colaborador na revista Veja e colunista do jornal Zero Hora [1]. É autor do livro A ignorância custa um mundo, ganhador do Prêmio Jabuti de 2005 [2]. Seus artigos têm levantado controvérsia pela ótica com que aborda a educação. Mesmo não possuindo formação específica na área, suas opiniões se baseiam em dados e médias, o que revelaria, segundo críticos, uma leitura do sistema educacional apenas do ponto de vista econômico ou administrativo, como se tratasse de uma empresa.

De rica família, estudou em escolas particulares e graduou-se no exterior. É filho do banqueiro Daniel Ioschpe, morto em 2007, e exerceu as funções do pai a partir da década de 1990 [3].

Quando ele tiver coragem de entrar em sala de aula, aí sim ele pode falar o que funciona e o que não funciona! Pobre homem letrado.

Gloria disse...

Parabéns pela postagem. Artigo EXCELENTE do Gustavo Ioschpe.

erika disse...

Estamos passando já há algum tempo no Brasil pelos modismos Educacionais, sinto bastante revolta e repulsa, quando se referem ao Oficio do professor ou a Educação Brasileira como uma vitrine de moda e tendências.
Não vejo intervirem no consultório de um pediatra para que ele deixe de ser examinador de carnes, ou entrarem em um tribunal e protestarem sobre o absurdo de pessoas que são presas por bagatelas, mas na sala de aula, qualquer um pode escrever sobre e criar chavões pedagógicos, discutíveis a linha do senso comum.
Educação se faz na construção, na transformação, na comunicação, e não na transferência de saber.
Para muitos, transmissão de conhecimentos, para outros construção de significados, posso aqui deixar as contribuições de Henry Wallon,Piaget,Vigotsky,que sendo estudados e resignificados se complementam, não há verdade absoluta se tratando de construção de conhecimento,os teóricos funcionam como um suporte para o professor que pesquisa,que enxerga em si que não estamos prontos,que precisamos buscar,mergulhar,acreditar que fazer Educação,passa por assegurar o encontro entre os sujeitos, professor e aluno na busca do encontro com a aprendizagem significativa em um clima afetivo favorável a aprendizagem.
erikaborgatisjc@yahoo.com.br

NetDaniels disse...

Achei o artigo bastante corajoso. Isto porque no Brasil, ter opinião é sinônimo de ofensa.
Escrever algo tão contra a corrente em nosso País é um risco muito grande.
Um senão, talvez, seria o fato de que não ficou claro para mim a definição desse "afeto".
Exemplo: existe um fenômeno, se não me falha a memória, circunscrito ao Brasil, que é o de chamar professores e professoras de tios e tias. Entretanto, hoje em dia, quando as crianças utilizam esses termos para se referir aos professores, parecem usá-los como sinônimo da palavra professor, e não como uma demonstração de afeto.
O que seria esse afeto?
Seria bom que isso fosse um pouco mais elaborado. Talvez com uma exemplificação de um fato corriqueiro das salas de aula.

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