sábado, 17 de abril de 2010

Construtivismo e destrutivismo, por Cláudio de Moura Castro


"O construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula. Mas, nos seus desdobramentos espúrios, vira uma cruzada religiosa, claramente nefasta ao ensino"

Tinha missão é árdua: quero desvencilhar o construtivismo dos seus discípulos mais exaltados, culpados de transformar uma ideia interessante em seita fundamentalista. O construtivismo busca explicar como as pessoas aprendem. Prega que o processo educativo não é uma sequência de pílulas que os alunos engolem e decoram. É necessário que eles construam em suas mentes os arcabouços mentais que permitem entender o assunto em pauta. Essa visão leva à preocupação legítima de criar os contextos, metáforas, histórias e situações que facilitem aos alunos "construir" seu conhecimento. Infelizmente, o construtivismo borbulha com interpretações variadas, algumas espúrias e grosseiras. Vejo quatro tipos de equívoco:

O primeiro engano é pensar que teria o monopólio da verdade - aliás, qual das versões do construtivismo? As hipóteses de Piaget e Vigotsky coexistem com o pensamento criativo de muitos outros educadores e psicólogos. Dividir o mundo entre os iluminados e os infiéis jamais é uma boa ideia.


O segundo erro é achar que todo o aprendizado requer os andaimes mentais descritos pelo construtivismo. Sem maiores elaborações intelectuais, aprendemos ortografia, tabuadas e o significado de palavras.

O terceiro é aceitar uma teoria científica como verdadeira por conta da palavra de algum guru. Em toda ciência respeitável, as teorias são apenas um ponto de partida, uma explicação possível para algum fenômeno do mundo real. Só passam a ser aceitas quando, ao cabo de observações rigorosas, encontram correspondência com os fatos. Einstein disse que a luz fazia curva. Bela e ambiciosa hipótese! Mas só virou teoria aceita quando um eclipse em Sobral, no Ceará, permitiu observar a curvatura de um facho luminoso. O construtivismo não escapa dessa sina. Ou passa no teste empírico ou vai para o cemitério da ciência - de resto, lotado de teorias lindas.


Não obstante, muitos construtivistas acham que a teoria se basta em si. De fato, não a defendem com números. Obviamente, nem tudo se mede com números. Mas, como na educação temos boas medidas do que os alunos aprenderam, não há desculpas para poupar essa teoria da tortura do teste empírico, imposto às demais. Por isso, temos o direito de duvidar do construtivismo, quando fica só na teoria. Mas o que é pior: outros testaram as ideias construtivistas, não encontrando uma correspondência robusta com os fatos. Por exemplo, orientações construtivistas de alfabetizar não obtiveram bons resultados em pesquisas metodologicamente à prova de bala.


O quarto erro, de graves consequências, é supor que, como cada um aprende do seu jeito, os materiais de ensino precisam se moldar infinitamente, segundo cada aluno e o seu mundinho. Portanto, o professor deve criar seus materiais, sendo rejeitados os livros e manuais padronizados e que explicam, passo a passo, o que aluno deve fazer.


Desde a Revolução Industrial, sabemos que cada tarefa deve ser distribuída a quem a pode fazer melhor. Assim é feito um automóvel e tudo o mais que sai das fábricas. Na educação, também é assim. Os materiais detalhados são amplamente superiores às improvisações de professores sem tempo e sem preparo.


De fato, centenas de pesquisas rigorosas mostram as vantagens dos materiais estruturados ou planificados no detalhe. Seus supostos males são pura invencionice de seitas locais. Quem nega essas conclusões precisa mostrar erros metodológicos nas pesquisas. Ou admitir que não acredita em ciência.


Aliás, nada há no construtivismo que se oponha a materiais detalhados. Entre os construtivistas americanos, muitos acreditam ser impossível aplicar o método sem manuais passo a passo.


Em suma, o construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula. Mas, nos seus desdobramentos espúrios, vira uma cruzada religiosa, claramente nefasta ao ensino.



Claudio de Moura Castro
é economista

Fonte: Revista Veja

3 comentários:

Magno disse...

Muito bom e reflexivo. Há cerca de 20 anos "abraçados" a essa teoria não conseguimos resultados satisfatórios, o que conseguimos sim, foi um aumento da ilusão de ensino significativo. Desde a discussão inicial, o construtivismo não frequenta (de fato) os cursos de licenciatura. É um engodo. Se fosse levado a sério e amplamente discutido pelos educadores (DE SALA DE AULA) poderia ter feito alguma diferença(pra melhor, é claro). O quadro que vemos hoje não é muito diferente do passado, conflito com conteúdos.

Negãaooooooo disse...

Faço parte de um campo teórico que é satanizado a bastante tempo: o Behaviorismo Radical de Skinner. Sou um psicólogo com algumas especializações (psicologia do desenvolvimento, psicometria, educação a distância), tenho mestrado (no estudo da criatividade) e termino um doutorado agora nesse ano (relaciono o pensamento criativo com o uso da educação a distância e a formação de professores). Digo tudo isso apenas para deixar claro que me considero uma pessoa razoavelmente inteligente, com bastante experiencia tanto de sala de aula quanto de psicologia clínica (mais de 14 anos em cada uma delas). E sinceramente, não consigo compreender o porque de tanta hojeriza quanto ao uso dos princípios do behaviorismo radical mais que testados empiricamente e com resultados muito bons quando aplicados por quem conhece e entende a teoria, por parte dos educadores. A mais de 30 anos o Behaviorismo radical vem sendo colcoado como o demonio por professores de todos os institutos de educação das universidades federais em oposição ao Deus Piaget e ao construtivismo. Devo dizer que até hoje não encontrei nenhum professor da educação que saiba do que está falando quando critica Skinner. Confundem condicionamento com manipulação, estimulo x resposta com princípio de skinner quando na verdade é de uma outra teoria e que nada tem a ver com o behaviorismo radical, confundem a teoria que é basicamente interacionista com ambientalismo e por aí vai. O fato básico é que a prova empírica mostra ótimos resultados da aplicação dos princípios behavioristas. Quanto ao construtivismo, não consigo encontrar razões para a sua altíssima popularidade entre professores.

Tânia Fonseca Pinto disse...

Penso que a prudência, o conhecimento real da ação e vivência da prática construtivista, deva ser analisada, antes mesmo de atacar a primeira pedra. Há 25 anos, área de educação, já vi, li e apliquei muitas teorias e metodologias, assim como os modismos de cada época, porém temos que ter muita cautela para não jogarmos TUDO no lixo.Como diz o famoso filosofo...MUITA CALMA NESSA HORA!

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