sexta-feira, 2 de abril de 2010

A linguagem docente no contexto do mundo líquido, por Ercília Maria de Moura Garcia Luiz



Professor, estamos indo para a caverna da liquidez?

Em tempos líquidos, como define Zygmunt Bauman, como fica o reflexo da linguagem docente ante o delírio do virtual?

Linguagem e entendimento são conceitos co-originários que se explicitam mutuamente. As convicções docentes e autoevidências de fundo, portanto, representados pela cultura e organizados pela linguagem, são responsáveis pelo contexto situacional no mundo da vida docente.

No fundo da caverna platônica, o homem sabia distinguir muito bem as sombras que dançavam contra a parede das coisas mesmas que as produziam. Se o ingênuo interpretava a sombra por realidade, o sábio buscava as coisas mesmas, para contemplar a realidade.

Como lidar com a comunicação líquida que invade o coração e as utopias de nossos discentes? Habituados aos fluidos do orkut, conversam com tantas pessoas que conhecem apenas virtualmente, num “planeta cyber”. A mídia convencional os seduz. Mas na escola se calam ou gritam.

O caráter inconstante e fragmentável do relacionamento educador/educando nunca pareceu tão explícito como nos tempos líquidos modernos, cujo vínculo afetivo apresenta-se cada vez mais frágil.

Os desafios da linguagem humana são parte natural dos imperativos da modernidade líquida, entendemos.

“Cadê” os antídotos a tantos mal-estares no contexto escolar, ocasionados por tantas perguntas sem respostas? As queixas da violência escolar, do bullying, tornaram-se tão rotineiras que as deixamos de lado e queimamos nossos preciosos neurônios em termos de construir ou desconstruir teorias. Parece que as palavras sólidas de mestre estão fluidificando,juntamente com sua imagem de sábio.

E cada vez mais se ouve o velho chavão: Onde estamos indo? Eu perguntaria: A que lugar nossa linguagem está indo? Na sala de aula, condenava-se o autoritarismo. Agora, o espontaneismo. Inventa-se tantas coisas. A cibercultura traz à escola um novo estilo cognitivo, a possibilidade de uma organização de saberes em rede. É uma nova linguagem do mundo. Não podemos negar.


Conta-se que alguém perguntou a Beethoven, depois de ter executado uma de suas composições, ao piano: “Que queria o senhor dizer com esta peça?” Como resposta, assenta-se ao piano e executa-a novamente. Sua ação representa a resposta. Nossa linguagem, assim como a composição de Beethoven, vai além do apenas símbolo.

Eu, você, todos nós estamos à procura de algo que ainda não entendemos ou não se explicita de forma mútua. Algo novo, do qual não seja necessário ouvirmos mais uma vez ou indagarmos se é virtual ou real. Uma outra caverna? De uma resposta, no final do percurso, com certeza, não poderemos fugir: linguagem apenas.

Texto de Ercília Maria de Moura Garcia Luiz, professora mestre pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especialista em psicomotricidade, graduada em Letras, conferencista, escritora e professora da rede estadual do Rio Grande do Sul. E-mail: erciliamou@yahoo.com.br

Fonte: Jornal Virtual Profissão Mestre -
Ano 8 - Nº 159 - 01/04/2010

3 comentários:

Elaine dos Santos disse...

Texto direto no calcanhar de Aquiles das nossas miseráveis escolas e de nossos autopiedosos professores...sei lá, mas existe um mundo novo descortinado a nossa frente e está nos faltando determinação, coragem para enfrentá-lo. Perdemos, sim, a aura mágica de sábios, mas não perdemos o saber, precisamos reaprender a compartilhá-lo.

Feliz Páscoa.

Suziley disse...

Texto que nos faz refletir. Uma boa Páscoa prá ti Marise, beijos, :)

Valdeir Almeida disse...

Realmente, a escola precisa reconhecer a própria linguagem e conhecer as novas linguagens trazidas dos alunos.

Sem tal reconhecimento e conhecimento não há como haver diálogo.

Abraços, Marise.

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