sexta-feira, 16 de abril de 2010

Paixão pelos livros

Obras literárias podem despertar os mais diversos sentimentos: entusiasmo em colecionadores, compulsão em maníacos e repulsa em inimigos da leitura
por Moacyr Scliar

bibliotecário, óleo sobre tela, arcimboldo, c.1566, castelo skokloster, estocolmo

O paulista José Mindlin, que morreu, recentemente, aos 95 anos, era advogado, empresário, jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas ficou conhecido mesmo como bibliófilo. Sua paixão pelos livros era lendária e traduziu-se num acervo de cerca de 40 mil títulos, que incluíam obras raras e de valor incalculável. Boa parte desta biblioteca foi doada para a Universidade de São Paulo (USP), em um gesto generoso e compatível com o vocábulo bibliofilia, que traduz uma genuína, mas não egoísta, paixão pelos livros. O bibliófilo é um leitor, claro, e um leitor culto, que conjuga sua admiração pelo texto com um afeto pelo objeto livro – um produto que às vezes pode se transformar numa verdadeira obra de arte, quando, por exemplo, é ilustrado por um grande artista.

A bibliofilia não deve ser confundida com a bibliomania (embora no dicionário de língua portuguesa Houaiss as palavras apareçam como sinônimos), uma desordem obsessivo-compulsiva, que não obedece a qualquer critério lógico. O bibliomaníaco às vezes adquire numerosos exemplares do mesmo livro e da mesma edição, sem propósito aparente, apenas movido por um impulso incontrolável. Exemplo disso temos no personagem vivido por Mel Gibson no filme Teoria da conspiração (1997), que se sentia obrigado a comprar um exemplar de O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, sempre que saía para a rua. A paixão pelos livros é um dos temas de Auto-de-fé, romance de Elias Canetti (1905-1984), Nobel de Literatura de 1981. Nascido na Bulgária, em uma família de judeus sefaraditas, Canetti cresceu falando búlgaro, alemão, inglês e ladino (um espanhol arcaico usado pelos sefaraditas). Publicado em 1935 Auto-de-fé foi imediatamente proibido pelos nazistas e só recebeu atenção depois de 1960, quando foi reimpresso. O protagonista é Peter Kien (provavelmente um trocadilho a palavra espanhola quien, sugerindo que não se sabe exatamente “quem” é esse homem). Especialista em mandarim (idioma chinês), o personagem alia à sua profissão uma tremenda paixão por livros. Ele tem a mais importante biblioteca da cidade, um acervo de 25 mil livros. Mas precisa lutar contra a obsessão de comprar livros (mesmo os ruins): “Felizmente as livrarias não abriam antes das oito da manhã”, diz Canetti, sugerindo que, se isso acontecesse, Peter madrugaria para adquirir livros, que para ele eram mais importantes que os seres humanos; uma pessoa só tem importância se valoriza os livros. Mas existe aí um elemento de ambivalência: em pesadelos ele vê a biblioteca destruída por um incêndio (semelhante às fogueiras da Inquisição que Auto-de-fé evoca). Pior, a cultura que adquiriu não o tornava sábio: é um homem ingênuo, dominado por uma governanta sexagenária, com quem acaba se casando.

Foi a paixão por livros e bibliotecas que inspirou ao americano Ray Bradbury o romance Fahrenheit 451 (1953), obra de ficção científica escrita nos porões da biblioteca Powell da Universidade da Califórnia em uma máquina de escrever alugada. A obra mostra um futuro em que todos os livros são proibidos, opiniões pessoais não são admitidas e o pensamento crítico é suprimido. O protagonista Guy Montag trabalha como “bombeiro”(o termo é irônico: na verdade, ele queima livros). O número 451 refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel ou o livro incendeia. As pessoas que não aceitam esse regime opressivo comprometem-se a memorizar obras importantes para que o conteúdo não se perca.

O romance fez enorme sucesso e inclusive foi levado às telas em 1966. Geralmente interpreta-se como um protesto à repressão, mas Bradbury diz que também critica a televisão como inimiga da leitura. E, falando nisso, temos de lembrar a existência de uma bibliofobia, que faz pessoas suarem frio na presença de livros. Mas isto é assunto para outro texto...

*Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.
Fonte: Revista Mente e Cérebro

3 comentários:

Em@ disse...

Olá, Marise:
eu sou uma bibliófila assumida e um aleitora compulsiva.adoro livros, tenho que ler todos os dias e tenho uma biblioteca grande que aumenta sempre e sempre.acho a amior tristeza ver uma casasem livros.
não gosto de ler no computador nem me habituo aos livros virtuais ou e-books. para mim livro tem que ser em papel.ter o cheiro característico dos livros impressos/imprimidos e a textura dos mesmos.
mas conheço blibliomaníacos e até bibliófobos.
li e vi, quando era adolescente, o livro e filme referido no artigo e durante muito tempo tive pesadelos por causas disso.

beijo + saudades

Suziley disse...

Boa noite, Marise:
Como sempre, um texto maravilhoso de Moacyr Scliar. Ele escreve divinamente. Amor aos livros. E, mais do que somente ler os livros. Ler, compreender, interpretar, analisar e refletir criticamente o que eles nos oferecem. Estabelecer uma conexão apaixonada, mas amadurecida. Aí, é que também eu vejo a importância da Filosofia. Que nos faz pensar criticamente a realidade que nos cerca e que também se encontra nos livros, nas obras. Adorei o texto. Muito bem lembrado o saudoso José Midlin. Parabéns!! Bom findi, beijos no seu coração, :)

suelen disse...

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