quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os jovens e as diversas realidades na educação



Por Matthew Smith e Peter McLaren

 
Somente compreendendo a natureza única de nossos jovens e as formas de opressão coletiva é que poderemos um dia resolver plenamente as realidades diversas que eles enfrentam

Os jovens de hoje estão sob o brutal ataque de uma miríade de forças sem precedentes na história. O fato de os jovens serem o alvo das corporações e da mídia resulta na exploração do trabalho infantil e na doutrinação para uma cultura do consumo. Os jovens (e particularmente os jovens não brancos) são desumanizados pelo neoliberalismo. Os jovens são reduzidos a trabalhadores dispensáveis por corporações que se aproveitam de países superexplorados e de populações arrasadas (o número de jovens confinados a empregos escravizantes nunca foi tão grande).

Outras formas igualmente maléficas de violência (turismo sexual, tráfico de pessoas, escravidão) têm arrasado jovens em todo o planeta. Atualmente, chegamos a um ponto em que a cultura dos jovens não representa mais um futuro sustentável. Em vez disso, eles são treinados para desempenhar o papel de consumidores e produtores de bens negociáveis, ou são obrigados a vender sua força de trabalho por salários injustos. Para muitos deles, principalmente para os pobres e não brancos, o futuro parece lúgubre e guarda muito poucas possibilidades de mobilidade social e estabilidade econômica.


O papel da mídia

A mídia com frequência apresenta as opções para os pobres e jovens não brancos em termos de participação em formas de serviços militares/policiais patrocinados pelo Estado ou em empregos da classe trabalhadora que cada vez mais oferecem pouca estabilidade econômica e menos mobilidade social. Como exemplo do primeiro caso, vamos considerar o popular filme brasileiro Tropa de Elite (2007).

A história é contada do ponto de vista do Capitão Nascimento, um veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) que busca sua própria substituição. Seu possível substituto será um de dois policiais (Neto e Matias), que também são seus amigos próximos. Neto é um policial de cor branca cuja sede por ação levou-o a trabalhar pela aplicação das leis; Matias é um policial negro que está dividido entre realizar seu antigo sonho de tornar-se advogado (no filme ele já está matriculado no curso de Direito) ou continuar trabalhando como policial.

Com o tempo, Neto e Matias tornam-se oficiais do BOPE com plenos poderes, sendo temidos pelos moradores das favelas e também pelos policiais. Após um ataque de surpresa e a morte de Neto, Matias mergulha de cabeça no BOPE, caçando e matando os traficantes responsáveis pela morte do companheiro (além de várias outros que nada tinham a ver com isso). No processo, ele e outros oficiais de polícia torturam moradores da favela, estudantes de Direito e muitas outras pessoas.

Qual é então a mensagem para os jovens? Para pessoas negras, a de que o compromisso com o Estado deve suplantar os desejos de realização pessoal. A glamourização da decisão de Matias de abandonar a escola de Direito e dedicar-se à prática de policiamento opressivo é em si um desserviço aos jovens negros com aspirações a uma educação de nível superior. Em certo ponto, o personagem do Capitão Nascimento diz que os negros no Brasil têm muito poucas oportunidades de emprego. Para pessoas não brancas, o domínio e o controle do Estado são retratados como inevitáveis: é ser governado pelo sistema ou arriscar a sua vida.

Isso se evidencia ao longo do filme na maneira brutal como Matias e outros membros do BOPE tratam suspeitos de crimes. Muitos deles são jovens negros que vivem em favelas constantemente atacadas com violência pelo BOPE. A dimensão verdadeiramente trágica desse filme é que Matias oprime ativa e voluntariamente outras pessoas negras.


A educação pública neoliberal e o duto militar americano

Nos Estados Unidos, a educação pública é regida pela Lei Nenhuma Criança Deixada para Trás (No Child Left Behind - NCLB), de 2001. A testagem padronizada traçou a linha que separa o conhecimento que é digno de inclusão no discurso acadêmico daquele que não o é. Essa lei constitui um pesado fardo sobre as costas de professores progressistas que procuram ligar-se aos estudantes e praticar uma pedagogia crítica. As possibilidades de estabelecer conexões humanizadoras que transcendam o currículo oficial são desencorajadas e essencialmente privadas de significado.

O currículo imposto às escolas públicas é uma poção que amortece o pensamento, domestica os alunos e desqualifica os professores. A alfabetização é reduzida ao domínio de habilidades escritas. As experiências culturais e os modos de saber únicos que muitos alunos trazem para a escola são excluídos do reino do conhecimento acadêmico. Aqui, modos nativos, opositores e locais de conhecer são distorcidos pelos livros didáticos. Quando o currículo é irrelevante para a vida dos estudantes e as possibilidades de um futuro otimista são lúgubres, eles buscam outras formas de aceitação. Também vem ocorrendo um aumento notável no número de estudantes não brancos que são expulsos das escolas por infrações insignificantes, enquanto estudantes brancos que cometem as mesmas infrações não são punidos com a mesma rigidez.

Combinada com essa realidade, a legislação NCLB também introduz um acesso sem precedentes dos recrutadores militares à história pessoal dos estudantes do ensino médio. A lei educacional encoraja e facilita o recrutamento desses jovens para as forças armadas, ou seja, as escolas públicas de ensino médio precisam fornecer aos recrutadores militares informações de contato direto de seus alunos. Com suas aspirações ao ensino superior esmagadas, eles se tornam alvo dos recrutadores militares que desejam sua participação na presente Guerra ao Terror.

É desnecessário dizer que os autores do NCLB consideram os estudantes das escolas públicas dispensáveis e muito úteis para o serviço militar. Berlowitz e Long postulam que a "mais horrenda e até genocida manifestação de racismo nas forças armadas está expressa na disparidade das baixas em combate" (2003, p. 171). Nos Estados Unidos, as pessoas brancas nas forças armadas têm maior representação nas especialidades de combate (infantaria, artilharia, etc.), ao passo que seus correspondentes não brancos são desproporcionalmente encontrados em postos de comando e em posições superiores. Segundo os autores, "isso é agravado pela perspectiva de que o imperialismo dos Estados Unidos coloca quantidades desproporcionais de pessoas não brancas em combate mortal com pessoas brancas ao redor do mundo" (p. 171).

Os jovens não brancos pobres são essencialmente levados a uma cilada armada pelas leis de educação. Uma vez criadas as condições para que esses estudantes sejam academicamente "reprovados", eles são confrontados por recrutadores militares oportunistas de fala mansa que lhes prometem dinheiro para a faculdade, assistência médica, altas bonificações pelo alistamento (especialmente quando se apresentam como "voluntários" para especialidades de combate), oportunidades de viagem e aventura, além de uso de habilidades de trabalho vendáveis e de conhecimento técnico (a fluência em idiomas estrangeiros é recompensada com vantagens ainda maiores). A cilada já lhes foi armada quando eles ainda estavam no ensino fundamental. Dado o entrincheiramento dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, para não mencionar uma presença mais silenciosa em outros países, existe pouco no horizonte que indique alguma mudança no futuro próximo.


O trabalho cultural em nossas escolas

Para os educadores, surgem questões cruciais. Como resolver as realidades diversas de nossos alunos? Quais são as forças que nos restringem e como somos restringidos por elas em nossas escolas e locais de prática pedagógica? Qual é o nosso papel na perpetuação de injustiças sociais? Como desafiar a apatia prevalente em tantos jovens da atualidade? Como se engajar em uma pedagogia pública transformadora? Como trabalhar com estudantes privilegiados (em sua maioria brancos) que não têm interesse ou iniciativa para contestar as condições desumanas em que vivem seus semelhantes?

As escolas públicas comumente são algemadas em suas tentativas de resolver as realidades diversas que os alunos enfrentam. Nos limites do dia escolar, a conduta dos professores é colocada sob tamanho escrutínio, que atos de humanização são desencorajados e punidos. Contudo, Freire (1997) fornece-nos um entendimento imprescindível para esses tempos: ele afirma que os administradores educacionais não podem efetivamente colocar todo professor sob vigilância o tempo todo. É nos momentos e espaços em que os educadores não têm uma ameaça iminente de reprimenda pairando sobre suas cabeças, nem gestores poderosos espiando sobre seus ombros, que um trabalho cultural crítico pode receber água e luz do sol.

Se esses espaços forem escassos durante todo o dia "acadêmico", atividades extracurriculares e organizações estudantis que validem as experiências vividas pelos alunos são necessárias para desfazer os danos intelectuais e espirituais que a socialização da escolarização efetua na vida de muitos jovens pobres e não brancos. Fazer isso efetivamente, contudo, significa que os educadores devem estar conectados às culturas nativas de seus alunos. Eles precisam ter resoluta solidariedade com esses jovens e estar cientes de sua vitimização por práticas como políticas educacionais neoliberais, racismo, exploração de classe, homofobia, discriminação de gênero e outras formas de opressão prevalentes na sociedade atual.

Para muitos estudantes de classe média, o status quo é reconfortante, sendo benéfico que o sustentem. Desafiar a ordem socieconômica e política seria um ato impensável para eles, pois, em última análise, isso colocaria em xeque sua própria segurança e estabilidade. Quando estudantes de condições privilegiadas entram em nossas salas de aula, sua ideologia e sua riqueza material são conhecidas de todos. Por vezes, inconscientemente ou não, eles vão argumentar pela continuidade da opressão de seus semelhantes. Talvez até culpem as vítimas por sua vitimização. Os estudantes de famílias cujo status social trouxe-lhes melhores oportunidades educacionais estão saindo de uma linha de partida muito mais próxima do fim do que estudantes pobres que são novos nas salas de aula. Jonathon Kozol (1992), um estudioso da educação norte-americana, refere-se às diferenças entre escolas ricas e pobres como "desigualdades selvagens". Quando aplicamos essa expressão à ideologia dominante que impera na sociedade, constatamos que tais desigualdades foram propositais.


Rumo a uma transformação do futuro

Ao ingressarmos na segunda década do século XXI, devemos nos examinar criticamente como professores. Devemos igualmente examinar criticamente nossas escolas e a vida de nossos jovens. A questão não é dar-lhes liberdade (essa é uma falsa generosidade, como disse Freire), mas sim reconhecer que sua liberdade está sempre presente. Devemos, portanto, estabelecer as condições para que eles nos ensinem seus modos de saber, seus interesses, suas vitimizações e sua opressão, informando-nos de sua realidade. Este é o momento de educadores e também estudantes de todas as populações oprimidas colocarem-se em solidariedade uns com os outros. Chegou a hora de professores e estudantes exclamarem juntos "Chega!" diante da crescente privatização e militarização de nossas instituições educacionais.

Para ensinar por um mundo melhor, é preciso ter uma clara visão de como esse mundo vai ser. As injustiças enfrentadas pelos alunos em nossas escolas devem tornar-se as nossas próprias injustiças; devemos enfrentar bravamente o mundo, tal como fazem nossos estudantes. Nos momentos em que gestores ou outras autoridades sociais querem saber por que nos desviamos do programa prescrito, nós, como professores, devemos ser capazes de contar com o apoio uns dos outros.

Somente compreendendo a natureza única de nossos jovens e as formas de opressão coletiva é que poderemos um dia resolver plenamente as realidades diversas que eles enfrentam. Vamos aprender e reaprender como a exploração econômica, o racismo, o sexismo, a homofobia e outros modos de opressão têm impacto na vida que nossos estudantes levam. Poderemos então estar em posição para conjuntamente atender a suas necessidades, desenvolver seus interesses e fazer frente a instituições e políticas opressivas que exploram os jovens na atualidade.


Matthew Smith é doutorando na Graduate School of Education and Information Studies, Universidade da Califórnia, Los Angeles. matt75@ucla.edu

Peter McLaren é professor na Graduate School of Education and Information Studies, Universidade da Califórnia, Los Angeles. mclaren@gseis.ucla.edu

REFERÊNCIAS

BERLOWITZ, M.J.; LONG, N.A. The proliferation of JROTC: educational reform or militarization. In: SALTMAN, K.J.; GABBARD, D.A. (eds.). Education as enforcement: the militarization and corporatization of schools (163-174). New York: Routledge, 2003.

FREIRE, P. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d'Água, 1997.

GIROUX, H.A. The terror of neoliberalism: authoritarianism and the eclipse of democracy. Boulder, Colorado: Paradigm Publishers, 2004.

PADILHA, J. (dir.); PRADO, M. (prod.). Tropa de Elite. Brasil: The Weinstein Company, Costa Films e Zazen Produces, 2007.

The No Child Left Behind Act of 2001. Public Law 107-110. Jan. 8, 2002.

Fonte: http://www.revistapatio.com.br

2 comentários:

Valdeir Almeida disse...

Pois é, Marise.

Enquanto os estudantes de classe baixa assistem Malhação, os alunos da classe A, estão na Internet ou nos shoppings da cidade.

Os jovens pobres, telespectadores de Malhação não têm dinheiro para consumir os produtos veiculados naquela novelinha (ou nos intervalos comerciais). Já os jovens ricos podem consumir à vontade nos shoppings.

Por isso, se os jovens pobres não tiverem famílias estruturadas...

Abraços, Marise.

Suziley disse...

Boa noite, Marise:
O neoliberalismo exacerbado atinge a todos. Jovens ricos ou pobres. Negros ou brancos. Pois sempre disconsidera a pessoa humana. Dali ninguém escapa. E também a educação. Infelizmente. É preciso consciência crítica, vontade transformadora e coragem destemida para construir uma nova ordem, uma realidade libertadora e esperançosa. Valeu o texto. Um bom feriado para você, beijos no seu coração ;)

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