sábado, 12 de junho de 2010

Todos nós somos meritocratas, por Paulo Sartori*

Toda vez que leio críticas sobre os projetos de melhoria da qualidade para a educação, me pergunto como é possível um professor ser contra a meritocracia. Nós, professores, ensinamos meritocracia todos os dias! Quando dizemos aos nossos alunos “estuda para passar”, estamos lhes dizendo que só passa quem tiver o mérito de ter estudado. Quando damos um 10 a um aluno, estamos reconhecendo o mérito do seu conhecimento! Como é possível ser contra aquilo que nós mesmos ensinamos?

Quando um professor faz uma pós-graduação, ele deve ao final redigir uma tese, original ou não, ou um trabalho de conclusão. Será que algum dia ele gostaria de ver outro plagiando seus trabalhos? Será que ele plagiou o trabalho de alguém? Acredito que a resposta é negativa para ambas as perguntas. Então, esse professor quer que seu mérito acadêmico seja reconhecido e ele próprio reconhece o mérito daqueles que o antecederam. Como, então, ele poderia ser contrário ao reconhecimento do mérito?

Talvez os críticos da meritocracia queiram dizer que são contrários a um projeto de meritocracia, mas não é isto que tenho ouvido. Aqueles que criticam não especificam ao que exatamente são contra. Quando falam, são muito genéricos e não deixam claro sobre o que exatamente são contrários. Criticar um projeto e propor alternativas é perfeitamente válido e legítimo e eu também tenho minhas críticas, mas não sou contra a meritocracia.

Por exemplo, o piso de R$ 1,5 mil para aqueles professores que ganham menos do que isto, o que ele tem de meritocrático? Nada! Ele simplesmente gratifica aqueles que ganham pouco. Eu preferiria ver o Estado financiando os cursos de graduação para esses mesmos professores. Não acredito em meritocracia coletiva, o mérito é algo por natureza individual. Somente quando se tem um grupo de pessoas que merecem o mérito, é que se pode falar em meritocracia coletiva. Pagar bônus aos professores é aquilo que na área privada se chama de “divisão dos lucros entre os funcionários”. Se os funcionários contribuíram para o sucesso da empresa, então nada mais justo que compartilhem das benesses disto. O mesmo espírito estaria garantido se o bônus viesse por ter melhorado, sem metas, o Ideb da escola ou a média no Saers. A escola precisa competir com ela mesma, pois escolas diferentes têm diferentes realidades. Mas e as coordenadorias e a Secretaria de Educação? Como se processarão lá os procedimentos de melhoria de qualidade? Afinal, as escolas e os professores dependem do que acontece lá. A falta de professor é a pior coisa que pode acontecer. Não há qualidade sem professor!

A população também é meritocrata. Em outubro, os eleitores estarão votando naqueles que acham ser os candidatos com o maior mérito para ocupar os cargos eletivos da nação. Tem medo da meritocracia somente quem prefere a “lei do menor esforço” ou que não sabe o que fazer. É mais trabalhoso fazer o que precisa ser feito do que fazer aquilo que os outros desejam. Dá trabalho ser eficiente. Dá trabalho ter mérito.


*Professor, ex-diretor do Instituto de Educação General Flores da Cunha

Fonte: Jornal Zero Hora
Imagem: http://www.eimidia.com

Nenhum comentário:

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin