sexta-feira, 16 de julho de 2010

Se eu não fosse imperador..., por Aloyzio Achutti*


“Se não fosse imperador do Brasil, quisera ser mestre-escola. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro.” (Pedro II)

É pena que ele tivesse sido imperador, quem sabe não nos faltariam hoje professores, e nós, homens do futuro (dele), estaríamos mais bem preparados...

De qualquer forma, não temos mais imperadores. Eles foram parar nas escolas de samba e no futebol. Entretanto, a julgar pela política nacional, expressa no salário dos professores, nas escolas e seus equipamentos, nossos dirigentes de hoje – parafraseando – provavelmente diriam: “Se eu não fosse presidente da República, quisera ser jogador de futebol”.

Muitos jogadores ganham salários astronômicos, fora de parâmetros do mercado de trabalho, desproporcionado com seu preparo profissional, impossível de encontrar termo de comparação com o salário de professores e de profissionais da saúde. É a maior evidência de que nós, homens do futuro do imperador, não fomos preparados para formar uma cultura adequada, pois enquanto freneticamente aplaudimos uns, não valorizamos e agredimos outros.

É compreensível que o povo necessite de circo assim como necessita de pão. Jogos, como alternativas para extravasar a violência reprimida, também são necessários, e não podem ser menosprezados. Entretanto, seria bom que tivéssemos também alternativas participativas, nas quais o esporte fosse compartilhado, e não ficássemos sentados como espectadores aplaudindo ou vaiando, nem alienados desviando nossa atenção de assuntos muito mais importantes.

Sabe-se também que há muito interesse secundário em jogo, da indústria, do comércio e da política populista, mas não podemos ficar insensíveis para a deformação provocada na lapidação de ídolos populares, expondo-os a condições de vida e de permissividades para as quais eles absolutamente não foram preparados.

Dá também para entender que grande parte da população, e até de políticos que ascendem ao poder, assim como ascendem jogadores famosos, não tenha condições de valorizar a educação, o ensino e a saúde, porque não teve aquela orientação e o preparo de que falava nosso imperador.

Vale a pena examinar (embora não tenhamos uma supervisão de projetos como tem a Fifa), nas plataformas políticas – entre as quais teremos que escolher –, quais as metas educacionais a estarem prontas até a Copa de 2014.

Assim como saúde, educação é um investimento a ser feito em longo prazo e continuamente. O imperador tinha razão: não há missão mais nobre que a de dirigir inteligências jovens.

*Médico

Fonte: Jornal Zero Hora -  15 de julho de 2010 -  N° 16397

Um comentário:

Suziley disse...

Sábio texto do médico Achutti. Faltam-nos homens, daqueles falados por D. Pedro II, que, de fato, em nome do bem comum, priorizasse a educação e a saúde, que são sem dúvida o todos precisam. Os vencimentos de um jogador comparado com de um professor ou qualquer outro profissional é vergonhoso. Excelente postagem, Marise. Um bom final de semana, beijos no seu coração ;)

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