sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A escola conectada com a vida do aluno, por Carlos Eduardo de Oliveira Klebis


Carlos Eduardo de Oliveira Klebis 
     Se a Educação é decisiva para os rumos de qualquer sociedade, o seu agente principal, o(a) professor(a), merece atenção especial. Com apoio, valorização e infraestrutura será mais fácil enfrentar os desafios que batem à porta dos mestres, numa sociedade em constantes e aceleradas mudanças.


Carlos Eduardo de Oliveira Klebis,
professor e supervisor de ensino na rede pública de Valinhos, SP.
Endereço eletrônico: emiklebis@yahoo.com.br



Mundo Jovem: Para a escola e o professor, é importante pergunta quem é o aluno?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: Acho que esta é uma pergunta que muitas vezes as escolas não se fazem. “Quem é o aluno?” é uma pergunta que tem que ser feita não só de forma genérica, mas em cada sala de aula, em cada região do país, em cada realidade social diferente, porque essas pessoas são diferentes. Às vezes os próprios materiais didáticos de ensino não se questionam sobre isso. Por isso muitas vezes percebemos que há um descompasso entre o que a escola oferece e o que de fato é a cultura com a qual esses jovens estão mais em contato. Não se pergunta do que ele gosta, o que ele escuta, quem ele é.

Mundo Jovem: Então os currículos devem considerar a cultura dos jovens?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: A singularidade do ser humano está expressa em qualquer faixa etária. É preciso que professores e escolas procurem definir melhor de que maneira abordar a cultura desse jovem e como usar isso para construir pontes entre aquilo que a escola pretende e aquilo que o sujeito deseja ou espera da escola.

     Muitas vezes, no Ensino Médio, temos uma sensação de que é possível aprender quase tudo, e o jovem se percebe como alguém que ainda não sabe muita coisa, mas que é capaz de aprender qualquer coisa, desde que tenha acesso a isso e se interesse por isso. Mas os interesses são muitos. E quando a escola “descola”, quando ela se separa da vida cultural dessas pessoas, ela se torna um espaço artificial. Trabalha conhecimentos que não são percebidos pelos jovens como conhecimentos que se conectam com a sua vida cotidiana ou com o seu universo de interesses, de expectativas.

Mundo Jovem: Mas os conteúdos podem ser adaptados para cada realidade de forma diferente?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: O que ensinar é uma coisa prédefinida culturalmente, nós temos uma matriz curricular do Ensino Médio. Mas há certas coisas que não estão nestas matrizes e são demandadas pelos jovens, coisas que eles querem conhecer e conversar.

     O currículo deve ser permanentemente revisto. Ele não pode ser estático, fixo. Ele não pode também ser construído somente em função do mercado de trabalho ou das expectativas da universidade. Ele tem que ser construído em cima de uma proposta da formação humana. Se pensarmos em função do mercado, o mercado vai começar a ditar o que a escola tem que oferecer. Tem muita coisa importante para a formação humana que não é importante para o mercado e vice-versa.

Mundo Jovem: E os aspectos metodológicos?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: Percebemos que os professores no Ensino Médio, especialmente no primeiro ano, muitas vezes, recebem alunos que são desconhecidos até na própria escola. Porém o planejamento é feito antes da chegada desses alunos. Por exemplo, em Literatura, os textos geralmente são escolhidos em função daquilo que é mais fácil, do que já foi trabalhado; o mesmo texto e da mesma forma. Assim, perde-se uma oportunidade muito importante de conhecer o que os alunos novos estão trazendo, o que já leram, o que gostariam de ler, que tipo de história, quais assuntos estão pulsantes nos seus discursos.

     Com esta metodologia de fazer planejamento anterior, em alguns casos o professor fica “amarrado”, ele acaba tendo que dar sequência ao planejamento porque é cobrado inclusive pela família do aluno. Pessoalmente, percebi que essa estratégia pode não dar certo. Já fiz um planejamento para alunos de 5ª Série, que eu presumia serem alfabetizados. Mas me deparei numa turma com 19 pessoas não devidamente alfabetizadas, o que me impossibilitou uma sequência ao plano. O professor, às vezes, presume que o aluno já vem mais ou menos pronto. E daí, obviamente, não há projeto que se sustente apoiado num aluno virtual, concebido à revelia daquilo que realmente é a cultura da qual esse jovem participa.

Mundo Jovem: Na relação entre professor e aluno, o que é importante?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: O professor tem que ser educado. Se o aluno está tendo uma atitude inapropriada e o professor reagir com gritos ou expulsão, o aluno detestará cada vez mais o professor. Porque o aluno não tem maturidade suficiente para perceber que aquele gesto tinha o objetivo de fazer com que a sala toda prestasse atenção e aprendesse. O aluno toma como uma coisa pessoal: “O professor não gosta de mim, e se ele não gosta de mim, também não vou gostar dele”.

     A escola, que é um microcosmo da sociedade, tem certas práticas muito esquisitas. A expulsão, por exemplo: se o aluno apresenta problema na escola, esta o expulsa. Não temos esse mecanismo na sociedade, não podemos expulsar pessoas. Penso que a escola precisa achar uma forma de lidar com esses alunos. O professor que tem uma boa relação com os alunos é aquele que procura dialogar com eles. Se houver um fechamento, as coisas tendem a piorar. Então, eu acho que ler livros, discuti-los, deixar os alunos falar é importante. É importante ouvir para também ser ouvido.

Mundo Jovem: Como professor, quais foram os aprendizados que te marcaram?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: Os alunos trazem coisas novas - músicas, leituras - que são objetos da cultura contemporânea, que pouco me interessariam se não fosse por esta relação. E como eles têm uma relação muito forte com estas coisas, eu preciso conhecêlas. Conhecer o que estão vendo e complementar que aquilo tem relação com outras coisas, amplia, enriquece a forma como eles vão ler aquilo daí pra frente. O professor tem que ter uma abertura de querer aprender também.

     O professor de Ensino Médio, por exemplo, tem que entender da música e das artes, de um modo geral, que são atrativas para essa faixa etária. Tem que procurar entender um pouquinho os posicionamentos políticos e ideológicos, as questões de relacionamento dessa faixa etária para poder dialogar com eles, para poder, inclusive, quando solicitado, conversar e aconselhar. Ninguém procura conselho com alguém que está totalmente distante.

     Muitas vezes o amigo que procuramos é aquele que nos compreende, porque partilha o nosso universo cultural de forma mais abrangente. Agora, o professor que fica lá distante no seu pedestal, que minimiza o drama que o aluno está vivendo - se o(a) aluno(a) está chorando por causa de namorado(a), por exemplo - precisa compreender que aquela pessoa está passando por uma fase dolorosa, emocionalmente complicada. O professor deveria ter a sensibilidade de conversar sobre estas questões de forma respeitosa, generosa.

Mundo Jovem: É um relacionamento bem familiar?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: Uma criança não precisa ser infantilizada. Um adolescente não precisa ser negligenciado e infantilizado também. A postura artificial não é bacana. É legal o professor realmente se preocupar com as questões que o jovem traz e conversar com ele de forma franca, como alguém que já foi jovem e já passou por algumas situações semelhantes. Hoje, existem outros elementos que o professor precisa conhecer para compreender melhor o jovem. Conhecer as redes sociais, como os jovens se relacionam através delas, o que elas trazem de bom, o que pode ser problemático...

     A escola é um espaço de informação. Mas não é só isso. É um espaço também para uma abordagem sensível, que faz com que se “quebre o gelo” e aproxime as pessoas.

Mundo Jovem: Os professores têm que se “contagiar” para trabalhar numa mesma visão dentro da escola?

Carlos Eduardo de Oliveira Klebis: Se a equipe de professores se fortalece num comportamento acomodado ou insatisfeito, quando aparece um professor que mantém o entusiasmo e começa a puxar um e outro, isso começa a se tornar positivo e contagia os demais. Em qualquer relação social, quando encontramos uma pessoa que produz ideias, que se envolve com as coisas, que faz e acontece, nos empolgamos também e procuramos assumir uma postura de apoiar e de ajudar.




“O professor precisa gostar de gente”

     Ser professor é uma profissão interessante. Em qualquer momento do ano, em qualquer horário do dia, em qualquer situação social, o professor é sempre o professor. Se você encontra o seu professor de dez anos atrás na rua, você espera dele uma postura de professor. Há uma expectativa em torno do professor para tudo. O professor é uma referência para o aluno, não somente dentro da sala de aula. Acho que o professor, nos intervalos das aulas, não deveria ficar numa “sala de professores”. Ali o aluno não o enxerga como alguém que tem uma relação interessante com aquilo que ele trabalha. E muitas das nossas escolhas têm a ver com essa coisa de ver alguém se envolver de tal forma com uma profissão que nos contagiou e nos estimulou a ir por aquele caminho. O professor precisa ter um envolvimento verdadeiro com o que trabalha. Se ele realmente gosta do que faz, é um professor que certamente tem menos problemas de relacionamento com os alunos.

     A primeira vez que tive uma experiência de ensino foi quando vi, num semáforo, nove crianças que estavam pedindo dinheiro. Perguntei a elas por que ficavam ali pedindo dinheiro e também perguntei se estavam na escola, ao que responderam que não. Comecei a trabalhar com elas. A primeira coisa que me perguntaram é se ia ter bolacha. Então eu levava bolachas, a gente discutia, conversava, eu tocava violão para elas, contava histórias, ouvia música, desenhava, pintava... E depois de um tempo, uma dessas crianças olhou para mim e disse: “Nossa, que legal fazer isso!”. O olhar daquela criança, que é o olhar dos alunos em geral, é o que me deixa motivado. É o que faz você perceber que pode ser alguém que está ajudando o outro sem esperar, necessariamente, algo em troca no sentido imediato. Mas você percebe que está marcando uma relação como outro, que lhe pode ser importante futuramente.

     O que me empolga de trabalhar como professor é estar no meio de pessoas. O professor precisa gostar e se preocupar com as pessoas. Por alguma razão, ao me preocupar com aquelas crianças, naquela época em que eu era jovem e não tinha nenhum interesse em ser professor (eu pensava em ser escritor), por conta dessa experiência eu percebi que seria professor.

     A questão salarial é importante porque permite que pessoas mais bem qualificadas venham para essa profissão. Embora não seja o único fator, um salário bom atrai o profissional. Por isso a questão salarial é importante, mesmo não sendo determinante.

     Acho que a relação professor-aluno é o grande motivador do professor. Se ele sente prazer nessa relação, vai ser um professor motivado, porque vai se comprometer com aquela criança, aquele jovem. Eu acho que o professor tem que “vestir a camiseta” do aluno, tem que estar do lado dele, entendê-lo, procurar se aproximar o máximo possível e ser amigo. E o aluno percebe isso. Quando o professor gosta do que está fazendo, ele se torna extremamente fascinante aos olhos dos alunos. A relação “apaixonada” do professor com o que ele trabalha e a forma generosa com que ele trabalha com os alunos é muito legal.

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