quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sobre emoção e compromisso, por Luis Carlos de Menezes

Ensinar bem requer, além de conhecimento e competência, doses de responsabilidade e envolvimento emocional.

Luis Carlos de Menezes (novaescola@atleitor.com.br)

"Quando as dificuldades e as conquistas
são compreendidas como sendo da equipe
escolar, surge a paixão pelo bom trabalho."

Profissionais que lidam diretamente com a condição humana, como pediatras e psicólogos, sempre precisaram de compromisso pessoal tanto quanto de capacidade diagnóstica e terapêutica. Outros, como cozinheiros ou músicos, além de domínio técnico e instrumental, dependem de emoção e sensibilidade para sua criação cultural. Já os profissionais de Educação, ao lado de conhecimentos e técnicas pedagógicas, precisam de ambas as demais condições, ou seja, tanto de compromisso pessoal como de envolvimento emocional para promover o desenvolvimento cultural e socioafetivo dos estudantes para os quais lecionam.

Aliás, a expectativa de que professores reúnam qualidades esperadas dos dois grupos de profissionais citados acima é cada vez maior. Afinal, hoje educadores precisam de um engajamento profissional e pessoal diferente daquele que bastava no tempo em que alunos aguardavam atentos e perfilados para receber os mestres. Conduzir atividades coletivas com turmas não habituadas ao convívio respeitoso, ensinar com textos crianças que vivem em ambientes onde pouco se lê ou comunicar-se com jovens, competindo em desvantagem com os celulares e a web, são exemplos de tarefas que exigem as condições já mencionadas.

Essas condições difíceis e tão frequentes resultam em perplexidade e queixas se forem consideradas alheias à responsabilidade pedagógica. Se vistas como contingências do trabalho, entretanto, servem para contextualizar o aprendizado, suprir carências identificadas e produzir desafios estimulantes, que conduzam a uma disciplina de participação ativa, e não de atenção passiva. O mesmo vale para tratar casos de defasagem ou indisciplina que, em lugar de serem vistos como uma responsabilidade exclusiva dos alunos, possíveis candidatos à repetência ou à exclusão, devem ser enfrentados como um problema da escola por professores realmente comprometidos em garantir a todos o direito de aprender.

É compreensível que isso seja visto como uma situação idealizada por professores que encarem esses desafios em seu dia a dia, mas trabalham em condições que não permitem adotar o comportamento esperado. Sabendo disso, podemos nos questionar o que é preciso para que todos assumam o pleno compromisso de adotar um real envolvimento pessoal com seu trabalho. A chave para tratar essa questão está no "com" da palavra compromisso, que indica reciprocidade e intenção firmada em conjunto - no caso, para cumprir uma responsabilidade social, realizando uma tarefa complexa que demanda envolvimento humano.

Diferentemente da relação entre psicólogo e paciente, não é só com o aluno que o professor se compromete, mas com seu coletivo de trabalho na instituição escolar. E, mais do que na relação do artista com a obra, a sensibilidade e a emoção também se expressam nas relações de uma comunidade de educadores e educandos, não como manifestação individual. Se faltar a responsabilidade assumida em conjunto, com respeito e condições de trabalho, a coletividade perde sintonia ou nem se concretiza, a condução do ensino se torna burocrática e descompromissada, e a sensação dominante passa a ser de apatia, quando não de frustração - tanto dos professores como de seus alunos.

Mas, quando a ação educativa se dá em uma comunidade escolar solidária em suas responsabilidades e na qual dificuldades e conquistas são compreendidas como sendo de toda a equipe, surge a paixão pelo bom trabalho e isso também envolve os alunos. Essa é a condição primeira para a existência de uma verdadeira escola, o que não resolve todos os seus problemas nem elimina tropeços e dramas inevitáveis em qualquer atividade humana, mas cria as condições para que o educar seja realizado como deve - com compromisso e emoção.

 É físico e educador da Universidade de São Paulo (USP).

Fonte: Revista Nova Escola

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