sábado, 26 de junho de 2010

Algumas dicas de boas maneiras na escola, por Cármen Mateus


As boas maneiras constituem a base do relacionamento em todos os aspectos da nossa vida. Sua importância no ambiente escolar e na educação de uma criança equipara-se à de aprender a ler, escrever e contar. Cabe ao professor conscientizar-se de sua função, para promover e manter um ambiente alegre, agradável e saudável na sala de aula, com a participação e a colaboração dos alunos.
As boas maneiras no ambiente escolar são baseadas na demonstração do interesse e da consideração pelas pessoas. Às vezes, a cortesia comum não é suficiente. Há várias situações na vida que exigem o conhecimento exato do que dizer, como agir, o que vestir, o que escrever. O sucesso das pessoas se deve em parte ao fato de saberem como se comportar em quase todas as situações. Algumas dicas básicas devem ser incorporadas ao cotidiano de professores e alunos

§ Fazer uso das palavras "mágicas" sempre que necessário: por favor; com licença; obrigado(a); desculpe.

§ Cumprimentar as pessoas ao chegar e despedir-se ao sair. 

§ Demonstrar respeito pelas outras pessoas, sejam elas mais velhas, da mesma idade ou mais novas. 

§ Respeitar a privacidade dos outros: não mexer na mesa, na bolsa ou mochila dos colegas sem a autorização deles nem ler qualquer material que não lhe pertença. 

§ Não interromper a conversa das pessoas. 

§ Esperar a sua vez de falar e escutar com atenção o que os outros têm a dizer. 

§ Relacionar-se da melhor maneira possível com os colegas e professores. 

§ Ser pontual. Não deixar as pessoas esperando por você. 

§ Elogiar os colegas, sempre que cumprirem bem a sua tarefa ou fizerem um esforço para melhorar. 

§ Dar crédito a quem merece. Em hipótese alguma aceitar um elogio pelo trabalho de outra pessoa. 

§ Se estiver numa função de supervisão, fazer as críticas necessárias e justificá-las. 

§ Se tiver de corrigir ou repreender alguém, fazê-lo em particular, para não constranger a pessoa na frente dos colegas. 

§ Evitar a discriminação de seus colegas por qualquer motivo. Não criticar ou culpar as pessoas pelas costas, sem que elas possam defender-se.

§ O sorriso é fundamental para facilitar o entendimento e gerar simpatia, desde que não seja irônico e debochado.

§ Evitar gritos como meio de chamar as outras pessoas.

§ Evitar o uso da sala de aula como toalete: nunca passar batom, pentear o cabelo, lixar ou pintar as unhas no horário de aula.

§ Devolver tudo que pedir emprestado aos colegas, como canetas, livros ou guarda-chuva.

§ Não cultivar o hábito de pedir dinheiro emprestado para pequenas coisas, como almoço e ônibus, pois é comum esquecermos de pagar pequenas quantias.

§ Não ser inconveniente: evitar a interrupção do trabalho alheio para bater papo.

§ Oferecer apoio aos colegas que precisarem. Se souber de alguém que está passando por uma crise pessoal ou um período difícil, ouvi-lo com compreensão.  

§ Se alguém lhe fizer uma gentileza, responder com uma nota de agradecimento.  

§ Procurar não falar demais sobre seus conhecimentos e suas qualidades. Não usar seu sucesso pessoal como uma forma de humilhar os companheiros ou criar antipatia. Nem sempre é fácil controlar emoções em situações de trabalho, mas vale a pena tentar. Analisando os nossos defeitos e as exigências do nosso trabalho, podemos descobrir onde estão as nossas falhas e corrigi-las.
"O homem recebe duas classes de educação: uma que lhe dão os demais;
outra, mais importante, que ele dá a si mesmo." (Gibbon)

Fonte:Editora Scipione
Imagem: Aqui 

sábado, 19 de junho de 2010

Gestos que educam, por Mara Debus*

Gooooooooooooooooooooool!


Nas arquibancadas, enquanto uma torcida se levanta, aplaude e comemora, a torcida do time adversário se mantém calada, inerte e entristecida.


O artilheiro, ao correr para o encontro da torcida e comemorar o gol feito, tira a camisa, dança, saltita, embala o filho simbólico, beija a aliança, faz o sinal da cruz, eleva os braços ao céu para agradecer e, assim, envia a sua mensagem.


Palavras para quê? Não foram necessárias. E tudo foi literalmente compreendido. O que observamos é a presença da linguagem do corpo. O corpo que fala e comunica. Para comunicar, não é preciso necessariamente falar. A comunicação pode ser através do som, da imagem e escrita. Também por gestos, já que um gesto pode dizer e significar muitas coisas.


O gesto de positivo e negativo feito com o dedo polegar, por exemplo. De origem confusa, para uns nasceu na época dos combates entre gladiadores, na Roma antiga, quando cabia à plateia escolher se o combatente deveria morrer ou não através da escolha de seu gesto; para os ingleses, era comum o uso dos polegares para fechar negócios: as duas pessoas envolvidas molhavam o dedo, levantavam a mão e apertavam um polegar contra o outro. Verídicas ou não, há várias teorias tentando explicar a origem do gesto. O que sabemos, com certeza, é que o uso do polegar para cima significa positivo e polegar para baixo, negativo.


Na infância, a comunicação não verbal é usada com muita naturalidade. Seja através do contato visual ou físico, do sorriso, da expressão facial, gestualidade, postura etc., a criança encontra fórmulas mágicas – no sentido literal da palavra – para demonstrar o que é legal e o que não é legal. Jogar papel na rua? Gesto negativo: dedinho pra baixo. “Bom dia”, “por favor”, “obrigado” e “até logo”? Gesto positivo: dedinho pra cima.


Lições de civilidade aprendidas na família ou na escola, espaços que marcam o início da vida pública e que são necessariamente espaços de construção da cidadania. Exemplos que deveriam ser habituais e que, em época de Copa do Mundo, especialmente, podem ser aplicados para educar nossas crianças e, quem sabe, reeducar adultos.


Assim como o jogo carrega em si um significado muito abrangente, o gesto é cercado de simbolismo e reforça a motivação, permitindo a criação de novas regras e ações. Dedinho pra baixo e dedinho pra cima? Paz e amor? V da vitória? Gestos que permitem a criança ser e estar em um mundo que se movimenta, gesticula e ao mesmo tempo encontrar formas de imitá-lo para aprender a viver.


Levar o exemplo do mundo esportivo para o ambiente educacional é um desafio extremamente válido. Devemos explorar o sentimento de civismo que aflora neste momento em que milhões de patriotas surgem de verde e amarelo com as mais diversas caracterizações e acessórios para comemorar na tentativa de provar o quanto são cidadãos e torcem pelo Brasil.


*Administradora e consultora educacional

Fonte: Jornal Zero Hora - 17 de junho de 2010 | N° 16369

Pensar, pensar



Por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

Esta entrada foi publicada em Junho 18, 2010 às 12:01 am e está arquivada em Outros Cadernos de Saramago.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Futebol para a vida, por Ronaldo Bressane



As preciosas lições do velho esporte bretão para o nosso cotidiano




“No futebol não tem surpresa”, falou o técnico Dunga a mais de um mês da Copa. “No futebol não tem surpresa” – a frase repercutia na minha cabeça. Era assim que o treinador da seleção explicava o motivo para não introduzir os jovens atletas malabaristas do Santos em um time que joga junto há quase quatro anos, já tendo portanto um padrão bem definido de jogo. Como escrevo do passado, não tenho como saber se Dunga ouviu a voz do povo e convocou Neymar e Ganso; mas isso não vem ao caso, e sim o significado dessa frase tão bisonha quanto matar uma bola de canela. Lembrei-me de outra frase famosa, esta de Oscar Niemeyer: “A linha reta não sonha”. Todo gol vem da curva surpresa, como num sonho, até aqueles gols mais esperados, como os de pênalti ou os feitos por Ronaldo Fenômeno depois de arrancada mortal (na época do Barcelona, por supuesto).



É bem provável que Dunga queria dizer que no futebol, depois de tudo ensaiado, milimetrado, calculado e combinado, as surpresas acontecem quase no modo automático. Afinal, o técnico representa uma seleção pragmática que se convencionou chamar de Era Dunga. O time de 1994 que venceu uma Copa depois de 24 anos aliava, de um lado, a força de Dunga e Mauro Silva no meio-campo com os lampejos do craque Bebeto e a letalidade do fora de série Romário. Mesmo assim, fica difícil entender como um time que faturou o caneco com uma penalidade desperdiçada por Roberto Baggio na final do torneio poderia não ter contado com o acaso, o destino, o lendário Sobrenatural de Almeida (como dizia Nelson Rodrigues, cronista genial). Será que o Dunga acha que aquela bola fora italiana também havia sido prevista na prancheta do Parreira?



“Provocar o inesperado. Então, esperá-lo”, diz o filósofo Paul Virilio. Talvez Dunga esteja sendo ainda mais filosófico em sua defesa da falta de surpresa. Sua crença no planejamento é tão grande que ele pretende, como o Matraga de “A hora e vez de Augusto Matraga”, conto de Guimarães Rosa, “entrar no céu nem que seja a tiro”: torcer o destino até convencê-lo que sua ideia inflexível seja a correta, impingir aos adversários sua tese de maneira tão implacável que colher os louros da vitória pareça uma comprovação da lei de causa e efeito. Dunga é um apóstolo da verdade essencial do futebol: a colaboração, a ideia de que o resultado final vai acontecer mediante a participação de todos – e, se um falhar, outro irá cobri-lo em seu lugar.



Drible X passe É preciso reaprender a colaborar com as crianças. Lembro que só fui compreender essa verdade fundamental do “colaboracionismo” ao assistir às partidas de futebol de Lorenzo, meu filho de 7 anos. Quem já assistiu a uma pelada entre moleques – mesmo que apitada numa escolinha de futebol – sabe que não existe esquema tático que vença a gana alucinada de, ao menos, dar um chutinho na bola. Nos primeiros jogos, a quadra parece uma praça cheia de pombos. Os moleques pulam na redonda como pássaros mergulhando sobre um saco de milho. Depois de um tempo, se cansam. Alguns se desinteressam do jogo; outros continuam insistindo em se atirar na bola; e há aqueles que ficam por perto, rondando, esperando a chance de pegar uma jogada espirrada. Com esses é que mora o jogo: aprenderam que, sozinhos, não vão conseguir buscar a bola no meio e levá-la até o gol.



Entende-se muito sobre o caráter humano assistindo a um jogo de futebol infantil. É possível distinguir toda a variedade de tipos em seu berço. Com 7 anos já se adivinha a personalidade que as figurinhas terão ao longo da vida – os obedientes, os mascarados, os leais, os orgulhosos, os egoístas, os generosos, os alienados. Havia um menino que sempre chorava porque não lhe passavam a bola – mesmo que fizessem o gol: “Mas era minha vez de fazer!” Lourinho, logo foi apelidado de “Reclamão”. Dois irmãos meio doidões davam as costas ao salseiro que se plantava na pequena área para exibir um ao outro as formigas e besouros que haviam colhido no gramado. Um cabeludinho fominha não soltava a bola, era derrubado e se jogava espetacularmente, pedindo falta. Um magrela disparava tipo trombadinha para cima do jogador adversário, até lhe ganhar a bola. Um gordote parecendo um tanque de guerra levava tudo pela frente, bola, grama, jogadores de seu time e do outro, e, na hora de finalizar, furava e ia descontar chutando a canela do professor. Havia os que se irritavam e saíam do campo para resmungar com a babá, sendo imediatamente consolados. E também aqueles que faziam exatamente o que o professor fazia, jamais tentando um improviso.



Enquanto isso, havia aqueles que tomavam cascudos mas seguiam em frente, e aqueles que, na hora de fazer o gol, cara a cara com o goleiro, preferiam passar a bola para o companheiro que surgia de trás. De repente fulguravam jogadas magistrais. Era óbvio que essas jogadas aconteciam no momento emocionante em que aqueles minijogadores de Playstation compreendiam estar participando de uma criação coletiva. Daí talvez o encanto do futebol, um esporte em que o individualismo não exclui a solidariedade, e vice-versa. Mas, mesmo que existam jogadores excepcionais, que parecem viver em um campo só deles, nenhum Messi, nenhum Kaká, nenhum jogador pode ser maior que o jogo. Depois de uns dois meses na escolinha, Lorenzo, que até então só havia jogado com o perna de pau que vos tecla, sobre quem adorava impor o drible da vaca (em que o jogador dá um passe longo para si mesmo e vai buscar a bola do outro lado do adversário, especialidade de velocistas como Romário ou Neymar), ouviu minha pergunta: “O que você acha mais importante, o passe ou o drible?” Fiquei mais orgulhoso que quando ele marcava um gol ao ouvir: “O passe, lógico. Sem passe não tem gol, pai”.



O respeito Quando todos os integrantes de uma equipe se respeitam e se veem num mesmo nível, deixando o ego do lado de fora, a competição não é por saber quem é o melhor – mas qual a maneira de alcançar o melhor resultado. Em outros campos da vida, como no futebol, há mascarados, há os que jogam para o time, há os que se escondem na hora de bater o pênalti. E, no momento em que o time está afinado, é impossível disfarçar a melhor solução: ela se impõe naturalmente, como um gol que todos comemoram



O leitor de uma matéria como esta talvez não imagine que determinado tempero possa ter sido agregado pelo editor, que uma legenda engraçadinha tenha sido fornecida pelo diretor de arte ou que o título tenha sido criado pelo estagiário que estava passando e viu a imagem da abertura por um ângulo inusitado. É assim que acontece. Em jornalismo, em raríssimos casos uma única pessoa é responsável por todo o produto final. E, queira crer, leitor, quase sempre, em se tratando de uma matéria brilhante, o processo foi colaborativo, jamais individual. O mesmo deve acontecer numa empresa de tecnologia, num estúdio de cinema, numa agência de propaganda, num pronto-socorro e, por que não, até numa agência bancária. Mesmo nos ambientes mais capitalistas, é a engrenagem do materialismo comum que impõe-se como regra – ainda que um apareça mais que todos.


Mesmo nas manifestações artísticas, em que se tende a valorizar o gênio que desponta solitário, é preciso entender que houve condições propícias para que ele aparecesse, colegas com quem tocou a bola e até adversários que lhe desafiaram as convicções. A Semana de 22, liderada por Oswald e Mário de Andrade, não existiria sem as caneladas e cotoveladas de um adversário como Monteiro Lobato. Para que Miles Davis se impusesse, foi-lhe indispensável a companhia de Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e um longo etc. No Brasil, pátria do toque de bola por excelência, foi sempre assim – com a bossa nova nos anos 50, com o tropicalismo nos anos 70, com o cinema da retomada dos anos 90, com a arte de rua dos anos 2000. “Ninguém é uma ilha”, escreveu o poeta inglês John Donne.


O talento Claro que existem equipes que trabalham somente para que um genial integrante se sobressaia – eu me lembro, por exemplo, do time do Corinthians campeão brasileiro de 1990, em que o camisa 10 Neto era uma ilha de genialidade rodeada de operários e esforçados por todos os lados. Mas, naquelas equipes que reúnem os maiores talentos individuais, o coletivo sempre acaba prevalecendo – é o caso da seleção de 1970, a única da história que reuniu cinco camisas 10 até hoje (Pelé, Gérson, Rivellino, Tostão e Jairzinho).



A tese de que os valores individuais geram o melhor coletivo, porém, pode ser facilmente batida quando se lembra de outra seleção que encantou o mundo: a de 1982, que juntava Zico, Sócrates, Éder, Falcão, Cerezzo, Júnior, Serginho etc., sob a batuta do “futebol-arte” conforme pensado por Telê Santana. Até então, era um time invencível, que aliava exibições individuais brilhantes à manutenção da posse de bola como não se via desde o time holandês de 1974, que propunha o “futebol total”, em que todos eram atacantes e defensores e nenhum jogador guardava posição. Até que veio o infame jogo com a Itália no estádio de Sarriá – e o resto é história. O que teria faltado para superar a “surpresa” chamada Paolo Rossi? Talvez, se jogássemos mais nove vezes, ganharíamos todas; em todas as outras realidades alternativas, o Brasil seria logicamente campeão, como não se cansam de dizer todos os sábios de botecos do país. Ou talvez tenha faltado àquela seleção um fator relâmpago – como o gol de Gaúcho contra a Inglaterra em 2002, quando o camisa 11 tentou lançar uma bola na área e ela acabou entrando no ângulo como se tivesse ganhado uma mãozinha invisível.



Recordo outra equipe do Corinthians, este um péssimo time, tão ruim que era chamado de “Faz-me rir” nos anos 60 (sozinho Pelé fez 50 gols no Timão). Por alguns meses circulou entre os reservas um jogador cujo apelido era Louco. Como o personagem de Mauricio de Sousa, Louco operava sob regras muito próprias. Quando o alvinegro paulistano estava perdendo, o técnico mandava o Louco para o aquecimento. Faltando 10 minutos, Louco entrava em campo exibindo todo o seu vasto repertório de dribles da vaca, pedaladas, elásticos, chapéus, chilenas, roletas-russas. A torcida o amava porque ele desestabilizava o adversário puxando toda a marcação para si, abrindo espaço para que os outros jogadores pudessem empatar a partida no finzinho – além de criar um espaço mágico dentro da tensão da peleja. O problema é que, quase sempre, quando o Louco detinha a bola e chegava à pequena área, sua delirante vocação para o drible se interpunha entre jogador e objetivo... e ele resolvia voltar a driblar para trás, enrolando-se todo entre goleiros e zagueiros. Até que um atacante alvinegro lhe roubasse a bola para fazer o gol.


O Louco era o anti-Tostão: autista brilhante, era um gênio da digressão, fazia questão de prolongar a história para além de seu ponto final, instaurava a dúvida no primado da objetividade, preferia o circo ao resultado. Era tão inútil quanto uma borboleta morando num grampeador. Era como se Didi Mocó caísse numa arena de gladiadores. Não raro sua entrada desconcentrava o próprio Corinthians, que, tão preocupado em fazer com que ele concluísse a jogada, acabava abrindo o flanco para no contra-ataque tomar mais um gol do oponente. Como todos os que se insurgem contra as regras do jogo, Louco teve carreira curta, foi pulando de time em time até sumir da série A, da série B...



O time todo No momento em que esta revista chega às suas mãos, este texto passou por muitas pessoas até se tornar uma matéria que faça sentido. Logo mais a seleção entra em campo para demonstrar que, através do colaboracionismo e do comprometimento total, nenhum obstáculo é intransponível. Daqui do passado, de onde escrevo, torço para que Dunga esteja certo – e Garrincha, errado. Como se sabe, o camisa 7, que em 1962 ganhou a Copa praticamente sozinho, costumava ouvir as preleções do treinador muito sério: “Vocês fazem isso, eles vão fazer aquilo, aí vocês fazem isso etc. etc.” Até que um dia Garrincha mandou: “Mas vocês já combinaram o isso com o João?” João era o nome que o mitológico ponta-direita dava aos zagueiros oponentes. Aqueles que, no entendimento de Dunga, já devem ter sido previstos para que qualquer surpresa seja anulada.


Não se trata de promover um Fla- Flu entre legendas do esporte, mas o fato de que, ao contrário do formidável Mané Garrincha, Edson Arantes do Nascimento nunca abandonou o espírito de equipe nem deixou de reconhecer a crucial importância de cada um dos colegas durante as quase duas décadas em que atuou pelo Santos Futebol Clube. Craques que conviveram com o Rei no dia a dia dos treinos e partidas costumam rememorar, enlevados, sua intensa preocupação com os companheiros – isso dentro e fora dos gramados. Até na colaboração Pelé era um atleta e um homem de exceção. Pensar nos objetivos maiores de uma equipe não só é uma virtude honorável, mas uma necessidade em praticamente todos os momentos da vida.

No fundo, torço – como todo brasileiro – para que os jogadores esqueçam Dunga e o surpreendam com seu talento conjunto. Na verdade, queria ver Dunga traído pela arte que propôs olimpicamente ordenar. Porque o ideal do colaboracionismo não é o jogo em si – mas o verdadeiro espetáculo criado por seu funcionamento, como uma máquina que trabalha sozinha, preocupada em somente tocar a bola para a frente, para a frente, roubando ao destino a parte que parece devida a todo artista. Como diz o aviador e escritor norte-americano James Salter: “Os poetas, escritores, os sábios e vozes de seu tempo, formam um coro. O hino que partilham é o mesmo: os grandes e pequenos estão juntos, o belo vive, o resto morre, e tudo é absurdo, exceto honra, amor e o pouco que é conhecido pelo coração”.


LIVROS Como o Futebol Explica o Mundo, Franklin Foer, Zahar O Homem e a Bola, Armando Nogueira, Globo

Fonte: Revista Vida Simples - Edição 93 - 06/2010

sábado, 12 de junho de 2010

ALGO QUE AS ESCOLAS NÃO ENSINAM


Aqui estão alguns conselhos que Bill Gates recentemente ditou numa conferência em uma escola secundária sobre 11 regras que os estudantes não aprenderiam na escola.
Ele fala sobre como a “política educacional de vida fácil para as crianças” têm criado uma geração sem conceito da realidade, e como esta política têm levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores à escola.
Muito conciso, todos esperavam que ele fosse fazer um discurso de uma hora ou mais. Bill Gates falou por menos de 5 minutos, foi aplaudido por mais de 10 minutos sem parar, agradeceu e foi embora em seu helicóptero.
Regra 1
A vida não é fácil, acostume-se com isso.
Regra 2
O mundo não está preocupado com a sua autoestima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.
Regra 3
Você não ganhará R$ 20.000 por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.
Regra 4
Se você acha seu professor rude, espere até ter um Chefe. Ele não terá pena de você.
Regra 5
Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade.
Regra 6
Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.
Regra 7
Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.
Regra 8
Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente  NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido… RUA !!! Faça certo da primeira vez!
Regra 9
A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.
Regra 10
Televisão NÃO é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.
Regra 11
Seja legal com os C.D.Fs – aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles.
Bill Gates, dono da maior fortuna pessoal do mundo e da Microsoft, a única empresa que enfrentou e venceu a Big Blues, IBM, que construiu o primeiro computador, cérebro eletrônico mundial, desde a sua fundação em meados de 1900.

Fonte: Recebi  da amiga Eliane e também vi e li no blog:http://mscamp.wordpress.com/



Todos nós somos meritocratas, por Paulo Sartori*

Toda vez que leio críticas sobre os projetos de melhoria da qualidade para a educação, me pergunto como é possível um professor ser contra a meritocracia. Nós, professores, ensinamos meritocracia todos os dias! Quando dizemos aos nossos alunos “estuda para passar”, estamos lhes dizendo que só passa quem tiver o mérito de ter estudado. Quando damos um 10 a um aluno, estamos reconhecendo o mérito do seu conhecimento! Como é possível ser contra aquilo que nós mesmos ensinamos?

Quando um professor faz uma pós-graduação, ele deve ao final redigir uma tese, original ou não, ou um trabalho de conclusão. Será que algum dia ele gostaria de ver outro plagiando seus trabalhos? Será que ele plagiou o trabalho de alguém? Acredito que a resposta é negativa para ambas as perguntas. Então, esse professor quer que seu mérito acadêmico seja reconhecido e ele próprio reconhece o mérito daqueles que o antecederam. Como, então, ele poderia ser contrário ao reconhecimento do mérito?

Talvez os críticos da meritocracia queiram dizer que são contrários a um projeto de meritocracia, mas não é isto que tenho ouvido. Aqueles que criticam não especificam ao que exatamente são contra. Quando falam, são muito genéricos e não deixam claro sobre o que exatamente são contrários. Criticar um projeto e propor alternativas é perfeitamente válido e legítimo e eu também tenho minhas críticas, mas não sou contra a meritocracia.

Por exemplo, o piso de R$ 1,5 mil para aqueles professores que ganham menos do que isto, o que ele tem de meritocrático? Nada! Ele simplesmente gratifica aqueles que ganham pouco. Eu preferiria ver o Estado financiando os cursos de graduação para esses mesmos professores. Não acredito em meritocracia coletiva, o mérito é algo por natureza individual. Somente quando se tem um grupo de pessoas que merecem o mérito, é que se pode falar em meritocracia coletiva. Pagar bônus aos professores é aquilo que na área privada se chama de “divisão dos lucros entre os funcionários”. Se os funcionários contribuíram para o sucesso da empresa, então nada mais justo que compartilhem das benesses disto. O mesmo espírito estaria garantido se o bônus viesse por ter melhorado, sem metas, o Ideb da escola ou a média no Saers. A escola precisa competir com ela mesma, pois escolas diferentes têm diferentes realidades. Mas e as coordenadorias e a Secretaria de Educação? Como se processarão lá os procedimentos de melhoria de qualidade? Afinal, as escolas e os professores dependem do que acontece lá. A falta de professor é a pior coisa que pode acontecer. Não há qualidade sem professor!

A população também é meritocrata. Em outubro, os eleitores estarão votando naqueles que acham ser os candidatos com o maior mérito para ocupar os cargos eletivos da nação. Tem medo da meritocracia somente quem prefere a “lei do menor esforço” ou que não sabe o que fazer. É mais trabalhoso fazer o que precisa ser feito do que fazer aquilo que os outros desejam. Dá trabalho ser eficiente. Dá trabalho ter mérito.


*Professor, ex-diretor do Instituto de Educação General Flores da Cunha

Fonte: Jornal Zero Hora
Imagem: http://www.eimidia.com

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Como tomar notas e apresentar seminários

No terceiro e último módulo do projeto, da Revista Gestão Escolar Edição 008  Junho/Julho 2010, conheça as melhores maneiras de ensinar a tomar notas e fazer exposição oral aos colega.



O fim de todo procedimento de pesquisa é produzir textos ou apresentar para um grupo o que foi aprendido durante o estudo. Mas os alunos sabem selecionar as informações que leem e anotá-las de modo a usá-las posteriormente? Conhecem os procedimentos necessários para fazer uma boa apresentação para os colegas? Neste último encarte do projeto Ler em Todas as Áreas - desenvolvido com exclusividade para NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR por Cláudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo -, você, coordenador pedagógico, vai conhecer a melhor maneira de discutir esse conteúdo com a equipe docente.

Projeto de formação Ler em Todas as Áreas
3º módulo: Notas e seminário


Objetivo geral
Formar os professores do 6º ao 9º ano para o trabalho de leitura de textos informativos e o ensino de procedimentos de estudo.

Objetivos específicos
- Ensinar o aluno a anotar as explicações dos professores.
- Mostrar ao aluno como fazer a apresentação oral em forma de seminário.

Conteúdos do 3º módulo
Anotações de aulas, hierarquização de informações e apresentação oral.

Tempo estimado
Dois meses.

Material necessário

- Cópias do texto Atenção: favor tomar nota;
- Cadernos dos alunos com anotações;
- Vídeos com exemplos de bons seminários;
- Cópias da reportagem Desafio: Falar em Público, da revista NOVA ESCOLA de março de 2010.

Desenvolvimento

1ª etapa - Orientação inicial

Peça que os professores avisem uma das turmas que, depois de uma aula expositiva, os cadernos serão recolhidos para avaliar as anotações. Solicite que os docentes registrem o que mais chama a atenção durante a observação do material, o que consideram um problema e destaquem as anotações que acharam mais adequadas.

2ª etapa - Debate

Estimule o grupo a comentar a seguinte frase:

"Escrever ajuda a estudar porque permite organizar e memorizar as ideias e sistematizar, organizar e elaborar o que se vai aprendendo. Ajuda também a intensificar as interações na aula."
(In Las Prácticas del Lenguaje en la Vida Académica, Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, 2000)

Depois de ouvir as opiniões dos professores, pergunte se eles conversam com os alunos sobre as anotações feitas durante as aulas. Anotar é apenas copiar o que é colocado no quadro? É possível ensinar a tomar notas do que é falado em classe? Leia com eles o texto da última página e peça que anotem o que consideram importante e as próprias impressões sobre o tema.

3ª etapa - Procedimentos comuns

Inicie a reunião pedindo que os professores exponham as anotações do texto lido. As impressões de cada um foram relatadas? Quanto isso ajuda a recuperar as ideias do texto? Analise também as observações feitas com base na amostragem dos cadernos dos alunos e lance uma proposta: fazer um projeto para ensinar os alunos a anotar as ideias importantes das aulas. Vale lembrar que os registros feitos em classe dão pistas do que foi captado durante a exposição do professor e são uma possibilidade de conferir os conteúdos na linguagem dos próprios alunos. Exponha alguns procedimentos que podem ser adotados, como:

- Escrever a pauta da aula no quadro
É uma forma de a turma saber que a aula tem começo, meio e fim. Ao assistir a uma exposição oral, é importante saber o que vai ser tratado e o plano de apresentação dos conteúdos. Com a pauta no quadro, o expositor pode fazer sínteses, recuperar ideias e conceitos, anunciar desdobramentos e apontar possibilidades de aprofundamentos do tema.

- Dar tempo para que o aluno escreva
Aqui os procedimentos podem variar. O professor pode expor um tema durante algum tempo (mais ou menos 20 minutos) e depois pedir que a turma anote o que considera relevante, além de colocar palavras-chave no quadro e orientar os alunos a completar com outras ideias - ou ainda solicitar que a turma anote à medida que a exposição seja feita.

- Propor maneiras para que o aluno se posicione
Pode ser por meio de registros de impressões pessoais, associando o tema da aula com os conhecimentos anteriores sobre o tema. A maneira de anotar vai variar de acordo com as especificidades das disciplinas.

- Formar grupos para debater e completar as anotações
Os alunos preenchem as lacunas uns dos outros. É importante que haja alguma situação (trabalho ou avaliação) para que eles possam usar as anotações. Confira com o grupo se há outros procedimentos que podem ser adotados.

Continue lendo

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os jovens e as diversas realidades na educação



Por Matthew Smith e Peter McLaren

 
Somente compreendendo a natureza única de nossos jovens e as formas de opressão coletiva é que poderemos um dia resolver plenamente as realidades diversas que eles enfrentam

Os jovens de hoje estão sob o brutal ataque de uma miríade de forças sem precedentes na história. O fato de os jovens serem o alvo das corporações e da mídia resulta na exploração do trabalho infantil e na doutrinação para uma cultura do consumo. Os jovens (e particularmente os jovens não brancos) são desumanizados pelo neoliberalismo. Os jovens são reduzidos a trabalhadores dispensáveis por corporações que se aproveitam de países superexplorados e de populações arrasadas (o número de jovens confinados a empregos escravizantes nunca foi tão grande).

Outras formas igualmente maléficas de violência (turismo sexual, tráfico de pessoas, escravidão) têm arrasado jovens em todo o planeta. Atualmente, chegamos a um ponto em que a cultura dos jovens não representa mais um futuro sustentável. Em vez disso, eles são treinados para desempenhar o papel de consumidores e produtores de bens negociáveis, ou são obrigados a vender sua força de trabalho por salários injustos. Para muitos deles, principalmente para os pobres e não brancos, o futuro parece lúgubre e guarda muito poucas possibilidades de mobilidade social e estabilidade econômica.


O papel da mídia

A mídia com frequência apresenta as opções para os pobres e jovens não brancos em termos de participação em formas de serviços militares/policiais patrocinados pelo Estado ou em empregos da classe trabalhadora que cada vez mais oferecem pouca estabilidade econômica e menos mobilidade social. Como exemplo do primeiro caso, vamos considerar o popular filme brasileiro Tropa de Elite (2007).

A história é contada do ponto de vista do Capitão Nascimento, um veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) que busca sua própria substituição. Seu possível substituto será um de dois policiais (Neto e Matias), que também são seus amigos próximos. Neto é um policial de cor branca cuja sede por ação levou-o a trabalhar pela aplicação das leis; Matias é um policial negro que está dividido entre realizar seu antigo sonho de tornar-se advogado (no filme ele já está matriculado no curso de Direito) ou continuar trabalhando como policial.

Com o tempo, Neto e Matias tornam-se oficiais do BOPE com plenos poderes, sendo temidos pelos moradores das favelas e também pelos policiais. Após um ataque de surpresa e a morte de Neto, Matias mergulha de cabeça no BOPE, caçando e matando os traficantes responsáveis pela morte do companheiro (além de várias outros que nada tinham a ver com isso). No processo, ele e outros oficiais de polícia torturam moradores da favela, estudantes de Direito e muitas outras pessoas.

Qual é então a mensagem para os jovens? Para pessoas negras, a de que o compromisso com o Estado deve suplantar os desejos de realização pessoal. A glamourização da decisão de Matias de abandonar a escola de Direito e dedicar-se à prática de policiamento opressivo é em si um desserviço aos jovens negros com aspirações a uma educação de nível superior. Em certo ponto, o personagem do Capitão Nascimento diz que os negros no Brasil têm muito poucas oportunidades de emprego. Para pessoas não brancas, o domínio e o controle do Estado são retratados como inevitáveis: é ser governado pelo sistema ou arriscar a sua vida.

Isso se evidencia ao longo do filme na maneira brutal como Matias e outros membros do BOPE tratam suspeitos de crimes. Muitos deles são jovens negros que vivem em favelas constantemente atacadas com violência pelo BOPE. A dimensão verdadeiramente trágica desse filme é que Matias oprime ativa e voluntariamente outras pessoas negras.


A educação pública neoliberal e o duto militar americano

Nos Estados Unidos, a educação pública é regida pela Lei Nenhuma Criança Deixada para Trás (No Child Left Behind - NCLB), de 2001. A testagem padronizada traçou a linha que separa o conhecimento que é digno de inclusão no discurso acadêmico daquele que não o é. Essa lei constitui um pesado fardo sobre as costas de professores progressistas que procuram ligar-se aos estudantes e praticar uma pedagogia crítica. As possibilidades de estabelecer conexões humanizadoras que transcendam o currículo oficial são desencorajadas e essencialmente privadas de significado.

O currículo imposto às escolas públicas é uma poção que amortece o pensamento, domestica os alunos e desqualifica os professores. A alfabetização é reduzida ao domínio de habilidades escritas. As experiências culturais e os modos de saber únicos que muitos alunos trazem para a escola são excluídos do reino do conhecimento acadêmico. Aqui, modos nativos, opositores e locais de conhecer são distorcidos pelos livros didáticos. Quando o currículo é irrelevante para a vida dos estudantes e as possibilidades de um futuro otimista são lúgubres, eles buscam outras formas de aceitação. Também vem ocorrendo um aumento notável no número de estudantes não brancos que são expulsos das escolas por infrações insignificantes, enquanto estudantes brancos que cometem as mesmas infrações não são punidos com a mesma rigidez.

Combinada com essa realidade, a legislação NCLB também introduz um acesso sem precedentes dos recrutadores militares à história pessoal dos estudantes do ensino médio. A lei educacional encoraja e facilita o recrutamento desses jovens para as forças armadas, ou seja, as escolas públicas de ensino médio precisam fornecer aos recrutadores militares informações de contato direto de seus alunos. Com suas aspirações ao ensino superior esmagadas, eles se tornam alvo dos recrutadores militares que desejam sua participação na presente Guerra ao Terror.

É desnecessário dizer que os autores do NCLB consideram os estudantes das escolas públicas dispensáveis e muito úteis para o serviço militar. Berlowitz e Long postulam que a "mais horrenda e até genocida manifestação de racismo nas forças armadas está expressa na disparidade das baixas em combate" (2003, p. 171). Nos Estados Unidos, as pessoas brancas nas forças armadas têm maior representação nas especialidades de combate (infantaria, artilharia, etc.), ao passo que seus correspondentes não brancos são desproporcionalmente encontrados em postos de comando e em posições superiores. Segundo os autores, "isso é agravado pela perspectiva de que o imperialismo dos Estados Unidos coloca quantidades desproporcionais de pessoas não brancas em combate mortal com pessoas brancas ao redor do mundo" (p. 171).

Os jovens não brancos pobres são essencialmente levados a uma cilada armada pelas leis de educação. Uma vez criadas as condições para que esses estudantes sejam academicamente "reprovados", eles são confrontados por recrutadores militares oportunistas de fala mansa que lhes prometem dinheiro para a faculdade, assistência médica, altas bonificações pelo alistamento (especialmente quando se apresentam como "voluntários" para especialidades de combate), oportunidades de viagem e aventura, além de uso de habilidades de trabalho vendáveis e de conhecimento técnico (a fluência em idiomas estrangeiros é recompensada com vantagens ainda maiores). A cilada já lhes foi armada quando eles ainda estavam no ensino fundamental. Dado o entrincheiramento dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, para não mencionar uma presença mais silenciosa em outros países, existe pouco no horizonte que indique alguma mudança no futuro próximo.


O trabalho cultural em nossas escolas

Para os educadores, surgem questões cruciais. Como resolver as realidades diversas de nossos alunos? Quais são as forças que nos restringem e como somos restringidos por elas em nossas escolas e locais de prática pedagógica? Qual é o nosso papel na perpetuação de injustiças sociais? Como desafiar a apatia prevalente em tantos jovens da atualidade? Como se engajar em uma pedagogia pública transformadora? Como trabalhar com estudantes privilegiados (em sua maioria brancos) que não têm interesse ou iniciativa para contestar as condições desumanas em que vivem seus semelhantes?

As escolas públicas comumente são algemadas em suas tentativas de resolver as realidades diversas que os alunos enfrentam. Nos limites do dia escolar, a conduta dos professores é colocada sob tamanho escrutínio, que atos de humanização são desencorajados e punidos. Contudo, Freire (1997) fornece-nos um entendimento imprescindível para esses tempos: ele afirma que os administradores educacionais não podem efetivamente colocar todo professor sob vigilância o tempo todo. É nos momentos e espaços em que os educadores não têm uma ameaça iminente de reprimenda pairando sobre suas cabeças, nem gestores poderosos espiando sobre seus ombros, que um trabalho cultural crítico pode receber água e luz do sol.

Se esses espaços forem escassos durante todo o dia "acadêmico", atividades extracurriculares e organizações estudantis que validem as experiências vividas pelos alunos são necessárias para desfazer os danos intelectuais e espirituais que a socialização da escolarização efetua na vida de muitos jovens pobres e não brancos. Fazer isso efetivamente, contudo, significa que os educadores devem estar conectados às culturas nativas de seus alunos. Eles precisam ter resoluta solidariedade com esses jovens e estar cientes de sua vitimização por práticas como políticas educacionais neoliberais, racismo, exploração de classe, homofobia, discriminação de gênero e outras formas de opressão prevalentes na sociedade atual.

Para muitos estudantes de classe média, o status quo é reconfortante, sendo benéfico que o sustentem. Desafiar a ordem socieconômica e política seria um ato impensável para eles, pois, em última análise, isso colocaria em xeque sua própria segurança e estabilidade. Quando estudantes de condições privilegiadas entram em nossas salas de aula, sua ideologia e sua riqueza material são conhecidas de todos. Por vezes, inconscientemente ou não, eles vão argumentar pela continuidade da opressão de seus semelhantes. Talvez até culpem as vítimas por sua vitimização. Os estudantes de famílias cujo status social trouxe-lhes melhores oportunidades educacionais estão saindo de uma linha de partida muito mais próxima do fim do que estudantes pobres que são novos nas salas de aula. Jonathon Kozol (1992), um estudioso da educação norte-americana, refere-se às diferenças entre escolas ricas e pobres como "desigualdades selvagens". Quando aplicamos essa expressão à ideologia dominante que impera na sociedade, constatamos que tais desigualdades foram propositais.


Rumo a uma transformação do futuro

Ao ingressarmos na segunda década do século XXI, devemos nos examinar criticamente como professores. Devemos igualmente examinar criticamente nossas escolas e a vida de nossos jovens. A questão não é dar-lhes liberdade (essa é uma falsa generosidade, como disse Freire), mas sim reconhecer que sua liberdade está sempre presente. Devemos, portanto, estabelecer as condições para que eles nos ensinem seus modos de saber, seus interesses, suas vitimizações e sua opressão, informando-nos de sua realidade. Este é o momento de educadores e também estudantes de todas as populações oprimidas colocarem-se em solidariedade uns com os outros. Chegou a hora de professores e estudantes exclamarem juntos "Chega!" diante da crescente privatização e militarização de nossas instituições educacionais.

Para ensinar por um mundo melhor, é preciso ter uma clara visão de como esse mundo vai ser. As injustiças enfrentadas pelos alunos em nossas escolas devem tornar-se as nossas próprias injustiças; devemos enfrentar bravamente o mundo, tal como fazem nossos estudantes. Nos momentos em que gestores ou outras autoridades sociais querem saber por que nos desviamos do programa prescrito, nós, como professores, devemos ser capazes de contar com o apoio uns dos outros.

Somente compreendendo a natureza única de nossos jovens e as formas de opressão coletiva é que poderemos um dia resolver plenamente as realidades diversas que eles enfrentam. Vamos aprender e reaprender como a exploração econômica, o racismo, o sexismo, a homofobia e outros modos de opressão têm impacto na vida que nossos estudantes levam. Poderemos então estar em posição para conjuntamente atender a suas necessidades, desenvolver seus interesses e fazer frente a instituições e políticas opressivas que exploram os jovens na atualidade.


Matthew Smith é doutorando na Graduate School of Education and Information Studies, Universidade da Califórnia, Los Angeles. matt75@ucla.edu

Peter McLaren é professor na Graduate School of Education and Information Studies, Universidade da Califórnia, Los Angeles. mclaren@gseis.ucla.edu

REFERÊNCIAS

BERLOWITZ, M.J.; LONG, N.A. The proliferation of JROTC: educational reform or militarization. In: SALTMAN, K.J.; GABBARD, D.A. (eds.). Education as enforcement: the militarization and corporatization of schools (163-174). New York: Routledge, 2003.

FREIRE, P. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d'Água, 1997.

GIROUX, H.A. The terror of neoliberalism: authoritarianism and the eclipse of democracy. Boulder, Colorado: Paradigm Publishers, 2004.

PADILHA, J. (dir.); PRADO, M. (prod.). Tropa de Elite. Brasil: The Weinstein Company, Costa Films e Zazen Produces, 2007.

The No Child Left Behind Act of 2001. Public Law 107-110. Jan. 8, 2002.

Fonte: http://www.revistapatio.com.br

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin